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SOBRE A REDAÇÃO DO ENEM 2016 E SUA CORREÇÃO

(20 de janeiro de 2017)

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Costumeiramente, eu sempre tirei notas altas em redação, tanto no colégio quanto nos vestibulares para entrar na Universidade Federal do Ceará, o que inclui o ENEM. Já coleciono alguns cursos dessa referida instituição, apesar de só ter concluído efetivamente um deles. Uma vez até tirei a nota máxima em redação. Dentro desse cenário, quase todos os anos eu me inscrevo no ENEM, mas sem me preparar para ele. A minha nota final tem ficado em torno de 700, em um total máximo de 1.000 pontos.

 

Quando vi o tema da redação do ano passado, fiquei contente, pois é um assunto que me é bastante afeito. Não só tenho estudado temáticas religiosas nos últimos anos como já produzi vários textos relacionados, a exemplo do ensaio que escrevi baseado no livro O Nome da Rosa, cujo foco é precisamente a intolerância religiosa na Idade Média. Ou seja, achei que mandaria muito bem na redação, talvez repetindo o feito de receber a nota máxima. No entanto, tamanha foi a minha surpresa quando vi no portal do INEP que me deram apenas 640 pontos. Nem quando eu estava dando os meus primeiros passos no mundo das Letras eu seria capaz de um desempenho assim tão pífio. O que teria então acontecido?

 

O meu pensamento inicial que explicaria tal situação vexatória, que para mim equivale a receber um atestado de analfabetismo funcional, foi que os corretores foram incompetentes ao avaliarem a minha redação, pois sei que muitos deles são de escolas públicas, sem nenhuma garantia de que todos possuem a expertise necessária para corrigir um texto de alto nível. Entretanto, tal suspeita pode estar errada. O que seria natural, pois, independentemente da formação de cada corretor, eu imagino que o INEP disponibiliza uma cartilha de orientação para eles, além de promover algum treinamento específico.

 

Depois que passou a surpresa do meu “mau” desempenho, procurei identificar o que realmente pode ter acontecido. Abaixo enumero o que constatei:

 

1) O primeiro fato que me chamou atenção é que aconteceu algo inédito na história do certame: apenas 77 pessoas, dentre milhões de participantes, tiraram a nota máxima em redação. A menos que as pessoas estejam ficando mais burras a cada ano, isso não é normal.

 

2) Em seguida, vi vídeos de gente reclamando no You Tube dizendo que foram surpreendidas com uma nota abaixo de 700, e uma delas afirmou que sempre tirou notas altas em redação, e que não entende o que houve.

 

3) Depois assisti a um vídeo com um candidato afirmando que a redação do ENEM é uma fraude que tem por intuito apenas doutrinar as pessoas e que não permite a livre expressão de ideias. Embora já esteja no último ano de faculdade, ele participou da última edição para provar isso. Fez uma redação totalmente lastreada nos textos motivadores, repetindo em essência tudo o que eles diziam. Com isso, tirou 890 pontos, mesmo sem acreditar em uma linha do que disse. Ao passo que anos atrás, quando ele fez o ENEM externando seus próprios pensamentos, recebeu míseros 640 pontos, mesmo achando que era uma redação muito melhor.

 

4) Finalmente, encontrei um vídeo de um candidato de Medicina, que tirou 900 na redação, dando a entender que muitas pessoas tiraram nota baixa porque não se ativeram a um detalhe da proposta, que pedia ao estudante para discorrer sobre os caminhos para acabar com a intolerância religiosa no Brasil, e tais métodos de combate deveriam ser mencionados em toda a redação, desde o início. Neste caso, quem deixou para apresentar possíveis soluções para esse problema na proposta de intervenção, que de praxe são sugeridas apenas nessa parte da redação, foi penalizado por fuga parcial do tema. De fato, a minha redação seguiu esse padrão convencional. Só dei meus “pitacos” na proposta de intervenção.

 

Se o motivo da minha nota baixa realmente tiver sido o que mencionei no último ponto, esse é um caso profundamente lamentável. ENEM não é concurso público para ter “cascas de banana” que visem prejudicar candidatos ou medir a capacidade deles em identificar situações capciosas elaboradas por “seres do mal”. É um exame que deveria simplesmente medir o que as pessoas aprendem no ensino médio no Brasil. Pelo visto, apenas 77 pessoas passaram por esse escrutínio com louvor...

 

É claro que, ainda que remota, existe alguma possibilidade de eu ter cometido algum deslize na minha redação. Especialmente porque eu deixei para escrevê-la na última uma hora de prova, e com o gabarito ainda por preencher. Certamente um excesso de confiança, mas que se justifica pelo histórico que tenho de escrever com facilidade. Mas como não existe transparência na correção da prova, sendo vedados recursos para que ela seja revista, só vou acreditar que foi uma falha minha se isso for provado. A meu ver, aquele espelho “para fins pedagógicos” que eles disponibilizam é algo completamente inútil, pois não diz o que, de fato, os corretores avaliaram.

 

Estou convencido que se colocarem um membro da Academia Brasileira de Letras para fazer o ENEM, dificilmente ele tirará a nota máxima em redação. Obviamente, a culpa não seria dele, mas de um sistema deficiente. O mesmo que explica porque os professores de vários cursinhos consagrados não conseguem acertar todas as questões da prova de Língua Portuguesa e Literatura desse mesmíssimo exame.

 

Mas, enfim, ao menos estamos vivendo um período de transição e parece que eles querem fazer mudanças para melhor no ENEM. Pelo menos é o que demonstra a consulta pública recentemente aberta. Algo que seria bem-vindo certamente seria a possibilidade de recursos por parte dos avaliados. Sei que a gigantesca logística para isso é um fator impeditivo, mas simplesmente tem que ser feito! E não apenas com respeito à redação, mas também à prova objetiva. Existem questões comprovadamente erradas no gabarito oficial, sobre as quais ninguém pode fazer absolutamente nada, pois os responsáveis por esses erros estão protegidos incólumes, no alto de sua autoridade educacional e não querem descer do pedestal por nada.

 

 

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