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FIGURAS DE LINGUAGEM

 

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É difícil encontrar um livro de gramática que contenha uma lista completa com todos os tipos de figuras de linguagem. A minha idéia aqui é justamente elencar todas elas, tanto quanto possível. Existe a possibilidade de ainda faltar alguma figura no rol abaixo. O talento literário é muito prolixo, capaz de gerar figuras dos mais variados tipos. E nem é preciso recorrer à literatura para identificar a aplicação desse talento técnico-artístico. Nas músicas de Chico Buarque de Holanda, por exemplo, já encontrei figuras difíceis de definir. Na verdade, algumas figuras têm conceitos muito próximos, sendo, às vezes, subdivisões de uma categoria principal.

 

As figuras de linguagem podem ser divididas em dois blocos: (a) as figuras de palavras e (b) as figuras de pensamento. Estas últimas estão ligadas mais às idéias do que com a literalidade da expressão. Por exemplo, quando uma mulher está usando um vestido horrível e alguém comenta: "Mas que vestido lindo!", o que se quer dizer é exatamente o contrário do que se disse. Portanto, o significado real reside no pensamento e não na palavra.

 

Observação: em Portugal, as figuras de linguagem são chamadas de figuras de estilo.

 

A seguir uma lista com as principais figuras de linguagem, com exemplos em cada caso:

 

1) Prosopopéia ou personificação: atribuir a um ente inanimado características de um ser animado.

 

“Debalde o rio docemente, canta a monótona canção”.

 

A raposa disse algo que convenceu o corvo.

 

2) Metáfora: é uma comparação subentendida entre dois elementos, isto é, não traz o vocábulo “como” para realizar a relação presente no outro.

 

Seus olhos são duas estrelas cintilantes.

 

3) Eufemismo: usar uma palavra em substituição de outra considerada desagradável, de modo a suavizar-lhe o sentido.

 

Esse aluno não me parece lá muito inteligente...

 

4) Disfemismo (cacofemismo): é quando se usam termos ou expressões sarcásticas ou chulas, muitas vezes presentes em expressões consagradas que abordam determinados temas. É frequentemente usado para fazer humor.

 

Morrer: "comer capim pela raiz", "vestir o paletó de madeira", "ir para a terra dos pés-juntos", "bater as botas" etc.

Urinar: "tirar água do joelho", "mudar a água às azeitonas", etc

 

5) Antonomásia: substituição de um nome próprio por uma expressão que lembre uma característica que identifique a pessoa a que se refere.

 

O “poeta dos escravos” é um autor do nosso romantismo --> Referência a Castro Alves.

 

O “rei dos reis" ensinou a amar o próximo --> Referência a Jesus Cristo.

 

6) Metonímia: substituição duma palavra por outra, quando entre ambas existe uma proximidade de sentido que permite essa troca. Por exemplo, chamar uma moeda de “cobre” ou “prata”.

 

Ele gosta de ler Jorge Amado.

 

Ganho a vida com o suor do meu rosto.

 

Ele comeu uma caixa de doces.

 

A velhice deve ser respeitada.

 

7) Catacrese: são metáforas que usam expressões consagradas.

 

Ele embarcou no avião das seis. (Na verdade, rigorosamente falando, só se embarca em um barco)

 

8) Sinédoque: semelhante à metonímia, consiste no alargamento ou diminuição de sentido de uma palavra.

 

Ele é considerado o dom Juan da escola.

 

9) Elipse: omissão de um termo facilmente identificado.

 

Sobre a mesa, garrafas vazias. --> Sobre a mesa tem garrafas vazias.

 

Ceará, sol "arranca couro", mas também o frio das serras. --> O Ceará tem um sol "arranca couro", mas também tem o frio das serras.

 

O segundo exemplo acima é uma mistura de elipse com antítese. Se o primeiro verbo não tivesse sido omitido a zeugma também estaria presente: O Ceará tem um sol "arranca couro", mas também o frio das serras.

 

Em ambos os exemplos é elipse de verbo.

 

10) Pleonasmo: repetição de palavras redundantes.

 

Ele vive uma vida de rei.

 

Não confundir pleonasmo com redundância. Este último é um vício de linguagem, e deve ser evitado.

 

11) Polissíndeto: repetição enfática de conectivo (geralmente o “e”).

 

A pobre chorava, e gritava, e lamentava, e se desesperava.

 

12) Assíndeto: orações ou frases justapostas sem a presença de conectivos.

 

Vim, vi, venci.

 

13) Zeugma: omissão de termos anteriormente enunciados.

 

O dia estava frio; o vento, cortante.

 

Fulano vivia para o mundo, Beltrano para o lar.

 

14) Inversão: é a alteração da posição natural dos termos de uma frase, por motivos estilísticos. Existem três tipos de inversão.

 

a) Hipérbato

 

Por que fiz isso, nem eu sei.

 

Papagaio em casa, eu não quero mais.

 

b) Anástrofe

 

“Se morre, descansa dos seus na lembrança”.

 

c) Sínquise

 

“A grita se alevanta ao céu, da gente”. --> A sínquise é um hipérbato exagerado, não raro difícil de compreender. É muito utilizado na antiga literatura portuguesa, a exemplo da obra de Camões.

 

15) Anacoluto: quebra na estrutura sintática normal da frase ou quando a primeira oração não se liga sintaticamente com a segunda oração.

 

Eu, parece que estou zonzo.

 

“Umas carabinas que guardava atrás do guarda-roupa, a gente brincava com elas de tão imprestáveis.”

 

16) Silepse: quando a concordância é feita com os termos e idéias subtendidos na frase, e não com o substantivo.

 

Vossa Excelência parece cansado. (silepse de gênero).

 

A multidão foi tomada de pavor, gritavam e choravam desesperadamente. (silepse de número)

 

Todos no grupo estávamos presentes. (silepse de pessoa)

 

17) Aliteração: repetição de fonemas idênticos para proporcionar maior expressividade de estilo, ou repetição da mesma consoante ou sílaba.

 

“Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos vilões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices, dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

 

O rato roeu a roupa da rainha rapidamente.

 

18) Assonância: geralmente presente nas aliterações, é a repetição da mesma vogal.

 

Exemplo de uma aliteração com assonância:

 

“Trêmulos astros, solidões lacustres, lemes e mastros, e os alabastros dos balaústres.”

 

19) Anáfora: repetição constante de uma palavras ou segmento.

 

“Tua beleza incendiará os navios do mar / Tua beleza incendiará as florestas, tua beleza...”

 

20) Antítese ou contraste: realce de idéia mediante aproximação de palavras com sentidos opostos.

 

“Seja bendito, ó céu, aquele que ama / maldito seja, ó inferno, quem odeia!”

 

21) Oxímoro: é a antítese que resulta numa contradição ou paradoxo.

 

“Amor é fogo que arde sem se ver / é ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.”

 

22) Antífrase ou ironia: expressão com sentido oposto ao que queremos dar.

 

Que belo comportamento o seu! (referindo-se a quem agiu mal).

 

23) Gradação (ou Clímax): seqüência de palavras ou frases que exprimem a intensificação progressiva de uma idéia. É o oposto do anticlímax.

 

“Acabava o crepúsculo e o céu escurecia devagarinho, passando do rosa pálido e do amarelo transparente, ao lilás, ao cinza, ao roxo, ao azul-escuro, numa gradação suave.”

 

“Tão dura, tão áspera, tão injuriosa palavra é um Não.”

 

O convívio gerou a amizade, a amizade intensificou-se em amor, o amor exaltou-se em loucura.

 

24) Anticlímax: figura que consiste no emprego evidente da gradação descendente.

 

É modesto, apagado, um joão-ninguém.

 

25) Apóstrofe: interrupção do fio narrativo para chamar a atenção.

 

“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?”

 

26) Perífrase: substituição de uma palavra por uma expressão ou frase, por razões de estilo.

 

A Terra da Luz continua cheia de contrastes. --> Alusão à cidade de Fortaleza, no Ceará (recebeu esse título por ter sido o primeiro lugar do Brasil a libertar os escravos, anos antes da lei áurea).

 

27) Lítotes: é o oposto de hipérbole. É uma afirmação por meio da negação do contrário.

 

Esse rapaz não é nada bobo. (ou seja, ele é esperto)

 

28) Hipérbole: Figura que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas; exageração, auxese.

 

Chorei bilhões de vezes com a canseira.

 

Já expliquei milhões de vezes.

 

29) Onomatopéia: palavra cuja pronúncia imita o som natural da coisa significada.

 

Reco-reco.

 

Tique-taque.

 

Algumas palavras de uso mais presente são de natureza onomatopaica. Por exemplo: borbulhar e bolha. A sonoridade lembra o som que as bolhas geralmente apresentam (bolhas de sabão, bolhas do caldeirão da bruxa etc.). Observe também que o aspecto visual da palavra "bolha" é também "arredondado", por causa da presença da letra "o". Poetas do Concretismo usam bastante esse recurso visual das palavras, sendo Haroldo de Campos um de seus expoentes. Na verdade, o Concretismo vai mais além, por trabalhar a disposição gráfica de palavras, desenhar letras, jogar com cores, manipular desenhos etc.

 

As palavras onomatopaicas aparecem nos mais variados idiomas, algumas delas se assemelham entre si, outras, não. Afinal, não existe uma bolha que fala inglês e outra que fale português. :-) A propósito, para quem não sabe, em inglês "bolha" é "bubble" (se pronuncia "bóabôl"). Mas o vocábulo onomatopaico mais universal que existe, com pronúncia semelhante em todos os idiomas, é a palavra "mamãe". Ela imita o som que o bebê faz quando está mamando no peito da mãe.

 

 

Fontes consultadas:

 

1 - Dicionário Aurélio Século XXI

 

2 - Gramática Essencial Ilustrada (18ª edição), Luís Antonio Sacconi.

 

3 - Português, Língua e Literatura (1ª edição), Editora Moderna.

 

4 - Literatura, História & Texto (1996), vols. 1 e 2, Samira Youssef Campedelli, Editora Saraiva.

 

5 - Figura de Linguagem, <http://pt.wikipedia.org/wiki/Figura_de_linguagem> Acesso em: 15/05/11.

 

6 - Info Escola, <http://www.infoescola.com/portugues/figuras-de-linguagem/> Acesso em: 09/06/13.

 

 

 

 

 

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