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O PARADOXO DA RESSURREIÇÃO MATERIALISTA

 

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As "Testemunhas de Jeová" explicam a ressurreição da seguinte maneira:

"Acha difícil de acreditar na idéia duma ressurreição? Contudo, pode ver agora mesmo, nos programas de televisão, pessoas que já faleceram há muito tempo. Ouve suas vozes, observa suas ações e nota suas características. Se o mero homem pode preservar tais coisas em gravações de televisão, não deve ser difícil para o Deus Todo-sábio reter na memória a impressão detalhada da personalidade e das características de cada humano individual que desejaria recriar. Ele fez isso, e ressuscitará tais mortos para viverem novamente.... As pessoas poderão assim viver para sempre!" - Existe um Deus que se importa?, p. 27, negrito acrescentado.

Esse conceito materialista de ressurreição (isto é, um falecido voltar a viver no mundo material) pode parecer plausível num primeiro momento, porém tem uma implicação lógica que gera um paradoxo sobre o qual seus defensores parecem não ter se dado conta.

Digamos que Deus resolvesse hoje mesmo ressuscitar você dessa maneira e criasse um novo corpo que fosse uma cópia perfeita do seu e inserisse na mente vazia dele todas as informações que você armazenou no cérebro até o dia de hoje. Quando essa nova pessoa acordasse haveria duas versões de você circulando por aí. Qual seria sua reação caso encontrasse esse outro “você” e ele reivindicasse tudo que é seu? Visto que para todos os efeitos ele seria mesmo você, então se você fosse descartado não haveria nenhum prejuízo para as pessoas que você ama, ou para a sociedade onde vive. Esta é a ressurreição defendida pelas “Testemunhas de Jeová”, com a única diferença que ela, segundo pensam, será posta em andamento somente no futuro, depois que a pessoa original deixar de existir. Há um filme norte-americano chamado “O Sexto Dia”, protagonizado por Arnold Schwarzenegger, que mostra uma “aplicação prática” desse tipo de ressurreição.

Por outro lado, quase todas as religiões ensinam que somos seres espirituais vivendo provisoriamente em corpos materiais. É o conceito da imortalidade da alma (e do espírito). A partir do momento que a alma é criada, tal essência sempre existente só pode ser destruída por Deus, conforme Jesus Cristo ensinou:

“Irmão entregará irmão à morte, e o pai ao seu filho, e os filhos se levantarão contra os pais e os farão matar. E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa do meu nome…. não os temais; pois não há nada encoberto que não venha a ser descoberto e não há nada secreto que não venha a ser conhecido. O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrado, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo.” – Mateus 10:21, 22, 26-28.

Portanto, não é necessário que Deus faça cópias perfeitas das pessoas para assegurar a vida eterna delas. Deus nos fez de tal forma que temos nossa identidade preservada mesmo depois da morte, ainda que do ponto de vista dos que ficam a pessoa que morreu tenha desaparecido para sempre. E desaparece mesmo, no que tange à vida que tinha. Nada do era ou possuía será devolvido.

Observação: Há outros conceitos relacionados a esse assunto que não serão tratados aqui, que são objeto de estudo da Teologia. Por exemplo, de acordo com a Bíblia, depois que a pessoa morre sua alma não entra automaticamente no céu. Fica aguardando a ressurreição num lugar chamado “Seol” ou “Hades”. Ao final desta página estão indicados alguns artigos que abordam um pouco mais esses detalhes.

Jesus e os primeiros cristãos eram todos judeus. É fácil constatar, mediante uma análise histórica, que a imortalidade da alma era a crença predominante dos judeus do primeiro século, conforme sugere o historiador Flávio Josefo (colchetes acrescentados):

“Eles [os judeus fariseus] crêem que almas têm poder de sobreviver à morte e que há recompensas e punições debaixo da terra para os que levaram uma vida de virtude ou uma de vício: encarceramento eterno é o destino das almas más, ao passo que as almas boas recebem passagem fácil para uma nova vida.” - Antiguidades Judaicas, XVIII, 14 [i, 3].

“Eles [os judeus fariseus] sustentam que toda alma é imperecível, mas que só a alma dos bons passa para outro corpo, ao passo que a alma dos iníquos sofre punição eterna.” - A Guerra Judaica, II, 162, 163 (viii, 14).

Até onde se sabe, os cristãos do primeiro século nunca escreveram nada contra esse conceito. Por exemplo, o apóstolo Paulo foi fariseu, mas não se retratou da crença na imortalidade da alma depois que se tornou cristão. Pelo contrário. Se compararmos a literatura da época, chamada hoje de “apócrifos”, com o que Paulo e outros escritores do Novo Testamento escreveram, veremos que eles reproduziram o conceito vigente de seus contemporâneos, enfatizando ainda que a vida eterna será no céu, onde habitam os seres espirituais. Confira abaixo alguns exemplos (os colchetes foram acrescentados):

1. “Eles [certos judeus] que acreditam que não morrem para Deus, assim como nossos pais Abraão, Isaque e Jacó não morreram para Deus, eles vivem para Deus.” – 4 Macabeus 7:19.

“Mas, que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová ‘o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem”. – Lucas 20:37, 38.

“Mas agora [Abraão, Isaque, Jacó e outros] procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um pertencente ao céu. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus”. – Hebreus 11:16. (Note que o verbo "procurar" está no presente, indicando que estão vivos).

2. “Que não haja temor naquele que acha que pode ser morto.... Pois se sofrermos [a morte], Abraão, e Isaque, e Jacó nos receberão, e todos os nossos pais nos elogiarão”. – 4 Macabeus 13:14, 17.

“[Disse Jesus:] Mas, eu vos digo que muitos virão das regiões orientais e das regiões ocidentais e se recostarão à mesa junto com Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus”. – Mateus 8:11.

“[Disse Jesus:] Afastai-vos de mim, todos vós obreiros da injustiça!’ Ali é que haverá o vosso choro e o ranger de vossos dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas, no reino de Deus, mas vós mesmos lançados fora. Outrossim, pessoas virão das regiões orientais e das ocidentais, e do norte e do sul, e se recostarão à mesa no reino de Deus”. – Lucas 13:27-29.

3. “As almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente, estão mortos aos olhos dos insensatos, a sua saída deste mundo é considerada uma desgraça, a sua morte como uma destruição: mas eles estão em paz.... sua esperança está cheia de imortalidade”. – Sabedoria 3:1-3, 10. (Livro incluído na Bíblia católica).

“Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:27, 28.

“E eu vi tronos [no céu], e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4.

“Aquilo que semeias não é vivificado a menos que primeiro morra…. Semeia-se corpo físico, é levantado corpo espiritual.... Pois isto que é corruptível tem de revestir-se de incorrupção e isto que é mortal tem de revestir-se de imortalidade”. – 1 Coríntios 15:36, 44, 53.

“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontável hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. – Hebreus 12:22-24, Almeida.


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É importante lembrar que nas primeiras décadas do Cristianismo o Novo Testamento ainda não existia. Na verdade, nem a Bíblia existia, no formato que hoje conhecemos. Os judeus e os cristãos chamavam de “palavra de Deus” manuscritos que acabaram por não ser incluídos na Bíblia Sagrada. Tal cenário explica porque o livro de Enoque, por exemplo, é citado em Judas 15, 16, pois no início não havia uma distinção muito clara entre texto canônico e apócrifo. Para mais esclarecimentos sobre esse ponto leia depois o artigo do link abaixo.

Manuscritos judaicos pré-cristãos

As “Testemunhas de Jeová” alegam que a imortalidade da alma é um ensino pagão que se infiltrou no Cristianismo a partir do século II, e desconsideram as evidências acima apresentadas. Além disso, fazem uso de determinados textos bíblicos, a exemplo de Gênesis 2:7 e Ezequiel 18:4, para corroborar a opinião de que alma é o próprio homem e, por isso, quando a pessoa morre a alma também morre. O que está evidentemente em conflito com o que Jesus disse em Mateus 10:28. Um exame detalhado desta e de outras questões pode ser visto nos textos indicados nos links a seguir:

Seol, ou hades, e conceitos relacionados

Textos amiúde mal aplicados pelos aniquilacionistas

O Homem Rico e o Mendigo Lázaro - Uma Análise Bíblica à Luz do Antigo Pensamento Judaico-Cristão

 

 

 

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