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SOBRE A PÁSCOA E A PERIODICIDADE DA CELEBRAÇÃO DA MORTE DE CRISTO

 

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O dia da Páscoa cristã não acontece no mesmo dia da Páscoa judaica, embora no início não tenha sido assim, pois na primeira vez que os discípulos se reuniram para celebrar a morte de Jesus foi precisamente no dia da páscoa dos judeus, que pela lei mosaica deveria ser comemorada sempre no 14º dia do primeiro mês do calendário lunar adotado pelos antigos hebreus (na verdade, lunissolar), mês que eles chamavam de Abibe, e depois de Nisã, após o exílio em Babilônia. Este mês ocorre sempre em março ou abril do nosso calendário. E ainda há outra diferença em relação ao calendário litúrgico católico, pois neste a Páscoa não é celebrada na sexta-feira, mas sim no domingo. Esse costume remonta desde pelo menos o início do século II.

 

Por que, afinal, surgiram essas diferenças e as duas celebrações não acontecem sempre no mesmo dia? Antes de responder a essa pergunta, é preciso primeiro esclarecer um detalhe relacionado à origem da Páscoa cristã.

 

A periodicidade do memorial da morte de Cristo

 

Assim, nos anos que se foram, Jesus saiu para comer a páscoa sacrificada pelos judeus, mantendo a festa. Mas quando ele pregou que Ele era a Páscoa, o Cordeiro de Deus, conduzido como uma ovelha para a matança, ensinou aos seus discípulos o mistério do tipo [prefigurativo] no dia 13, no qual também eles perguntaram: ‘Onde tu irás preparar a páscoa para comer?’ [Mateus 26:17] E foi neste dia, então, que houve tanto a consagração dos pães ázimos como a preparação para a festa, de onde João descreve naturalmente os discípulos como já previamente preparados para ter seus pés lavados pelo Senhor. E no dia seguinte [dia 14], nosso Salvador sofreu, Aquele que era a Páscoa, sacrificado pelos judeus.

 

Fragmento 11 (“Último Trabalho na Páscoa”), de Clemente de Alexandria, c. 210 d.C.

 

Para entender bem esse assunto, é importante voltarmos ao contexto do surgimento da celebração da morte de Jesus, que foi a noite da páscoa judaica. Sobre esse dia há o seguinte relato na Bíblia:

 

“Tendo chegado a noitinha, ele estava recostado à mesa com os doze discípulos. Enquanto comiam, ele disse: ‘Deveras, eu vos digo: Um de vós me trairá’... Ao continuarem a comer, Jesus tomou um pão, e, depois de proferir uma bênção, partiu-o, e, dando-o aos discípulos, disse: ‘Tomai, comei. Isto significa meu corpo.’ Tomou também um copo, e, tendo dado graças*, deu-lho, dizendo: ‘Bebei dele, todos vós; pois isto significa meu ‘sangue do pacto’, que há de ser derramado em benefício de muitos, para o perdão de pecados. Eu vos digo, porém: Doravante, de modo algum beberei deste produto da videira, até o dia em que o beberei novo, convosco, no reino de meu Pai.’ Por fim, depois de cantarem louvores, saíram para o Monte das Oliveiras”. – Mateus 26:20-30, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

* “Dado graças”, em grego εὐχαριστήσας (eukharistésas), particípio do verbo εὐχαριστέω (eukharisteó), que significa “ser grato”. O substantivo correspondente é εὐχαριστία (eukharistía), que é comumente traduzido por “gratidão” ou “ação de graças”.

 

Conforme se nota, tratava-se de uma refeição, que incluía também um cordeiro assado e ervas amargas. Originalmente o vinho não fazia parte dos elementos da noite pascoal, porém na época de Jesus já estava presente. O que foi muito apropriado, pois serviu de símbolo para o sangue que ele derramaria. Já o pão ázimo (sem fermento) representava o corpo sem pecado que seria sacrificado na cruz. É importante ter esse cenário em mente porque ele se repetirá nos anos seguintes na experiência cristã. Embora hoje em dia o memorial da morte de Jesus seja vivido apenas como ritual, nos primeiros tempos do Cristianismo era realmente uma refeição em comum, onde se relembrava a morte do “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1:29). A referência que o apóstolo Paulo faz a esse evento nos ajuda a esclarecer outro detalhe importante:

 

“Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças*, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim. Assim, todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice lembrais a morte do Senhor, até que venha. Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor.” – 1 Coríntios 11:23-27, Ave Maria.

 

* “Dado graças”, em grego εὐχαριστήσας (eukharistésas).

 

O objetivo de Paulo ao citar as palavras do Senhor não foi uma mera recapitulação histórica. Mas uma repreensão aos cristãos da cidade de Corinto, que tinham o hábito de fazer das refeições em comum um motivo para escândalo. Disse o apóstolo:

 

“Em primeiro lugar, ouço que, quando vocês se reúnem como igreja, há divisões entre vocês... Quando vocês se reúnem, não é para comer a ceia do Senhor, porque cada um come sua própria ceia sem esperar pelos outros. Assim, enquanto um fica com fome, outro se embriaga. Será que vocês não têm casa onde comer e beber? Ou desprezam a igreja de Deus e humilham os que nada têm?... Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha. Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se o homem a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Portanto, meus irmãos, quando vocês se reunirem para comer, esperem uns pelos outros. Se alguém estiver com fome, coma em casa, para que, quando vocês se reunirem, isso não resulte em condenação”. – 1 Coríntios 11:18-34, Nova Versão Internacional.

 

Está implícito nessas palavras de Paulo que os cristãos não se reuniam apenas uma vez por ano para tais eventos onde se ‘anunciava a morte do Senhor’, com pão e vinho. Era uma atividade que acontecia em base regular durante o ano inteiro, conforme era o costume da época. O que estava acontecendo entre os coríntios é que eles estavam praticando excessos nessas ocasiões* e trazendo condenação para si próprios. Certamente Paulo não constatou isso em vários anos de observação para só depois mencionar o problema em uma carta. Era algo corriqueiro que demandava uma ação urgente por parte dele.

 

* Às vezes os dirigentes das “Testemunhas de Jeová” costumam usar essa passagem bíblica para desestimular seus seguidores a participarem dos “emblemas” da celebração da morte de Cristo, porque seria algo indigno alguém que não fosse verdadeiramente “ungido” (com esperança celestial) comer o pão e beber o vinho. O escrutínio pessoal mencionado em 1 Coríntios 11:28 teria então alguma relação com tal restrição. Mas, como se nota, o que Paulo estava tratando em sua carta não tem nada a ver com isso. – A Sentinela 15/03/91, p. 21; 01/04/96, pp. 6, 7.

 

Ao que parece, o domingo, que é o primeiro dia da semana e o dia em que Jesus ressuscitou, já era o dia preferido para realizar essas refeições noturnas, como se infere do episódio em que o jovem Êutico caiu devido ao sono, durante um discurso de Paulo:

 

“No primeiro dia da semana [domingo], estando nós reunidos para partir o pão, Paulo, que havia de sair no dia seguinte, discutia com eles, e prolongou o seu discurso até a meia noite. Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde nos achávamos reunidos. Um moço chamado Êutico, que estava sentado na janela, adormecendo profundamente enquanto Paulo prolongava mais o seu discurso, vencido pelo sono caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Descendo Paulo, debruçou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não façais alvoroço; pois a sua alma está nele. Então subiu, partiu o pão e comeu, e falou-lhes largamente até o romper do dia; e assim se retirou. Levaram o moço vivo, e ficaram muito consolados”. – Atos 20:7-12, Sociedade Bíblica Britânica, colchetes acrescentados.

 

A Didaqué, também conhecida por “Instrução dos Doze Apóstolos”, que é da mesma década dos escritos do apóstolo João, também fez referência a essas refeições que ocorriam no “dia do Senhor”, ou seja, no domingo:

 

“Mas a cada dia do Senhor ajuntar-se-ão, e partirão o pão, e darão graças* depois de terem confessado as vossas transgressões, para que o vosso sacrifício seja puro. Mas não se ajuntará convosco quem estiver em desacordo com o seu companheiro, até que sejam reconciliados, para que o vosso sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que foi dito pelo Senhor: Em todo lugar e tempo ofereça-me um sacrifício puro, porque eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e o meu nome é maravilhoso entre as nações”. – Didaqué, cap. 14, c. 98 d.C.

 

* “Darão graças”, em grego: εὐχαριστήσατε (eukharistésate).

 

O que nos traz finalmente ao ponto em comum que se vê nos textos acima citados: a expressão “dar graças” (eukharistían). Jesus a usou para abençoar o pão e o vinho no dia da Páscoa, inaugurando a celebração de sua morte. Por isso, com o tempo, a palavra “eucaristia” passou a designar esses encontros onde se partia o pão, com ou sem o vinho. Um cristão que foi contemporâneo dos apóstolos se referiu a esse tipo de reunião e à frequência com que aconteciam:

 

“Deem atenção, então, a frequentemente se reunirem para dar graças* a Deus, e mostrem o seu louvor. Pois, quando vocês se reúnem frequentemente no mesmo lugar, os poderes de Satanás são destruídos, e a destruição a que ele se propõe é impedida pela unidade de sua fé. Nada é mais precioso do que a paz, pela qual toda a guerra, tanto no céu como na terra, é levada ao fim”. – Carta aos efésios, cap. 13, de Inácio de Antioquia, c. 102 d.C.

 

* “Dar graças”, em grego εὐχαριστίαν (eukharistían).

 

Algumas décadas mais tarde, os cristãos Justino e Irineu de Lyon também mencionaram essas reuniões:

 

“E depois, continuamente, lembramos uns aos outros essas coisas. E os ricos entre nós ajudam os necessitados. E sempre nos mantemos juntos. E por todas as coisas com as quais somos providos, abençoamos o Criador de todos por meio de Seu Filho Jesus Cristo e pelo Espírito Santo. E no dia chamado de domingo*, todos os que vivem nas cidades ou no país se reúnem em um só lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, enquanto o tempo permitir. Então, quando o leitor termina, o presidente instrui verbalmente, e exorta à imitação dessas coisas boas. Então todos nós nos levantamos juntos e oramos e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, o pão, o vinho e a água são trazidos, e o presidente da mesma maneira oferece orações e ações de graças**, de acordo com sua capacidade, e o povo concorda, dizendo Amém. E há uma distribuição para cada um, e uma participação daquela [refeição] sobre a qual os agradecimentos foram dados, e para aqueles que estão ausentes, uma porção é enviada pelos diáconos. E os que são bons para agir, e querendo, dão o que cada um pensa ser possível. E o que é recolhido é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e as viúvas e aqueles que, por doença ou qualquer outra causa, estão em necessidade, e os que estão em laços e os estrangeiros peregrinando entre nós, e em uma palavra toma cuidado de todos os que estão em necessidade. Mas o domingo é o dia em que todos celebramos nossa assembléia comum, porque é o primeiro dia em que Deus, operando uma mudança nas trevas e na matéria, fez o mundo. E Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressuscitou dentre os mortos. Pois foi crucificado no dia anterior ao de Saturno (sábado); E no dia seguinte àquele de Saturno, que é o ‘dia do Sol’, tendo aparecido a Seus apóstolos e discípulos, ele lhes ensinou estas coisas, que também vos submetemos para vossa consideração”. – Primeira Apologia, cap. 67, de Justino, colchetes acrescentados; leia também o capítulo 111 do Diálogo com Trifão.

 

* “Chamado de domingo” ou “dia do sol, como é conhecido”, em latim: Ac solis, ut dicitur, die; Sunday, em inglês. Naquele tempo os dias da semana receberam nomes dos deuses romanos e Justino se refere a tais dias com esses termos mitológicos: domingo (sol), segunda (lua), terça (Marte), quarta (Mercúrio), quinta (Júpiter), sexta (Vênus) e sábado (Saturno, que era o último planeta que eles conheciam do sistema solar). É intrigante como é que eles, naquela época, sabiam que Saturno está em último lugar na sequência de planetas, assim como o sábado é o último dia... Além disso, visto que o planeta antes de Saturno é o maior de todos, eles deram a ele o nome de Júpiter (ou Zeus, em grego), o deus dos deuses. Porém não é possível perceber isso a olho nu, pois o planeta que aparece maior no céu é Vênus, por estar mais próximo. O que faz lembrar também o filósofo grego Platão. Apesar dele ter defendido várias mitologias tolas, ele disse que as estrelas, embora pareçam pequenas, na verdade possuem tamanhos descomunais (Epínomis 983a). Mas, enfim, ao passo que em português essa nomenclatura mitológica para os dias da semana foi abandonada, em outras línguas ela se manteve, ao menos parcialmente, como é o caso do espanhol (domingo, lunes, martes, miércoles, jueves, viernes e sabado). Em inglês há uma mistura de deuses romanos com nórdicos.

 

** “Ações de graça”, gratiarum actiones, em latim; e em grego: εὐχαριστηθέντων (eukharistethénton), plural de eukharistia.

 

“A oferenda da Eucaristia não é carnal, mas espiritual, e neste aspecto é pura. Porque nós fazemos uma oferenda a Deus do pão e o copo da bênção, dando-Lhe graças visto que Ele ordenou à terra que produzisse estes frutos para nosso alimento. E então, quando tivermos aperfeiçoado a oferenda, invocaremos o Espírito Santo, para que Ele possa exibir este sacrifício, tanto o pão, o corpo de Cristo, como o copo, o sangue de Cristo, para que os recebedores desses modelos antitipos possam obter remissão dos pecados e receber a vida eterna. Essas pessoas, então, que realizam essas oferendas em memória do Senhor, não se encaixam com as opiniões judaicas, mas, realizando o serviço de uma maneira espiritual, eles serão chamados filhos da sabedoria”. – Irineu de Lyon, Fragmento 37.

 

“Alguém objetará lembrando nossas celebrações dos domingos, da Preparação, da Páscoa, de Pentecostes? Devemos responder: quem é cristão perfeito e não deixa de dar atenção devida às palavras, às ações, aos pensamentos do Logos de Deus que por natureza é o Senhor, esse vive continuamente nos dias do Senhor, celebra constantemente os domingos... para quem compreende que ‘Cristo, nossa Páscoa, foi imolado’ e deve celebrar a festa comendo a carne do Logos, não há instante em que não realize a Páscoa, termo que quer dizer sacrifício por uma feliz passagem: pois pelo pensamento, por cada palavra, por cada ação não deixamos de passar dos negócios desta vida a Deus apressando-nos a chegar à cidade divina. Enfim, se podemos dizer com toda verdade: ‘Ressuscitamos com Cristo’ (Cl 2,12; 3,1), e também: ‘Com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus’ (Ef 2,6), estamos continuamente nos dias de Pentecostes, principalmente quando subindo à sala superior como os apóstolos de Jesus, perseveramos nas súplicas e orações para nos tornarmos dignos ‘do vendaval impetuoso vindo do céu’ (At 1,13-14; 2,2-3).” – Orígenes, Contra Celso, Livro VIII, cap. 22, tradução da editora Paulus.

 

De modo que está claro que os antigos cristãos não celebravam a morte de Jesus apenas uma vez por ano, mas em várias refeições noturnas durante o ano inteiro, de preferência aos domingos, o “dia do Senhor” (não mais “dia do sol”). Era como se no decorrer do ano acontecessem várias páscoas menores que culminavam na Páscoa maior comemorada quase no mesmo dia da páscoa judaica. E por que não era na mesma data? É o que será visto a seguir.

 

Sobre o dia da Páscoa cristã

 

As celebrações eucarísticas que aconteciam no decorrer do ano certamente estavam presentes em todas as comunidades cristãs antigas. No entanto, surgiu um pomo de discórdia no século II sobre quando a Eucaristia da Páscoa deveria ser celebrada. A maioria dos cristãos entendia que ela devia seguir o mesmo modelo do que ocorria ao longo do ano, no domingo. Mas os cristãos da Ásia Menor (atual Turquia) discordaram disso. Um dos que defendiam fortemente a data dos judeus para a festividade cristã se manifestou em uma carta no final do século II, enviada para o bispo de Roma, Vítor I, o “Papa”:

 

“Quanto a nós, então, observamos escrupulosamente o dia exato, não acrescentando nem tirando... Pois na Ásia, grandes luminares foram repousar, os que se levantarão novamente no dia da vinda do Senhor... Falo de Filipe, um dos doze apóstolos... suas duas filhas... João... que se reclinou no seio do Senhor... Policarpo... Traseas de Eumenia, ambos bispos e mártires... Sagaris, bispo e mártir... Papirius... Melitão, o eunuco... Todos eles mantiveram a páscoa no dia 14 do mês, de acordo com o Evangelho, sem nunca desviá-lo, mas mantendo a regra da fé. Além disso, eu também, Polícrates, que sou o menor de todos vocês, de acordo com a tradição de meus parentes... Para aqueles que são maiores do que eu, disse: ‘Devemos obedecer a Deus e não aos homens’... Eu poderia também mencionar os bispos associados a mim, que era o desejo de vocês tê-los convocado junto de mim, e eu os reuni: aqueles nomes, se eu os escrevesse, seria um grande número. Estes bispos, ao virem me ver, indignos como eu mesmo sou, manifestaram a sua unida aprovação da carta, sabendo que eu não usava esses cabelos brancos em vão, mas sempre regularam minha conduta em obediência ao Senhor Jesus”. – Fragmento sobre a Páscoa cristã, Polícrates de Éfeso, c. 195 d.C., citado por Eusébio de Cesareia, História da Igreja, Livro V, cap. 24.

 

Polícrates não foi o único a escrever sobre a observância da Páscoa cristã de acordo com o cálculo dos judeus, pois há outros registros com opinião similar, a exemplo deste:

 

“O décimo quarto dia, a verdadeira Páscoa do Senhor. O grande sacrifício, o Filho de Deus, em vez do cordeiro, que estava amarrado, que foi amarrado forte, e que foi julgado, embora sendo Juiz dos vivos e dos mortos, ele foi entregue nas mãos dos pecadores para ser crucificado, e foi traspassado no seu lado santo, que derramou do seu lado os dois elementos purificadores, a água e o sangue, palavra e espírito, e foi sepultado no dia da páscoa, sendo a pedra colocada sobre o túmulo”. – Fragmento de Cláudio Apolinário, c. 180 d.C., mencionado por Eusébio de Cesareia.

 

E conforme aludido pelo próprio Polícrates, outros que aderiram à data judaica foi Melitão de Sardes e Policarpo de Esmirna, o discípulo do apóstolo João, que chegou a ir à Roma para discutir esse assunto com o “Papa”:

 

“Do trabalho na páscoa. Quando Servilius Paulus foi procônsul da Ásia, na época em que Sagaris sofreu o martírio, surgiu uma grande controvérsia em Laodiceia com respeito ao tempo da celebração da Páscoa, que naquela ocasião tinha acontecido cair na estação apropriada. E este tratado foi então escrito”. – Fragmento de Melitão de Sardes, c. 170 d.C., citado no História da Igreja, capítulo 26, Livro IV, de Eusébio de Cesareia.

 

“Nos tempos aludidos e estando Aniceto à cabeça da igreja de Roma, conta Irineu que Policarpo ainda vivia e que veio a Roma [aproximadamente no ano 154 d.C.] para conversar com Aniceto por causa de certa questão acerca do dia da Páscoa”. – História Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia, c. 325 d.C., cap. 14, Livro IV, Editora Novo Século (1999), p. 83, colchetes acrescentados.

 

A conversa entre Policarpo e Aniceto não ocasionou nenhuma repercussão séria dentro da Igreja. Quem defendia a celebração no dia 14 de nisã, os chamados quartodecimanos, não foram tidos por hereges. Porém quando alguns anos depois Polícrates levantou novamente essa questão houve um acalorado debate, também relatado por Eusébio:

 

“Por este tempo levantou-se uma questão bastante grave, por certo, porque as igrejas de toda a Ásia, apoiando-se em uma tradição muito antiga, pensavam que era preciso guardar o décimo quarto dia da lua para a festa da Páscoa do Salvador, dia em que os judeus deviam sacrificar o cordeiro e no qual era necessário a todo custo, caindo no dia que fosse na semana, pôr fim aos jejuns, sendo que as igrejas de todo o resto do mundo não tinham por costume realizá-lo deste modo, mas por tradição apostólica, guardavam o costume que prevaleceu até hoje: que não é correto terminar os jejuns em outro dia que não o da ressurreição de nosso Salvador. Para tratar deste ponto houve sínodos e reuniões de bispos, e todos unânimes, por meio de cartas, formularam para os fiéis de todas as partes um decreto eclesiástico: que nunca se celebre o mistério da ressurreição do Senhor de entre os mortos em outro dia que não no domingo, e que somente nesse dia guardemos o fim dos jejuns pascais. Ainda se conserva até hoje um escrito dos que se reuniram naquela ocasião na Palestina; presidiram-nos Teófilo, bispo da igreja de Cesareia, e Narciso, da de Jerusalém. Também sobre o mesmo assunto conserva-se outro escrito dos reunidos em Roma, que mostra Vítor como bispo; e também outro dos bispos do Ponto presididos por Palmas, que era o mais antigo, e outro das igrejas da Gália, das quais era bispo Irineu. Assim como também das de Osroene e demais cidades da região, e em particular de Baquilo, bispo da igreja de Corinto, e de muitos outros, todos os quais, emitindo um único e idêntico juízo, estabelecem a mesma decisão. Estes pois, tinham como regra única de conduta a já exposta”. – História da Igreja, cap. 24, Livro V, ibid., p. 118.

 

Em dado momento a situação ficou tão delicada que o bispo de Roma propôs a excomunhão de todas as igrejas da Ásia menor, o que desagradou os demais bispos, ainda que defendessem a Páscoa no domingo. Coube a Irineu mostrar ao “Papa” que essa não seria a decisão correta, pois tal divergência também acontecera entre Policarpo e Aniceto, não muito tempo antes, sem que isso rompesse a união daqueles irmãos. Disse Irineu:

 

“E encontrando-se em Roma o bem-aventurado Policarpo nos tempos de Aniceto, surgiram entre os dois pequenas divergências, mas em seguida estavam em paz, sem que sobre este capítulo se querelassem mutuamente, porque nem Aniceto podia convencer Policarpo a não observar o dia [14 de nisã] - como sempre o havia observado, com João, discípulo de nosso Senhor, e com os demais apóstolos com quem conviveu -, nem tampouco Policarpo convenceu Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia manter o costume dos presbíteros, seus antecessores”. – Irineu de Lyon a Vítor, bispo de Roma, Idem, p. 120, colchetes acrescentados.

 

Finalmente, mesmo sob o protesto de Polícrates por Roma e o resto do mundo não adotarem a data judaica, houve a pacificação entre os dois grupos e, com o tempo, a corrente quartodecimani da Ásia menor desapareceu.

 

Atualmente o grupo mais conhecido que celebra a morte de Jesus no 14 de nisã são as “Testemunhas de Jeová”. Mas ao invés de chamarem o evento de “Páscoa” ou de “Ceia do Senhor” elas chamam de “Celebração da Morte de Cristo” (até recentemente elas chamavam de “Comemoração”). Embora as Testemunhas achem que por seguirem essa data estão aderindo mais de perto a Bíblia, na verdade elas se distanciaram bastante do que era praticado pelos antigos cristãos. Primeiramente porque não é permitido aos celebrantes comer o pão ou beber o vinho. As pessoas apenas passam de mão em mão esses “emblemas”. Além disso, eles relembram a morte de Jesus apenas uma vez por ano, na época correspondente à Páscoa judaica (embora não necessariamente no mesmo dia dos judeus atuais, pois eles não seguem a mesma metodologia de cálculo da Torre de Vigia, a entidade dirigente das TJs). Porém o esperado, em imitação aos primeiros cristãos, seria celebrar várias vezes durante o ano, conforme acontece em diversas igrejas protestantes.

 

O mais importante a ter em mente

 

Muito provavelmente o motivo dos cristãos do segundo século terem favorecido o domingo ao invés de relembrar o evento conforme o modelo judaico, foi porque, de certa forma, seria um aval aos preceitos da lei mosaica (e conforme alguns sugerem algum preconceito contra os próprios judeus). Nem mesmo o domingo imediatamente após a páscoa judaica parece ter se estabelecido como método mais adequado, pois um sistema próprio foi criado:

 

“A determinação exata do Domingo de Páscoa é feita a partir da primeira lua cheia após o equinócio de primavera [no hemisfério norte], para que o dia possa cair em qualquer domingo entre o dia 22 de março e o 25 de abril”. – History of the Christian Church, Volume III: Nicene and Post-Nicene Christianity. A.D. 311-600; The Time of the Easter Festival, de Philip Schaff, p. 346, colchetes acrescentados.

 

Isso foi assim porque naquele tempo os judeus passaram a utilizar uma metodologia que, às vezes, fazia com que comemorassem a Páscoa duas vezes em um mesmo ano. A circular que o imperador Constantino fez passar pelo império, após a decisão definitiva da Igreja sobre o assunto, faz alusão a esse fato:

 

“A Páscoa Cristã deve ser celebrada no mesmo dia por todos; e para o cálculo da data, nenhuma referência deve ser feita aos Judeus. Isto poderia ser humilhante e, além disso, é possível para eles ter duas Páscoas num só ano. [Nós temos visto o que esta asserção significa]. Conseqüentemente, as igrejas devem conformar-se com a prática seguida por Roma, África, Itália, Egito, Espanha, Gália, Grã-Bretanha, Líbia, Grécia, Ásia, Ponto e Cilícia”. – Acerca do cálculo da data da Páscoa e do Primeiro Concílio Ecumênico.

 

Mas muito antes disso, no segundo século, quando o Cristianismo ainda era uma religião perseguida pelo Império Romano, os cristãos talvez tenham refletido no que Paulo disse certa vez para chegarem ao majoritário entendimento de que o domingo era o dia mais adequado para a Páscoa cristã:

 

“Portanto, nenhum homem vos julgue pelo comer ou pelo beber, ou com respeito a uma festividade ou à observância da lua nova ou dum sábado; pois estas coisas são sombra das coisas vindouras, mas a realidade pertence ao Cristo”. – Colossenses 2:16, 17, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

Visto que, ao contrário da Bíblia hebraica dos judeus, o Novo Testamento não estipula para os cristãos nenhuma data específica na qual se deva realizar a grande celebração anual da morte e ressurreição de Jesus, é razoável concluir que os cristãos não estão obrigados a seguir o que era feito pelos judeus. O costume que os cristãos adquiriram de relembrar a morte várias vezes durante o ano, nas reuniões eucarísticas, é uma evidência adicional de que não deve haver rigidez quanto a uma data. E terem os discípulos celebrado a morte de Jesus pela primeira vez no dia 14 de nisã foi apenas uma coincidência, porque nesse mesmo dia eles comemoravam a Páscoa judaica. Mas Jesus não disse para eles que isso deveria ser feito sempre nessa data, mas apenas que seus seguidores mantivessem a celebração que ele tinha acabado de inaugurar. E assim os cristãos têm feito, toda vez que se reúnem para comer o pão e tomar o vinho, seja nas pequenas “páscoas” ao longo do ano, seja na Páscoa maior que relembra de maneira especial a Paixão de Cristo.

 

Uma vantagem que houve em celebrar a morte de Jesus várias vezes por ano, no dia de domingo, é que isso garantia que tal celebração fosse sempre observada, sem necessidade de se estar atento a um evento astronômico relacionado ao dia da Páscoa judaica. Isto seria especialmente útil para as pessoas do mundo greco-romano, pois muitas delas não tinham a menor noção dos costumes judaicos ou como determinar uma data no calendário baseando-se nos ciclos da lua. Que o digam os cristãos hoje em dia! Por isso foi muito prático ficar relembrando a morte de Jesus no dia da ressurreição dele, no domingo.

 

E com respeito à eucaristia maior, a Páscoa anual, um último detalhe a ser notado é que os cristãos que se opuseram aos quartodecimanos disseram que esse evento ser sempre no domingo era também uma “tradição apostólica”, tendo sido apenas repassada pelos presbíteros mais antigos. Talvez o apóstolo Paulo tenha tido alguma coisa a ver com essa tradição apostólica paralela, pois, além dele possivelmente ter sido quem iniciou o costume de celebrar a morte de Jesus várias vezes no ano, ele frequentemente se posicionava contra observâncias rígidas relacionadas à lei mosaica, que alguns queriam trazer para dentro da congregação cristã. Por isso ele disse que ‘ninguém deveria ser julgado pelo comer ou pelo beber’ em conexão com alguma festividade. A obra abaixo resume a história toda da seguinte maneira:

 

“Aquilo que o domingo é no curso da semana, a páscoa constitui no ritmo do ano, a festa mais antiga da Igreja cristã... Quanto à sua celebração litúrgica, o esquema parece basicamente idêntico no Oriente e no Ocidente, segundo os testemunhos mais importantes do século III. Um jejum rigoroso e obrigatório inicia a festa; o centro da celebração é a vigília noturna, que reúne toda a comunidade e se desenvolve com leituras, cantos e orações, alcançando seu auge e final festivo com a celebração da eucaristia. Mas o verdadeiro problema foi a data em que se devia celebrar a festa da páscoa. No século II, as comunidades da Ásia Menor tinham como tradição (que segundo elas vinha dos apóstolos João e Filipe) celebrar a páscoa na mesma data dos judeus, isto é, o dia 14 do mês de Nisã. De acordo com pesquisas recentes, é bem possível que essa páscoa dos quartodecimanos tenha sido a forma original da celebração na comunidade primitiva e não um desvio limitado à província da Ásia. Mas no próprio século II existem outras comunidades, como as de Roma, da Palestina, do Egito, da Grécia etc., que celebram a páscoa anual cristã, não na data judaica de 14 de Nisã, mas no domingo que segue. Também esse grupo diz que sua prática tem como fundamento uma tradição apostólica que, passando pelos sucessivos bispos de Roma, chegaria aos próprios apóstolos Pedro e Paulo.

 

“Como bem o acentua Odo Casel, a diferença entre essas tendências não consiste no objeto da festa; as comunidades da Ásia, ao celebrarem a morte do Senhor, não excluem de modo algum a ressurreição; da mesma maneira, os que celebram a páscoa no domingo enfatizam logicamente o tema da ressurreição do Senhor, sem esquecer sua paixão e morte. Tratava-se de uma diferença de ênfase, mas que foi suficiente para suscitar uma polêmica muito viva entre as comunidades do século II... O bispo Policarpo de Esmirna, em sua estada em Roma, por volta do ano 154, tratara desse assunto com o papa Aniceto, mas sem chegar a qualquer acordo. Um pouco mais tarde, perto do ano 170, entram nessa polêmica Melitão de Sardes e o bispo Cláudio Apolinário, de Hierápolis, discussão em que também toma parte Clemente de Alexandria. Mas o ponto mais sensível da controvérsia pode ser discutido poucos anos antes do final do século II, com o papa Vítor I: essa controvérsia quase se torna um cisma no interior da Igreja. A atitude mais tolerante de Irineu com os partidários da prática divergente teve êxito e salvou a unidade da Igreja. Por fim, a solução romana foi aceita em toda parte e a festa da páscoa, a partir daí, será celebrada por todas as Igrejas no domingo seguinte ao 14 de Nisã dos judeus”. – A Celebração na Igreja - Liturgia e Sacramentologia Fundamental, 2002, de Dionísio Borobio (organizador), Edições Loyola, pp. 63, 64.

 

Na verdade, essa aderência total na Ásia menor não ocorreu de forma tão rápida e suave. Ainda foram necessários mais uns 100 anos para que, finalmente, todos aderissem à “tradição dos apóstolos Pedro e Paulo” de celebrar a morte e ressurreição do Senhor sempre no domingo de Páscoa. O que foi ratificado no Concílio de Niceia, em 325 d.C.

 

Portanto, de uma maneira ou de outra, os cristãos continuaram a seguir a ordem de Jesus de continuarem a relembrar o sacrifício que ele fez pela humanidade. A ênfase que depois deram à sua ressurreição gloriosa teve uma boa razão de ser, pois foi para a ressurreição que sua morte o conduziu, conforme aludido por Inácio de Antioquia (30-107 d.C.), ao repreender aqueles que negavam que Jesus veio em um corpo real: “Que eles se arrependam e voltem para [uma crença verdadeira] na paixão de Cristo, que é a nossa ressurreição”. Ao ser morto e depois ressuscitado, Cristo tornou-se o primogênito dentre os mortos, servindo de modelo para os que receberão a mesma recompensa. E isso pode ser relembrado tantas vezes quanto se queira durante o ano pelas comunidades cristãs. – Carta aos Esmirnianos, cap. 5.

 

 

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