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O ANIQUILACIONISMO E A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

 

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Publicações teológicas geralmente afirmam que a punição dos maus será o sofrimento eterno num "inferno de fogo", e chamam de "aniquilacionistas" os que repudiam tal ensino e não acreditam na imortalidade da alma. O conceito que utilizei no tema acima é uma definição mais restrita, que se refere apenas à crença de que a pessoa deixa de existir por completo quando morre, não havendo, portanto, uma alma espiritual que sobrevive à morte do corpo físico, ficando a pessoa fiel na dependência de ser "recriada" por Deus.

 

Recentemente, num discurso especial, um importante líder religioso de uma denominação que prega o aniquilacionismo levantou algumas questões sobre como ocorreria uma ressurreição na Terra. Perguntou, por exemplo, "quem morreu faltando uma perna, ressuscitará sem perna?", "Se era idoso, voltará jovem?", "Se uns 30 bilhões já devem ter vivido na Terra, como será a logística para receber toda essa gente?", "Onde essas pessoas ficarão?".

 

Essas dúvidas levantadas sobre detalhes de uma ressurreição terrestre são problemas indissociáveis do conceito materialista do aniquilacionismo. Biblicamente falando, o ensinamento da ressurreição não induz a esse tipo de questões. Qualquer um pode ler na Bíblia que quando Paulo escreveu sobre ressurreição o argumento dele girava em torno da vida espiritual. Na ressurreição, o corpo material simplesmente dá vez ao corpo espiritual.

 

“Assim é a ressurreição dos mortos…. semeia-se corpo físico, é levantado corpo espiritual.” – 1 Coríntios 15:42-49.

 

“Foi na fé que morreram [Abraão, Isaac e Jacó] sem receber as promessas. Somente as viram e saudaram de longe, confessando-se peregrinos e hóspedes [estrangeiros] na terra. Os que assim falam dão a entender que buscam uma pátria. Pois, caso se lembrassem da pátria de onde saíram, teriam tido ocasião de retornar. Mas desejam outra melhor, isto é, a pátria celeste. Por isso Deus não se envergonha de ser chamado Deus deles.” – Hebreus 11:13-16, Vozes.

 

Note que o tempo do verbo muda para o presente quando se refere aos anseios daqueles patriarcas, como se eles ainda estivessem vivos***. Se eles estão vivos, adorando o Deus vivente, o certo é dizer que eles ainda desejam, e não que desejavam. Isso está de acordo com o que Jesus Cristo falou certa vez:

 

“Em resposta, Jesus disse-lhes: Estais equivocados, porque não conheceis nem as Escrituras, nem o poder de Deus; pois na ressurreição, os homens não se casam, nem são as mulheres dadas em casamento, mas são como os anjos no céu. Quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que vos foi falado por Deus, que disse: ‘Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’? Ele é o Deus, não de mortos, mas de vivos.” – Mateus 22:29-33.

 

Anjos são espíritos e estão sempre vivos. E o Deus deles é o mesmo Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Portanto, estes últimos ainda estão vivos, na forma de espíritos. Somente seus corpos físicos desapareceram, juntamente com todas as atividades a que se dedicavam enquanto eram seres humanos.

 

“E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro!” – Jó 19:26, 27, NVI; compare com Mateus 5:8.

 

*** Todo esse trecho se refere aos personagens mencionados, e não aos contemporâneos ou interlocutores de Paulo, por isso a Bíblia Fácil traduz essa passagem da seguinte maneira: “Se, por acaso, esses patriarcas estivessem se referindo àquela pátria (o país da Caldéia), donde tinham saído, eles teriam tido oportunidade de voltar para lá.” (Hebreus 11:15). Sendo assim, quando Paulo passa a usar o verbo no presente deve estar mesmo se referindo à atitude ainda demonstrada por esses patriarcas, ou por seus espíritos onde quer que se encontrassem no momento da escrita da carta aos Hebreus, estando então ainda vivos. Este entendimento é reforçado se o versículo 14 for considerado apenas um aposto, ou um breve comentário explicativo. E a Tradução do Novo Mundo reforça de maneira ainda melhor essa ideia, ao traduzir o versículo 16 assim: "Mas agora procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um pertencente ao céu." Atualmente, talvez Abraão, Isaque e Jacó já tenham alcançado esse nobre objetivo.

 

Embora nada impeça que Deus traga um paraíso para este planeta, conforme algumas profecias sugerem, a vida em forma de espírito é o fundamento da esperança cristã de vida eterna. Nunca houve dúvida na mente dos judeus e cristãos que o homem possui um espírito que sobrevive à morte. O corpo material dorme na morte, mas isso não acontece com o espírito. “Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna a Deus que o deu.” (Eclesisates 12:7) Nos tempos antigos talvez a dúvida se resumisse apenas sobre onde o espírito do homem fica enquanto não chega o tempo designado, pois o animal também possui um espírito com características semelhantes, mas ao espírito do homem é de se esperar que Deus tenha reservado um destino diferente. – Eclesistes 3:21, 22; 1 Samuel 28:8-14; 1 Pedro 3:19.

 

"Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma." – Mateus 10:28.

 

A explicação dos aniquilacionistas de que o espírito do homem é figurativo e que representa a “força vital” (ou “fôlego”), que desaparece na morte e viaja apenas simbolicamente para Deus, não encontra respaldo nem na Bíblia nem na tradição judaico-cristã dos últimos três mil anos. Além disso, praticamente todas as pessoas religiosas do mundo crêem na imortalidade do espírito e da alma (entre judeus e cristãos certamente mais de 90% possui também essa crença). Nenhum outro ensinamento alcança esse grau de aceitação, a não ser talvez o amor ao próximo. E nem é preciso uma análise bíblica rigorosa para fazer ruir o aniquilacionismo. A própria lógica é capaz de o problema de tal conceito, conforme eu já demonstrei aqui, em outro artigo.

 

Durante o discurso do líder mencionado, ele pediu para a assistência imaginar como seria a vida dos bilhões de ressuscitados aqui na Terra daqui a 1 trilhão de anos. Outro exercício de imaginação que não tem razão de ser. Nosso planeta já deverá ter desaparecido nessa época, conforme descrito até mesmo nas Escrituras:

 

“E tu, ó Senhor, lançaste no princípio os alicerces da própria terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles é que perecerão, mas tu é que hás de permanecer continuamente; e todos eles envelhecerão qual roupa exterior, e tu os enrolarás assim como a uma capa, como a uma roupa exterior; e eles serão mudados, mas tu és o mesmo, e os teus anos nunca se acabarão.” – Hebreus 1:10-12.

 

O texto acima fala da existência eterna de Deus e da existência temporária dos elementos do universo. A mesma ciência usada pelo orador em certo momento do discurso diz que quando o sol envelhecer completamente, daqui a alguns bilhões de anos, e esgotar suas reservas de hidrogênio, entrará em colapso e a Terra desaparecerá junto com ele. Os gases expelidos por essa hecatombe se condensarão posteriormente e formarão novos sóis e planetas, recriando novos sistemas. É um processo repetitivo de vida e morte. Esse contínuo fenecer e ressurgir é um padrão presente na criação de Deus. É por isso que todos os organismos vivos estão programados para morrer e serem substituídos por outros.

 

Em suma, a boca do leão foi projetada para mastigar e estraçalhar, e não para comer capim. É assim que Deus o criou. É assim que ele fez as coisas. Não adianta nos fiarmos em conceitos infantis elaborados por qualquer religião, nem chorar ou reclamar. Se houver algo nesse universo que não obedeça a essa ordem natural de coisas é mera situação excepcional.

 

 

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