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SEMIOTIC ASPECTS OF "THE NAME OF THE ROSE" THROUGH MEDIEVAL AESTHETICS

 

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Aspectos gerais da obra “O nome da rosa”

 

-         Gênero: Romance.

-         Autor: Umberto Eco.

-         Narrador: homodiegético, de nome Adso de Melk (noviço beneditino)

-         Protagonista: Guilherme de Baskerville (frei franciscano).

-         Local da narrativa: mosteiro italiano da Idade Média.

-         Tempo da diegese: final do ano de 1323.

-         Enredo: romance fechado.

-         Focalização: interna fixa, porém, externa em muitos momentos.

 

Introdução

 

No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto a Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto a Deus e dever do monge fiel seria repetir cada dia com salmodiante humildade o único evento imodificável do qual se pode confirmar a incontrovertível verdade. Mas “videmus nunc per speculum et in aenigmat” e a verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros (ai, quão ilegíveis) no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais, mesmo lá onde nos parecem obscuros e quase entremeados por uma vontade totalmente voltada para o mal. .... Apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos mítrificos e formidáveis a que na juventude me foi dado a assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração.

 

                                               Prólogo

 

 

Assim Adso de Melk inicia o seu relato. Esse trecho contém aspectos bem representativos da obra de Eco, sendo possível destacar o que será abordado neste trabalho: a análise semiótica do texto e suas características estéticas.

 

Logo no início, o uso do primeiro versículo do evangelho de João mostra que a religião cristã é a tônica do romance, e que o narrador reveste-se da responsabilidade de prover uma informação que de outra forma não seria possível, tal qual foi a revelação dada a João sobre a divindade de Cristo. Não somente em uma referência bíblica existe o religioso na narrativa, mas também nos votos do narrador, sendo ele próprio um monge de determinada ordem, a dos beneditinos.  Por se passar em fins do ano de 1323, o romance possui traços marcantes da estética medieval, descrita com riqueza de detalhes pelo autor.

 

Um outro aspecto importante que diz respeito ao tratamento semiótico, descrito com mais detalhes nos tópicos a seguir, são os contrastes aventados pelo humilde narrador. Por exemplo, ele descreve conceitos antagônicos entre si, sendo porém ligados pela mesma temática da religião: (1) Deus x Anticristo, por conseqüência, bem x mal, (2) verdade x mentira, (3) juventude x velhice, (4) fidelidade x infidelidade etc. Note que nem sempre o elemento de contraste está grafado no texto, mas é subentendido.  Além de contrastes, há elementos estreitamente vinculados em aspectos semânticos, não importando a forma: (1) Signos-Desenho, (2) Verbo-relato, (3) erro-cálculo, (4) pergaminho-escrita do relato etc.

 

A semiótica está mais voltada para a forma e o conteúdo do que para a expressão. Ou seja, uma análise sintática ou morfológica, por exemplo, não são capazes de extrair do texto toda informação que ele possui, sendo necessário um estudo mais profundo dos elos semânticos e dos estímulos cognitivos que levam o leitor a entender o que vai muito além da superfície da escrita. E uma forma costumeira de aplicar esses conceitos analíticos tem sido o recurso gráfico-visual. Os elos enumerados acima, referentes ao prólogo escrito por Adso na diegese, podem ser representados de uma maneira lógica, sem prejudicar os vínculos reais que possuem entre si, sejam de contraste ou de “parentesco”.  Para dar uma idéia de como isso é feito, elaborou-se o gráfico abaixo (as setas duplas representam oposição, tal como a disposição das colunas):

 

Noções de semiótica e suas aplicações

Nos últimos anos, a semiótica vem adquirindo uma crescente importância no estudo profundo de textos. Como o autor da obra escolhida é um reconhecido semioticista, especialista em textos voltados para a cultura de massa, é de se esperar que seu trabalho contenha traços propositais dos estudos semióticos, transportados para o enredo e seus recursos estilísticos. Mas o que é exatamente semiótica?

 

A palavra semiótica vem do grego semeiotiké, que significa “arte dos sinais, sintomas”. (Wikipédia, 2006) Hoje em dia é a ciência que estuda os signos e a semiose das manifestações culturais. O protoconceito de semiose nasceu na antiguidade, na pessoa do médico Galeno de Pérgamo (139-199), que usou a palavra semeiosis como sinônimo de diagnóstico, ou estudo dos sintomas. Na Idade Média essa acepção se manteve. Somente com John Locke, no século XVII, a semiótica foi associada aos signos. Em adição, ele vinculou o termo à lógica – outra característica possível nos estudos semióticos. Mas coube ao lingüista Saussurre e ao filósofo e lógico Charles Sanders Peirce, no século XIX, lançar as bases dos conhecimentos atuais de semiótica.

 

Pelo exposto, não é possível falar em semiótica, sem lembrar de estética, forma e conteúdo, pois “a semiótica procura descrever e explicar o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz.” (Diana Barros, 2000) Ou como dizia Roland Barthes, a semiologia* procura relacionar e analisar os termos lingüísticos não apenas pela linguagem verbal mas também por qualquer outra no âmbito da realidade. (Barsa). Portanto, conclui-se que a semiótica está mais interessada na forma do que na expressão, e seu objetivo final é o sentido profundo do texto, analisado mediante elos semânticos contrastantes.

 

* Há estudiosos que esboçam diferença entre “semiose” e “semiótica”, embora sempre orbitem uma mesma esfera conceitual. Como não há unanimidade quanto a isso, desprezou-se aqui essa diferença

 


A semiótica estuda não somente textos verbais, mas também textos visuais.

 

O texto visual acima aparece no livro “O nome da rosa”, e descreve o mosteiro palco dos acontecimentos relatados no romance. Esse texto contém várias informações, dentre as quais destacam-se (ao ler cada comentário a seguir, volte ao desenho para confirmar o que é dito):

 

a) Além de não deixar as letras da legenda na ordem alfabética correta, o autor não explica o que são todos os recantos do mosteiro. Na enumeração explicativa que faz, apenas alguns setores são destacados. É dada ao leitor a oportunidade de elaborar suas próprias conjecturas das áreas não explicadas. Tudo isso tem correspondência com o texto verbal, o qual nem sempre contém em sua superfície lingüística toda a informação possível, além de adotar recursos estilísticos diferentes do usual.

 

b) O setor “A” (ABADIA) recebe um destaque especial, pois se encontra em letras capitulares. Por que houve esse destaque? Certamente porque deveria ser a parte mais importante do lugar.1

 

c) Na descrição explicativa do local, foram usadas todas as letras do alfabeto, exceto uma: o “x”. Por que? Bem, o que levou Adso e o seu mestre ao mosteiro foi a morte misteriosa de um jovem monge. Após a chegada deles, mais mortes estranhas aconteceram. Ao se percorrerem os olhos no desenho, uma determinada parte é facilmente identificável. As muitas cruzes não negam, é  o cemitério. Cemitério lembra morte. E morte era exatamente o fio condutor das investigações de Guilherme de Baskerville. Esse era o “x” da questão. E notando bem, o que é uma cruz além de um “x” em pé? Então, a letra “x” não está realmente faltando na figura. Na verdade, há dezenas delas enfatizando o problema capital enfrentado por aqueles religiosos.

 

1 De fato, o jovem Adso, quando chegou ao mosteiro pela primeira vez, descreveu a abadia da seguinte maneira:

 

Tão logo subimos pela trilha íngreme que se desatava ao redor do monte, vi a abadia. Não me espantaram nela as muralhas que a cingiam por todos os lados, iguais a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquele que depois fiquei sabendo ser o Edifício. Era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura per­feitíssima que exprime a solidez e a intocabilidade da Cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam sobre o planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam crescer das próprias faldas do monte, sobre o qual se enervavam a pique. Digo que de certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava até o céu, sem solução de tintas e de matéria, e virava, a uma certa altura, fortaleza e torreão (obra de gigantes que tinham grande familiaridade tanto com a terra como com o céu). Três fileiras de janelas davam o ritmo trinário de sua sobrelevação, de modo que aquilo que era fisicamente quadrado na terra, era espiritualmente triangular no céu. Ao nos aproximarmos mais, via-se que a forma quadrangular gerava, em cada um de seus ângulos, um torreão heptagonal, do qual cinco lados se projetavam para fora - quatro, portanto, dos oito lados do octógonomaior, gerando quatro heptágonos menores, que no exterior manifestavam-se como pentágonos. E não há quem não veja a admirável harmonia de tantos números santos, cada um revelador de um sutilíssimo sentido espiritual. Oito, o número da perfeição de todo tetrágono, quatro, o número dos evangelhos, cinco, o número das zonas do mundo, sete, o número dos dons do Espírito Santo.

 

Além disso, aquele prédio era o Edifício onde repousava incólume o manuscrito grego do livro segundo da Poética, dedicado ao riso, sendo ele próprio o motivador das mortes que vinham acontecendo naquele monastério.

 

De forma resumida, um estudo semiótico transita pelas seguintes etapas básicas:

 

1)     Determinar as oposições semânticas.

2)     Atribuir a essas oposições valores actantes a um sujeito (ou sujeitos).

3)     Examinar as estruturas discursivas, ou seja, verificar as relações entre a enunciação e o texto-enunciado.

4)     Utilizar recursos gráficos, e lógicos, para perceber as relações entre os signos e seus significados, os quais podem ser contrastantes ou vinculados entre si.1

5)     Postular possibilidades de entendimentos figurados, saindo do sentido literal do texto. Nesse caso, a percepção do leitor determinará o caminho a ser tomado, e o conhecimento de mundo poderá ser o diferencial.2

 

1 Ao comentarem essa etapa, é comum especialistas usarem os termos “semas” e “sememas” , ao analisarem os signos e significados mediante os elos semânticos. Esses conceitos são aparentados e vem do grego sema, que significa “sinal, distinção”. (Isidro, 2000)

 

2 Para Jacques Derrida (e o próprio Peirce), um texto é uma fábrica de significados, tanto literais como não-literais, percebidos de acordo com o tipo de leitor. Esse é o conceito da pluriinterpretabilidade. Mas isso não significa que o leitor possa dar interpretações infinitas, de acordo com seus objetivos. Na construção do texto limites semânticos foram demarcados.

 

Voltando ao prólogo, onde Adso introduz o seu relato, das suas declarações depreende-se os seguintes contrastes:

 

 

Mas, o que é verdade? O que é a mentira? O que é ser fiel?

 

Adso diz: “A verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais. Apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos mítrificos sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração.”  De um ponto de vista semiótico, o entendimento da verdade e da mentira é regido pela percepção do leitor, dentro de limites estabelecidos. No caso dos eventos aludidos por Adso, algo semelhante ocorre.  Todos os conflitos que acontecem em sua aventura centravam-se numa obra do filósofo Aristóteles, que teria dedicado o segundo livro da Poética ao riso. O enaltecimento do riso, porém, não era visto com bons olhos por um certo monge influente do mosteiro (que era o bibliotecário chefe), achando ele que isso servia aos interesses do demônio. Outros já achavam o contrário, que o riso era apenas mais uma dádiva de Deus para os homens. O que determinava leituras tão antagônicas de um mesmo tema? (vide próximo tópico).

 

Certa obra de semiótica, apresenta o seguinte gráfico para representar os contrastes mencionados na parte inicial do prólogo (embora não criado especificamente para a obra de Eco):


(Greimas e Courtes, p. 488)

 

Ainda sobre a oposição de situações contrastantes, certo trecho do livro, ao relatar o local de trabalho do monge que aparecera morto misteriosamente, diz o seguinte:

 

"Aproximamo-nos daquele que fora o local de trabalho de Adelmo, onde estavam ainda as folhas de um saltério com ricas iluminuras. Eram folia de vellum finíssimo - rei dos pergaminhos - e o último ainda estava preso à mesa. Apenas esfregado com pedra-pome e amaciado com gesso, fora lixado com a plaina e, dos minúsculos furos produzidos nas laterais com um estilete fino, tinham sido traçadas todas as linhas que deviam guiar a mão do artista. A primeira metade já estava coberta pela escritura e o monge tinha começado a esboçar as figuras nas margens. Porém, já estavam prontas outras folhas, e olhando para elas nem eu nem Guilherme conseguimos conter um grito de admiração. Tratava-se de um saltério às margens do qual se delineava um mundo ao avesso em relação àquilo com que se habituaram os nossos sentidos. Como se à margem de um discurso que por definição é o discurso da verdade, se desenvolvesse, profundamente ligado a ele, um discurso mentiroso sobre um universo virado de cabeça para baixo, em que os cães fogem das lebres e os cervos caçam o leão.”

 

Querendo ou não, o autor delineou exatamente, em linguagem figurada, os semas e sememas de um estudo semiótico gráfico, que podem ser também representados pela imagem abaixo:

 

 

François Rastier, em “Teoria da narrativa e espistemologia”, descreve os elementos semânticos acima da seguinte maneira:

 

1) As classes “verdade” e “erro” são opostas por uma relação de contrários ao nível das unidades constitutivas, o mesmo para natureza e artifício;

 

2) Verdade tem por constituintes regularidade, imutabilidade, completude etc (o sema constitutivo da classe é totalidade);

 

3)  Artifício tem por constituintes irregularidade, variabilidade, incompletude etc (o sema constitutivo da classe é não-totalidade);

 

4)  Paralelamente, natureza tem por componentes origem, certeza, concretude etc (sema constitutivo: unidade);

 

5)  E erro tem por componentes não-origem, incerteza, abstração etc (sema constitutivo: não-unidade).

 

Estética medieval e as motivações implícitas na diegese

 

A proposta semiótica diz que um texto é também determinado por uma motivação ideológica específica, necessitando de uma análise sócio-histórica. Como já foi dito, Humbero Eco, o autor da obra, é um semioticista de renomada, além de filósofo e profundo conhecedor da estética medieval.

 

Eco sabe que o início do século XIV, quando o romance foi ambientado, vivia um período de transição do agostinismo para o tomismo, quando efervesciam debates teológicos acerca dessas duas vertentes da teologia católica. O dogmatismo religioso era também uma constante. Antes do advento do tomismo, na era dominada pelos preceitos de Santo Agostinho e, por conseqüência, da Escolástica, os textos clássicos em grego eram guardados sob uma rígida censura, e apenas os monges copistas tinham acesso a eles. À medida que a proposta de São Tomás de Aquino ganhava força um anseio pelos clássicos tomava forma. E, evidentemente, conflitos de interesses surgiram, e os em posição de autoridade tendiam a “demonizar” o que queriam manter em total sigilo. O mal era, portanto, uma mera questão de percepção idiossincrásica. Esses conflitos são exemplificados na passagem abaixo, onde se usa um texto da Bíblia para sustentar a posição de que o riso não é de Deus:

 

“Entusiasmado que estava com toda aquela boa comida (depois de alguns dias de viagem em que tínhamos nos alimentado como podíamos), distraíra-me do curso da leitura que no entanto devotamente prosseguia. Fui chamado de volta por um vigoroso grunhido de confirmação de Jorge, e percebi que se estava no ponto em que sempre era lido um capítulo da Regra. Dei-me conta da razão por que Jorge estava tão satisfeito, após tê-lo escutado à tarde. Dizia de fato o leitor: "Imitemos o exemplo do profeta que diz: decidi, vigiarei o meu caminho para não pecar com a minha língua, coloquei uma mordaça na boca, emudeci em humilhação, abstive-me de falar mesmo de coisas honestas. E se nessa passagem o profeta nos ensina que às vezes, por amor ao silêncio, deveríamos nos abster até dos discursos lícitos, tanto mais devemos nos abster dos discursos ilícitos para evitar a pena desse pecado!" E depois prosseguia: "Mas as vulgaridades, asneiras, e as palhaçadas nós as condenamos à reclusão perpétua, em qualquer lugar, e não permitimos que o discípulo abra a boca para fazer discursos de tal feitio." ”

 

O texto bíblico citado é do livro dos Salmos:

 

Vou guardar meu caminho

Para não pecar com a língua;

Vou guardar minha boca com mordaça,

Enquanto o ímpio estiver na minha frente

 

(Salmo 39:1)

 

Coadunado com a estética da época medieval, o romance contém inúmeras intertextualidades.  Autores latinos, gregos, africanos e até árabes são citados. Além desses, a Bíblia é especialmente referenciada. O acima é apenas um exemplo. Um outro caso muito eficaz de uso de passagens bíblicas ocorre no momento em que símbolos misteriosos são descobertos em um papiro, cujo conteúdo foi importante para o rumo dos acontecimentos e para a elucidação dos crimes. Diz o trecho:

 

“Vi claramente que sobre a parte superior da página tinham aparecido alguns signos imprecisos de uma cor amarelo-castanho. Guilherme pegou-­me o lume e o moveu atrás da folha, mantendo a chama bastante próxima da superfície do pergaminho de modo a aquece-la sem queimá-la. Lentamente, como se uma mão invisível estivesse traçando "Mane, Tekel, Fares", vi dese­nharem-se no verso branco da folha, um por um, à medida que Guilherme movia o lume, e enquanto a fumaça que brotava do ápice da chama enegrecia o recto, traços que não pareciam com os de nenhum alfabeto, a não ser com o dos nicromantes.”

A escrita misteriosa que Guilherme e Adso viram foi a seguinte:

 

 

O versículo em apreço, recitado por Adso ao ver a escrita zodiacal acima, é o de Daniel 5:24. Ele trata do momento em que o rei Belsazar, da antiga Babilônia, promoveu um banquete e, em certo momento da festa, mãos brilhantes de seres angelicais surgiram do nada e começaram a escrever uns dizeres misteriosos numa parede. Nesse intertexto o autor demonstra o quanto sabia do momento histórico vivido pela Igreja em 1323. As versões gregas da parte hebraica da Bíblia eram mais valorizadas do que o texto hebraico puro, conhecido como massorético. A Igreja, durante muito tempo, preferia o grego e o latim ao hebraico. Portanto, a versão utilizada pelos monges só poderia ser a versão grega dos Setenta (LXX), ou Septuaginta. Ela diverge nesse versículo do texto hebraico. Enquanto a LXX reza: “Mane, Tekel e Fares” o texto dos massoretas diz: “Mane, mane, Tecel, Parsin”. Literalmente, essas palavras significam: Uma mina, um siclo e meio siclo. São unidades de "peso" utilizadas no antigo comércio.

 

Na narrativa bíblica, depois que a escrita na parede foi decifrada pelo profeta, o rei Belsazar foi destronado e morto por uma coalizão de dois povos - os persas e os medos. Semelhantemente ao que ocorreria na aventura de Adso, sem nunca esperar augúrios em seus “banquetes”, o “rei” do mosteiro chegou subitamente ao fim, após a solução do mistério por parte de Guilherme (ou William, na versão cinematográfica).

 


William de Baskerville, Warner Bros

 

As três palavras hebraicas da parede (Mane, Tekel e Fares), segundo a versão grega, vem das raízes dos verbos “medir”, “pesar” e “dividir”. Desses termos, as seguintes relações semânticas podem ser encontradas, dum ponto de vista semiótico:

 

1) Medir --> Número

2) Pesar --> Balança

3) Dividir --> Divisão

 

No desenrolar dos acontecimentos, tanto na Bíblia como em “O nome da rosa”, esses três semas representam as etapas que sucederam ao fim de uma era. Se não, vejamos:

 

Número (mane): o número de anos em que uma elite dominou chegara ao fim.

Balança (tekel): quem dominava foi julgado e perdeu seu posto de dominação.

Divisão (fares): o “reino” caído foi dividido entre as duas entidades conquistadoras.

 

No caso dos babilônios, dois povos se juntaram, os persas e os medos, e dividiram entre si o despojo da conquista. Em "O nome da rosa", depois que o fanático Jorge, o bibliotecário, foi desmascarado, além de ter perdido a vida, tudo aquilo que tão ferozmente escondera das pessoas - os escritos clássicos proibidos – acabara nas mãos de Guilherme e de Adso (dois indivíduos), que conseguiram salvar vários manuscritos gregos das chamas que consumiam a abadia, no desfecho da estória.

 

Relação entre a narrativa bíblica e a narrativa da obra de Eco:

 

Persas (os líderes) --> Guilherme de Baskerville (o líder)

Medos (os seguidores) --> Adso de Melk (o seguidor)

 

Ainda no caso do relato bíblico, a palavra aramaica para “dividir” possui as mesmas consoantes da palavra hebraica “persas” (nas antigas línguas semíticas apenas as consoantes são escritas, as vogais aparecem somente na fala). Ou seja, trocando as vogais entre si uma palavra pode se transformar na outra, indicando que o reino babilônico seria dividido pelos persas, que eram, de fato, os principais conquistadores, sendo os da Média (uma nação daquela época) de menor importância, que tinha sido conquistada pelos persas, anos antes. Isso lembra exatamente as posições ocupadas por Adso (narrador homodiegético) e Guilherme (personagem protagonista).

 

Uma outra relação de sentidos que pode ser encontrada entre os dois textos é o fato da religião persa, o zoroastrismo, ser marcada predominantemente pela doutrina da luta entre o bem e o mal, justamente a situação vivida por Guilherme de Barkesville, o “persa” de Humberto Eco, em sua batalha contra o mal travestido de bem.

 

 

Conclusão

 

Ao se examinar semioticamente o texto “O nome da rosa”, é natural supor, em última instância, que os conflitos e debates entabulados nesse romance não dizem respeito apenas a assuntos do passado. Hoje em dia, juízos de valores em conflito entre si são uma realidade. Exemplo: A Ciência de um lado, a Religião do outro.

 

O que é o certo e o errado? Quem possui o arcabouço da verdade? O fundamentalismo religioso impede a união dos povos ou mesmo o progresso? O uso de células-tronco embrionárias deve ser evitado? O que determina os limites da ética e da vida? O uso de preservativos deve ser desestimulado em prejuízo da contenção da AIDS? O que as pessoas são capazes de fazer para sustentarem suas opiniões e impô-las?

 

Essas questões são, a bem dizer, “respondidas” na obra de Eco. Tal interpretação é coerente não só com o corpus da obra, mas com a própria história do autor. Já em 1965, ao escrever “Apocalípticos e integrados”, discorreu sobre os antagonismos existentes entre os que defendem e os que são contra a cultura de massa como expressão da arte.

 

Em “O nome da rosa”, o responsável pelas mortes do mosteiro era o monge mais piedoso e respeitado da ordem. Na mente dele, os fins mais que justificavam os meios. Ele e outros de mentalidade dogmática se satisfaziam com o “bode espiatório” encontrado pelo enviado do Papa, e não queriam que o erro fosse verdadeiramente exposto. Se não fosse o brilhante senso investigativo do frei franciscano Guilherme de Baskerville, as mortes não teriam sido elucidadas e a mentira tinha permanecido (ainda que a verdade tenha ficado oculta até Adso de Melk usar a sua pena para divulgá-la).

 

 

Bibliografia

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