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SEOL, OU HADES, E CONCEITOS RELACIONADOS

 

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Publicações teológicas geralmente afirmam que a punição dos maus será o sofrimento eterno num "inferno de fogo", e chamam de "aniquilacionistas" os que repudiam tal ensino e não acreditam na imortalidade da alma. O conceito que utilizei no tema acima é uma definição mais restrita, que se refere apenas à crença de que a pessoa deixa de existir por completo quando morre, não havendo, portanto, uma alma espiritual que sobrevive à morte do corpo físico, ficando a pessoa fiel na dependência de ser "recriada" por Deus.

 

Seol é a palavra hebraica usada no Antigo Testamento para se referir ao mundo dos mortos. O equivalente na língua grega, que aparece no Novo Testamento, é Hades.

 

A Bíblia nunca diz que o corpo de quem morre vai para o Seol. Apenas a alma vai para lá. Se o Seol fosse a “sepultura comum da humanidade”, como querem as “Testemunhas de Jeová”, essa distinção não faria sentido, pois nas sepulturas só há corpos mortos e não almas. Na Bíblia, a palavra "alma" tem a ver com vida e não com morte, não obstante ela ir para o Seol somente depois que a pessoa morre. Ao se dizer que a alma fica no Seol é uma indicação que ela não desaparece após a morte do corpo físico. – Salmo 30:3, 49:15; Mateus 10:28.

 

O Antigo Testamento tem outras palavras para se referir ao lugar onde ficam os corpos dos que morrem. Uma delas é qever, que significa túmulo ou sepulcro. Diz o teólogo Esequias Soares: “A Bíblia fala de pessoas que tinham sepulcros, qever (Gn 50.5; 1 Rs 13.30; etc), mas nunca encontramos nela que alguém fosse proprietário do sheol.... A Bíblia nunca fala que alguém preparou um sheol como sepulcro para um morto”. – Como Responder às Testemunhas de Jeová, Comentário Exegético e Explicativo (1995), vol. 1, p. 244.

 

Não há ocorrências de almas indo para o qever, mas apenas para o Seol. E, diferentemente de qever, a palavra Seol nunca aparece no plural, indicando que é um mundo à parte. Além de qever, existem as palavras qevurah (sepultura) e gadish (cemitério).

 

Da mesma maneira, o Novo Testamento menciona um lugar específico para onde a alma vai, que é o Hades (Atos 2:27). E a língua grega também tem palavras exclusivas para se referir ao lugar para onde vão os corpos dos que morrem. Uma delas é mnemeion. Não há menção de almas no mnemeion. E existe também a palavra tafós, que significa sepulcro.

 

Igualmente importante, se o uso da palavra “Hades” no Novo Testamento for contextualizado historicamente, observar-se-á que as pessoas daquele tempo, no mundo greco-romano, já tinham um conceito prévio sobre o que significa o “Hades”. Na mente delas, Hades era o lugar para onde vão almas de pessoas que morrem. Naturalmente, tal crença ocorria dentro do contexto mitológico em que acreditavam (O deus que cuidava desse mundo levava o mesmo nome – Hades). Os escritores cristãos se apropriaram dessa palavra para traduzir o “Seol” das Escrituras Hebraicas, seguindo o costume da Septuaginta (LXX). Então, quando um leitor grego se deparava com a palavra "hades" no Novo Testamento, ele já sabia perfeitamente o significado popular dela. Mas os escritores bíblicos não fizeram nenhuma ressalva, para explicar que a palavra estaria sendo usada num sentido particular que refletisse quiçá o pensamento aniquilacionista.

 

Alguns tradutores da Bíblia vertem Hades ou Seol por “Inferno”, quando estes se referem aos ímpios que morrem. Às vezes, traduzem também Seol por “cova” ou “sepultura”, mesmo sabendo que não é isso o que aparece no original e que o hebraico possui palavras próprias para se referir a tais lugares. Talvez isto aconteça porque o conceito de “Seol” está intimamente relacionado à sepultura, por esta ser a “porta de entrada” para o mundo dos mortos, por assim dizer, conforme mencionou o salmista certa vez:

 

“Nossos ossos foram espalhados junto à boca do Seol”. – Salmos 141:7.

 

Mas, de acordo com o Antigo Testamento, o Seol fica num lugar mais profundo e inacessível, muito abaixo de sua “boca” (sepultura). Segundo um texto de Amós, Deus se referiu ao Seol da seguinte maneira, ao falar de pessoas que ele encontraria e puniria:

 

“[Deus disse:] Se cavarem até o Seol, de lá os tirará a minha própria mão; e se subirem aos céus, de lá os farei descer”. – Amós 9:2, colchetes acrescentados.

 

Tendo em mente essa localização “geográfica”* do Seol é que se entende o motivo de Saul ter pedido à necromante que fizesse o espírito de Samuel “subir”. (1 Samuel 28:8). Esse episódio também serve para mostrar que, no entendimento de Saul e seus companheiros israelitas, não era necessário ir até onde o corpo de Samuel estava enterrado para fazê-lo “subir”, indicando assim que o Seol fica num lugar diferente da sepultura, muito mais abaixo, no “coração da terra”. – Mateus 12:40; Atos 2:27.

 

* Há quem pense que essa localização do Seol é apenas uma descrição que reflete a antiga concepção hebraica do termo, e que ele pode não ser na Terra, mas sim em outro lugar.

 

A passagem acima de Amós reflete justamente esse conceito de “profundidade” e inacessibilidade. O que Amós escreveu é uma hipérbole, pois nenhum daqueles inimigos de Deus podia alcançar os céus. E mesmo se alcançassem, Deus os encontraria e os faria descer de lá. O mesmo raciocínio se aplica ao Seol. Mesmo que eles conseguissem, ainda vivos, chegar até lá, para se esconderem, Deus os acharia e os traria de volta. Essa comparação em Amós não faria sentido se o Seol não fosse tão real e inalcançável quanto o céu. Portanto, o Seol não é apenas um sepulcro ou um buraco cavado no chão, onde qualquer pessoa pode localizar um condenado fugitivo.

 

A mesma ideia é apresentada nos versículos a seguir:

 

“E Jeová prosseguiu falando mais a Acaz, dizendo: ‘Pede para ti um sinal da parte de Jeová, teu Deus, fazendo-o tão profundo como o Seol ou fazendo-o tão alto como as regiões superiores”. – Isaías 7:10, 11.

 

“E tu, Cafarnaum, serás por acaso enaltecida ao céu? Até o Hades descerás; porque, se as obras poderosas que ocorreram em ti tivessem ocorrido em Sodoma, ela teria permanecido até o dia de hoje”. – Mateus 11:23.

 

Mesmo inalcançável aos humanos, Deus pode trazer de volta do Seol a quem Ele quiser:

 

“Tua justiça chega às alturas, ó Deus... Tu, que me fizeste passar muitas e duras tribulações, restaurarás a minha vida, e das profundezas da terra de novo me farás subir”. – Salmos 71:19, 20, NVI.

 

“Quem dera que me escondesses no Seol, que me mantivesses secreto até que a tua ira recuasse, que me fixasses um limite de tempo e te lembrasses de mim!.... Tu chamarás e eu mesmo te responderei. Terás saudades do trabalho das tuas mãos”. – Jó 14:13, 15.

 

“No entanto, o próprio Deus remirá a minha alma da mão do Seol, pois ele me receberá”. – Salmo 49:15.

 

 

Um mundo espiritual

 

Que o mundo dos mortos (Seol / Hades) é mesmo um lugar de natureza espiritual pode ser inferido da leitura dos textos bíblicos a seguir:

 

“Cercaram-me as cordas da morte e acharam-me as próprias circunstâncias aflitivas do Seol”. – Salmo 116:3.

 

“O rico também morreu e foi sepultado. No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe…. [E Abraão disse ao rico:] entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem”. – Lucas 16:22, 23, 26, NVI, colchetes acrescentados.

 

“Diante dele [de Deus] desnuda-se o Sheol e o abismo apresenta-se sem véu”. – Jó 26:6, TEB, colchetes acrescentados.

 

“O Sheol e o Abismo estão diante do SENHOR, quanto mais o coração dos homens!” – Provérbios 15:11, TEB, compare com Salmo 61:6, 7.

 

Observação: Em Provérbios 15:11 e em Jó 26:6, a Tradução do Novo Mundo traduziu a palavra hebraica abadon por “lugar de destruição”, porém o significado literal dela é mesmo “Abismo”, um lugar relacionado ao Seol, que também é mencionado na literatura judaica extra-bíblica.

 

Assim como não é possível saber o que as pessoas têm no coração (isto é, seus pensamentos), da mesma maneira não se sabe o que acontece no mundo dos mortos, pois a Bíblia fala pouco sobre ele. No entanto, com Deus não é assim. Ele conhece tanto os pensamentos dos homens, quanto o que transcorre no Seol. Se este fosse meramente uma sepultura ou o símbolo da inexistência o texto acima perderia o sentido, pois todos sabem o que há numa sepultura. A versão parafraseada abaixo possui exatamente esse conceito:

 

“Se o Senhor sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos, como poderá alguém esconder dele os seus pensamentos?” – Provérbios 15:1, A Bíblia na Linguagem de Hoje.

 

“Jesus lhe perguntou [ao espírito impuro]: ‘Qual é o seu nome?’ ‘Legião’, respondeu ele; porque muitos demônios haviam entrado nele [no endemoninhado]. E imploravam-lhe que não os mandasse para o Abismo. Uma grande manada de porcos estava pastando na colina. Os demônios imploraram a Jesus que lhe permitisse entrar neles, e Jesus lhes deu permissão”. – Lucas 8:30-32, NVI, colchetes acrescentados.

 

Sobre o Abismo mencionado em Lucas 8:31 a New American Bible diz o seguinte:

 

Abismo: o lugar dos mortos (Rom 10:7) ou a prisão de Satanás (Rev 20:3) ou as águas profundas subterrâneas que simbolizam o caos antes da ordem imposta pela criação (Gn 1:2)”.

 

“ ‘Quem subirá aos céus?’ (isto é, para fazer Cristo descer) ou ‘Quem descerá ao abismo?’ (isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos)”. – Romanos 10:7.

 

“[A praga dos gafanhotos] têm sobre si um rei, o anjo do abismo. Seu nome, em hebraico, é Abadon, mas em grego ele tem o nome de Apolion… Mas os demais homens que não foram mortos por estas pragas não se arrependeram das obras das suas mãos”. – Apocalipse 9:11, 20, colchetes acrescentados.

 

“E eu vi descer do céu um anjo com a chave do abismo e uma grande cadeia na mão. E ele se apoderou do dragão, a serpente original, que é o Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos. E lançou-o no abismo, e fechou e selou este sobre ele, para que não mais desencaminhasse as nações até que tivessem terminado os mil anos”. – Apocalipse 20:1-3.

 

Por fim, ainda existe outro lugar mencionado uma única vez na Bíblia, onde espíritos (desta feita anjos rebeldes) são aprisionados. É o Tártaro, mencionado em uma carta de Pedro:

 

“Certamente, se Deus não se refreou de punir os anjos que pecaram, mas, lançando-os no Tártaro, entregou-os a covas de profunda escuridão, reservando-os para o julgamento”. – 2 Pedro 2:4.

 

Da mesma maneira que o Abismo, o Tártaro também é mencionado na literatura judaica extra-bíblica. E não só nesta, mas também em obras gregas. Sobre isso diz um apêndice da Tradução do Novo Mundo (TNM):

 

“Na Ilíada, do antigo poeta Homero, a palavra tár•ta•ros denota uma prisão subterrânea tanto abaixo do Hades, como a terra está abaixo do céu. Os detidos nele não eram almas humanas, mas os deuses inferiores, espíritos, a saber, Cronos e os outros titãs que se haviam rebelado contra Zeus (Júpiter). Era a prisão estabelecida pelos deuses míticos para os espíritos que haviam expulsado das regiões celestiais, e encontrava-se abaixo do Hades, no qual se pensava que as almas humanas eram confinadas na morte”. – Apêndice 4 D, p. 1515.

 

Na verdade, para os editores da TNM (que pertencem à religião “Testemunhas de Jeová”) o Tártaro não existe de fato. É apenas a representação de algo. O supracitado apêndice continua:

 

“O uso que Pedro faz do verbo tar•ta•ró•o, ‘lançar no Tártaro’, não significa que ‘os anjos que pecaram’ tenham sido lançados no mitológico Tártaro pagão, mas que eles foram rebaixados pelo Deus Altíssimo do lugar celestial que ocupavam e dos seus privilégios ali, e foram entregues a uma condição de mais profunda escuridão mental quanto aos luminosos propósitos de Deus. Tinham também apenas uma perspectiva lúgubre quanto ao que finalmente lhes iria acontecer, que, segundo mostram as Escrituras, é a destruição eterna, junto com seu governante, Satanás, o Diabo. Portanto, o Tártaro denota a condição mais inferior de rebaixamento desses anjos rebeldes”, negrito acrescentado.

 

Ou seja, a Bíblia afirma categoricamente que os anjos foram lançados em um lugar chamado Tártaro, porém os editores da TNM dizem que eles não foram. Mas que Pedro estaria usando de um simbolismo, sendo o “tártaro”, na verdade, uma “profunda escuridão mental quanto aos luminosos propósitos de Deus”...

 

Isto rompe completamente com o conceito universalmente atribuído ao termo no mundo antigo, do qual o mundo bíblico fazia parte. É claramente uma aplicação anacrônica e uma interpretação arbitrária. E eles ainda descrevem a situação em termos tais que se alguém acreditar que o Tártaro é um lugar literal estará crendo em um “mito pagão”. Como se não tivesse sido o próprio apóstolo Pedro que se apropriou de uma palavra de conhecimento popular para descrever o que aconteceu a certos anjos rebeldes.

 

A visão que os editores da TNM apresentam do Abismo e do Seol beira também a um mero simbolismo. Basta perguntar a qualquer “Testemunha de Jeová” onde fica o Seol que, no máximo, a resposta que dará é que ele fica na sepultura ou é a “sepultura comum da humanidade”, definição que não existe na Bíblia. Para elas, nem mesmo a alma fica no Seol depois da morte do homem, pois, segundo dizem, quando o corpo humano deixa de funcionar e morre a alma também morre, devido ao entendimento errado que elas têm de Ezequiel 18:4. A consequencia lógica de tal ponto de vista é que o Seol apenas representa a morte que um dia atinge a todos. De fato, para os escritores da Torre de Vigia a “alma” é como se fosse apenas uma gravação de TV:

 

“Acha difícil de acreditar na idéia duma ressurreição? Contudo, pode ver agora mesmo, nos programas de televisão, pessoas que já faleceram há muito tempo.... Se o mero homem pode preservar tais coisas em gravações de televisão, não deve ser difícil para o Deus Todo-sábio reter na memória a impressão detalhada da personalidade e das características de cada humano individual que desejaria recriar.... As pessoas poderão assim viver para sempre!" – Existe um Deus que se importa?, Torre de Vigia, p. 27.

 

É natural que os editores da TNM não admitam claramente que o entendimento deles sobre Seol e alma é realmente este (um simbolismo), pois se assim o fizessem não só iriam contradizer todos os versículos anteriormente mencionados (ref. a alma no Seol), como não encontrariam nenhum tipo de apoio em obras teológicas. Deixando a “porta entreaberta” ainda conseguem encontrar alguma coisa que faça lembrar o conceito que inventaram, de que o Seol é a sepultura comum da humanidade. Leia abaixo um exemplo:

 

“Samuel Pike, em A Compendious Hebrew Lexicon (Léxico Compendioso do Hebraico), declara que [Seol] é ‘o receptáculo comum ou região dos mortos; chamado assim por causa da insaciabilidade da sepultura, a qual como que sempre pede ou quer mais’. (Cambridge, 1811, p. 148) Isto indica que o Seol é o lugar (não uma condição) que pede ou exige todos sem distinção, porque recebe em si os mortos da humanidade”. – Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 3, p. 575, colchetes acrescentados.

 

 

Na concepção dos antigos hebreus o Seol fica nas profundezas da Terra

 

 

Você já foi até as nascentes do mar, ou já passeou pelas obscuras profundezas do abismo? As portas da morte lhe foram mostradas? Você viu as portas das densas trevas? – Jó 38:16, 17, NVI.

 

Por isso é que foi dito: “Quando ele [Jesus] subiu em triunfo às alturas, levou cativo muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. (Que significa “ele subiu”, senão que também havia descido às profundezas da terra?”). – Efésios 4:8, 9, NVI.

 

Quem descerá ao abismo? (isto é, para fazer Cristo subir dentre os mortos). – Romanos 10:7, NVI.

 

 

CRÉDITO DA IMAGEM:

 

- O Mundo dos Hebreus: gravura que aparece na Bíblia Vozes (1995), p. 28.

 

 

 

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