english

português

 

HÁ CRISTÃOS QUE BASEIAM SUAS CRENÇAS SOMENTE NA BÍBLIA?

 

artigos

Tenho um amigo que pertenceu à religião das “Testemunhas de Jeová” (TJs) e depois que saiu manteve o conceito aniquilacionista de vida eterna adotado por elas. Por mais de uma vez ele me escreveu emails tentando provar que o aniquilacionismo é o conceito correto e que os primeiros cristãos o teriam professado. Em conversas que tivemos recentemente mostrei para ele que não há base sólida para essa conclusão.


Abaixo está o último email que enviei para ele, em 21/01/15. Não publicarei os demais emails pois acho que não há necessidade. A maior parte do que foi falado neles já está comentada em textos aqui disponíveis. Mas a conclusão abaixo tem um enfoque adicional, que vale a pena ser considerado.

 

Email enviado:

 

Olá XXXXXX,


Não comentarei agora as suas últimas considerações porque não estou com o tempo necessário. Porém, guardarei todas elas para que possamos retomar a conversa no futuro, se for possível. Até lá, recomendo que leia o que está nos links abaixo:


Seol, ou Hades, e conceitos relacionados


Manuscritos judaicos pré-cristãos


Neles há exemplos da presença de elementos gregos e judaicos no Novo Testamento. Se quiser ampliar a pesquisa, há muitos livros sobre a história dos primeiros cristãos, que demonstram até que ponto os pensamentos grego e judaico estavam dentro do pensamento cristão. Já li alguns. Cito aqui um deles, o “Cristianismo Primitivo e Paidea Grega”, de Werner Jaeger. É um bom livro. Ele foi publicado em Portugal. Se você não encontrar na www.estantevirtual.com.br, deve encontrá-lo na própria editora portuguesa (www.edicoes70.pt). Abaixo um trecho dele, referente ao nascimento e desenvolvimento do Cristianismo:

“Desde o despertar da consciência histórica moderna, na segunda metade do século XVIII, que os estudiosos teológicos estão cientes, ao analisar e descrever o grande processo histórico que teve início com o nascimento da nova religião, de que, entre o fatores que determinaram a forma final da tradição cristã, a civilização grega exerceu profunda influência na mente cristã.” – p. 14, 1ª edição.

É muito difícil um grupo estar dentro de um contexto histórico e não ser influenciado por ele. Tome o exemplo de Charles Taze Russell e o contato que manteve com os adventistas do século 19. Não fosse essa interação as TJs não seriam o que são hoje, com toda aquela preocupação com datas e expectativas para o fim do mundo. Elas aprenderam esse negócio com os adventistas associados a Nelson Barbour. Ironicamente, talvez a maioria das TJs não tenha consciência das origens desse pensamento que hoje tanto prezam. Na mente delas é um conhecimento “baseado na Bíblia”, mesmo a Torre de Vigia já tendo admitido o referido fato histórico (de uma maneira bem tendenciosa, é verdade).

Algo semelhante acontece quando a conversa é sobre o Novo Testamento. Hoje ele existe todo prontinho e devidamente organizado. Por isso muitas pessoas têm a ingênua ideia, inconscientemente até, de que ele surgiu assim de repente, feito um gênio que sai de uma lâmpada mágica, num estampido cheio de fumaça. Mas a verdade é que, mesmo sendo conduzidos pelo Espírito Santo, os escritores cristãos também leram manuscritos então disponíveis que influenciaram uma parte do que está nos livros do cânon hoje aceito. Não aceitar esse fato é acreditar no gênio da lâmpada. Os cristãos que pensam dessa maneira o fazem por pura ignorância. Até certo ponto eles não têm culpa, pois não foram apresentados a esse mundo novo de conhecimentos. No entanto, acabei de apresentá-lo a você nas últimas conversas. Você agora não tem mais desculpa para continuar trilhando esse confortável caminho da ignorância “esclarecida”, neste ponto específico (história do cristianismo primitivo).

Não estou dizendo aqui que o Cristianismo é mero subproduto do Helenismo. Claro que não é. A origem dele é divina. Há certas informações que só existem no Novo Testamento. Porém, houve uma simbiose naquilo que não era incompatível. É óbvio que certas coisas do helenismo jamais seriam adotadas pelo Cristianismo, a exemplo do politeísmo e do culto ao imperador. Por rejeitarem tais costumes muitos pereceram em espetáculos gladiatórios. Tais pomos de discórdia, porém, estão devidamente registrados nas fontes históricas disponíveis. Até onde eu sei, não há nada dentre elas sobre divergências no conceito de vida espiritual após a morte. Tanto os gregos quanto os cristãos acreditavam que as almas dos que morrem vão para o Hades, mas seus corpos físicos ficam na sepultura. Essa crença já existia no mundo helenístico antes do primeiro século***. Quando os cristãos surgiram ela foi imediatamente adotada por eles, pois estava de acordo com o conceito sobre o Seol ensinado na religião judaica. Naturalmente, os cristãos rejeitaram a parte que dizia que no Hades havia um deus de mesmo nome que era o senhor daquele mundo.

*** Os especialistas em história costumam dividir aquele período em dois momentos: o helênico e o helenístico. Este último começou a partir das conquistas de Alexandre, o Grande. Logo, os cristãos apareceram na fase helenística.

Você não aprenderá essas coisas lendo apenas a Bíblia. Portanto, quando a pessoa afirma de modo solene que baseia toda sua crença “apenas na Bíblia” está, na verdade, fazendo um voto de ignorância. Isto porque em seus tratos sociais ela não limitará suas conversas apenas a temas bíblicos. Por vezes fará incursões em outras áreas de conhecimento na tentativa de convencer potenciais discípulos, ou apenas para demonstrar o quanto é esclarecida. Mas o tiro poderá sair pela culatra, pois, ao invés de parecer sábia aos seus interlocutores, talvez venha a fazer papel de asno. Tudo porque baseia seu conhecimento “apenas na Bíblia”. Cristãos fundamentalistas mais “esclarecidos” até tentam contornar esse problema, mas veja o que acontece lendo neste link um exemplo. Felizmente, essa realidade não terá implicações para a esperança de vida eterna, porque o que é preciso saber para obtê-la está escrito de maneira completa no Novo Testamento***. Mas em outros assuntos o mesmo não acontece.

*** Um detalhe que muitos não se dão conta é que admitindo-se que apenas os livros bíblicos são inspirados por Deus, significa dizer também que aqueles que decidiram por os elevarem a essa condição também foram inspirados por Deus. Quem foram esses? Líderes religiosos proeminentes do Judaísmo e do Catolicismo, no mundo antigo. Nos dois casos houve debates até chegarem a um acordo sobre quais livros entrariam, e quais ficariam de fora.

Se a Bíblia fosse tratar de tudo que é possível relacionado a seu tema ela teria de ter milhares de livros, ao invés de 66 (ou 72, conforme a versão católica). Quem quiser ficar exímio conhecedor de determinados assuntos de interesse para a religião cristã precisa pesquisar fontes não bíblicas. É isso o que a Torre de Vigia* tenta fazer quando busca nas fontes históricas datas seculares para servir de referência para sua “cronologia bíblica”. A diferença é que no caso dela isso amplia a ignorância ao invés de extingui-la. Por que isso acontece? Porque para seus dirigentes é mais importante o preconceito de que são os únicos arautos autorizados por Deus para anunciar o fim do mundo. Este já é outro problema. Também não adianta pesquisar fontes extra-bíblicas apenas com o intuito de ver confirmadas as próprias crenças. O estudo deve ser completamente desarmado e sem expectativas. Caso contrário, o pesquisador pode se tornar o epítome da teimosia e do orgulho.

 

* Entidade jurídica que coordena as atividades das "Testemunhas de Jeová".

 

Há outra atitude muito importante relacionada a tudo o que conversamos. Quando alguém observa dois lados que divergem sobre determinado ponto, é preciso analisar ambos os polos da discussão nas publicações oficiais de cada um deles. Uma aplicação prática desse princípio é quando um grupo Y diz que determinado conceito do grupo X está errado. Não adianta os apoiadores do grupo X procurarem conhecer as ideias do grupo Y lendo somente informações sobre ele publicadas pelo grupo X. É praticamente impossível o grupo X discorrer de maneira imparcial sobre os argumentos propostos pelo grupo Y.


O verdadeiro pesquisador compara os dois lados de uma questão diretamente nas fontes chanceladas por eles. Além disso, nenhum grupo deveria classificar ou insinuar que certas fontes são “proibidas”, e não devem ser lidas. Isto apenas realimenta a desinformação. A decisão sobre o que estudar ou não deve ser individual, e não fruto de uma "consciência coletiva", imposta por uma autoridade religiosa. É preciso ter isso em mente especialmente quando se pretende ampliar a discussão para além do Cristianismo histórico e adentrar no Espiritualismo.

 

As pessoas que levantam essa bandeira do “eu me baseio apenas na Bíblia” geralmente não percebem que, na realidade, elas não fazem isso, pelo menos não sempre. O que é inevitável, pois é assim que as coisas funcionam no mundo real. Sempre haverá referências externas que influenciarão de algum maneira o conhecimento “baseado na Bíblia”. E tais influências não se limitam a livros e outras fontes. Os preconceitos de cada pessoa também contribuem para moldar suas crenças “bíblicas”. Considere um exemplo que você conhece muito bem: o seu próprio. Você acha que a transfiguração foi apenas uma encenação e que dois anjos é que devem ter conversando com Jesus naquela ocasião. No entanto, a Bíblia diz que eram Moisés e Elias. Veja bem. Ela não dá a entender que talvez fossem eles, ou que os apóstolos é que chegaram erroneamente a essa conclusão. O autor do relato afirma categoricamente que eram Moisés e Elias conversando com o Filho de Deus. O que leva você a pensar diferente? O conceito prévio do aniquilacionimo que você aprendeu com as TJs. Da minha parte, eu prefiro acreditar no que está na Bíblia e não em conjecturas sobre esse evento. Se ela informa que eram Moisés e Elias, então eram eles mesmos.

É isso. Encerro aqui, desejando-lhe que reflita bastante sobre o que eu falei acima. Seria preciso um artigo mais bem elaborado para tratar esse assunto da maneira que ele merece. No entanto, o que escrevi aqui já é um bom começo.

Um abraço!

 

Adelmo

 

P.S.:


Visto que em um de seus comentários você quis enfraquecer o exemplo que mencionei sobre a viagem de Paulo ao terceiro céu, por dizer que ele foi apenas para onde estão os anjos, acrescentei no artigo o trecho abaixo:


O lugar para onde o apóstolo Paulo foi transportado em visão deve ser o mesmo para onde irão os espíritos dos justos, mencionado pelo próprio Paulo na carta aos hebreus:


“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontável hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. – Hebreus 12:22-24, Almeida.


Conforme se vê, os espíritos que lá estão não são apenas os anjos, mas também os justos que foram aperfeiçoados, conforme Jesus disse que aconteceria:


“Mas, eu vos digo que muitos virão das regiões orientais e das regiões ocidentais e se recostarão à mesa junto com Abraão, Isaque e Jacó, no reino dos céus”. – Mateus 8:11.

 

 

 

voltar