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O VERDADEIRO CONTEÚDO DAS ADVERTÊNCIAS APOSTÓLICAS SOBRE FALSOS ENSINOS

 

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Sumário

 

Introdução

 

Alegações não comprovadas

 

Sobre o que realmente os cristãos foram alertados

 

1. A grande apostasia a ocorrer antes do dia do Senhor (2 Tessalonicenses 2:3-9)

 

2. Lobos opressivos disfarçados de mestres (Atos 20:29, 30)

 

3. Filosofias vãs e os princípios elementares do mundo (Colossenses 2:8)

 

4. Heresias destruidoras e histórias inventadas (2 Pedro 2:1-3)

 

5. Os anticristos e o Anticristo (1 João 2:18, 19, 26; 2 João 7)

 

6. Falsos mestres e seus ensinamentos errôneos (1 Timóteo 4:1-4; 6:20, 21)

 

7. As heresias tinham mesmo que acontecer entre os cristãos (1 Coríntios 11:18, 19)

 

O que disseram os sucessores dos apóstolos

 

Conclusão

 

 

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Introdução

 

Com a multiplicação de denominações religiosas consideradas heréticas pelos cristãos tradicionais, é natural que os líderes de tais movimentos procurem na Bíblia determinados textos que sirvam de base para suas crenças. Mas além dessa busca por evidências diretas, tais pessoas também procuram extrair de alguns versículos informações que não estão explicitamente apresentadas neles. Esse esforço está particularmente ligado a entendimentos peculiares de religiões recentes, que nunca foram ensinados no Cristianismo histórico. Um exemplo de tais textos é o seguinte aviso do apóstolo Paulo:

 

“Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos”. – Atos 20:29, 30.

 

Alertas a exemplo do acima são frequentemente utilizados como argumento coringa para acomodar qualquer tipo de interpretação que tenha por objetivo contradizer ensinos consagrados do Cristianismo, e afirmar que os mesmos são deturpações do que realmente era crido na era apostólica. E tal estratégia ainda tem a vantagem de servir como panaceia para todos os males e contradições dessas novas denominações. Convenientemente, os que fazem uso desse procedimento se apresentam como verdadeiros restauradores da verdade e, não raro, os únicos cristãos genuínos. Dizem que os demais não compreendem a Bíblia corretamente porque suas igrejas são resultado direto da ampla apostasia predita pelos apóstolos, que teria corrompido o Cristianismo já em sua infância.

 

Um exemplo notório é o da Torre de Vigia, entidade dirigente das “Testemunhas de Jeová” (TJ), pois ela se vale das referidas passagens bíblicas com a finalidade de dar uma “explicação” adicional da razão dos “falsos cristãos” comemorarem aniversários natalícios, aceitarem transfusões de sangue, não rejeitarem a Trindade, o inferno de fogo e a imortalidade da alma, dentre outras coisas. De acordo com a religião TJ, tudo isso faz parte das falsas crenças e comportamentos inadequados da “Cristandade”, termo sempre usado com sentido pejorativo nas publicações da Torre de Vigia, uma vez que a Cristandade seria a materialização da desobediência às advertências proféticas dos apóstolos.

 

Mas será que isso é mesmo verdade? Teriam tais versículos bíblicos tão ampla gama de aplicações como querem religiosos a exemplo das testemunhas “de” Jeová? Essas perguntas serão aqui respondidas tendo como foco apenas um dos supostos falsos ensinos: a imortalidade da alma.

 

Entenda-se “imortalidade da alma” como sendo apenas o conceito de que o homem possui uma alma invisível que sobrevive à morte do corpo e fica aguardando em algum lugar, de maneira consciente, a ressurreição física, ocasião em que será reunida novamente ao corpo. Ou seja, não se refere ao conceito grego, segundo o qual a alma odeia o corpo e a morte depois da última encarnação implica na libertação definitiva da alma, selando assim sua existência na eternidade, que será de maneira incorpórea, esvoaçando no universo feito uma borboleta ou na forma de uma esfera. Em oposição a esses dois conceitos, há os que dizem que o homem é apenas uma máquina biológica e ele deixa de existir completamente depois que a máquina deixa de funcionar devido à morte. Os que “cristianizaram” esta ideia e a “trouxeram” para dentro da Bíblia geralmente são chamados de aniquilacionistas, termo que seria o oposto de imortalistas.

 

Alegações não comprovadas

 

Há um escritor que já pertenceu à religião TJ que advoga sem reservas a teoria de que a crença na imortalidade da alma é um dos falsos ensinos que foram introduzidos sorrateiramente na congregação cristã primitiva, e para “provar” isso faz uso dos mesmos textos que as TJs utilizam com semelhante intuito. Ele mantém um site na Internet onde escreve a favor dessa suposição. Ele também é autor de um grande “elefante branco” que busca alcançar tal objetivo, um texto onde cita dezenas de publicações teológicas que supostamente apoiariam a tese que defende. Mas, infelizmente (para ele), é um uso inadequado dessas referências bibliográficas. Caso queira se inteirar mais a respeito, leia a consideração abaixo:

 

Obras Eruditas sobre a Bíblia Apoiam o Aniquilacionismo? – Um Caso de Mau Uso Bibliográfico

 

Pois bem, o referido autor, a quem chamarei apenas de “autor do MB”, tendo em mente a crença na imortalidade da alma entre os antigos cristãos, disse* o seguinte:

 

“Ensinos falsos provenientes de homens voluntariosos e arrogantes começou muito cedo na história da igreja. Não foi, de jeito, nenhum no tempo de Agostinho de Hipona, lá pelo quarto e quinto séculos. Pelo contrário, conforme se pode ver na citação que incluímos da Enciclopédia Católica (para a qual remetemos o leitor), ‘a grande maioria dos filósofos cristãos até S. Agostinho era platonista.’.”

 

* Depois que viu este meu texto publicado, o autor do MB alterou algumas coisas do que antes havia dito, obviamente motivado pelos erros que eu apontei, quer para suavizar suas declarações, quer para tentar se esquivar dos inconvenientes que antes não havia notado. Por exemplo, a nota supracitada não está mais conforme eu citei acima. Agora ela diz assim: “O trecho que citamos desta obra erudita constitui um testemunho adicional de que a corrupção interna do cristianismo, decorrente de sua mistura com o platonismo começou muito cedo na história da igreja. Não foi, de jeito nenhum, no tempo de Agostinho de Hipona, lá pelo quarto e quinto séculos. Pelo contrário, conforme se pode ver na citação que incluímos da Enciclopédia Católica (para a qual remetemos o leitor), ‘a grande maioria dos filósofos cristãos até S. Agostinho era platonista’.”. Se o autor do MB continuar assim ele ainda vai alterar diversas de suas afirmações, à medida que se inteirar melhor do que eu escrevi, pois as incoerências que ele apresenta não são poucas. Terá que “maquiar” melhor alguns argumentos. Inclusive há outras inconsistências nessa mesmíssima nota, quando ele insinua que os primeiros “pais da igreja” eram defensores do platonismo e cita textos bíblicos para corroborar essa teoria, que é totalmente infundada, pois, conforme será visto até o final desta consideração, os primeiros autores cristãos foram francos antagonistas do platonismo e os versículos bíblicos a que o autor do MB se referiu são citações completamente inadequadas para a suposição defendida por ele.

 

O motivo dele afirmar que tal evento não teria acontecido somente no tempo de Agostinho é porque algumas das referências teológicas que ele citou dizem precisamente isso! Ou seja, que foi somente na época de Agostinho que o ensino grego da imortalidade da alma teria entrado na Igreja. (Na verdade, a crença cristã de sobrevivência à morte sempre foi independente e o que a Igreja fez foi apenas utilizar elementos aproveitáveis do pensamento grego, principalmente a linguagem, que foi adaptada à teologia cristã). Adicionalmente, ele menciona o suposto apoio indireto que a Enciclopédia Católica daria ao aniquilacionismo, quando ela afirma que os primeiros escritores cristãos foram filósofos platonistas. O que levaria à conclusão de que eles seriam os responsáveis por levar para dentro da Igreja o conceito de que o homem tem uma alma e que esta não morre. E, como se não bastasse, tais homens ainda eram voluntariosos e arrogantes, combinando assim com a supracitada advertência do apóstolo Paulo referente aos “lobos opressivos”. Falando francamente, tais conclusões são absolutamente tolas. Primeiramente porque a expectativa de sobreviver imediatamente à morte está bem estabelecida no Novo Testamento e não veio de fora de maneira nenhuma:

 

“Eis que eu vos envio como ovelhas no meio de lobos... irmão entregará irmão à morte... O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrado, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma, antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:16, 21, 27, 28, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4, ibid.

 

“Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo.”. – Filipenses 1:21-23, Nova Versão Internacional.

 

Para conferir mais textos bíblicos que ensinam a mesma coisa, consulte o artigo a seguir:

 

O que a Bíblia Realmente Ensina sobre a Morte

 

De modo que os líderes cristãos que apareceram depois dos apóstolos apenas seguiram o mesmo entendimento que já existia desde a época de Cristo, e refletiram isso em seus escritos:

 

“Tomemos os exemplos nobres fornecidos em nossa própria geração... Por inveja e ciúme, as maiores e mais justas colunas [da igreja] foram perseguidas e mortas. Coloquemos diante dos nossos olhos os ilustres apóstolos... Por causa da inveja, Paulo também obteve a recompensa da perseverança... ganhou a ilustre reputação devido à sua fé, tendo ensinado a justiça ao mundo inteiro e chegado ao limite extremo do Ocidente e sofrido o martírio sob os magistrados. Assim foi removido do mundo, e entrou no lugar santo, tendo provado ser um exemplo impressionante de paciência”. – Carta aos Coríntios, Clemente de Roma, cap. 5, c. 98 d.C.

 

Clemente era amigo de Paulo e foi mencionado por ele em uma de suas cartas. Nota-se que Clemente descreveu exatamente a consumação da expectativa sobre a morte que Paulo havia esboçado em sua carta aos Filipenses. Veja mais exemplos:

 

“Eles [os cristãos] estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Eles passam os dias na terra, mas são cidadãos do céu... Eles são mortos e restaurados à vida”. – Carta de Matetes a Diogneto, cap. 20, c. 125 d.C.

 

“Pois, tendo [Policarpo] pacientemente superado o injusto governador, e assim adquirido a coroa da imortalidade, agora, com os apóstolos e todos os justos [no céu], glorificam alegremente a Deus”. – O Martírio de Policarpo, cap. 19, c. 155 d.C.

 

Quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida melhor do que a presente, e celestial, não terrena (desde que permaneçamos perto de Deus e com Deus, livres de toda mudança ou sofrimento na alma, não como carne, ainda que tenhamos carne, mas como espíritos celestiais), ou se cairmos com os demais, uma vida pior e no fogo, porque Deus não nos fez como ovelhas ou animais de carga, uma mera força de trabalho, e para que sejamos perecíveis e aniquilados”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 31, c. 180 d.C.

 

As citações acima foram extraídas do que é comumente chamado de “literatura patrística”, antigos textos cristãos que não entraram no Novo Testamento. Existe uma abundância de referências em tais obras que apontam para o mesmo entendimento de sobrevivência imediata após a morte. Caso queira vê-las, leia o texto abaixo:

 

O que Ensinaram os Escritores Cristãos do Segundo Século?

 

Essa rápida recapitulação demonstra que as pretensões dos aniquilacionistas não têm fundamento. Então, não resta outra alternativa para eles a não ser lançar mão dos referidos versículos bíblicos “coringas” para afirmar que a crença na sobrevivência da alma seria uma falsidade que foi incorporada ao Cristianismo talvez já no primeiro século, e que não faria parte do ensinamento apostólico. Se bem que, ao tentarem fazer isso, eles entram em contradição,* pois geralmente eles também buscam encontrar na literatura patrística dos séculos II e III evidências de que ao menos alguns de seus escritores eram adeptos do aniquilacionismo, também chamado de “condicionalismo”. De qualquer maneira, referindo-se a tais autores antigos, o autor do MB disse em uma nota de sua coletânea de obras teológicas:

 

“Independentemente de qual seja o assunto tratado em cada uma dessas previsões, não há como resistir à verdade, tentando ‘caiar’ o fato (como fazem certos imortalistas) de que a corrupção (e corrupção interna) do cristianismo começou muito cedo na história da Igreja. Não foi 3 ou 4 séculos depois de Cristo. Os apóstolos estavam muito bem apercebidos de tais tendências de deturpar a verdade simples do evangelho já no primeiro século, enquanto eles ainda viviam. Isto só não se enraizou porque o ‘elemento que os detinha’ (os próprios apóstolos, que haviam conhecido pessoalmente Cristo e aprendido a verdade diretamente dele) ainda estava presente lá. A partir do momento em que esses apóstolos originais saíram de cena (devido à morte), o processo de erosão do evangelho ganhou força, livre de restrições. E, o que é mais importante para a presente consideração: as corrupções não se limitaram a qualquer ‘assunto de somenos importância’ no âmbito da fé cristã. De jeito nenhum! Envolveram justamente conceitos fundamentais para a fé, tais como a natureza de Deus, a natureza humana, o relacionamento de Deus com seu Filho e a questão do destino humano após a morte. Foram precisamente estas as doutrinas corrompidas pela invasão dos conceitos filosóficos pagãos e ‘muitos’ caíram em toda essa conversa deturpada de homens influentes. É esta a realidade que havia sido predita pelos apóstolos, e é atestada pelos eruditos cristãos credenciados, que sabem muito bem do que estão falando. Não adianta algum imortalista se fazer de desentendido, resistindo teimosamente a esta evidência para ‘proteger’ suas teorias prediletas”.

 

* E a contradição é ainda mais abrangente. Determinado autor cristão, que era simpatizante do neoplatonismo, disse que a influência de Platão na Igreja se deu a partir do terceiro século, começando com Orígenes até chegar em Agostinho. Com isso em mente, ao mencionar quando o platonismo teria se infiltrado no cristianismo, o autor do MB cita o referido escritor e ainda afirma que ele “identificou com precisão quando foi que isso teve início”. De modo que o autor do MB não se decide no que realmente acredita, sobre se estão errados ou não os eruditos que dizem que não havia platonismo nos primeiros pais da igreja e que o mesmo só influenciou os cristãos posteriormente, no século III em diante. A razão desse descompasso permanente entre o que ele afirma e as fontes que cita é simplesmente porque a suposição apresentada está errada e os autores cotejados não servem para sustentá-la.

 

Perceba quantas coisas estão afirmadas nesse trecho, sem que referências sobre elas sejam mencionadas, a não ser uma parca alusão aos avisos apostólicos e “eruditos cristãos credenciados”. Apenas para destacar, em tal comentário foi afirmado o seguinte:

 

1) Muito cedo em sua história, o Cristianismo sofreu uma corrupção interna, embora não se precise o momento exato.

 

2) Os apóstolos já estavam cientes das tendências internas de se deturpar a verdade simples do evangelho, porém não é especificado em relação a quais ensinos.

 

3) Os elementos que impediam as comportas da apostasia de serem abertas eram os apóstolos, ignorando-se o fato de que eles próprios prepararam pessoas para assumirem o pastoreio das congregações cristãs à medida que eles fossem morrendo. Que “vírus” da mentira teria sido esse que afetou a todos os herdeiros cristãos e não teria escapado nenhum?

 

4) As corrupções internas não se limitaram a apenas assuntos de pouca importância, mas a doutrinas fundamentais da fé. Novamente, não são especificados que ensinamentos seriam esses, a não ser muito genericamente, fazendo parecer que nas advertências apostólicas estava incluída a crença na sobrevivência da alma após a morte. Conforme ficará claro no decorrer desta consideração, nenhum dos textos utilizados traz realmente qualquer referência a esse assunto.

 

5) Consequentemente, a suposta falsa doutrina sobre a alma teria sido implantada no seio das igrejas pelos homens que ficaram encarregados de cuidar delas, pois em sua agenda secreta, o que eles queriam mesmo era promover a filosofia grega e não o ensinamento de Cristo!

 

6) Por fim, os “eruditos cristãos credenciados” apresentariam de modo indelével em suas obras teológicas evidências da alegação acima, e por isso nenhum imortalista pode se fazer de rogado. O que é irônico em tal afirmação é que os próprios especialistas citados, os “que sabem muito bem do que estão falando”, em quase todos os casos são contra o aniquilacionismo. Veja a matéria supramencionada sobre isso, para que não haja nenhuma dúvida.

 

Não há motivos para delongas. A grande verdade é que nenhuma dessas conclusões corresponde à realidade! A não ser, é claro, a segunda, mas sem a abrangência pretendida pelo autor do MB.  

 

E o último ponto, em especial, é fruto de um grande mal entendido referente a quando determinados acadêmicos falam mal da crença na imortalidade da alma. Ao fazerem isso, eles de modo algum estão defendendo o aniquilacionismo, pois todos eles, se tiverem formação ortodoxa, acreditam sim que o homem sobrevive à morte, mesmo que às vezes evitem chamar o ser que sobrevive de “alma”. A crítica deles se concentra apenas no conceito grego da imortalidade da alma, o qual, conforme já mencionado, é bem diferente da ideia cristã de sobrevivência imediata após a morte, principalmente porque não vislumbra uma futura ressurreição física. O único ponto em comum é que tanto os platonistas quanto os cristãos antigos acreditavam que o homem possui uma alma que sobrevive à morte. Devido a isso, na época de Agostinho, quando já não havia perseguições e os pais da igreja podiam se dedicar inteiramente à produção de conhecimento, houve um diálogo do Cristianismo com o platonismo, que resultou em toda a linguagem que foi então utilizada na sistematização teológica da Igreja sobre a natureza humana, que é composta de corpo, alma e espírito.

 

Alguns comentaristas modernos tecem críticas sobre esse encontro das vertentes cristã e platônica, pois, ao contrário do que geralmente os aniquilacionistas pensam, nos 100 anos que se seguiram à morte do último apóstolo os escritores cristãos, mesmo os que foram filósofos platonistas, não demonstraram nenhum interesse de conciliar o Cristianismo com o platonismo. Ao invés disso, teciam fortes críticas contra a filosofia grega, menosprezando-a mesmo. Veja exemplos na última seção deste artigo. Obviamente isso não impedia que ocasionalmente mencionassem algo positivo do pensamento grego, a fim de estabelecer uma base comum na comunicação com os potenciais discípulos pagãos. O apóstolo Paulo também fez isso, conforme se vê em Atos 17:16-32. Nenhum sistema de conhecimento apresenta apenas erros. Sempre há pelo menos alguns acertos. Sendo assim, não há razão para se posicionar radicalmente contra toda a filosofia. É mais sábio usar de critério para selecionar o que for útil e descartar o que não serve.

 

E com respeito aos cinco primeiros pontos, os relacionados às passagens bíblicas “coringas”, eles não passam de conclusões eivadas de preconceito e evidenciam uma profunda ignorância sobre a historiografia cristã da era pós-apostólica. E, como não poderia deixar de ser, é também mais uma ironia, pois, na verdade, os mencionados “eruditos cristãos credenciados”, aqueles “que sabem muito bem do que estão falando”, explicam que os referidos versículos bíblicos utilizados pelas testemunhas “de” Jeová e pelo autor do MB não têm nada a ver com o que estes últimos defendem! Veja isso por si mesmo na próxima seção.

 

Sobre o que realmente os cristãos foram alertados

 

A partir daqui serão comentados os textos bíblicos geralmente citados pelos aniquilacionistas para justificar a conclusão de que a igreja primitiva teria se corrompido com ensinamentos a exemplo da sobrevivência da alma depois da morte. Serão sempre apresentadas duas traduções distintas de cada versículo, sendo que a primeira foi a utilizada pelo autor do MB em seu texto “crítico”, onde os grifos e negritos são dele. Essas marcas que ele fez foram para ressaltar algum detalhe que poderia, quem sabe, apontar na direção pretendida em uma leitura aniquilacionista. Como será notado, esforço completamente insipiente, pois os textos não tratam do tema que ele gostaria que tratassem.

 

O modelo de apresentação é assim: além das citações e de breves comentários, serão apresentadas as considerações de três obras eruditas que discorrem sobre cada uma das passagens citadas, exceto à do primeiro texto, onde foram citadas quatro obras. Ressalte-se que outros comentaristas também poderiam ter sido citados, pois existem várias referências bibliográficas que dão explicações semelhantes. Porém as que estão a seguir apresentadas parecem ser suficientes para esclarecer o assunto coerentemente.  

 

Por fim, os destaques em azul não são dos autores citados e são usados aqui com o objetivo de realçar determinadas informações importantes.

 

1. A grande apostasia a ocorrer antes do dia do Senhor (2 Tessalonicenses 2:3-9)

 

“Não deixem que ninguém os engane de modo algum. Antes daquele dia virá a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da perdição. Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, a ponto de se assentar no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus. Não se lembram de que quando eu ainda estava com vocês costumava lhes falar essas coisas? E agora vocês sabem o que o está detendo, para que ele seja revelado no seu devido tempo. A verdade é que o mistério da iniqüidade já está em ação, restando apenas que seja afastado aquele que agora o detém. Então será revelado o perverso, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá pela manifestação de sua vinda. A vinda desse perverso é segundo a ação de Satanás, com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras”. – 2 Tessalonicenses 2:3-9 (Paulo), Nova Versão Internacional; os destaques em azul são meus.

 

“Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que vos dizia estas coisas, quando estava ainda convosco? Agora, sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se manifestará a seu tempo. Porque o mistério da iniqüidade já está em ação, apenas esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se manifestará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará com o resplendor da sua vinda. A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores”. – 2 Tessalonicenses 2:3-9, Ave Maria.

 

Até o século 19 era muito comum comentaristas protestantes identificarem o “papado” de Roma como sendo esse “homem do pecado”. Atualmente essa interpretação já não é tão reivindicada, talvez porque a identificação do personagem implica necessariamente na iminência da vinda de Jesus. Se essa identificação já foi feita há séculos, desde a Reforma, porém Jesus ainda não veio, é sinal de que ela está errada.

 

Jamieson, Fawcett e Brown diziam que “a fase final de Roma provavelmente será uma aliança impiedosa entre a superstição idólatra e a infidelidade ímpia”, embora reconheçam que “nas Epístolas Pastorais” que vieram mais tarde a profecia supracitada aparece em conexão com o Gnosticismo, que surgiu pelas mãos de professos cristãos e infectou parcialmente a Igreja. Além disso, Jamieson et al. também não aplicam o referido entendimento a todo o período em que a Igreja Católica diz que existe o papado. Dizem que o alerta paulino se refere apenas ao tempo em que o papado existe efetivamente qual instituição, há pouco mais de 14 séculos. Por fim, eles definem as características desse inimigo de Deus da seguinte maneira:

 

Idolatria de si mesmo, orgulho espiritual e rebelião contra Deus, são suas características, assim como o culto de Cristo, a humildade e a dependência de Deus caracterizam o cristianismo. Ele não apenas assume o caráter de Cristo (como os ‘falsos Cristos’, Mateus 24:24), mas ‘se opõe’ a Cristo. O grego implica um situado em um lado oposto do outro (compare 1 João 2:22, 2 João 1: 7). Aquele que, na destruição de toda religião, procurará estabelecer seu próprio trono, e substituir a grande verdade de Deus de que ‘Deus é homem’ por sua própria mentira de que ‘O homem é Deus’ [TRENCH]”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Tessalonicenses 2:3-7.

 

Outros seguiram essa mesma interpretação de aplicar as palavras de Paulo ao papado de Roma, uma vez que a advertência apostólica deixou claro que a referida apostasia seria um evento interno, dentro da Igreja. Os adventistas, por exemplo, aderiram a esse mesmo entendimento. Já os líderes das testemunhas “de” Jeová, dizem que o tal “homem do pecado” são todas as religiões que professam o Cristianismo: católicos, protestantes, adventistas etc., excetuando-se, obviamente, a própria Torre de Vigia. Sem dúvida essa interpretação da religião TJ é um elemento a mais no seu discurso sobre a urgência dos tempos e do “fim do mundo” iminente. Por seus integrantes acharem que são o veículo revelador que identificou o “homem que é contra a lei”, pensam que não podem ser atingidos pelo teor da profecia. Embora isso seja em si uma contradição, pois Paulo disse que a apostasia surgiria dentro da própria Igreja verdadeira. Se as TJs não são atingidas por tal desvio doutrinal, como poderiam ser “os únicos cristãos verdadeiros” do mundo, conforme elas dizem? Isto, é claro, considerando-se que a profecia ainda irá se cumprir, e o que houve no passado foi apenas um tipo menor.

 

De qualquer maneira, o ponto importante a destacar aqui é que Paulo não estava se referindo a uma apostasia que ocorreria dentro do seu período de vida, ou de quaisquer cristãos de seu tempo. Até porque a questão que motivou o seu comentário foi a expectativa que alguns irmãos estavam nutrindo de que a segunda vinda de Cristo era iminente. As explicações de Paulo serviram então para mostrar que Jesus não estava prestes a voltar. Sendo assim, isto remete o cumprimento da profecia para outro momento no futuro. E hoje está mais do que evidente que o tempo que se passaria seria bastante longo, já que mais de dois mil anos se foram sem que Cristo tenha vindo. Isso atesta indubitavelmente que a profecia era realmente para um futuro distante, e não para acontecer naquela época, e talvez nem na nossa.

 

E agora vem a grande surpresa (para o autor do MB), o elemento de restrição não eram os apóstolos. Os comentaristas dizem que pode ser uma referência ao Império Romano, o que não impede que a profecia tenha um segundo cumprimento depois, em algum tempo futuro. Isso porque enquanto os cristãos fossem pessoas perseguidas e martirizadas por Roma não haveria espaço para qualquer desvio importante de conduta ou doutrina. Os sofrimentos os mantinham coesos. Esse é o entendimento dos eruditos bíblicos, aqueles “que sabem muito bem do que estão falando”, começando por Jamieson et al.:

 

Que o homem do pecado seja revelado - A ordem no grego é: ‘E foi revelado o homem do pecado’. Como Cristo foi o primeiro em mistério e depois revelado (1 Timóteo 3:16), assim o Anticristo (o termo usado 1 João 2:18, 4: 3) é o primeiro em mistério e depois se desenvolverá e será revelado (2 Tessalonicenses 2:7-9). Como a justiça encontrou sua encarnação em Cristo, ‘o Senhor nossa justiça’, assim ‘o pecado’ terá sua encarnação no ‘homem do pecado’. O poder obstrutivo, entretanto, restringe sua manifestação; Quando isso for removido, então esta manifestação terá lugar. Os artigos ‘a apostasia’ e ‘o homem do pecado’ também podem se referir ao fato de serem conhecidos da maneira que foi predita em Daniel 7:8, 25, ‘o pequeno chifre falando grandes palavras contra o Altíssimo, e pensando em mudar os tempos e as leis’. E Daniel 11:36, o rei voluntário que ‘exaltar-se-á e se engrandecerá acima de todo deus, e falará coisas maravilhosas contra o Deus dos deuses, nem deverá ter consideração por nenhum deus’. . . . O que retém - o que o retém. ‘O mantém sob controle’: o poder que tem impedido o homem do pecado de seu total e final desenvolvimento é a influência moral e conservadora dos estados políticos [OLSHAUSEN]: o tecido da política humana como um poder coercitivo. Como ‘aquele que agora resiste’ se refere àqueles que governam essa política pela qual o grande causador da impiedade é mantido rebaixado [ALFORD]. ‘O que retém’ refere-se ao impedimento geral. ‘Aquele que agora resiste’, para a pessoa em quem esse obstáculo se resume. O Romanismo, como precursor do Anticristo, foi assim mantido sob controle pelo Império Romano (o então representante do poder coercitivo) até Constantino, tendo removido a sede do império para Constantinopla, o bispo romano gradualmente se elevou à precedência, e então à primazia, e depois para o único império acima do poder secular. O fato histórico sobre o qual Paulo começa sua previsão foi provavelmente a expulsão dos judeus de Roma pelo imperador Cláudio, eles que eram a representação do adversário anti-cristão nos dias de Paulo, assim os ‘reteve’ em algum grau de seus ataques sobre o Cristianismo. Isto sugeriu que o princípio se mantinha bom até o fim dos tempos, e prestes a encontrar seu cumprimento final na remoção da pessoa ou autoridade impedida, após o que o Anticristo em sua pior forma será posto em evidência... ‘para que ele possa ser revelado em seu próprio tempo’ (isto é, no tempo designado por Deus como seu tempo apropriado para ser manifestado), não antes (compare com Daniel 11:35). A remoção do poder de retenção será quando a política civil, derivada do império romano, que deve ser, em sua última forma, dividida em dez reinos (Apocalipse 17: 3 Apocalipse 17: 11-13), será, com o seu principal líder representativo para o tempo (‘aquele que agora impede’, em grego, ‘retém’, como em 2 Tessalonicenses 2: 6), ceder ao prevalente ímpio ‘sem lei’ com ‘o sem lei’ como sendo sua incorporação. A Igreja e o Espírito eleitos não podem ser, como DE BURGH sugere, o poder de retenção significativa, pois ambos nunca serão inteiramente ‘tirados do caminho’. (Mateus 28:20). No entanto, o testemunho da Igreja eleita, e do Espírito nela, são o grande obstáculo ao surgimento da apostasia. E é possível que, ainda que o Senhor tenha uns poucos fiéis, mesmo assim a energia plena do Espírito na Igreja visível, contrariando a energia ou o ‘trabalho’ do ‘mistério da iniqüidade’ pelo testemunho dos eleitos, deve ter sido até agora ‘retirada do caminho’, ou posta de lado, de modo a admitir a manifestação ‘do iníquo’, e assim a visão de DE BURGH'S pode estar correta (Lucas 18: 8 Apocalipse 11: 3-12). Este era um poder do qual os tessalonicenses poderiam facilmente ‘conhecer’ através da instrução de Paulo”. Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Tessalonicenses 2:6.

 

E dentro desse contexto de apostasia geral do Cristianismo, os autores também incluem, ainda que em menor medida, o braço protestante da Igreja:

 

“Além disso, a Igreja Cristã, no curso do tempo, tomou posse do demônio da idolatria romana, depois despojada dela pela Reforma, sua casa ficou então ‘enfeitada’ pela hipocrisia, secularidade e racionalismo, além de ‘varrida e vazia’ da fé viva, então finalmente depois de apostatar foi reempossada pelo ‘homem do pecado’, e exteriormente destruída por um breve tempo”. Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Tessalonicenses 2:7.

 

A seguir, o mesmo assunto tratado por outros eruditos bíblicos:

 

6-10. Sabeis agora o que o retém. Eles sabiam porque Paulo lhes havia dito quando estava com eles. Não temos essa vantagem, mas creio que ele lhes disse que esse desenvolvimento não poderia ter lugar até que a Roma imperial pagã caísse. Sabemos que ela o reteve ou o impediu. 7. Para o mistério da iniqüidade. Esta é revelação do homem de pecado. Era um mistério, isto é, algo ainda escondido. Já opera. Causas estão começando a trabalhar que levarão a ele. Somente aquele que agora o impede. Aquele que impede deve primeiro ser tirado do caminho. Não havia espaço para um poder espiritual arrogante em Roma, enquanto a Roma imperial continuasse a perseguir a igreja. Uma igreja perseguida não pode ser uma igreja altiva. Duas coisas eram necessárias antes que o poder papal pudesse ser desenvolvido. A derrota do paganismo e a remoção de Roma como capital do Império. Quando estas coisas fossem feitas, haveria liberdade para apoderar-se do velho cetro romano. 8. Então aquele ímpio será revelado. Depois que o poder de impedimento fosse removido. A quem o Senhor consumirá. O poder ímpio será destruído pela vinda do Senhor e continuará a existir, possivelmente, até esse evento. 9. De quem vem. Aquele do poder perverso. É de acordo com a operação de Satanás. Ou seja, enganará os homens como Satanás o faz. Mentiras maravilhosas. Milagres falsos. 10. O engano da injustiça. Delírios injustos que serão aceitos pelos seus devotos, os que perecem. Aqueles que perecem, não recebem o amor da verdade. Eles não estão inclinados para recebê-lo”. – People's New Testament, sobre 2 Tessalonicenses 2:6-10.

 

Aquilo que restringe (τὸ κατέχον). E agora vocês sabem (καὶ νῦν οἴδατε), diz Paulo nesta passagem apocalíptica enigmática. Infelizmente não sabemos o que Paulo quer dizer com isso que restringe (retém, ο κατέχων), neutro aqui e masculino em Atos 27:40 κατέχον. ‘Esse princípio ou poder impessoal também é capaz de manifestar-se sob uma forma pessoal’ (Milligan). ‘Ele é o messias de Satanás, uma caricatura infernal do verdadeiro Messias’ (Moffatt). Warfield (Expositor, III, iv, pp. 30 e ss.) sugeriu que o homem da ilegalidade é a linha imperial com sua raiva pela deificação e que o Estado judeu era o poder de restrição. Mas Deus anula toda a história humana e seu propósito final é forjado. De modo que (εἰς τὸ). Outro exemplo de εἰς τὸ e o infinitivo para propósito. Em sua própria época ἐν τῷ αὐτοῦ καιρῷ). Note αὐτοῦ (dele), não εαυτοῦ (dele próprio), revelado em seu tempo, no tempo determinado por Deus”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Tessalonicenses 2:6.

 

Como se nota, o elemento de restrição do “homem que é contra lei” não é de maneira alguma óbvio, e necessita de um exercício de interpretação com base em fatos históricos para que talvez seja identificado. Quando o autor do MB diz que a restrição se refere aos apóstolos, ele demonstra claramente o quão distante se encontra do espírito da passagem bíblica em apreço. O que não é nenhuma novidade... Provavelmente ele assumiu esse entendimento sem pensar por causa de sua anterior formação qual “testemunha de Jeová”, pois as TJs ensinam exatamente isso, como se fosse uma verdade cristalina, ao passo que se trata de um completo equívoco. Ou seja, como diz o ditado popular, o autor do MB “comprou gato por lebre”, ao replicar em seu texto tal interpretação equivocada da Torre de Vigia.

 

Pois o mistério da iniqüidade já opera (τὸ γὰρ μυστήριον ἤδη ἐνεργεῖται τῆς ἀνομίας). Veja 1 Tessalonicenses 2:13 para ἐνεργεῖται. O genitivo τῆς ἀνομίας (ilegalidade) descreve τὸ μυστήριον (note a enfática posição de ambos). Este mistério (μυστήριον segredo, de μυστή um iniciado, μυεω para cintilar ou piscar) significa aqui o propósito secreto da ilegalidade já em ação, as únicas vezes deste uso no N.T. é em referência ao reino de Deus (Mateus 13:11 [μυστήρια]), de Deus (1 Coríntios 2:1) e da vontade de Deus (Efésios 1:9), de Cristo (Efésios 3:4), do evangelho (Efésios 6) : 9), da fé (1 Timóteo 3:9), da piedade (1 Timóteo 3:16), das sete estrelas (Apocalipse 1:20), e da mulher (Apocalipse 17:7). Mas este segredo será ‘revelado’ e então compreenderemos claramente qual é o significado de Paulo aqui. Até que ele seja tirado do caminho (ἐω μέσου γένηται). Construção usual com εω para o futuro (subjuntivo aoristo médio, γένηται). Observe a ausência de αν como muitas vezes ocorre no N.T. e os Κοιν. Paulo usa εω apenas aqui e em 1 Coríntios 4:5. Quando o obstáculo for removido, então o mistério da ilegalidade será revelado em linhas gerais”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Tessalonicenses 2:7.

 

E então (καὶ τότε). Note a ênfase do tempo, então quando a restrição (ο κατέχων) é retirada do caminho, então θε λαωλεσ ονε (ὁ ἄνομος), o homem do pecado, o homem da perdição, será revelado. A quem o Senhor [Jesus] vai destruir (ὃν ὁ κύριος [Ἰησοῦς] ἀνελεῖ). Se Jesus é o genuíno [autor da execução] ou não, a ele se atribui [o título de] o Senhor; ἀνελεῖ é um futuro tardio de αναιρεω, no lugar de αναιρεω. Paulo usa Isaías 11:4 (combinando a ‘palavra de sua boca’ com ‘o sopro de seus lábios’) para imaginar o triunfo de Cristo sobre este adversário. É uma imagem poderosa como o simples sopro do Senhor destruirá este arqui-inimigo (Milligan). E reduzir a nada pela manifestação de sua vinda (καὶ καταργήσει τῇ ἐπιφανείᾳ τῆς παρούσιας αὐτοῦ). Este verbo καταργεω (κατα, αργο), com o sentido de ‘inútil’, é raro no grego antigo. Aparece 25 vezes em Paulo e tem uma variedade de traduções. Nos papiros tem um sentido fraco de impedimento. Será um grande fiasco, este advento do homem do pecado. Paulo usa aqui ἐπιφανείᾳ (ἐπιπανψ, em outros lugares do NT nas cartas pastorais, familiar à mente grega para uma visita de um deus) e παρούσια [parousia] (mais familiar para a mente judaica, porém comum nos papiros) da segunda vinda de Cristo. ‘A aparição de Jesus anuncia seu destino’ (Moffatt). A mera aparição de Cristo destrói o adversário (Vicent)”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Tessalonicenses 2:8.

 

Quem está vindo (οὗ ἐστιν ἡ παρουσία). Refere-se a ον no verso de Isaías 8. O Anticristo também tem sua παρουσία [parousia]. Deissmann (Light from the Ancient East, pp. 374, 378) observa uma inscrição em Epidauro, na qual ‘Asclépio manifesta sua Παρουσία [Parousia]’. Antíoco Epifânio é chamado de o deus manifesto (III Macabeus 5:35). Assim, as duas Epifanias coincidem. Maravilhas mentirosas (τέρασιν πσευδου). ‘Nas maravilhas de uma mentira.’ Note aqui as três palavras para os milagres de Cristo (Hebreus 2:4), poder (δυναμι), sinais (σημεια), maravilhas (τερατα), mas tudo de acordo com a obra de Satanás (κατα ἐνέργειαν τοῦ Σατανᾶ, a energia de Satanás). Exatamente como Jesus havia predito (Mateus 24:24), maravilhas que quase desviariam os próprios eleitos”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Tessalonicenses 2:9.

 

Visto que a Igreja Católica tem sido alvo fácil dos pretensos reveladores da profecia, é apropriado ouvir o que a própria Igreja tem a dizer sobre o assunto:

 

“São João supõe que a doutrina sobre a vinda do Anticristo já é conhecida por seus leitores. Muitos comentaristas acreditam que ela se tornou conhecida na Igreja através dos escritos de São Paulo. São João insistiu contra os hereges de seu tempo que aqueles que negavam o mistério da Encarnação eram imagens fracas do futuro grande Anticristo. Este último é descrito mais completamente em 2 Tessalonicenses 2:3,7-10. Na Igreja de Tessalônica ocorreram distúrbios por causa da crença de que a segunda vinda de Jesus Cristo era iminente. Esta impressão deveu-se em parte a um mal-entendido de 1 Tessalonicenses 4:15 e em parte devido às maquinações de enganadores. Foi com vistas a remediar essas desordens que São Paulo escreveu sua Segunda Epístola aos Tessalonicenses, inserindo especialmente o 2:3-10. A doutrina paulina é esta: ‘o dia do Senhor’ será precedido por ‘uma revolta’, e a revelação do ‘homem de pecado’. Este se assentará no templo de Deus, mostrando-se como se fosse Deus. Ele operará sinais e maravilhas mentirosas pelo poder de Satanás. Ele seduzirá aqueles que não receberam o amor da verdade, para que fossem salvos. Mas o Senhor Jesus o matará com o espírito da sua boca e o destruirá com o brilho da sua vinda. Quanto ao tempo, ‘o mistério da iniqüidade já está em funcionamento, só que aquele que agora o segura, o impede até que ele seja retirado do caminho’. Resumidamente, o ‘dia do Senhor’ será precedido pelo ‘homem do pecado’ conhecido nas Epístolas Joaninas como o Anticristo. O ‘homem do pecado’ é precedido por ‘uma revolta’, ou uma grande apostasia. Esta apostasia é o resultado do ‘mistério da iniqüidade’ que já ‘funciona’, e que, de acordo com São João, se mostra aqui e ali por tipos menores de Anticristo. O apóstolo dá três etapas na evolução do mal: o fermento da iniqüidade, a grande apostasia e o homem do pecado. Mas ele acrescenta uma cláusula calculada para determinar o tempo do evento principal com mais precisão. Ele descreve algo primeiro como uma coisa (to datechon), então como uma pessoa (ho katechon), impedindo a ocorrência do evento principal: ‘Somente aquele que agora impede, retém, até que seja tirado do caminho’. Podemos aqui apenas enumerar as principais opiniões sobre o significado desta cláusula sem discutir o seu valor:

 

“ - O impedimento do evento principal é ‘o homem do pecado’. O evento principal é a segunda vinda do Senhor (conforme Grimm, Simar)”.

 

“ - O impedimento é o Império Romano. O principal evento impedido é o ‘homem do pecado’ (conforme a maioria dos padres latinos e intérpretes posteriores).”

 

“ - O Apóstolo se referia a pessoas e eventos de seu próprio tempo. O katechon e o ‘homem de pecado’ são identificados de maneira diversa como sendo os imperadores Calígula, Tito, Nero, Cláudio, etc. (conforme teólogos protestantes após o século XVII).

 

“ - O apóstolo se refere imediatamente aos homens e eventos contemporâneos, os quais são, entretanto, tipos do katechon escatológico, ‘o homem do pecado’, e o dia do Senhor. A destruição de Jerusalém, por exemplo, é o tipo da segunda vinda do Senhor, etc. (Döllinger).

 

“Antes de deixar a doutrina paulina do Anticristo, podemos nos perguntar: de onde o Apóstolo derivou seu ensinamento? Aqui, novamente, encontramos várias respostas:

 

“ - São Paulo expressa meramente sua própria visão baseada na tradição judaica e nas imagens dos Profetas Daniel e Ezequiel. Este ponto de vista tem sido defendido por vários escritores protestantes.

 

“ - O Apóstolo expressa a impressão produzida sobre a Igreja primitiva pelo ensinamento escatológico de Jesus Cristo. Esta opinião é expressa por Döllinger.

 

“ - São Paulo derivou sua doutrina sobre o Anticristo das palavras de Cristo, a profecia de Daniel e os eventos contemporâneos. Essa opinião também é expressa por Döllinger.

 

“ - O Apóstolo proferiu uma profecia recebida através da inspiração do Espírito Santo. Os intérpretes católicos geralmente aderiram a essa opinião”.

 

Enciclopédia Católica, verbete “Anticristo”, versão on line.

 

Nota-se que, ao contrário dos demais comentaristas citados, a Enciclopédia Católica não esboça qualquer tentativa de identificar quem seria o “homem da iniqüidade”. É claro que os autores católicos sabiam muito bem que houve protestantes disseram que esse personagem é o papado, porém evitaram entrar nessa discussão. O que é natural, afinal eles não iriam ponderar uma possível iniqüidade de algo que consideram divinamente constituído. Alguns poderão achar que esse silêncio é uma admissão tácita de que a interpretação dos protestantes pode ter algum fundamento. No entanto, o motivo mais provável é que os doutos da Igreja sabem que qualquer interpretação que apresentassem não passaria de um palpite, visto que esse assunto é o “mistério da iniqüidade”. Se o “homem do pecado” fosse algo ou alguém facilmente identificável não seria um enigma profético.

 

2. Lobos opressivos disfarçados de mestres (Atos 20:29, 30)

 

“Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos.” – Atos 20:29, 30 (Paulo), Nova Versão Internacional.

 

“Sei que depois de eu ter ido embora entrarão no meio de vós lobos opressivos e eles não tratarão o rebanho com ternura, e dentre vós mesmos surgirão homens e falarão coisas deturpadas, para atrair a si os discípulos”. – Atos 20:29, 30, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

A interpretação que as testemunhas “de” Jeová e o autor do MB dão a esse versículo é outro mal entendido, pois essa “partida” não se refere à morte de Paulo, mas a quando ele deixasse o local onde seus interlocutores estavam. De qualquer maneira, mesmo que fosse, nada sobre alma ou o que acontece depois da morte é mencionado como estando dentro da ‘verdade que seria torcida’.

 

Conforme ficará mais claro a partir daqui, praticamente todas essas advertências apostólicas se referem às diversas seitas gnósticas e influências judaizantes que juntas ameaçavam constantemente a integridade doutrinal da Igreja. Isto é o que revela um exame histórico do período envolvido. Exegese que escapa ao campo de visão dos aniquilacionistas. Achar que o apóstolo tinha em mente coisas tais como a sobrevivência da alma depois da morte é um mero exercício de imaginação. Com a palavra os eruditos credenciados:

 

Depois que eu partir, entrarão lobos entre vós - Duas classes de inimigos vindouros são aqui anunciados, o mais externo a si, o outro criado no seio de sua própria comunidade. Ambos seriam professores, mas os ‘lobos vorazes’ não poupam, isto é, fazem uma presa do rebanho. Os outros (Atos 20:30) são simplesmente ‘pervertidores’ sectários da verdade, com o objetivo de formar uma seita que os siga. Talvez seja uma referência daquele sutil veneno do Gnosticismo Oriental do qual sabemos que infectou muito cedo as igrejas asiáticas. O outro que levava a tendências judaizantes, conforme sabemos, incomodou quase todas as igrejas primitivas. Veja as Epístolas aos Efésios, Colossenses e Timóteo, além das enviadas às sete igrejas da Ásia (Apocalipse 2:1-3: 22). Mas a vigilância contra tudo o que tende a ferir e corromper a Igreja é dever de seus pastores em todas as épocas”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre Atos 20:29, 30.

 

“28-31. Fiquem atentos. Aqui começam as admoestações especiais aos anciãos. A vós mesmos. Suas próprias vidas devem ser o primeiro sujeito da vigilância. Nenhum homem pode ser tão exaltado que não precise vigiar e orar. Ao rebanho. A igreja, o aprisco do Bom Pastor, de quem eles eram sub-pastores, ou pastores. Para alimentar a igreja. ‘Sobre o leite sincero da palavra, para que ela possa crescer assim’. Lobos opressivos. A figura do rebanho ainda é mantida. Os ‘lobos opressivos’ eram falsos mestres, e a referência especial é aos mestres judaizantes, que ensinavam que os cristãos gentios devem manter a lei judaica. O ministério de Paulo foi uma longa batalha com os cismáticos. Ver 1 Timóteo 1: 3 1 Timóteo 1: 4 1 Timóteo 1:20 2 Timóteo 1:15 2 Timóteo 2:17; Também a Terceira Epístola de João versículos 9 e 10. Voltando-se para essas referências, os nomes de seis desses ‘lobos opressivos’ serão encontrados. Também em Apocalipse 2:6 aprendemos que havia falsos mestres em Éfeso”. – People's New Testament, sobre Atos 20:29, 30.

 

Depois da minha partida (μετὰ τὴν ἄφιξίν μου). Não sua morte, mas sua partida deles. Vem de απικνεομαι e geralmente significa chegada, mas partida está em Heródoto IX. 17, 76 como aqui. Lobos opressores (λύκοι βαρεῖς). βαρεῖς significa pesado, voraz, áspero. Jesus já tinha descrito assim os falsos mestres que arrebatam o redil (João 10:12). Se Paulo tinha em mente os judaizantes que haviam lhe dado tantos problemas em Antioquia, Jerusalém, Galácia, Corinto ou os gnósticos, a sombra de cuja vinda já tinha previsto, não está perfeitamente claro. Mas não passará muitos anos antes de Epafras vir a Roma de Colossos com notícias do novo perigo lá (Epístola aos Colossenses). Ao escrever a Timóteo (1 Timóteo 1:20) Paulo o advertirá contra alguns que já causaram o naufrágio de sua fé. Em Apocalipse 2: 2 João representará Jesus como descrevendo falsos apóstolos em Éfeso. Não poupando o rebanho (μὴ φειδόμενοι τοῦ ποιμνίου). Uma litotes* ocorre novamente aqui como tantas vezes em Atos. Poupar o rebanho não era o costume dos lobos. Jesus enviou os setenta como cordeiros no meio dos lobos (Lucas 10:3). No Sermão da Montanha, Jesus havia imaginado os falsos profetas que viriam como lobos vorazes em pele de ovelha (Mateus 7:15)”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre Atos 20:29, 30.

 

* Litotes: emprego de uma expressão curta que deixa o interlocutor concluir o pensamento intencionado, geralmente por se apresentar a negação do contrário. Por exemplo, dizer “não te louvo” ao invés de “te desaprovo”. – Dicionário Priberam.

 

Conforme explicado por Thomas Robertson, ao mencionar sua partida, o apóstolo Paulo usou a palavra grega ἄφιξίν (apixin), que pode ser usada para se referir tanto a uma partida quanto a uma chegada, em referência a um lugar, sendo que o sentido é quase sempre “chegada”. Refere-se, portanto, a um movimento de ir e vir. Já quando a partida se refere especificamente à morte, a palavra grega utilizada é ἔξοδον (exodon), que denota uma mudança definitiva de domicílio, sem possibilidade de volta. É a mesma palavra utilizada para se referir ao êxodo dos judeus, quando saíram do Egito. O apóstolo Pedro a utilizou para se referir à sua morte iminente:

 

“É justo despertar-vos com as minhas admoestações, enquanto estou nesta tenda terrena [o corpo], sabendo que em breve hei de despojar-me dela. . . Assim farei tudo para que, depois da minha partida, vos lembreis sempre delas”. – 2 Pedro 1:13-15, Bíblia de Jerusalém.

 

O mesmo ocorre em Lucas 9:29-31, que menciona a morte de Jesus, transcrito a seguir em três versões diferentes:

 

“E, enquanto orava, a aparência do seu rosto tornou-se diferente e a sua vestimenta tornou-se resplendentemente branca. Também, eis que dois homens conversavam com ele, sendo eles Moisés e Elias. Estes apareceram com glória e começaram a falar [com Jesus] sobre a sua partida, que ele estava destinado a cumprir em Jerusalém”. – Tradução do Novo Mundo (1986).

 

“Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que falavam com ele dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém”. – Ave Maria.

 

“Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se, e as suas vestes tornaram-se brancas e resplandecentes. Eis que dois varões falavam com ele; estes eram Moisés e Elias, que apareceram em glória e falavam da sua retirada que ele estava para realizar em Jerusalém”. – Sociedade Bíblica Britânica.

 

3. Filosofias vãs e os princípios elementares do mundo (Colossenses 2:8)

 

“Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo.” – Colossenses 2:8 (Paulo), Nova Versão Internacional.

 

“Acautelai-vos: talvez haja alguém que vos leve embora como presa sua, por intermédio de filosofia e de vão engano, segundo a tradição de homens, segundo as coisas elementares do mundo e não segundo Cristo; porque é nele que mora corporalmente toda a plenitude da qualidade divina. E assim possuís uma plenitude por meio dele, sendo ele a cabeça de todo governo e autoridade. Pela relação com ele, vós também fostes circuncidados com uma circuncisão realizada sem mãos, pelo desnudamento do corpo da carne, pela circuncisão que pertence ao Cristo, pois fostes enterrados com ele no [seu] batismo, e, pela relação com ele, fostes também levantados junto por intermédio da [vossa] fé na operação de Deus, o qual o levantou dentre os mortos... Portanto, nenhum homem vos julgue pelo comer ou pelo beber, ou com respeito a uma festividade ou à observância da lua nova ou dum sábado; pois estas coisas são sombra das coisas vindouras, mas a realidade pertence ao Cristo”. – Colossenses 2:8, 16, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

Conforme o contexto mais amplo do texto revela, Paulo estava se referindo aos costumes judaizantes que alguns insistiam em levar para dentro das congregações cristãs. A advertência também se estende aos conceitos gnósticos, conforme revela uma análise histórica e linguística da passagem. Ideias gnósticas estavam também presentes em crenças judaicas, a exemplo das ensinadas pelos essênios, que se interessavam até por astrologia. Portanto, o tema que o autor do MB gostaria de ver está ausente e não faz parte das “filosofias vãs e enganosas” mencionadas pelo apóstolo.  Esse é o entendimento apresentados pelos eruditos credenciados:

 

“Tradução. ‘Tenham cuidado’ (literalmente: ‘olhem’ bem) para que não haja (o indicativo grego expressa isso: como eu temo que há) qualquer homem (apontando para algum conhecido emissário do mal, Gálatas 1:7) que carregue vocês quais despojo dele (não apenas ganhando despojos de vocês, mas fazendo de vocês o seu despojo) através (por meio de) da sua filosofia,’. O apóstolo não condena toda a filosofia, mas ‘a filosofia’ (tão grega) dos hereges judeus-orientais em Colosso, que mais tarde se transformou no gnosticismo. Vocês, que podem ter ‘as riquezas da plena segurança e os tesouros da sabedoria, não se deixem levar como despojos pela filosofia vazia e enganosa: as ‘riquezas’ são contrastadas com o despojo; ‘Cheios’ com ‘vão’ ou vazio (Colossenses 2: 2 Colossenses 2: 3 Colossenses 2: 9). Segundo a – ‘de acordo com’. Tradição dos homens - oposta à ‘plenitude da Divindade’. Aplicado às tradições rabínicas, Marcos 7: 8. Quando os homens não conseguiam fazer a revelação mesmo assim pareciam falar de mistérios profundos para os quais estavam curiosos de trazer a filosofia humana e as tradições fingidas para ajudá-la, como se alguém trouxesse uma lâmpada ao relógio para enxergar a hora. [Cauations for Times, p. 85]. Os falsos mestres se gabavam de uma sabedoria superior em teoria, transmitida pela tradição entre os iniciados. Na prática eles recomendavam o ascetismo, como se a matéria e o corpo fossem as fontes do mal. A Frígia (na qual estava Colosso) tinha uma propensão para o místico e o mágico, que apareceu em sua adoração de Cibele e o Montanismo subseqüente [NEANDER]. Rudimentos dos ‘rudimentos’ ou lições elementares ‘do mundo (exterior)’, tais como ordenanças jurídicas, nossas lições da infância judaica (Colossenses 2:11 Colossenses 2:16 Colossenses 2:20, Gálatas 4: 1-3). Mas NEANDER ressalta ‘os elementos do mundo’, no sentido do que é terreno, carnal e exterior, não ‘os rudimentos da religião’, no judaísmo e paganismo. Não segundo Cristo – ‘Sua’ alardeada ‘filosofia’ superior é apenas tradição humana, e uma abertura ao carnal e mundano, e não a Cristo. Embora reconhecendo a Cristo nominalmente, em espírito, por sua doutrina o negam”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre Colossenses 2:8.

 

4-8. Para que ninguém engane vocês. Se eles tivessem pleno conhecimento (verso 2), isso não seria possível. 5. Porque embora ausente, contudo estava presente no espírito. Ele estava presente no espírito, tendo-os em mente, sendo plenamente informado de seu estado por Epafras, o que eu acho que está mais em harmonia com todo o conteúdo do Novo Testamento, ou ele foi habilitado pelo poder divino para olhar para eles e os observava. Esta é a visão da maioria dos comentaristas. Se esta visão está correta, por que ele diz (1:7) que ele soube da situação deles através de Epafras? 6. Caminhem nele. Continuem a viver, obedecendo e crendo em Cristo, como foi pregado a vocês. 7. Enraizados. Sua vida crescendo fora de Cristo é como uma árvore fora do solo. Como foi ensinado a vocês. O ponto da exortação é agarrar-se ao evangelho como lhes foi ensinado. 8. Prejudiquem a vocês através da filosofia. Façam despojos de vocês e os carreguem para fora como o saque com alguma especulação filosófica, ou engano vazio. Seguindo a tradição dos homens. Ao apelar, não para as Escrituras, mas para as tradições humanas. Essas tradições provavelmente se referiam principalmente aos assuntos mencionados no versículo 18 mais adiante. Os rudimentos do mundo. Paulo usa esta expressão em outras partes para se referir às ordenanças judaicas (Gálatas 4:3). O versículo 16 abaixo mostra a que ele se refere”. – People's New Testament, sobre Colossenses 2:4-8.

 

Tomem cuidado (βλέπετε). Presente imperativo ativo da segunda pessoa do plural de βλεπω, verbo comum para advertência como o nosso ‘tenha cuidado’, ‘cuidado com’, ‘atenção’. Para que não haja ninguém (μή τι ἔσται). O propósito negativo com o indicativo futuro, embora o subjuntivo aorista também ocorra como em 2 Coríntios 12:6. Que faça estragos em vocês (ὁ συλαγωγῶν). Particípio ativo do presente articular de συλαγωγεν, tardio e raro (encontrado aqui pela primeira vez) verbo (de συλη, espólio, saque, e αγω, levar, carregar), transportar como um cativo, escravo, donzela. No N.T. só aparece aqui. Note que é no singular. Havia um líder proeminente que estava fazendo a maior parte do dano ao levar o povo a desviar-se. Através de sua filosofia (διὰ τῆς φιλοσοφίας). O único uso da palavra no N.T. e empregada por Paulo porque os gnósticos gostavam dela. Palavra antiga de (φιλο, σοφο, alguém dedicado à busca da sabedoria) e no N.T. aparece somente em Atos 17:18. Paulo não condena o conhecimento e a sabedoria (veja Colossenses 2:2), mas apenas esta falsa filosofia, ‘o falsamente chamado conhecimento’ (πευδωνύμο γνώσι [pseudonimo gnosi], 1 Timóteo 6:20), e explicado aqui pelas próximas palavras. E vão engano (καὶ κενῆς ἀπάτης). Palavra antiga para truque, engano, como as riquezas (Mateus 13:22). Descritivo da filosofia dos gnósticos. Tradição (παράδοσιν). Antiga palavra [que vem] de παράδιδωμι, um ato de arremessar ou de transmitir. A palavra é incolor em si mesma. A tradição pode ser boa (2 Tessalonicenses 2:15; 2 Tessalonicenses 3: 6) ou má (Marcos 7: 3). Aqui ela é inútil e prejudicial, [sendo] apenas as teorias tolas dos gnósticos. Rudimentos [noções básicas]  (στοιχεῖα). Palavra antiga para qualquer coisa em um στοιχο [estoico] (sequência, série) como as letras do alfabeto, os materiais do universo (2 Pedro 3:10 2 Pedro 3:12), o ensino elementar (Hebreus 5:12), elementos do cerimonial judaico (Atos 15:10, Gal 4:3, 9), os argumentos ilusórios dos filósofos gnósticos tais como todos os seus aeons e regras de vida. E não seguem a Cristo (καὶ οὐ κατὰ Χριστόν). Cristo é o critério para medir a filosofia e todas as fases do conhecimento humano. Os gnósticos estavam medindo Cristo por sua filosofia como muitos homens estão fazendo hoje. Eles o deixam para trás. Cristo é a medida para todo o conhecimento humano, já que ele é o Criador e o Sustentador do universo”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre Colossenses 2:8.

 

4. Heresias destruidoras e histórias inventadas (2 Pedro 2:1-3)

 

No passado surgiram falsos profetas no meio do povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. Em sua cobiça, tais mestres os explorarão com histórias que inventaram. Há muito tempo a sua condenação paira sobre eles, e a sua destruição não tarda.” – 2 Pedro 2:1-3, Nova Versão Internacional.

 

“Mas havia falsos profetas também entre o povo, assim como haverá entre vós falsos mestres, que em segredo trarão heresias condenáveis, negando até mesmo o Senhor que os comprou, e trazendo sobre si a destruição rápida. E muitos seguirão seus caminhos perniciosos. Por causa deles o caminho da verdade será mal falado. E com a avareza, com palavras fingidas, farão mercadoria de vós; o julgamento deles agora, há muito tempo não se demora, e sua condenação não adormece.” – 2 Pedro 2:1-3, tradução própria da King James Version.

 

Mais uma vez, a história revela que tais palavras se cumpriram nas diversas seitas dos séculos I e II, especialmente as que surgiram pouco depois que os apóstolos foram embora, a maioria das quais de orientação gnóstica, que às vezes se apresentavam como sendo “cristãs”.

 

Perceba a equivalência com a história dos hebreus. Assim como surgiu entre eles falsos profetas, surgiriam falsos mestres na comunidade cristã. Se no primeiro caso isso não implicou na completa apostasia da nação judaica, e ela continuou sendo povo de Deus, por que com a igreja cristã não se daria o mesmo?

 

Também se nota implicitamente que Pedro não se referia a uma simples crença, tal como a que havia sobre a recompensa imediata depois da morte (que, conforme já visto, é bíblica), pois ele diz que as referidas heresias destruidoras resultariam em comportamentos degradantes de professos cristãos que fariam as pessoas falarem mal do Cristianismo. Logo, era algo muito mais sério. Os demais versículos bíblicos a serem comentados trarão mais detalhes do que tais movimentos religiosos ensinavam. Enquanto isso leia o que os comentaristas bíblicos disseram sobre essa advertência do apóstolo Pedro:

 

1. Mas - em contraste com os profetas ‘movidos pelo Espírito Santo’ (2 Pedro 1:21). Também - assim como os verdadeiros profetas (2 Pedro 1: 19-21). Paulo já havia testemunhado a entrada de falsos profetas nas mesmas igrejas. Entre o povo - Israel: ele está escrevendo aos israelitas crentes [dizendo que seria] tal como Balaão, que foi um ‘falso profeta’ (2 Pedro 2:15). Haverá - Já estavam aparecendo os sintomas do mal (2 Pedro 2: 9-22, Judas 1: 4-13). Falsos mestres - professores da falsidade. Em contraste com os verdadeiros mestres, a quem ele exorta seus leitores a prestar atenção (2 Pedro 3: 2). Que - tal como (literalmente, ‘os quais’) irão. Em segredo - não a princípio abertamente e diretamente, mas a propósito, trazendo o erro ao lado da verdadeira doutrina (assim está o grego): objetos de Roma, os protestantes não podem apontar a data exata dos começos das falsas doutrinas superacrescentadas à verdade original. Nós respondemos, Pedro nos anuncia que seria assim, que a primeira introdução deles seria furtiva e inobservada (Judas 1: 4). Heresias - doutrinas auto-escolhidas, que não emanam de Deus (compare com a ‘adoração da vontade [de si mesmo]’, Colossenses 2:23). Condenáveis - literalmente, ‘da destruição’; Implicando a destruição (Filipenses 3:19) de todos os que os seguem. Assim - indo até a um ponto que negassem tanto o ensino como a prática. Pedro sabia, por amargo arrependimento, que coisa terrível é negar o Senhor (Lucas 22:61 Lucas 22:62). Negando - Aquele a quem, acima de todos os outros, devem confessar. O Senhor – ‘Mestre e Proprietário’ (em grego), compare com Judas 1:4, em grego. De quem a verdadeira doutrina ensina a ser o PROPRIETÁRIO por direito de compra. Literalmente, ‘negar Aquele que os comprou (que Ele deveria ser assim), seu Mestre’. Os comprou – Até os ímpios foram comprados por seu ‘precioso sangue’. Será a mais amarga auto-censura deles no inferno, do qual, no que diz respeito à redenção de Cristo, eles poderiam ter sido salvos. A negação de Seu sacrifício propiciatório está incluída no significado (compare 1 João 4: 3). Trazendo sobre si - compare ‘Deus trazendo o dilúvio sobre o mundo’, em 2 Pedro 2: 5. O homem traz sobre si a vingança que Deus traz sobre ele. Rápida - descendo rapidamente: como a vinda do Senhor será rápida e súbita. Quando a terra engoliu Corá e Datã, e ‘entraram depressa na cova’. Compare com Judas 1:11, que é semelhante a esta passagem”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Pedro 2:1.

 

2. Seguirão - fora (acompanhamento): assim está no grego. Caminhos perniciosos - Os manuscritos mais antigos e a Vulgata leem ‘licenciosidade’ (Judas 1:4). A doutrina falsa e a prática imoral geralmente andam juntas (2 Pedro 2:18 2 Pedro 2:19). Por causa deles – ‘por conta de quem’, ou seja, os seguidores dos falsos mestres. O caminho da verdade será mal falado – ‘blasfemado’ por aqueles que não o têm, que atribuirão ao próprio cristianismo a culpa da prática maligna de seus professores. Contraste com 1 Pedro 2:12”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Pedro 2:2.

 

3. E com (através) – Em grego, ‘NA cobiça’ como elemento deles (2 Pedro 2:14, fim). Contraste com 2 Coríntios 11:20, 12:17. Há muito tempo - no propósito eterno de Deus. ‘Antes de antigamente ordenado para condenação’ (Judas 1:4). Não se demora - embora os pecadores pensem que ela permanece [demorando]; ‘Não está ocioso [o castigo].’ Castigo (condenação) - Grego, ‘destruição’. Não adormece - embora os pecadores durmam”. Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 Pedro 2:3.

 

1-3. Surgiram falsos profetas entre o povo. Em 1:19 os profetas verdadeiros são referidos. Aqui os falsos profetas são falados em contraste. Por ‘o povo’ significa Israel. O termo ‘falso profeta’ ocorre várias vezes no Antigo Testamento. Por exemplo, veja Jer. 6:13. Cristo prediz o surgimento de falsos profetas (Mateus 24:24). Haverá falsos mestres. Professores de falsas doutrinas. Paulo frequentemente adverte contra esses instrutores. Veja Atos 20:30. Heresias condenáveis. ‘Heresias destrutivas’ na Revisão. Divisões de partido causadas por falso ensino. Uma heresia é um cisma, ou o que tende a produzir o cisma. Negar o Senhor que os comprou. Este é o culminar do falso ensino na igreja e foi cumprido por professos mestres cristãos que rejeitam a divindade de Cristo e o poder expiatório de seu sangue. Destruição rápida. Destruição súbita. 2. Muitos seguirão seus caminhos perniciosos. ‘Realizações’ na Revisão. A vida imoral é o resultado da falsa doutrina, e assim uma censura é trazida sobre a verdade. 3. E na cobiça. Por suas ‘palavras fingidas’, discursos astutos, os falsos mestres usarão seus seguidores como fonte de ganho”. – People's New Testament, sobre 2 Pedro 2:1-3.

 

Mas surgiram (Ἐγένοντο δὲ καὶ). Segundo indicativo aoristo médio de γινομαι (ver γινεται em Atos 1:20). Falsos profetas também (καὶ ψευδοπροφῆται). Em contraste com os verdadeiros profetas justamente representados em Atos 1:20. Composto tardio na LXX e em Filo, comum no N[ovo] T[estamento]. (Mateus 7:15). Alusão aos tempos do A[ntigo] T[estamento] a exemplo de Balaão e outros (Jeremias 6:13, Jeremias 28: 9, Ezequiel 13: 9). Falso mestres (ψευδοδιδάσκαλοι). Composto tardio e raro (πσεδη, διδασκαλο) aqui sozinho no N.T. Pedro os representa aqui como no futuro (εσοναιτ, será) e novamente como já presente (εισιν, são, ver Ezequiel 17), ou no passado (επλανηθησαν, eles se extraviaram; ver Ezequiel 15). Deve trazer em segredo (παρεισάξουσιν). Ativo futuro de παρεισαγω, composto duplo tardio παρεισαγω, para trazer (εισαγω), pelo lado (παρα), como se fosse secretamente, aqui sozinho no N.T., mas veja παρεισάκτους em Gálatas 2:4 (adjetivo verbal deste mesmo verbo). Heresias destrutivas (αἱρέσεις ἀπωλείας). Genitivo descritivo, ‘heresias de destruição’ (marcadas pela destruição) como em Lucas 16:8. Ἠαἱρέσι (de αιρεω) é simplesmente uma escolha, uma escola, uma seita como a dos saduceus (Atos 5:17), a dos fariseus (Atos 15: 5) e a dos cristãos como Paulo admitiu (Atos 24: 5). Esses ‘dogmas’ (Gálatas 5:20) levaram à destruição. Negando (ἀρνούμενοι). Particípio presente de αρνεομαι. Isso os gnósticos fizeram, exatamente o que Pedro fez, infelizmente (Mateus 26:70), mesmo depois das palavras de Cristo (Mateus 10:33). Até mesmo o Mestre (καὶ τὸν δεσπότην). Palavra antiga para mestre absoluto, aqui referente a  Cristo como em Judas 1:4, e também a Deus (Atos 4:24). Sem o sentido mau do nosso ‘déspota’. Que os comprou (τὸν ἀγοράσαντα αὐτοὺς). Primeiro particípio articular ativo aoristo de αγοραξω, mesma ideia de λυτροω em 1 Pedro 1:18. Estes eram pelo menos cristãos professos, estes hereges. Destruição rápida (ταχινὴν ἀπώλειαν). Ver 1 Pedro 1:14 para ταχινὴν e note a repetição de ἀπώλειαν. Esta é sempre a tragédia de tais falsos profetas, o destino que eles trazem (ἐπάγοντες) a eles mesmos”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Pedro 2:1.

 

Práticas lascivas (ἀσελγείαις). Instrumental associativo depois de ἐξακολουθήσουσιν (futuro ativo, sobre o qual veja 1 Pedro 1:16). Veja 1 Pedro 4:3 para esta palavra. Em razão de quem (δι᾿ οὓς). ‘Por causa de quem’ (caso acusativo do relativo, referindo-se a πολλοι, muitos). Αὐτῶν (deles) refere-se a ψευδοδιδάσκαλοι (falsos professores), enquanto πολλοι refere-se aos seus seguidores iludidos. Veja Romanos 2:23 para uma imagem de tal conduta por judeus (citação de Isaías 52:5, com βλασπημεω usado, como aqui, com δι υμα, por causa de vocês). O caminho da verdade (ἡ ὁδὸς τῆς ἀληθείας). Ηοδο (caminho) ocorre freqüentemente no N.T. para o Cristianismo (Atos 9: 2, Atos 16:17, Atos 18:25, Atos 22: 4 e Atos 24:14). Esta frase está em Gênesis 24:48 como ‘o caminho certo’, e é isso o que Pedro quer dizer aqui. Salmos 119:30. Ver novamente 2 Pedro 2:15, 21”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Pedro 2:2.

 

Na cobiça (ἐν πλεονεξίᾳ). Assim como Balaão (ver 2 Pedro 15). Esses gnósticos licenciosos ganhavam dinheiro com seus enganos. Um Gnosticismo meramente intelectual teve seu fruto na imoralidade e na fraude. Com palavras fingidas (πλαστοῖς λόγοις). Caso instrumental. Πλαστο é adjetivo verbal (de πλασσω, para moldar a partir de argila, sobre o qual ver Romanos 9:20), no N.T. apenas aqui. ‘Com palavras forjadas’. Ver exemplo em 2 Pedro 3:4. Vão fazer mercadorias de vocês (ὑμᾶς ἐμπορεύσονται). Futuro médio de εμπορευομαι (de εμπορο, um comerciante viajante), palavra antiga, com sentido de objetivo comercial, no N.T. somente aqui e em Tiago 4:13, o qual queira ver. Cf. nosso empório (João 2:16, loja de mercado). Cuja sentença (οἷς τὸ κρίμα). ‘Para quem (caso dativo) a sentença’ (veredicto, não o processo κρισι). Agora desde antigamente (ἔκπαλαι). Advérbio composto tardio e comum, no N.T. só aqui e em João 3:5. Não demora (οὐκ ἀργεῖ). ‘Não é ocioso’, verbo antigo, αργεω (de αργο não funciona, privativo alfa e εργον), aqui único caso no N.T. Não dorme (οὐ νυστάζει). Verbo antigo e comum (de νυω para acenar), no N.T. só aqui e em Mateus 25:5. Note ἀπώλεια (destruição) três vezes nos versículos de 2 Pedro 2: 1-3”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 Pedro 2:3.

 

5. Os anticristos e o Anticristo (1 João 2:18, 19, 26; 2 João 7)

 

a) A primeira advertência

 

“Filhinhos, esta é a última hora; e, assim como vocês ouviram que o anticristo está vindo, já agora muitos anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora. Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem saído mostra que nenhum deles era dos nossos... Escrevo-lhes estas coisas a respeito daqueles que os querem enganar.  – 1 João 2:18, 19, 26, Nova Versão Internacional.

 

“Não ameis o mundo nem o que nele existe... Pois tudo o que há no mundo: as paixões da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens não provêm do Pai, mas do mundo... Filhinhos, esta é a hora derradeira [a última hora] e, assim como ouvistes que o anticristo está chegando, já agora muitos anticristos têm surgido... Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos, pois se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; o fato de terem nos abandonado revela que nenhum deles era realmente dos nossos... Portanto, não vos escrevo porque vos falta o conhecimento da verdade, mas justamente porque a conheceis e, porquanto, nenhuma mentira tem origem na verdade. Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Messias? Este é o Inimigo de Cristo: aquele que rejeita tanto o Pai quanto o Filho... Quanto a vós outros, zelai para que aquilo que ouvistes desde o princípio permaneça em vossos corações. Porquanto, se o que ouvistes permanecer em vós, de igual modo permanecereis no Filho e no Pai. E esta é a Promessa que Ele nos fez: a vida eterna! Eu vos escrevo estas advertências a respeito daqueles que vos querem seduzir... não tendes necessidade de que alguém mais vos ensine sobre isso. No entanto, a unção que dele procede é verdadeira, não construída sobre a mentira, e vos ensina sobretudo o que precisais saber. Permanecei, pois, nele assim como Ele vos ensinou. Os verdadeiros filhos de Deus”.  1 João 2:15-27, King James Version, colchetes acrescentados.

 

Novamente, quando os versículos circundantes do trecho citado pelo autor do MB são considerados, entende-se melhor o que o apóstolo João estava dizendo. Ele explica que anticristo não é somente aquele que nega o Filho, mas também o que nega o Pai. Isso é bem exemplificado por uma seita “cristã” da Ásia menor fundada por um homem chamado Marcião de Sinope (85-160 d.C.), a quem Policarpo de Esmirna conhecia. Policarpo foi um dos discípulos do apóstolo João.

 

Na visão de Marcião, o Deus de Israel não seria o Deus verdadeiro e por isso devia ser rejeitado em favor do Deus cristão, a quem Jesus chamava de Pai. Entretanto, o próprio Jesus havia dito que o Pai é o mesmo Deus de Israel, ao dizer para os judeus: “É meu Pai quem me glorifica, aquele que dizeis ser vosso Deus” (João 8:54). Ao querer atribuir superioridade ao Cristianismo, o que Marcião fez, na verdade, foi rejeitá-lo. Por isso, com base no aviso de João, se tornou um anticristo, ou “primogênito de Satanás”, conforme disse Policarpo. Além disso, Marcião também absorveu as crenças gnósticas segundo as quais Cristo não teve um corpo real, apenas simulou um, conforme ensinavam os docetistas, e que não haveria ressurreição do corpo, pois a salvação destinava-se apenas à alma e não ao corpo. Esta última crença tem íntima relação com a concepção grega sobre a imortalidade da alma, e também evidencia o fato de que jamais alguém naquele tempo questionava a existência contínua da alma depois da morte. Todo e qualquer embate doutrinal que ocorria sobre esse tema era sobre o destino final da alma ou de que maneira ela ficava no mundo espiritual. – Seitas e Heresias Esquecidas, de Leandro Bertoldo, pp. 49, 50.

 

A seguir, os esclarecimentos dos eruditos sobre as palavras de João:

 

“18. Filhinhos - o mesmo em grego de 1 João 2:13; crianças em idade. Depois que os pais e os jovens se forem, ‘a última hora’ com seus ‘muitos Anticristos’ estaria prestes a vir de repente sobre as crianças. ‘Nesta hora derradeira todos nós ainda vivemos’ [Bengel]. Cada era sucessiva teve nela alguns dos sinais da ‘última hora’ que antecede a vinda de Cristo, a fim de manter a Igreja em contínua espera pelo Senhor. A conexão com 1 João 2:15-17 é: Estão vindo aqueles sedutores que são do mundo (1 João 4:5), e tentariam que vocês nos deixassem (1 João 2:19) e negassem a Cristo (1 João 2:22). Como ouvistes - dos apóstolos, pregadores do Evangelho (por exemplo, 2 Tessalonicenses 2:3-10 e na região de Éfeso, Atos 20:29, Atos 20:30). Está chegando (Virá) - em grego, ‘vem’, ou seja, fora de seu próprio lugar. O Anticristo é interpretado de duas maneiras: um falso Cristo (Mateus 24:5 Mateus 24:24), literalmente, ‘em vez de Cristo’. Ou um adversário de Cristo, literalmente, ‘contra Cristo’. Como João nunca usa o pseudo-Cristo, ou ‘Cristo falso’, para o Anticristo, é claro que ele se refere a um adversário de Cristo, reivindicando a si mesmo o que pertence a Cristo e desejando substituir-se a Cristo como objeto supremo de adoração. Ele nega o Filho, não apenas da maneira que o papa faz, agindo em nome do Filho, 2 Tessalonicenses 2: 4, o ‘Que se opõe a tudo o que se chama Deus’ decide isto (Greek, ‘ANTI-keimenos’). Para a grande verdade de Deus de que ‘Deus é homem’, ele substituiria pela sua própria mentira de que ‘o homem é Deus’ [TRENCH]. Já agora (Já está havendo) – em grego, ‘começaram a ser’; surgiram. Esses ‘muitos anticristos’ respondem ao ‘espírito da iniquidade (grego) que já opera’. O princípio anticristão apareceu então, como agora, nos homens maus e nos maus ensinamentos e escritos. Além disso ‘O Anticristo’ significa uma pessoa hostil, tal qual ‘O Cristo’ é um Salvador pessoal. Como o ‘vem’ de Cristo é usado, então aqui o do Anticristo [entende-se] a encarnação em sua própria pessoa de todos os traços e espírito anticristãos daqueles ‘muitos Anticristos’ que foram e são seus precursores. João usa o singular dele. Nenhum outro escritor do Novo Testamento usa o termo. Ele provavelmente corresponde ao ‘chifre pequeno que tem olhos de homem, e fala grandes coisas’ (Daniel 7: 8 Daniel 7:20); ‘O homem do pecado, filho da perdição’ (2 Tessalonicenses 2: 3); ‘A besta que sobe do abismo’ (Apocalipse 11: 7, 17: 8), ou melhor, ‘o falso profeta’, o mesmo que ‘a segunda besta que sobe da terra’ (Apocalipse 13: 11- 18, 16:13)”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 João 2:18.

 

19. Saíram (de nós) - da nossa comunhão cristã. Não necessariamente uma secessão formal ou saída: assim, Roma tem saído espiritualmente, ainda que formalmente ainda seja da Igreja Cristã. Não eram (de nós) - pela comunhão espiritual (1 João 1:3). ‘Eles são como maus humores no corpo de Cristo, a Igreja: quando eles são vomitados, então o corpo é aliviado, o corpo de Cristo está agora ainda sob tratamento, e ainda não atingiu a perfeita solidez que só terá na ressurreição’ [AGOSTINHO, Dez Homilias na Primeira Epístola de João, Homilia 3.4]. Eles teriam . . . permanecido - implicando a indefectibilidade da graça nos eleitos. ‘Onde o chamado de Deus é eficaz, haverá certeza de perseverança’ [CALVINO]. Ainda assim, não é uma necessidade fatal, mas uma ‘necessidade voluntária’ [DIDIMUS], que faz com que os homens permaneçam, ou então saiam do corpo de Cristo. ‘Estamos entre os membros, ou entre os maus humores, é de sua própria vontade que cada um seja um Anticristo, ou em Cristo’ [AGOSTINHO]. Todavia, os atos de Deus em eleição eterna se harmonizam de uma forma inexplicável para nós, com a livre agência e responsabilidade do homem. É a própria vontade maligna dos homens que escolhe o caminho para o inferno; é a graça livre e soberana de Deus que atrai qualquer um a Ele mesmo e para o céu. Para Deus este último atribuirá inteiramente salvação deles, do primeiro para o último: os primeiros apenas se oprimem a si mesmos, e não [se sujeitam] ao decreto de Deus, com a sua condenação (I João 3:9, 5:18). Que nenhum deles era realmente dos nossos - Esta tradução implicaria que alguns dos Anticristos estão entre nós! Traduzir, portanto, ‘que todos (que estão por um tempo entre nós) não são de nós.’ Compare com 1 Coríntios 11:19: ‘Deve haver entre vós heresias, para que os que são aprovados se manifestem entre vós’. Ao invés de ‘eram’ alguns dos mais antigos manuscritos vertem por ‘são’. Tais ocasiões provam quem são e quem não são do povo do Senhor. . . 26. Eu vos escrevo - retomado de 1 João 2:21 e 2:14. Estas advertências - (1 João 2: 18-25).  Querem seduzir - ou seja, estão tentando seduzir ou levá-los para o erro”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 João 2:19, 26.

 

18-25. Filhinhos, é a última hora. Estamos na última dispensação. Vocês ouviram que o anticristo virá. Cristos falsos e os que se opõem a Cristo. Veja Mat. 24:4. O Anticristo é ‘Anticristianismo’. Por que sabemos que é a última hora. Sua aparência é uma parte da série de eventos que leva à consumação final. 19. Eles saíram de nós. Isso implica que esses anticristos eram apóstatas. Os piores homens são muitas vezes aqueles que antes eram religiosos e caíram. Se tivessem sido de nós. Se fossem verdadeiros e genuínos cristãos, dificilmente poderiam ter caído em tal estado de inimizade. Sua partida e oposição amarga mostram que eles não eram verdadeiros convertidos. 20. Mas vós tendes uma unção. Vós sois ungidos com o Espírito Santo. Cristão significa alguém ungido. O Anticristo significaria [estar] contra o Ungido. Por isso João lembra-lhes que foram ungidos pelo Santo. Conheçam todas as coisas. Todas as coisas necessárias para se proteger contra esses opositores e mestres sedutores. É o privilégio daqueles que têm essa unção conhecer Cristo experimentalmente (João 14:22, João 14:23). 21. Eu não escrevi, etc. João escreve a eles como aqueles que conhecem a verdade, e sabem discernir entre a verdade e a mentira. 22. Quem é um mentiroso, etc.? Por isso eles saberão rejeitar esses anticristos que mentirosamente negam a Jesus Cristo. 23. Quem nega o Filho. Todos os que negam o Pai e o Filho são anticristos. Assim também aqueles que rejeitam o Filho não podem ter o Pai. 24. Que isso permaneça em vós. A verdade concernente ao Pai e ao Filho que o Anticristo nega. Vocês continuarão. Quem permanece firme nesta fé, continuará no Filho, etc. 25. E esta é a promessa. Esta promessa é feita a todos os que permanecem no Filho e no Pai. . . . 26... Estas coisas tenho escrito, etc. Todas estas palavras sobre o Anticristo. Tudo do versículo 18 até o final do capítulo é para colocá-los em guarda contra os falsos mestres”. – People's New Testament, sobre 1 João 2:15-27.

 

É a última hora (ἐσχάτη ὥρα ἐστίν). Esta frase aparece só aqui no N.T., embora João muitas vezes use ὥρα para se referir a uma crise (João 2: 4, João 4:21 João 4:23, João 5:25 João 5:28, etc). É anartro aqui e marca o caráter da ‘hora’. João tem sete vezes ‘o último dia’ no Evangelho. Certamente, no versículo de João 28, João torna claro que a παρουσία [parousia] pode vir na vida daqueles que então vivem, mas não está claro que aqui ele definitivamente afirma isso como um fato. Era sua esperança, sem dúvida alguma. Ficamos duvidosos sobre essa ‘última hora’, se ela abrange um período, uma série ou o clímax final de tudo que se aproxima. Como vocês ouviram (καθὼς ἠκούσατε). Primeiro indicativo ativo aoristo de ακουω. O Anticristo vem (ἀντίχριστος ἔρχεται). ‘Está vindo.’ Presente futurístico ou indicativo médio profético retido na asserção indireta. Então Jesus ensinou (Marcos 13:6, Marcos 13:22, Mateus 24:5 Mateus 24:15, Mateus 24:24) e assim Paulo ensinou (Atos 20:30; 2 Tessalonicenses 2:3). Esses falsos Cristos (Mateus 24:24, Marcos 13:22) são necessariamente anticristos, pois só pode haver um. Αντί [anti] pode significar substituição ou oposição, mas ambas as ideias são idênticas na palavra ἀντίχριστο [anticristo] (no N.T. só aqui, e em Marcos 2:22, Marcos 4:3 e 2 João 1:7). Westcott observa com razão que o uso que João faz da palavra é determinado pela concepção cristã, não pelos apocalipses judaicos. Têm surgido (γεγόνασιν). Segundo ativo perfeito de γινομαι [ginomai]. Muitos anticristos (ἀντίχριστοι πολλοὶ). Não apenas um, mas os expoentes do ensino gnóstico são realmente anticristos, assim como alguns enganadores modernos merecem este título. Por isso [sabemos] (ὅθεν). Pelo fato de que esses muitos anticristos vieram”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 João 2:18.

 

Vindo de nós (ἐξ ἡμῶν) - de nós (ἐξ ἡμῶν). O mesmo sentido, ἐξ [ex] e o caso ablativo (ἡμῶν), mas em diferentes sentidos para corresponder a ἐξῆλθαν (saíram de nossa comunidade) e οὐκ ἦσαν (eles não eram de nós em espírito e vida). Para εξ no sentido de origem ver João 17:15, para εξ no sentido de semelhança, João 17:14. Pois se eles tivessem sido dos nossos (εἰ γὰρ ἐξ ἡμῶν ἦσαν). Condição de segunda classe com ει e tempo imperfeito (não aoristo para ειμι [eimi]). Eles teriam continuado (μεμενήκεισαν ἄν). Perfeito passado de μενω, para permanecer, sem acrescentar, com αν em apódose de condição de segunda classe. Conosco (μεθ᾿ ἡμῶν). Em comunhão, para isto ver μετα [meta] em João 1:3. Eles perderam a comunhão interior e, ao que parece, voluntariamente quebraram o exterior. Mas eles se foram (ἀλλ). Elipse do verbo ἐξῆλθαν acima, um hábito comum (elipse) no Evangelho de João (1:8; 9: 3; 13:18; 15:25). Que eles possam ser manifestados (ἵνα φανερωθῶσιν). Cláusula de propósito com ἵνα e o primeiro subjuntivo passivo aoristo de πανεροω, sobre tal verbo ver João 21:1; Colossenses 3:4. Veja 2 Coríntios 3:3 para a construção pessoal com οτι como aqui. Todos eles não são [dos nossos] (οὐκ εἰσὶν πάντες). Não apenas alguns, mas todos, como em 2 Coríntios 2:21; 2 Coríntios 3:5. Esses anticristos são assim revelados em sua verdadeira luz”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 João 2:19.

 

A respeito deles que vos conduziriam erradamente (περὶ τῶν πλανώντων ὑμᾶς). ‘A respeito dos que estão tentando desviar-vos’. Uso conativo do particípio articular ativo presente de πλαναω. Veja João 1:8 para este verbo. João está fazendo a sua parte para resgatar as ovelhas dos lobos, como Paulo fez (Atos 20:29)” – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 João 2:26.

 

b) A segunda advertência

 

“Pois, muitos enganadores saíram pelo mundo afora, pessoas que não confessam Jesus Cristo vindo na carne. Este é o enganador e o anticristo”. – 2 João 7, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

“Entretanto, muitos enganadores têm saído pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Esse é o modo de ser do mentiroso e do anticristo”. – 2 João 7, King James Version.

 

Nessa parte, João foca mais especificamente na ideia gnóstica do docetismo, segundo a qual Jesus era um espírito glorioso que, ao nascer da virgem, criou um corpo aparentemente real mediante seu grande poder de Filho, a fim de que as pessoas pensassem que ele era um ser humano de verdade. Foi assim que determinados indivíduos naquele tempo não confessaram que Jesus tinha vindo na carne. João também os chamou de anticristos. Veja os comentários dos especialistas sobre essa passagem:

 

7. Como o amor e a verdade andam de mãos dadas (2 João 1:3 2 João 1:4) é necessário advertir contra os mestres da mentira. Entretanto - dando a razão pela qual ele habitou na verdade e no amor, que se manifestam em guardar os mandamentos de Deus (2 João 1:6). Muitos - (1 João 2:18; 4:1). Têm saído - Os manuscritos mais antigos trazem ‘saíram’, ou seja, de nós. Não confessam. . . Jesus . . . na carne - o símbolo do Anticristo. Está vindo - grego, ‘vindo’. Aquele que nega a vinda de Cristo na carne, nega a possibilidade da encarnação. Aquele que nega dele ter vindo, nega a sua realidade. Eles negaram a possibilidade de um Messias aparecendo, ou vindo, na carne [NEANDER]. Eu acho que o particípio grego presente implica tanto o primeiro como o segundo advento de Cristo. Ele é muitas vezes chamado em outro lugar o Que Vem (grego), Mateus 11:3; Hebreus 10:37 manifestação na carne, em Sua primeira vinda, e de Seu advento pessoal de novo, [a negação dessas vindas] constitui o Anticristo. ‘O mundo se afasta de Deus e de Cristo, ocupado em suas próprias atividades, mas se OPOR a Deus e a Cristo é o fermento de Satanás’ [BENGEL]. Este é - Grego, ‘Este (tal como foi descrito) é o enganador e o Anticristo.’ Os muitos que de certa forma cumprem o caráter, são precursores do Anticristo pessoal final, que deve concentrar em si todas as características dos sistemas anticristãos anteriores”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 2 João 7.

 

Porque muitos enganadores são introduzidos no mundo. Por quem se entendem falsos mestres, que são descritos por sua qualidade, ‘enganadores’, obreiros enganosos, fingindo ser ministros de Cristo, [alegando ter]: um valor para a verdade, um amor pelas almas e uma visão para a glória de Deus, mas mentem na espera do engano e lidam enganosamente com a palavra de Deus. E pela sua quantidade ou número, ‘muitos’, estão tão propensos a fazer muito mal. E pelo lugar onde estavam, foram ‘introduzidos no mundo’; Ou ‘foram para o mundo’, como diz a cópia de Alexandria e alguns outros [manuscritos], e como as versões da Vulgata Latina e a Siríaca verteram (Ver Gill em 1 João 4:1). E por seu princípio, Que não confessam que Jesus Cristo veio em carne. Estes não eram os judeus que negavam que Jesus era o Cristo, embora não permitiriam que Cristo viesse na carne. Mas estes eram alguns que levavam o nome cristão, e professavam crer em Jesus Cristo, mas não admitiam que ele era realmente encarnado, ou assumiu uma verdadeira natureza humana, [diziam que era humano] apenas na aparência. E negaram que ele tomou carne verdadeira e real da virgem, mas só parecia fazê-lo. E estes são refutados pelo apóstolo (1 João 1:1), e sobre cada um deles ele corretamente fixa o seguinte caráter. Este é um enganador e um anticristo. Um dos enganadores que vieram ao mundo, e um dos anticristos que já estavam nele. E que foram os precursores do homem do pecado, e em quem o mistério da iniqüidade já começou a trabalhar, pois o anticristo não designa ninguém em particular qual pessoa individual, mas sim um conjunto de homens que são contrários a Cristo e que se opõem a ele”. – John Gill's Exposition of the Bible, sobre 1 João 2:15-27.

 

Enganadores (πλάνοι). Adjetivo tardio (Diodoro, Josefo) que significa vaguear, perambular (1 Timóteo 4:1). Como um substantivo de Jesus no N.T. (Mateus 27:63), de Paulo (2 Coríntios 6: 8), e aqui. Veja o verbo (τῶν πλανώντων ὑμᾶς) em 1 João 2:26 dos enganadores gnósticos como aqui e também atribuído [pelas multidões] a Jesus (João 7:12). Cf. 1 João 1:8. Seguiram adiante (ἐξῆλθον, alfa final). Segundo indicativo ativo aoristo de εξερχομαι, talvez uma alusão à crise quando eles [os gnósticos] deixaram as igrejas (1 João 2:19, da mesma forma). Até mesmo não confessam (οἱ μὴ ὁμολογοῦντες). ‘Os que não confessam’ (μη negativo regular com o particípio). O particípio articular descreve os enganadores (πλάνος). Que Jesus Cristo vem na carne (Ἰησοῦν Χριστὸν ἐρχόμενον ἐν σαρκί). ‘Jesus Cristo vindo na carne’. Particípio médio presente de ερχομαι tratando a Encarnação como um fato contínuo que os Gnósticos Docetistas negaram categoricamente. Em 1 João 4:2 temos ἐληλυθότα (particípio ativo perfeito) nesta mesma construção com ὁμολογεῖ, porque ali a referência é ao fato histórico definido da Encarnação. Não há alusão aqui para a segunda vinda de Cristo. Este (οὗτός). Ver 1 João 2:18 1 João 2:22; 1 João 5: 6 1 João 5:20. O enganador e o anticristo (ὁ πλάνος καὶ ὁ ἀντίχριστος). Artigo com cada palavra, como em Apocalipse 1:17, para trazer de maneira afiada cada frase separada, embora apenas um indivíduo seja referido. Um [anticristo] por excelência na expectativa popular (1 João 2:22), embora sendo muitos na realidade (1 João 2:18; 3 João 1: 7)”. Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 2 João 7.

 

6. Falsos mestres e seus ensinamentos errôneos (1 Timóteo 4:1-4; 6:20, 21)

 

“No entanto, a pronunciação inspirada diz definitivamente que nos períodos posteriores de tempo alguns se desviarão da fé, prestando atenção a desencaminhantes pronunciações inspiradas e a ensinos de demônios, pela hipocrisia de homens que falam mentiras, marcados na sua consciência como que por um ferro de marcar; proibindo o casar-se, mandando abster-se de alimentos que Deus criou para serem tomados com agradecimentos pelos que têm fé e que conhecem a verdade de modo exato... Ó Timóteo, guarda o que te foi confiado, desviando-te dos falatórios vãos, que violam o que é santo, e das contradições do falsamente chamado ‘conhecimento’. Por ostentarem tal [conhecimento], alguns se desviaram da fé. A benignidade imerecida seja convosco”. – 1 Timóteo 4:1-4; 6:20, 21, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

“Mas o Espírito diz expressamente que nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, atendendo a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, mediante a hipocrisia de homens mentirosos, que têm a consciência cauterizada, que proíbem o casamento e ordenam a abstinência de alimentos, que Deus criou para serem usados com gratidão pelos que crêem e conhecem bem a verdade. Pois toda a criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado, se é recebido com gratidão. . . Ó Timóteo, guarda o que te foi confiado, evitando as conversas vãs e profanas e as objeções de uma falsa ciência, a qual tendo alguns professado, se desviaram da fé. A graça seja convosco”. – 1 Timóteo 4:1-4; 6:20, 21, Sociedade Bíblica Britânica.

 

Este é um dos dois textos de advertência aqui analisados que o autor do MB não citou. Talvez porque ele é mais específico ao identificar algumas das crenças errôneas que falsos mestres tentariam introduzir na Igreja. A heresia que bem representa as coisas que o apóstolo mencionou é a seita encratita, que proibia o casamento, além de impor a abstinência obrigatória de carne e bebidas alcoólicas, tudo dentro de um rigoroso ascetismo que visava a punição do corpo. Tal seita tem uma peculiaridade marcante. Ela foi criada por um cristão chamado Taciano, que antes tinha sido um defensor do Cristianismo ortodoxo e combatia justamente tais tipos de ensinamentos. Porém ele se apostatou no final da vida. As obras que escreveu quando ainda estava na Igreja figuram dentre os escritos patrísticos da história cristã do século II.

 

Agora considere o que os eruditos credenciados dizem sobre o texto supracitado de Paulo:

 

1. No entanto - Grego, ‘Mas’. Em contraste com o ‘mistério da piedade’. O Espírito - falando pelos profetas da Igreja (cujas profecias repousavam sobre as do Antigo Testamento, Daniel 7:25, 8:23, etc., Daniel 11:30, como também sobre as de Jesus no Novo Testamento, Mateus 24: 11-24), e também pelo próprio Paulo, 2 Tessalonicenses 2: 3 (com quem concorda 2 Pedro 3:3, 1 João 2:18, Judas 1:18). Expressamente – ‘em palavras simples’. Isso mostra que ele se refere às profecias do Espírito que então estavam diante dele. Nos últimos tempos - nos tempos seguintes aos tempos em que ele está agora escrevendo. Não há algum futuro distante, mas os tempos imediatamente subsequentes, os começos da apostasia sendo já discerníveis (Atos 20:29): estes são os precursores dos ‘últimos dias’ (2 Timóteo 3: 1). Se apostatarão da fé - A apostasia devia estar dentro da Igreja, sendo o fiel o que se tornou a prostituta. Em 2 Tessalonicenses 2:3 (escrito anteriormente), a apostasia dos judeus de Deus (se juntando aos pagãos contra o cristianismo) é a base sobre a qual a profecia se ergue, enquanto que aqui, nas Epístolas Pastorais, a profecia está relacionada com erros gnósticos, cujas sementes já foram semeadas na Igreja [AUBERLEN] (2 Timóteo 2:18). Apolônio Tianeu, um herege, veio a Éfeso durante o período de vida de Timóteo. Atendendo (Dando ouvidos) - (1 Timóteo 1: 4, Tito 1:14). Espíritos enganadores - trabalhando nos mestres heréticos. 1 João 4:2, 3 e 6, ‘o espírito de erro’, oposto ao ‘espírito da verdade’, ‘o Espírito’ que ‘fala’ nos verdadeiros profetas contra eles. Doutrinas de demônios - literalmente ‘ensinamentos de (que são sugeridos por) demônios.’ Tiago 3:15, ‘sabedoria ... diabólica’; 2 Coríntios 11:15, ‘Ministros de Satanás.’.” Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 4:1.

 

2. Traduzir, ao invés disso, por ‘através (literalmente, ‘em’, o elemento em que a apostasia tem lugar) da hipocrisia de falantes mentirosos’. Isto expressa o meio pelo qual ‘alguns serão (levados) a afastar-se da fé’, isto é, a santidade reinada dos sedutores (compare com os ‘enganadores’ de Tito 1:10). Têm a consciência cauterizada - no grego, ‘tendo sua própria consciência’, ou seja, não só ‘falando mentiras’ para os outros, mas também tendo sua própria consciência cauterizada. Professando que estão levando aos outros à santidade, sua própria consciência está todo o tempo contaminada. As más consciências recorrem sempre à hipocrisia. À medida que a fé e uma boa consciência se unem (1 Timóteo 1: 5), assim é a hipocrisia (isto é, a incredulidade, Mateus 24:5 Mateus 24:51, compare Lucas 12:46) e uma má consciência aqui. TEODORETO explica conforme a versão inglesa, ‘ressequido’, como implicando sua insensibilidade extrema. O efeito de cauterizar o ser para amortecer a sensação. O grego, no entanto, significa principalmente ‘marcado’ com a consciência de crimes cometidos contra o seu melhor conhecimento e consciência, como tantas cicatrizes queimadas por um ferro de marcar: Compare com Tito 1:15, 3:11, ‘condenado de si mesmo’. Eles são conscientes da marca dentro de si, e ainda com um apresentação hipócrita de santidade, eles se esforçam para seduzir os outros. Como ‘um selo’ é usado em um bom senso (2 Timóteo 2:19), então ‘uma marca’ [é usada] em um sentido ruim. A imagem é tirada da marca dos criminosos”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 4:2.

 

3. A sensualidade leva ao espiritualismo falso. Sua própria impureza interior é refletida em seus olhos no mundo sem eles, e daí o seu ascetismo (Tito 1:14 Tito 1:15) [Wiesinger]. Por um espiritualismo espúrio (2 Timóteo 2:18), que fez a perfeição moral consistir na abstinência de coisas exteriores, eles fingiram alcançar uma perfeição mais elevada. Mateus 19:10-12 (compare 1 Coríntios 7: 8 1 Coríntios 7:26 1 Coríntios 7:38) deram uma aparente adequação ao seu ‘casamento proibido’ (contraste 1 Timóteo 5:14). E à distinção do Antigo Testamento quanto ao puro e o impuro, deram um pretexto para ensinar a ‘abster-se de carnes’ (compare Colossenses 2:16, 17, 2:20-23). Assim como esses gnósticos judaizantes combinavam a prostituta ou a igreja apóstata do Antigo Testamento com a fera (Apocalipse 17:3), ou o gnóstico espiritualizando o anticristianismo, os elementos judaizantes de Roma (1 Timóteo 4:3) serão finalmente combinados com o amplo e abertamente Anticristianismo mundial do falso profeta ou da fera (1 Timóteo 6:20, 21; Colossenses 2: 8; 1 João 4:1-3 Revelação 13: 12-15). A austeridade ganhou para eles uma demonstração de santidade enquanto pregavam falsas doutrinas (Colossenses 2:23). EUSEBIUS [História Eclesiástica, 4.29] cita de IRENEUS [1.28] em uma declaração que Saturnino, Marcião, e os Encratitas pregaram a abstinência do casamento e de carnes animais. Paulo profeticamente adverte contra tais noções, cujas sementes já estavam sendo semeadas (1 Timóteo 6:20, 2 Timóteo 2:17, 18). Para serem usados – em grego, ‘para ser participante de.’ Pelos que, literalmente, (criados e projetados) ‘para eles’, embora todos (mesmo os descrentes, Salmos 104:14, Mateus 5:45) participem desses alimentos criados por Deus, ‘os que crêem’ cumprem em si o projeto de Deus na criação participando deles com ação de graças, em oposição àqueles que se abstêm deles, ou quando ao participarem deles não o fazem com ação de graças. Os incrédulos não têm o uso projetado de tais alimentos por causa de sua ‘consciência contaminada’ (Tito 1:15). Somente os filhos de Deus ‘herdam a terra’, porque a obediência é a qualificação necessária (como foi na concessão original da terra a Adão), que só eles possuem. E conhecem bem a verdade – [afirmação] explicativa e defininda [sobre] quem são ‘os que crêem’. Traduzir como no grego, ‘e ter pleno conhecimento de que ele contradiz a suposição de conhecimento superior e maior perfeição moral apresentado pelos hereges, com base em sua abstinência de casamento e carnes’. ‘A verdade’ está em oposição às suas ‘mentiras’.” Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 4:3.

 

4, 5. Traduzir como o grego, ‘porque’ (expressando uma razão que descansa sobre um fato objetivo, ou, como aqui, uma citação das Escrituras) – ‘Para’ (uma razão que descansa sobre algo subjetivo na mente do escritor). Cada criatura. . . bom - (Gênesis 1:31, Romanos 14:14 Romanos 14:20). Uma refutação por antecipação da oposição gnóstica à criação: as sementes que agora estavam espreitando latentemente na Igreja. O Judaísmo (Atos 10: 11-16 1 Coríntios 10:25 1 Coríntios 10:26) foi o ponto de partida do erro quanto às carnes: O Gnosismo oriental acrescentou novos elementos. A antiga heresia gnóstica está quase extinta, mas ela continua no celibato do sacerdócio de Roma, e em seus jejuns de carnes de animais, ordenados sob a pena do pecado mortal remanescem. E se . . . com ações de graças - As carnes, embora puras em si mesmas, tornam-se impuras por serem recebidas com uma mente ingrata (Romanos 14: 6, Tito 1:15)”. Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 4:4, 5.

 

20, 21. Conclusão recapitulatória: o objetivo principal de toda a Epístola sendo aqui resumidamente declarado. Ó Timóteo - um apelo pessoal, marcando imediatamente o seu afeto por Timóteo, e sua presciência das heresias vindouras. Guarda - dos ladrões espirituais e dos inimigos que, enquanto os homens dormem, semeiam joio no meio da boa semente semeada pelo Filho do homem. O que te foi confiado – em grego, ‘o depósito’ (1 Timóteo 1:18, 2 Timóteo 1:12 2 Timóteo 1:14, 2: 2). ‘A verdadeira’ ou ‘sã doutrina’ a ser ensinada, em oposição ao ‘falsamente chamada conhecimento’, que leva ao ‘erro relativo à fé’ (1 Timóteo 6:21). ‘Não é teu; é propriedade de outrem com a qual tu tens sido confiado: não a diminuas de modo algum’ [CHRYSOSTOM]. ‘Aquilo que te foi confiado, não achaste por ti, o qual tu tens recebido, não inventado, uma questão não de genialidade, mas de ensino, não de usurpação privada, mas de tradição pública, uma questão trazida a ti, não apresentada por ti, em que não deves ser um ampliador, mas um guardião, não um criador, mas um discípulo, não conduzindo, mas seguindo: ‘Guarda’, diz ele, ‘o depósito’, preserva intacto e inviolável o talento da fé católica, que lhe foi confiado, que ele permaneça contigo, que o mesmo seja transmitido por ti, o ouro que tens recebido, o retorno do ouro, eu deveria lamentar que tu devesses substituir por qualquer outra coisa, que para o ouro você deva substituir por chumbo impudentemente ou latão fraudulentamente. Eu não quero a mera aparência de ouro, mas a sua realidade factual. Não que não deva haver nenhum progresso na religião da Igreja de Cristo. Que seja assim por todos os meios, e o maior progresso, mas que seja um progresso real, não uma mudança da fé. Que a inteligência de toda a Igreja e de seus membros individuais aumente excessivamente, desde que seja somente em sua própria gente, sendo a doutrina ainda a mesma. Que a religião da alma se assemelhe ao crescimento do corpo, a qual, embora desenvolva suas várias partes no progresso dos anos, permanece a mesma que era essencialmente’ [VINCENTIUS LIRINENSIS, A.D. 434]. Evitando – ‘afastar-se’ (compare com 2 Timóteo 3: 4). Assim como eles ‘se afastaram da verdade’ (1 Timóteo 1: 6, 5:15, 2 Timóteo 4:4). Profanas - (1 Timóteo 4:7, 2 Timóteo 2:16). Vãs – em grego, ‘vazio’: meras ‘contendas de palavras’, 1 Timóteo 6:4, não produzindo frutos morais. Objeções - antítese dialética dos falsos mestres [ALFORD]. Wiesinger, não tão provavelmente, ‘oposições à sã doutrina’. Creio que provavelmente já existiam germes da heresia de oposições dualistas, a saber, entre o princípio do bem e do mal, depois plenamente desenvolvido no gnosticismo. Compare a antítese de Paulo (1 Timóteo 3:16, 6: 5, 6; 2 Timóteo 2:15-23). – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 6:20.

 

O falsamente chamado conhecimento [ou falsa ciência] - onde não há fé, não há conhecimento [CHRYSOSTOM]. Havia verdadeiro ‘conhecimento’, um dom especial do Espírito, que foi abusado por alguns (1 Coríntios 8: 1, 12: 8, 14:6). Este dom logo foi falsificado por falsos mestres que se arrogavam preeminentemente do dom (Colossenses 2:8,18). Daí surgiram os credos da Igreja, chamados de símbolos, ou seja, em grego, ‘palavras de ordem’, ou um teste pelo qual os ortodoxos pudessem distinguir-se uns dos outros em oposição ao herético. Talvez aqui, 1 Timóteo 6:20 e 2 Timóteo 1:13, 14, impliquem na existência de alguma fórmula tão breve de doutrina então existente na Igreja. Se é assim, vemos uma boa razão para que não esteja escrito nas Escrituras, que é projetada para não dar formulários dogmáticos, mas para ser a fonte de onde todos esses formulários devem ser desenhados de acordo com as exigências das várias igrejas e eras. Provavelmente, assim uma parte do chamado credo dos apóstolos pode ter tido sua sanção e ter sido preservado unicamente pela tradição por esse motivo. ‘O credo, transmitido dos apóstolos, não está escrito em papel e com tinta, mas em mesas carnudas do coração’ JERÔNIMO [Contra João de Jerusalém, 9]. Assim, no credo, contrariamente às ‘oposições’ (os germes provavelmente existiram na Igreja nos últimos dias de Paulo) segundo as quais os eons foram desencadeados em pares, Deus é declarado ser ‘o Pai Todo-Poderoso’, ou todo-Governante ‘criador do céu e da terra’ [BISPO HINDS]. 21. Tendo alguns professado - ou seja, professando essas oposições do falsamente assim chamado conhecimento. (2 Timóteo 3: 7, 8). A verdadeira sagacidade é inseparável da fé. Graça – em grego, ‘a graça’, ou seja, de Deus, para qual nós cristãos olhemos, e na qual estejamos [ALFORD]. Esteja convosco [ou contigo] - Ele restringe a saudação a Timóteo, como se a Epístola não fosse para ser lida em público [BENGEL]. Mas os manuscritos mais antigos diziam: ‘Estejam convosco’; E o ‘contigo’ pode ser uma alteração do transcritor para harmonizar com 2 Timóteo 4:22, Tito 3:15. Amém - omitido nos manuscritos mais antigos”. Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Timóteo 6:20, 21.

 

1-3. Agora o Espírito fala expressamente. Em revelações feitas a Paulo e outros homens inspirados. Veja 2 Tess. 2:3. Nos últimos tempos. Nos tempos futuros. A distância não é indicada. Alguns se afastarão da fé. Haverá uma apostasia. Compare com 2 Tess. 2:3. Algumas das marcas desta apostasia são agora dadas. Dar atenção aos espíritos sedutores. O apóstolo parece reconhecer um elemento preternatural que fala por falsos profetas, em enunciados falsos que dizem ser de Deus. Esses espíritos sedutores podiam trabalhar através de hierarcas, que diziam falar por Deus, ou através de conselhos que se supunham ser declarações infalíveis. Doutrinas de demônios. As doutrinas sugeridas por demônios. O grego daimonion, demônio, não diabo, sempre se refere no Novo Testamento a um espírito maligno. 2. Falar mentiras através da hipocrisia. Em vez disso, ‘alguns partirão ... através da hipocrisia dos homens, falando mentiras’. (Ver Revisão). Tendo sua consciência. Os mentirosos já mencionados. A sensibilidade de suas consciências é destruída pela marca do diabo. 3. Proibindo o casamento. Pouco depois do tempo de Paulo, a santidade superior da vida solteira começou a ser pregada na igreja, e isso resultou finalmente no monasticismo e no clero celibatário. Comandando para se abster de carnes. As práticas ascéticas que começaram a crescer na igreja mais tarde se estenderam aos alimentos. Comer o alimento menos palatável que sustenta a vida foi contada como uma virtude. Estes ascetas geralmente proibiam o alimento animal, e alguns viviam apenas com pão e água. Estas práticas ainda são encontradas entre certas ordens das igrejas latinas e orientais. Que Deus criou. Os alimentos que Deus criou são para uso, para ser comidos com agradecimento por aqueles que conhecem a verdade, em vez de ter suas mentes escurecidas por delírios. 4, 5. Para cada criatura. Tudo o que Deus criou é bom e tem seu uso apropriado. Portanto, não deve ser recusado como pecaminoso. Isso se aplica ao que Deus criou. Ele não criou uma gota de álcool. 5. É santificado. A comida que comemos é santificada quando oferecemos graças a Deus por ela e oramos por sua bênção sobre ela. Esta passagem mostra que os primeiros santos sempre tiveram o hábito de dar graças antes de comer”. People's New Testament, sobre 1 Timóteo 4:1-5.

 

20, 21. Ó Timóteo. Uma exortação final para cumprir fielmente a sua confiança. Oposições da ciência. As especulações selvagens que já foram ensinadas por sonhadores e que provavelmente derivaram de fontes judaicas. Essas especulações, meio século depois, haviam fomentado o que se chamava de gnosticismo. Alguns já haviam fugido em busca de especulações e se afastado da fé. Há alusões nas epístolas de Éfeso e Colossos aos germes do mesmo falso ensino”. People's New Testament, sobre 1 Timóteo 6:20, 21.

 

Expressamente (ῥητῶς). Advérbio tardio, aqui sozinho no N.T., do adjetivo verbal ρητο (da raiz ρεω). A referência é ao Espírito Santo, mas se for a uma profecia do A.T. (Atos 1:16) ou a alguma declaração cristã (2 Tessalonicenses 2: 2; 1 Coríntios 14:1) não sabemos. Parry recorda as palavras de Jesus em Mateus 24:10, 24. Em tempos posteriores (ἐν ὑστέροις καιροῖς). Antigo adjetivo (Mateus 21:31) usualmente usado como advérbio, υστερον (Mateus 4:2). Tempo relativo da previsão, agora se tornando realidade (um perigo presente). Alguns devem cair (ἀποστήσονταί τινες). Futuro médio de απιστημι, uso intransitivo, deve ficar de fora, para cair, apostatar (2 Coríntios 12:8). Da fé (τῆς πίστεως). Caso ablativo (separação). Não o credo, mas a fé em Deus através de Cristo. Dando atenção (προσέχοντες). Supre τον νουν (a mente) como em 2 Coríntios 3:8. Espíritos sedutores (πνεύμασιν πλάνοις). Antigo adjetivo (πλανη, vagando), aqui sentido ativo (enganando). Como substantivo em 2 Coríntios 6:8. Provavelmente alguns pagãos ou o pior dos gnósticos. Doutrinas de demônios (διδασκαλίαις δαιμονίων). ‘Ensinamentos de δαιμον [daimon]’. Explicação definitiva do precedente. Cf. 1 Coríntios 10:20”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 Timóteo 4:1.

 

Através da hipocrisia dos homens que falam mentiras (ἐν ὑποκρίσει ψευδολόγων). Para ὑποκρίσει, veja Gálatas 2:13. Πευδολογο [pseudologo] (πσευδη, λεγω) Koin, palavra de Aristófanes em diante. No N.T. apenas aqui. ‘Uma boa palavra clássica para mentirosos em grande escala’ (Parry). Marcado em sua própria consciência como com um ferro quente (κεκαυστηριασμένων τὴν ἰδίαν συνείδησιν). Caso acusativo συνείδησιν retido com o particípio passivo perfeito de καυστηριαξω, um verbo raro [que aparece] só aqui e uma vez em Strabo [ou Estrabão, geógrafo grego]. Marcado com a marca de Satanás (2 Timóteo 2:26) como Paulo estava com as marcas de Cristo (Gálatas 6:17). Concordando em caso com ψευδολόγων”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 Timóteo 4:2.

 

Proibindo casar-se (κωλυόντων γαμεῖν). Particípio ativo presente do verbo comum κωλυω, impedir, caso genitivo concordando com ψευδολόγων. Ver Colossenses 2:16, 21, onde Paulo condena as práticas ascéticas dos gnósticos. Os essênios, os Therapeutae (terapeutas) e outras seitas orientais proibiam o casamento. Em 1 Coríntios 7:1 em diante Paulo não condena o casamento. Abster-se de carnes (ἀπέχεσθαι βρωμάτων). Infinitivo dependente, não sobre κωλυόντων, mas na ideia positiva κελευοντων (implícita, não expressa). Caso ablativo de βρωμάτων após ἀπέχεσθαι (presente direto médio, para se manter longe de). Ver 1 Cor. 8-10; Ro. 14, 15 para disputas sobre ‘carnes oferecidas aos ídolos’ e 1:22 para o ascetismo gnóstico. Que Deus criou (ἃ ὁ θεὸς ἔκτισεν). Primeiro indicativo ativo de κτιξω (1:16). Cf. 1 Coríntios 10:25. Para serem recebidas (εἰς μετάλημψιν). – ‘Para recepção.’ Palavra antiga, no N.T. só aqui. Por eles que acreditam e sabem (τοῖς πιστοῖς καὶ ἐπεγνωκόσι). Caso dativo, ‘para os crentes e aqueles que (um artigo se une estreitamente) conheceram plenamente’ (particípio ativo perfeito de επιγινωκω), um uso paulino da palavra (Colossenses 1: 6)”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 Timóteo 4:3.

 

Guarda o que te é comissionado (τὴν παραθήκην φύλαξον). ‘Mantenha o depósito’ (aoristo de urgência). Παραθηκην (de παρατιθημι, para colocar ao lado como um depósito, 2 Timóteo 2:2), uma figura bancária, comum nos papiros neste sentido para o ático παρακαταθηκη (Textus Receptus aqui, 2 Timóteo 1:12, 2 Timóteo 1:14) . Ver também o substantivo em 2 Timóteo 1:12, 14. Afastando-se de (ἐκτρεπόμενος). Participio médio presente de εκτρεπω, sobre ele ver 2 Timóteo 1: 6; 5:15. Balbucio (κενοφωνίας). De κενοπωνο, proferindo vazio. Composto tardio e raro, no N.T. só aqui e em 2 Timóteo 2:16. Oposições (ἀντιθέσεις). Palavra antiga (αντι, θεσι), antítese, só aqui no N.T. Do conhecimento que é assim falsamente chamado (τῆς ψευδωνύμου γνώσεως). ‘Do falsamente chamado conhecimento’. Palavra antiga (πσευδη, ονομα). Nosso ‘pseudônimo’. Só aparece aqui no N.T. Têm errado (ἠστόχησαν). Primeiro indicativo ativo aoristo de αστοχεω. Veja 2 Timóteo 1:6 para esta palavra”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 Timóteo 6:20, 21.

 

7. As heresias tinham mesmo que acontecer entre os cristãos (1 Coríntios 11:18, 19)

 

“Porque antes de tudo ouço que, quando vos ajuntais na igreja, há entre vós dissensões; e em parte o creio. E até importa que haja entre vós heresias, para que os que são sinceros se manifestem entre vós”. – 1 Coríntios 11:18,19, Almeida Corrigida e Revisada Fiel.

 

“Pois, em primeiro lugar, ouço que, ao vos reunirdes numa congregação, existem divisões entre vós; e até certo ponto acredito nisso. Porque também tem de haver seitas entre vós, para que os aprovados também se tornem manifestos entre vós.”. – 1 Coríntios 11:18,19, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

Este é o segundo texto aqui comentado que também não foi citado pelo autor do MB em sua “análise” crítica. Inicialmente essa passagem pode não parecer uma referência às heresias que surgiram no Cristianismo, pois trata de um conflito doméstico na igreja de Corinto. No entanto, visto que as atitudes condenadas pelo apóstolo são as sementes que resultam nos males das seitas, essa advertência também possui ligação com os movimentos religiosos que ameaçaram a Igreja primitiva.

 

Perceba que o objetivo derradeiro de Deus permitir o surgimento de seitas é manifestar os que são cristãos verdadeiros dentro da comunidade cristã. E em nenhum momento o cenário apresentado por Paulo é que tais divergências culminariam na própria derrocada total da igreja verdadeira e sua substituição por uma igreja completamente apóstata, suposição que tanto fomenta os pretensos “restauradores do cristianismo verdadeiro” em nosso tempo. A seguir, veja o que dizem os comentaristas sobre esse aviso de Paulo:

 

18. Em primeiro lugar - Em primeiro lugar. As ‘divisões’ (grego, ‘cismas’) significavam, não são meramente as de opinião (1 Coríntios 1:10), mas em atos externos nas festas de amor (Agapæ), (1 Coríntios 11:21). Ele não acompanha a expressão ‘em primeiro lugar’ com ‘em segundo lugar’. Mas, embora não expressado, um segundo abuso estava em sua mente quando ele disse: ‘Em primeiro lugar’, ou seja, O ABUSO DE PRESENTES ESPIRITUAIS, que também criaram desordem em suas assembléias [1 Coríntios 12:1, 14:23, 26, 33 e 40). Na igreja - não o lugar de culto, pois ISIDORO DE PELÚSIA nega que houvesse lugares especialmente separados para adoração nos tempos dos apóstolos [Epístola, 246.2]. Mas, ‘na assembléia’ ou ‘congregação’. Em convocação para a adoração, onde o amor, a ordem e a harmonia prevalecerão. A própria ordenança instituída para unir os crentes em um só corpo foi feita uma ocasião para ‘divisões’ (cismas). Em parte - Ele por meio desta exclui o inocente. ‘Eu não estou disposto a acreditar em tudo o que ouço, mas alguns [relatos] eu não posso deixar de acreditar’ [ALFORD]: enquanto meu amor não é afetado por isso [BENGEL]”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Coríntios 11:18.

 

19. heresias - Não meramente ‘cismas’ ou ‘divisões’ (1 Coríntios 11:18), que são ‘dissensões recentes da congregação através de diferenças de opinião’ [AGOSTINHO, Con. Crescon. Don. 2.7, citado por TRENCH, Greek Synonyms of the New Testament], mas também ‘heresias’, isto é, ‘cismas que agora se tornaram inveterados’; ‘Seitas’ [CAMPBELL, vol. 126, 127]: assim Atos 5:17, 15:5 traduzem o mesmo termo grego. No presente, houve dissensões nas festas de amor, mas Paulo, lembrando-se das palavras de Jesus (Mateus 18: 7, 24:10, 12, Lucas 17:1), prevê que ‘também deve haver’ separações amadurecidas e partidos estabelecidos na separação como separatistas. O ‘deve haver’ surge do pecado em professores que necessariamente carregam seus frutos naturais: estes são anulados por Deus à probação de caráter tanto do piedoso quanto do ímpio, e à disciplina do primeiro para glória. As ‘heresias’ ainda não tinham o seu sentido técnico eclesiástico, referindo-se a erros doutrinais: significa cismas confirmados. ST. AGOSTINHO determina uma regra de ouro no que diz respeito a questões de heresia e catolicidade: ‘Em questões duvidosas, a liberdade; nas essenciais, a unidade; em todas as coisas, a caridade’. aquele . . . aprovado pode ser manifestado - por meio da desaprovação (réprobos) tornando-se manifestado (Lucas 2:35, 1 João 2:19)”. – Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Robert Jamieson e outros (1871), sobre 1 Coríntios 11:19.

 

17-22. Agora, neste. . . Eu não vos louvo. Que suas assembléias da igreja não eram ordenadas. 18. Quando vocês se reunirem na igreja. Em uma reunião da igreja. Há divisões. Ele tinha falado nos capítulos 1-3 das divisões na congregação. Ele agora lhes diz que ouviu que essas divisões se manifestavam nas reuniões da igreja. 19. É preciso haver heresias. As heresias eram falsas opiniões que levavam a divisões. No estado da mente humana eram inevitáveis e iria peneirar a igreja. 20. Quando vocês se unirem, portanto. Quando se reuniram estas heresias e divisões eram manifestadas. Havia um grupo Paulino, um grupo Apolino, e um grupo de Petrino, que se separaram um do outro. Não é para comer a ceia do Senhor. Vindo em tal espírito eles não estavam em boa mente para comer a ceia do Senhor. 21. Para cada um se alimenta antes de outros de sua própria ceia. Era comum em Corinto comer uma refeição juntos, do mesmo modo que Cristo e seus discípulos na noite da ceia do Senhor. Depois disso veio a ceia do Senhor. Nessa refeição, cada festa em Corinto estava separada e se comia quando estava pronta. O resultado foi que alguns começavam antes dos outros. Um ficaria com fome, e outro bêbado. Esta última cláusula significa que ele tinha comido e estava satisfeito. 22. O que! Não tendes casas para comer e beber? A prática é repreendida. O lugar para comer suas festas era em casa. Desprezais a igreja de Deus? Por uma festa egoísta, onde alguns comiam luxuosamente, e envergonhavam os outros, talvez os pobres, que não tinham nada”. People's New Testament, sobre Colossenses 2:4-8, sobre 1 Coríntios 11:17-22.

 

Deve haver (δεῖ εἶναι). Visto que as condições morais são tão ruins entre vocês (capítulos 1 a 6). Cf. Mateus 18:7. Heresias (αἱρέσεις). Os cismas naturalmente se tornam facções ou partidos. Cf. Strifes (εριδε) em Mateus 1:11. Veja em ‘Atos 15:5’ para αιρεσει, uma escolha, tomando partido, mantendo opiniões de um grupo, heresia (a nossa palavra). ‘A heresia é um cisma teórico, o cisma é a heresia prática’. Cf. Tito 3:10; 2 Pedro 2:1. Em Paulo só aqui e em Gálatas 5:20. Isso (ἵνα). O propósito de Deus nessas facções faz com que os aprovados (οἱ δόκιμοι) se tornem manifestos (φανεροὶ). ‘Estas αἱρέσεις [aireseis] são um ímã que atrai mentes instáveis e inseguras’ (Findlay). Sempre tem sido assim, a exemplo dos [movimentos] assim chamados atualmente: ‘Ciência Cristã’, ‘Russelismo’, ‘Novo Pensamento’, etc.”. – Robertson's Word Pictures of the New Testament, sobre 1 Coríntios 11:19.

 

O que disseram os sucessores dos apóstolos

 

Conforme foi visto na segunda seção, o autor do MB disse que os escritores cristãos que surgiram depois dos apóstolos eram platonistas em sua maioria. Por isso eles teriam sido os condutores da suposta apostasia da igreja primitiva. Esta é uma dedução obviamente errônea, conforme ficará claro nesta seção. De qualquer modo, se ele acha que a formação cultural ou religiosa de uma pessoa que se converteu para outra religião implica necessariamente em ela levar para a nova agremiação os mesmos conceitos nos quais antes acreditava, por que ele não aplica o mesmo critério para os escritores do Novo Testamento? Sim, pois todos eles eram judeus e sabe-se que todos os judeus daquele tempo, à exceção dos saduceus, acreditavam que a pessoa humana possui uma alma invisível que sobrevive à morte do corpo.

 

O autor do MB poderia argumentar, por exemplo, que devido às novas orientações de Cristo os seus discípulos teriam abandonado tal conceito. Se ele pensa isso é uma conclusão natimorta, uma vez que o próprio Jesus revalidou em seus discursos conceitos judaicos a exemplo do sofrimento dos ímpios depois da morte, seja na Geena ou no Hades, lugar que ele também situou nas profundezas da Terra (“coração da terra”), além de ter dito claramente que os martirizadores de cristãos só podiam matar o corpo, não a alma. Veja Mateus 5:22 e 10:28, Marcos 9:43-48 e Lucas 16:19-31. E compare com Apocalipse 21:5-8. É por isso que os seguidores diretos de Jesus registraram todas essas informações sem nenhuma ressalva, como é o caso também do episódio da transfiguração, onde relataram com absoluta naturalidade que dois patriarcas falecidos apareceram para Jesus, e conversaram com ele sobre sua morte iminente na cruz . – Lucas 9:28-32.

 

Não existe nada no Novo Testamento que sugira que o conceito de vida imediata depois da morte está errado. Se ele fosse mesmo errôneo e os discípulos o tivessem abandonado, seria uma obrigação da parte deles darem as devidas explicações sobre essa mudança. Esta é a postura natural de qualquer pessoa que se converte a uma nova religião e passa a rejeitar o que antes acreditava. Ela sente a necessidade de se retratar e ensinar os outros, a fim de que não caiam no que ela passou a considerar um erro. Logo, o silêncio dos escritores bíblicos é uma evidência indireta de que eles não eram aniquilacionistas. Além disso, são bastante pertinentes declarações do Novo Testamento a exemplo desta:

 

“Então Paulo, sabendo que alguns deles eram saduceus e os outros fariseus, bradou no Sinédrio: ‘Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos!’ Dizendo isso, surgiu uma violenta discussão entre os fariseus e os saduceus, e a assembléia ficou dividida. (Os saduceus dizem que não há ressurreição nem anjos nem espíritos, mas os fariseus admitem todas essas coisas)”. – Atos 23:6-10, Nova Versão Internacional.

 

Note que Paulo não disse “eu era fariseu”, ele disse “eu sou”. E sobre algumas das crenças dos fariseus, o historiador judeu Flávio Josefo disse o seguinte:

 

“Eles também acreditam que as almas têm um vigor imortal nelas, e que debaixo da terra [no Hades] haverá recompensas ou castigos, conforme viveram virtuosamente ou viciosamente nesta vida. E estes últimos devem ser detidos em uma prisão eterna, mas os primeiros terão o poder para reviver e viver novamente”. – Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. 1, parágrafo 3, colchetes acrescentados.

 

“Eles sustentam que toda alma é imperecível, mas que só a alma dos bons passa para outro corpo, ao passo que a alma dos iníquos sofre punição eterna.” – A Guerra Judaica, Livro II, cap. 8, parágrafo 14.

 

Tomando-se como referência tais crenças, se entende melhor o motivo de determinadas afirmações de Paulo que tocam nessa ideia de alma que não morre. Ele disse que quando se ausentasse do corpo pela morte iria viver com Cristo (Filipenses 1:21-23) e que as outras pessoas deviam nutrir a mesma expectativa (2 Coríntios 5:8, 9). Tal confiança é reforçada pelo fato de que, certa vez, o próprio Paulo fez uma visita ao paraíso de Deus, antes mesmo da morte do corpo, mas provavelmente fora dele (2 Coríntios 12:1-7). Além disso, conforme várias versões, Paulo afirmou que Jesus desceu às profundezas da Terra depois da morte (Efésios 4:8, 9) e ao ver determinado jovem que foi considerado morto, tranquilizou as pessoas dizendo que a alma do rapaz ainda estava nele (Atos 20:10, compare com Gênesis 35:18). Embora Paulo realmente possa ter abandonado algum entendimento dos judeus sobre esse assunto, a exemplo da reencarnação, tais passagens bíblicas demonstram que, de uma maneira geral, ele manteve o que antes acreditava sobre a natureza do homem, crenças que nada têm a ver com o aniquilacionismo.

 

Mas ao passo que é possível deduzir as crenças de Paulo sobre a morte com base em sua formação qual fariseu, visto que um padrão semelhante é apresentado na Bíblia, o mesmo já não ocorre no caso dos escritores imediatamente depois da era apostólica, pois eles deixaram muito claro o seu repúdio pela filosofia grega e exaltaram o ensino cristão. De modo que a insinuação do autor do MB, de que suas formações filosóficas deporiam contra o cristianismo deles, é completamente irrelevante, além de revelar uma ignorância patente sobre o tema. Tais escritores não só mantiveram a mesma tônica de advertência vista nos escritos apostólicos, como os mencionaram frequentemente. A seguir alguns exemplos:

 

“Filho meu, não seja devasso, porque a devassidão conduz à fornicação, nem um tagarela obsceno, nem altaneiro, porque de todos esses surgem os adultérios. Filho meu, não seja um observador de presságios, já que eles conduzem ao caminho da idolatria. Nem um mago, nem um astrólogo, nem um curandeiro, nem se torne apto para estas coisas, pois de todas elas surgem as idolatrias. Filho meu, não seja mentiroso, pois uma mentira é o caminho para o roubo, nem amante do dinheiro, nem vanglorioso, pois de todos esses surgem os roubos”. – Didaqué, cap. 3, c. 98 d.C.

 

“Alguns o negam ignorantemente, ou melhor, foram negados por Ele, sendo os defensores da morte e não da verdade. Essas pessoas nem os profetas têm persuadido, nem a lei de Moisés, nem o Evangelho até hoje, nem os sofrimentos que temos suportado individualmente. Pois eles pensam também a mesma coisa em relação a nós. Pois, de que me aproveita alguém se ele me elogia, mas blasfemar contra o meu Senhor, não confessando que Ele estava [verdadeiramente] possuído de um corpo? Mas aquele que não reconhece isso, de fato o negou completamente, sendo envolvido na morte. Contudo, não achei bom escrever os nomes de tais pessoas, na medida em que são incrédulos. Sim, longe de mim fazer qualquer menção deles, até que eles se arrependam e voltem para [uma crença verdadeira] na paixão de Cristo, que é a nossa ressurreição”. – Carta aos Esmirnianos, Inácio de Antioquia, cap. 5, c. 107 d.C., referência ao conceito gnóstico do docetismo.

 

“Estude, portanto, para ser estabelecido nas doutrinas do Senhor e dos apóstolos, para que todas as coisas, tudo o que fizerem, possam prosperar na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, e no Pai, e no Espírito, no início e no final. Com o seu bispo mais admirável, e a coroa espiritual bem compactada de seu presbitério, e os diáconos que estão de acordo com Deus. Sede sujeitos ao bispo, e uns aos outros, como Jesus Cristo ao Pai, segundo a carne, e os apóstolos a Cristo, e ao Pai, e ao Espírito, para que haja uma união tanto carnal como espiritual”. – Carta aos Magnésios, Inácio de Antioquia, cap. 13, c. 107 d.C.

 

Você aceita as vãs e estúpidas doutrinas daqueles que são considerados filósofos confiáveis? Dos quais alguns disseram que o fogo era Deus, chamando esse Deus ao qual eles mesmos foram e vieram. E alguns [dizem que Ele é] água. E outros, algum dos demais elementos formados por Deus. Mas se alguma dessas teorias for digna de aprovação, cada uma das outras coisas criadas também pode ser declarada Deus. Mas tais declarações são simplesmente afirmações surpreendentes e errôneas dos enganadores”. – Carta de Matetes a Diogneto, cap. 20, colchetes acrescentados, c. 125 d.C.

 

“Os presbíteros, os discípulos dos apóstolos, dizem que esta é a gradação e disposição para aqueles que estão salvos, e que eles avançam através de passos desta natureza; e que, além disso, eles ascendem, pelo Espírito ao Filho, e através do Filho para o Pai. E que, no devido tempo, o Filho cederá Sua obra ao Pai, como diz o apóstolo: ‘Pois deve reinar até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés.’ O último inimigo que será destruído é a morte. ‘Pois nos tempos do reino o justo que está sobre a terra se esquece de morrer.’ Mas quando Ele diz que todas as coisas são colocadas sob Ele, é manifesto que Ele é excluído, que colocou todas as coisas sob Ele. E quando todas as coisas forem subjugadas a Ele, então o Filho também estará sujeito Àquele que colocou todas as coisas sob Ele, para que Deus seja tudo em todos’.”. – Pápias de Hierápolis, Fragmentos 5, c. 145 d.C.

 

“‘Pois quem não confessa que Jesus Cristo veio em carne, é anticristo’, e quem não confessa o testemunho da cruz, é do diabo. E qualquer que perverte as pronunciações do Senhor às suas próprias concupiscências, e diz que não há nem uma ressurreição nem um julgamento, ele é o primogênito de Satanás. Portanto, abandonando a vaidade de muitos e suas falsas doutrinas, voltemos à palavra que nos foi transmitida desde o princípio; ‘Vigiando em oração’, e perseverando em jejum, implorando em nossas súplicas ao Deus que tudo vê, ‘para não nos conduzir à tentação’, como o Senhor disse: ‘O espírito verdadeiramente deseja, mas a carne é fraca’.” – Carta aos Filipenses, Policarpo de Esmirna, cap. 7, c. 155 d.C.

 

“[Justino disse a um judeu que estudava filosofia:] E em que você seria beneficiado pela filosofia, assim como por seu próprio legislador e os profetas?... a maioria [dos filósofos] não têm pensado nisso, sobre se há um ou mais deuses, e se eles têm um respeito por cada um de nós ou não, como se este conhecimento não contribuisse em nada para a nossa felicidade. Eles tentam, além disso, convencer-nos de que Deus cuida do universo com seus gêneros e espécies, mas não de mim e de você, e a cada um individualmente, já que de outra forma não precisaríamos orar a Ele noite e dia. Mas não é difícil entender o resultado disso. Por destemor e licença em falar resultam que eles mantêm tais opiniões, fazendo e dizendo o que quer que escolham, nem temendo a punição nem esperando qualquer benefício de Deus. Pois como poderiam? Afirmam que as mesmas coisas sempre acontecerão. E, além disso, que eu e vocês voltaremos a viver da mesma maneira, não sendo nem melhores nem piores. Mas há outros que, tendo suposto que a alma é imortal e imaterial, acreditam que, embora tenham cometido o mal, não sofrerão castigo (pois o que é imaterial é insensível), e que a alma, em conseqüência de sua imortalidade, não precisa de nada de Deus”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 1, colchetes acrescentados, c. 155 d.C.

 

“Mas, seguindo nossa ordem, devemos agora falar com respeito aos que pensam mal da carne, e dizer que não é digno da ressurreição nem da economia celestial... essas pessoas parecem ser ignorantes de toda a obra de Deus, tanto da gênesis e formação do homem em primeiro lugar, e por que as coisas no mundo foram feitas... A alma é por si só homem? Não, mas a alma do homem. O corpo seria chamado homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, portanto, nenhum deles é por si só homem, mas o que é constituído pelos dois juntos é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, Ele não chamou uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo... E quando Ele [Jesus] lhes mostrou que há uma verdadeira ressurreição da carne, desejando mostrar-lhes também isto, que não é impossível que a carne suba ao céu (como Ele havia dito que nossa morada está no céu) ‘Ele foi levado ao céu enquanto eles contemplavam’, quando Ele estava na carne. Se, portanto, depois de tudo o que foi dito, alguém exigir demonstração da ressurreição, ele não é diferente dos saduceus, uma vez que a ressurreição da carne é o poder de Deus, e, acima de todo raciocínio, é estabelecido pela fé, e visto nas obras... por que ainda toleramos esses argumentos incrédulos e perigosos, e não vemos que estamos retroagindo quando ouvimos um argumento tal como este: que a alma é imortal, mas o corpo mortal, e incapaz de ser revivido?”. – Sobre a Ressurreição, Justino de Roma, caps. 7 a 10., c. 160 d.C., referência às ideias gregas e gnósticas menosprezadoras do corpo.

 

“Consequentemente [depois de não obter sucesso nas escolas filosóficas anteriormente mencionadas], fiquei um pouco impaciente, como era de esperar quando eu falhei em minha esperança, tanto mais porque eu achava que o homem tinha algum conhecimento. Mas refletindo novamente sobre o espaço de tempo durante o qual eu teria de demorar-me nesses ramos do aprendizado, eu não era capaz de suportar mais procrastinação. Na minha condição desamparada, ocorreu-me ter um encontro com os platônicos, pois sua fama era grande. Passei o maior tempo possível com alguém que se instalara recentemente em nossa cidade, um homem sagaz, que ocupava uma posição elevada entre os platônicos, e eu progredia e fazia as maiores melhorias diariamente. E a percepção das coisas imateriais me dominou bastante, e a contemplação das ideias forneceu asas à minha mente, de modo que em pouco tempo eu supus que eu tinha me tornado sábio, tal era a minha estupidez. Eu esperava imediatamente olhar para Deus, pois este é o fim da filosofia de Platão”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 2, abreviado, colchetes acrescentados, c. 160 d.C.

 

Que coisa nobre você produziu por sua busca da filosofia? Quem dos vossos homens mais eminentes está livre de vanglória? Diógenes, que fez tal desfile de sua independência com sua banheira, foi tomado por uma queixa intestinal ao comer um fruto do mar cru, e assim perdeu a vida pela gula. Aristipo, andando com uma túnica roxa, manteve uma vida libertina, de acordo com suas opiniões professadas. Platão, um filósofo, foi vendido por Dionísio por suas propensões de glutão. E Aristóteles, que absurdamente colocava um limite na Providência e fazia a felicidade consistir nas coisas que dão prazer, contrariamente ao seu dever de preceptor, lisonjeava Alexandre, esquecendo-se de que ele não era mais que um jovem... Eu poderia rir daqueles que ainda hoje aderem aos seus princípios - pessoas que dizem que as coisas sublunares não estão sob o cuidado da Providência. E assim, estando mais perto da terra do que a lua, e debaixo de sua órbita, eles mesmos cuidam do que é assim deixado sem cuidados. E quanto aos que não têm nem beleza, nem riqueza, nem força corporal, nem elevado nascimento, não têm felicidade, segundo Aristóteles. Que tais homens filosofem para mim!” – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 2, c. 170 d.C.

 

“São, então, aqueles que consideram a vida como sendo compreendida nisto: ‘Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’ [lema dos epicureus], e que consideram a morte como um sono profundo e esquecimento (‘sono e morte, irmãos gêmeos’), para serem considerados piedosos. Enquanto os homens que consideram a vida presente de valor muito pequeno, e que são conduzidos à vida futura por esta única coisa: que conhecem Deus e Seu Logos [a Palavra ou Verbo]... Quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida melhor do que a presente... ou uma vida pior e no fogo, porque Deus não nos fez como ovelhas ou animais de carga, uma mera força de trabalho, e para que sejamos perecíveis e aniquilados. Por estes motivos, não é provável que desejemos fazer o mal, ou entregar-nos ao grande juiz para sermos punidos”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, caps. 12 e 31, c. 180 d.C., colchetes acrescentados.

 

“E por que eu deveria contar mais a vasta gama de tais nomes e genealogias? De modo que todos os autores e poetas, e aqueles chamados filósofos, estão totalmente enganados. E assim, também, são os que dão ouvidos a eles... Mas sendo inspirados por demônios e inchados por eles, eles falaram em suas instâncias o que quer que dissessem... só nós cristãos temos possuído a verdade, na medida em que somos ensinados pelo Espírito Santo, que falou nos santos profetas, e previu todas as coisas”. – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro II, caps. 8 e 33, c. 180 d.C.

 

Estas opiniões, Florino, para que eu possa falar em termos suaves, não são de sã doutrina. Estas opiniões não são consoantes à Igreja, e envolvem seus devotos na maior impiedade. Estas opiniões mesmo os hereges além do âmbito da igreja nunca se aventuraram a abordar. Essas opiniões, aqueles presbíteros que nos precederam e que estavam familiarizados com os apóstolos, não deram a você. Pois, quando ainda era menino, eu vi você na Ásia Menor com Policarpo, distinguindo-se na corte real e procurando obter a sua aprovação... E como ele chamava suas palavras à lembrança. Tudo o que ele tinha ouvido deles respeitando o Senhor, tanto em relação a Seus milagres e Seu ensino, Policarpo tendo assim recebido [a informação] das testemunhas oculares da Palavra de vida, iria contá-las todos em harmonia com as Escrituras. Essas coisas, por meio da misericórdia de Deus que estava sobre mim, eu então as escutei atentamente, e as valorizei não no papel, mas no meu coração”. – Irineu de Lyon, Fragmento 2, c. 185 d.C.

 

“Diz-se que há uma certa aldeia chamada Ardabã na parte da Mísia, que faz limite com a Frígia. Primeiramente, dizem eles, quando Grato era procônsul da Ásia, um convertido recente chamado Montano, por seu insaciável desejo de liderança, deu a oportunidade adversária contra si próprio. E ficou fora de si, e de repente, em uma espécie de frenesi e êxtase, ele começou a delirar, e começou a balbuciar e falar coisas estranhas, profetizando de uma maneira contrária ao constante costume da Igreja transmitida pela tradição desde o início... os fiéis na Ásia reuniram-se frequentemente em muitos lugares da Ásia para considerar este assunto, examinaram as novas declarações e as declararam profanas, e rejeitaram a heresia, e assim essas pessoas foram expulsas da Igreja e excluídas da comunhão”. – Contra Montano, autor anônimo, c. 193 d.C., referência à seita montanista, a que mais incomodou a igreja no século II.

 

Para ver mais exemplos, acesse o link abaixo:

 

O que Ensinaram os Escritores Cristãos do Segundo Século?

 

Conclusão

 

Esta análise demonstrou que os versículos do Novo Testamento que apresentam as advertências apostólicas sobre falsos ensinos e heresias não servem para acomodar qualquer tipo de conceito ensinado por pretensos reveladores da verdade bíblica, especialmente o relacionado ao materialismo “cristão”, segundo o qual o homem não possui uma alma que sobrevive à morte e que esta resulta na inexistência completa do indivíduo.

 

Todas as evidências disponíveis, diretas ou indiretas, apontam indubitavelmente para conclusão de que o aniquilacionismo não foi ensinado pelos primitivos cristãos. Certamente se algo assim tivesse sido pregado por algum grupo alegadamente cristão, o mesmo teria sido classificado pela igreja como sendo uma heresia. Sim, não há indícios de que alguma seita daquela época tenha sustentado o aniquilacionismo, pois todos naquele tempo acreditavam que o homem possui uma alma imortal, a exceção de alguns grupos pouco expressivos a exemplo dos epicureus.

 

Ademais, não corresponde à realidade supor que os apóstolos foram o elemento de restrição, mencionado por Paulo, que impediria a entrada de ensinos falsos nas comunidades cristãs. Tal conclusão é rechaçada por eruditos bíblicos credenciados, pois o que parecia restringir uma eventual apostasia generalizada nos três primeiros séculos era o Império Romano e seu sistema político. Ressalte-se também que atribuir essa contenção aos apóstolos pode ser contradita até mesmo pelo mero raciocínio associado a uma análise histórica. Os apóstolos prepararam homens que assumiram lugares de liderança nas diversas congregações, os quais, por sua vez, prepararam outros. Não é razoável concluir que todos eles se apostatariam de uma hora para outra. E os escritos citados na seção anterior demonstram que eles, de fato, mantiveram o mesmo senso de preservação da sã doutrina. Só houve espaço maior para apostasia quando surgiu a liberdade religiosa.

 

E não menos importante é que os apóstolos sozinhos pouco poderiam fazer para evitar eventuais desvios doutrinais. O trabalho de pastoreio envolvia muitas pessoas. Também é irrealista supor que os homens de confiança dos apóstolos eram hereges infiltrados e que estavam apenas aguardando a morte do último apóstolo (João) para darem a largada ao que supostamente tinham em mente. Até porque em seus últimos anos de vida o apóstolo João estava exilado e tinha pouca influência sobre as diversas igrejas espalhadas pelo mundo greco-romano, que já estavam adquirindo o hábito de recorrer à igreja de Roma em busca de orientações. O que realmente alterou as feições doutrinais da Igreja como um todo foi a liberdade decretada pelo imperador Constantino, e mesmo assim não parece ter sido o que foi previsto por Paulo aos Tessalonicenses.

 

Toda história das apostasias que surgiram depois do tempo dos apóstolos pode então ser resumida assim:

 

“A gnose é uma corrente sincretista que funde entre si elementos das religiões orientais, da mística grega e da revelação judeo-cristã. Tentou envolver o Cristianismo no processo de fusão, pondo em xeque a pureza da mensagem evangélica nos séculos II/III. Por isto já em 1Tm 6,20 há uma advertência a Timóteo para que evite ‘as contradições de uma falsa gnose (pseudónymos gnosis)’... os gnósticos deveriam praticar severa ascese ou abstinência de prazeres carnais. Facilmente, porém, passavam ao extremo oposto... e caíam em libertinismo desenfreado... O gnosticismo se ramificou em escolas diversas: o oriental, mais rígida, a helênica, mais branda, a de Marcião, mais chegada ao Cristianismo, a dos Ofitas (cultores da serpente), a dos Cainitas, a dos Setianos… Floresceu principalmente entre 130 e 180, contando com chefes de capacidade notável (Basílides, Valentim, Carpócrates, Pródico…). Produziram rica bibliografia (tratados de filosofia, comentários de textos bíblicos, hinos…), de que nos restam poucos fragmentos. O confronto entre a gnose aparatosa e o Cristianismo nascente foi de enorme perigo para este; a Igreja teve que desenvolver eloqüente e densa apologética representada principalmente por S. Justino, S. Irineu, Tertuliano, Hipólito de Roma… Os bispos se uniram entre si como autênticos guardas do patrimônio da fé; Roma, onde os principais mestres da gnose queriam implantar-se, soube desenvolver ação particularmente benemérita. Na confusão que entre os cristãos podia estabelecer-se no debate doutrinário, o critério para julgar a veracidade de determinada sentença era a conformidade ou não desta com os ensinamentos da Igreja de Roma; estes eram decisivos, pois a comunidade de Roma estava fundada sobre a pregação e o martírio dos dois principais Apóstolos (Pedro e Paulo)... nela sempre se conservou a Tradição que vem dos Apóstolos’ (Contra as Heresias III, 3, 1-3 [Ireineu de Lyon])”. – Os Primeiros Escritores Cristãos, 2016, de Felipe Aquino.

 

Portanto, está devidamente esclarecido o que os apóstolos tinham em mente ao escreverem suas advertências, e em nenhum caso elas têm alguma relação com a crença na vida espiritual depois da morte, entendimento que sempre houve na história judaico-cristã, desde o primeiro século. Deste modo, ficou claro quem realmente está caiando fatos inconvenientes com o intuito de promover ensinamentos falsos.

 

 

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