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OBRAS TEOLÓGICAS E DE REFERÊNCIA APOIAM O ANIQUILACIONISMO?

 

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Conteúdo

 

Prefácio

 

1. A crença cristã sobre a morte e os novos aniquilacionistas

 

2. O que as obras citadas pelos aniquilacionistas realmente ensinam

 

3. Visão geral das referências bibliográficas que foram analisadas

 

4. O que o autorbereano" pensou que viu nos livros que citou

 

5. Textos bíblicos com a ideia implícita da alma invisível do homem

 

6. O reflexo do dualismo corpo-alma na comunidade cristã primitiva

 

7. Materialismo “cristão“, imortalidade condicional e “sono” da alma

 

8. As demais obras citadas e a recorrência dos erros cometidos

 

9. Recapitulação e considerações finais

 

Apêndice

 

A. O conceito grego sobre a imortalidade da alma

 

B. Linguagem materialista não é necessariamente aniquilacionismo

 

C. Sobre o encontro do rei Saul com o falecido profeta Samuel

 

D. Será que os pais apostólicos e seus sucessores eram promotores de heresias?

 

E. A sinonímia entre “corpo” e “carne” no Novo Testamento

 

F. O conceito cristão sobre a imortalidade da alma e o monismo

 

G. Exemplo adicional de uma pesquisa deficiente fruto de ideia preconcebida

 

H. Lista das obras comentadas e das que foram recentemente incluídas

 

Legenda das versões bíblicas utilizadas


(PDF, 4.39 Mb)

 

Desde a época da igreja primitiva os cristãos dizem que a alma continua viva após a morte do corpo e que a punição dos maus será o sofrimento na Geena ardente (“inferno”). Esta seria a “destruição” mencionada por Jesus Cristo (Mateus 8:11, 12; 10:28). No século III, porém, uma comunidade cristã árabe sustentou que na morte a alma também deixa de existir. No entanto, eles voltaram atrás e reassumiram o entendimento tradicional depois que Orígenes os convenceu que estavam errados. E no século IV, Arnóbio de Sica ensinou que a alma sobrevive à morte, mas os ímpios não serão atormentados e sim erradicados da existência. A ortodoxia cristã chama o posicionamento dele de aniquilacionismo. Já no século 19 algumas denominações que professam o cristianismo retomaram aquela ideia dos cristãos da Arábia. Ainda que seus adeptos sejam chamados de “aniquilacionistas”, o termo conceitual mais adequado à crença deles é materialismo. Escritores dessas religiões costumam citar obras teológicas que supostamente comprovariam que a opinião deles é a certa, mesmo que os autores de tais referências sejam “imortalistas”. Não seria isso um contrassenso? O objetivo deste livro é investigar se essa prática é correta ou não, além de apresentar uma análise bíblica e histórica da questão levantada pelos que advogam o aniquilacionismo materialista.

 

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Autor: Adelmo Medeiros.

 

Fortaleza, 11 de setembro de 2017.

 

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PREFÁCIO

 

Embora a escrita deste livro tenha demorado somente alguns meses, o que está nele, e em outros materiais recentes de minha autoria, é resultado de vários anos de muita reflexão, estudo e leitura, tanto da Bíblia quanto de obras relacionadas, que não se limitou apenas a dicionários especializados e enciclopédias, mas incluiu também as fontes antigas que dão origem a quase tudo o que se escreve até hoje sobre teologia ou exegese bíblica. Refiro-me a textos religiosos escritos há centenas ou milhares de anos por egípcios, hebreus, gregos, romanos e outros. Desse amplo arcabouço destaca-se a literatura patrística, que são textos cristãos produzidos pela igreja primitiva do final do século I em diante. Além disso, examinei também diversos livros apócrifos, obras de filosofia e as exposições rabínicas dos judeus. Em suma, as informações aqui apresentadas têm uma base de sustentação consistente, o que as torna bastante confiáveis. Este foi o objetivo de todo o esforço empreendido.

 

O que justificou a escrita deste trabalho foi algo que notei ao ler algumas “pesquisas” que citam livros teológicos e outros com o intuito de provar que os primeiros cristãos não acreditavam na vida imediata após a morte e que, ao invés disso, achavam que todos os que já viveram e morreram não existem mais, foram completamente aniquilados. Então, a única esperança que restaria para eles é um dia Deus “recriá-los” a partir do nada, sem nenhuma contraparte com suas reais identidades (almas) e as lembranças acumuladas na vida humana. Provavelmente um cristão mais ortodoxo ou tradicional achará essa teoria bem estranha, pois geralmente isso não é ensinado nas igrejas e quase todas as religiões dizem que a morte é apenas o início de uma nova vida.

 

No entanto, o que realmente causa espanto é que as referidas publicações de apoio geralmente ensinam o contrário do que os “mortalistas” dizem. Ou seja, elas afirmam que o ser humano possui uma alma e que esta sobrevive à morte do corpo (Mateus 10:28). Mesmo assim os defensores da aniquilação total acham que não estão fazendo nada de errado ao citá-las e ainda expõem o assunto com convicção e ares de autoridade. E, para completar, fazem críticas ácidas contra os que acreditam na imortalidade da alma e, às vezes, até os ofendem.

 

Pois bem, há um website mantido por um dissidente da religião “Testemunhas de Jeová” que publicou diversas coisas a favor do aniquilacionismo, dentre elas um extenso rol de citações extraídas das mencionadas obras de referência. Mais de 100, no total. Vi então uma excelente oportunidade para confirmar ou não a minha suspeita de uso inadequado dessa bibliografia. Inicialmente, a minha intenção era discorrer sobre isso em uma página da Internet. No entanto, à medida que eu fui verificando e comentando os livros e periódicos citados o meu texto foi aumentando até adquirir o tamanho de um livro, cujos detalhes de elaboração estão mais bem explicados nas primeiras seções. Por isso resolvi publicar minhas considerações de uma maneira mais adequada. Caso você não tenha tempo de lê-las integralmente, veja pelo menos a seção 9.

 

Por fim, informo que mesmo com a publicação do livro digital a versão on line foi mantida. De modo que achei interessante remeter o leitor para ela sempre que menciono algum ponto abordado em outra parte do livro. Assim, ao invés de buscar no PDF a informação que eu indicar você poderá vê-la no seu navegador, caso esteja conectado à Internet. O mesmo ocorrerá com os demais textos publicados em diversos sites que são aqui citados ou referenciados, contanto que os endereços permaneçam ativos em seus respectivos servidores.

 

1. A CRENÇA CRISTÃ SOBRE A MORTE E OS NOVOS ANIQUILACIONISTAS

 

Tal como todos os povos antigos, os hebreus primitivos acreditavam que os mortos descem para o mundo subterrâneo e vivem ali uma existência pálida... [Já] os autores dos Sal[mos] xlix e lxxiii . . . acreditavam que na morte apenas os ímpios iriam para o Seol e que as almas dos justos partiriam diretamente para Deus.

The Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica)

 

Seja qual for o ponto de vista que se tenha a respeito do desenvolvimento da doutrina da imortalidade da alma no A[ntigo] T[estamento] dificilmente haverá dúvida que é completamente assumido no N[ovo] T[estamento] que as almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte.

The International Standard Bible Encyclopedia (Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional)

 

Para quem estuda a Bíblia e recorre a obras teológicas de referência para ajudar no entendimento dela, frequentemente se depara com informações a exemplo dessas acima. Os autores de tais livros geralmente são profundos conhecedores daquilo que tratam e, mesmo que divirjam em um ou outro detalhe, suas pesquisas os fizeram todos chegar a uma mesmíssima conclusão que perpassa toda a história judaico-cristã: a morte não significa o término da existência, pois a alma de quem morre sobrevive ao fim do corpo físico. Alguns comentaristas evitam chamar de “alma” essa parte espiritual que se mantêm viva depois da morte, e a razão disso será depois explicada. Mesmo assim a ideia de continuidade consciente é mantida, contrapondo-se ao conceito de aniquilação.

 

Esse é o pensamento verdadeiramente bíblico que foi abraçado pelos judeus e cristãos ao longo das eras em que eles existem. Poucas vozes (religiosas) entre o povo de Deus foram ouvidas contra a crença de que as pessoas que morrem continuam vivas em outro lugar e algum tempo depois conscientes, aguardando a consumação dos séculos e o dia em que receberão novos corpos físicos para usufruir novamente uma vida na Terra. Em Israel apenas os saduceus não acreditaram assim, e faziam coro à descrença dos gregos epicureus, ainda que não fosse essa a intenção. Aliás, os gregos que acreditavam na vida após a morte riam da esperança de judeus e cristãos de haver uma ressurreição, pois para os gregos platonistas a alma não teve princípio e já existia antes do corpo, além de ser indestrutível. A expectativa que nutriam é que a morte liberta* a alma para os benefícios que sua imortalidade absoluta proporciona. Essa visão destoa daquilo que se vê na Bíblia. O historiador judeu Flávio Josefo, do século 1, descreveu o ponto de vista bíblico da seguinte maneira:

 

“[O mundo dos mortos é] uma região subterrânea, onde a luz deste mundo não brilha. . . . [É] um local de custódia para as almas; em que os anjos são nomeados como guardiões para elas: que lhes distribuem castigos temporários, de acordo com o comportamento e atitudes de cada um. . . . [Mas as almas] não seguem o mesmo caminho, pois os justos são guiados para a direita... até uma região de luz, em que o justo tem habitado desde o início do mundo. . . . esperam por aquele descanso e a nova vida eterna no céu... Este é o lugar que chamamos o seio de Abraão. . . . já para os injustos, eles são arrastados à força para a esquerda... [os anjos] os arrastam para a vizinhança do próprio inferno... não ficam livres do calor do próprio vapor... quando eles veem de perto esse espetáculo, a partir de uma grande perspectiva terrível e superior de fogo, eles são atingidos com uma expectativa terrível de um julgamento futuro. . . . as almas de todos os homens estão confinadas [no Hades], até uma época apropriada que Deus já determinou: quando ele fará uma ressurreição de todos os homens do mundo dos mortos. Não por promover uma transmigração das almas de um corpo para outro; mas levantando novamente aqueles mesmos corpos que vocês gregos acham que foram dissolvidos, já que não acreditam na ressurreição deles, mas aprendem a não crer nisso”. – Discurso de Flávio Josefo aos gregos a respeito do Hades, colchetes acrescentados.

 

* Entre os gregos havia duas crenças gerais, a homérica e a platônica. Na época de Homero era predominante a ideia de que depois da morte a alma descia para o Hades e experimentava uma existência triste e sombria. Já os platonistas posteriores achavam que ela voltava para as esferas celestes, a fim de usufruir uma vida sublime, mas não sem antes reencarnar em vários corpos na Terra. E em cada existência se a pessoa não tivesse tido um comportamento virtuoso reencarnaria na forma de animais, a fim de pagar os erros da vida passada. De qualquer maneira, independentemente de quais dos dois pontos de vista fosse o adotado, os gregos acreditavam que a alma continuava viva depois da morte e que ela existiria para sempre. As exceções eram apenas os epicureus e os que aderiram à concepção hilomórfica de Aristóteles, e mesmo assim não existe unanimidade sobre o que realmente significa a visão aristotélica. Para mais detalhes, consulte o texto A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

 

A visão de Josefo está em essência de acordo com os ensinamentos de Jesus, que disse, por exemplo, o seguinte:

 

“Quando o Filho do homem chegar na sua glória, e com ele todos os anjos, então se assentará no seu trono glorioso. E diante dele serão ajuntadas todas as nações, e ele separará uns dos outros assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à sua esquerda... O rei dirá então aos à sua direita: ‘Vinde, vós os que tendes sido abençoados por meu Pai, herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo’... Então dirá, por sua vez, aos à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, vós os que tendes sido amaldiçoados, para o fogo eterno'... E estes partirão para o decepamento eterno, mas os justos, para a vida eterna”. – Mateus 25:31-46, TNM.

 

“Havia certo homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e seguia vivendo suntuosamente todos os dias. Mas havia um pedinte de nome Lázaro, cheio de feridas, que se recostava ao seu portão, desejando se alimentar das sobras que caíam da mesa do rico... Então aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão. O homem rico também morreu e foi enterrado. E, estando em tormentos, no Hades, ele levantou os olhos e viu Abraão de longe, e Lázaro junto a ele. Então, ele gritou e disse: ‘Pai Abraão tenha piedade de mim, e manda que Lázaro mergulhe a ponta do seu dedo na água e refresque a minha língua, pois estou atormentado nessas chamas’. Mas Abraão disse: ‘Filho, lembre-se que durante a sua vida você recebeu suas boas coisas, e Lázaro, por sua vez, as coisas ruins; mas agora ele está confortado e você em tormentos. Além do mais, existe um grande precipício entre nós e vocês, de maneira que aqueles que querem passar daqui para aí não podem, nem podem os daí passar para cá’.”. – Lucas 16: 19-31, New King James Version, tradução própria.

 

Não obstante tais evidências bíblicas, chanceladas por obras sérias de referência, alguns que professavam o Cristianismo, especialmente a partir do século 19, passaram a acreditar que a morte do corpo é acompanhada também pela morte da alma, e a pessoa deixa de existir totalmente, como se nunca tivesse nascido (mais informações na seção 7). Esse pensamento tem sido chamado por comentaristas de “materialismo”, que é comumente crido por ateus. Sobre isso, disse a Enciclopédia Católica:

 

“Conforme o próprio significado da palavra, Materialismo é o sistema filosófico segundo o qual a matéria é a única realidade no mundo, responsável por explicar cada evento no universo como sendo resultado das condições e atividades da matéria, e que assim nega a existência de Deus e da alma. É diametralmente oposto ao Espiritualismo e o Idealismo, os quais, e no que tange a isso eles são unilaterais e exclusivos, declaram que cada coisa no mundo é espiritual, e que o mundo e até a matéria são em si concepções ou ideias no campo do pensamento”. – Enciclopédia Católica, versão on line, verbete “Materialismo”.

 

Se alguém está vivo e consciente apenas devido ao funcionamento da máquina biológica do corpo, é óbvio que quando esse mecanismo físico pára de funcionar a pessoa deixa de existir completamente. Importar essa ideia para dentro da Bíblia é algo inédito na história do Cristianismo, embora se saiba que dois grupos isolados tenham aparecido querendo ensinar algo parecido com isso, os saduceus da época de Cristo, conforme já mencionado, e uma comunidade cristã árabe do século 3, que depois abandonou essa opinião, pois, com a ajuda de Orígenes, chegaram à conclusão que não havia um fundamento sólido nas Escrituras que a justificasse.

 

De acordo com os que defendem esse novo ensinamento “cristão”, a ressurreição consistirá em algo que lembra uma superclonagem seguida de uma transferência gigantesca de informações, quando Deus criará uma réplica perfeita do corpo da pessoa falecida e depois de fazê-lo funcionar implantará em seu cérebro vazio as lembranças de quem outrora viveu. Deste modo, quando essa nova pessoa acordar, achará que é aquele que morreu tempos antes. Sim, os que acreditam nisso não se dão conta que esse “ressuscitado” será outra criatura, embora uma simples abstração possa revelar tal fato: E se Deus resolvesse fazer isso antes mesmo da pessoa original falecer? Um paradoxo seria gerado, pois duas pessoas distintas passariam a viver com as mesmas lembranças e características, embora a pessoa número 2, a partir de sua criação, certamente iria construir sua própria história no mundo, e ambas passariam a possuir lembranças que diriam respeito somente a cada uma delas, fruto de suas próprias experiências individuais desse momento em diante. Veja mais detalhes sobre isso na seção 7.

 

Os adeptos dessa crença religiosa recém-criada também têm sido chamados de “aniquilacionistas”, embora a ortodoxia cristã use esse termo para se referir apenas aos que acham que as almas não serão atormentadas na Geena depois do Juízo Final, mas sim destruídas ou aniquiladas. O primeiro cristão a ensinar isso foi o apologista Arnóbio de Sica, no século 4. Ele acreditava que o homem tem uma alma que continua viva depois da morte do corpo. Entretanto, negou a crença do tormento eterno dos pecadores impenitentes. Ou seja, Arnóbio não era materialista, apenas divergiu do ensino aceito pelas comunidades cristãs de que os injustos serão atormentados para sempre. Sobre o histórico dessa crença, diz uma obra de referência:

 

Imortalidade condicional (também conhecida como aniquilacionismo). Uma teoria segundo a qual a imortalidade não é um atributo necessário da alma imaterial, mas condicionada ao seu comportamento durante a vida do corpo. Embora essa opinião tenha um representante solitário no quarto século, o autor cristão africano Arnóbio, ela nunca foi aceita pela Cristandade até tempos recentes, exceto em casos isolados de especulação filosófica, e foi formalmente condenada no Quinto Concílio de Latrão em 1513. No século 19, entretanto, ela encontrou favor de muitos pensadores como sendo uma maneira possível de imputar tal destino aos iníquos impenitentes, não aceitando assim a doutrina ortodoxa da punição eterna ou a teoria do universalismo de Orígenes. Ela foi elaborada por Edward White, um ministro Congregacional, no seu Life in Christ (1846; expandido e todo reformulado em 1875), onde pretendeu provar pelas Escrituras que a ‘Imortalidade é um privilégio peculiar dos regenerados’, e a teoria encontrou alguns adeptos entre ingleses e americanos bem como pensadores estrangeiros. Foi novamente exposta de uma maneira mais suave por J. Martineau, segundo o qual os iníquos não seriam aniquilados, mas perderiam seu modo de ser pessoal, e esta crença foi admitida como tolerável por C. Gore. O ensinamento da mortalidade da alma é geralmente considerado como em oposição à doutrina cristã do homem e a dignidade e responsabilidade da alma humana. No entanto, ele tem sido recentemente revivido por alguns teólogos evangélicos, que sustentam que a aniquilação ocorre depois de um período de tormento no Inferno”. – The Oxford Dictionary of the Christian Church, 1997, verbete “Imortalidade Condicional”, p. 393.

 

Edward White “rejeitava o termo ‘aniquilacionismo’ e, diferentemente de outros condicionalistas, sugeria haver um estado intermediário da alma entre a morte física e a ‘segunda morte’ no Juízo Final, quando as almas dos ímpios cessariam de existir. Atraído pela teoria darwinista, ele descrevia o dom da imortalidade como um tipo de ‘seleção natural moral’: ‘O Novo Testamento não ensina a sobrevivência dos mais fortes, e sim a sobrevivência dos mais aptos’ – isto é, aqueles que possuem fé no amor redentivo de Deus” (A História do Inferno: 1800 d.C., Christian History, 2011, traduzido por Vinicius Musselman Pimentel, negritos acrescentados). Como se nota, o tipo de aniquilacionismo defendido por White era o mesmo de Arnóbio nos tempos antigos, que não vislumbrava a extinção total e imediata da pessoa depois da morte. E ao contrário do que muitos imaginam, Darwin não era ateu e incluía Deus em sua teoria. Só depois que o evolucionismo se misturou com ideias marxistas e outras é que ele se tornou um dos pilares do materialismo científico e ateísta contemporâneo.

 

Para mais informações, veja “Criacionismo versus evolucionismo: literalismo religioso e materialismo darwiniano em questão”, de Nélio Bizzo, publicado em Filosofia e História da Biologia, v. 8, n. 2, p. 301-339, 2013, e considere adicionalmente o que está apresentado na seção 7.

 

2. O QUE AS OBRAS CITADAS PELOS ANIQUILACIONISTAS REALMENTE ENSINAM

 

Se você acha que a incoerência dos que divulgam o aniquilacionismo materialista se limita apenas ao que foi mencionado até aqui se enganou. Eles conseguem ir muito mais além. Lembra daquelas duas obras citadas no início? Juntamente com o dicionário supracitado de Oxford, elas fazem parte de um rol de publicações teológicas que têm sido utilizadas pelos referidos aniquilacionistas para “provar” o ponto de vista deles. Em especial um deles, que escreveu um longuíssimo texto com o intuito de refutar aquilo que venho escrevendo sobre o aniquilacionismo e que está disponível em algumas páginas do meu site.

 

Na primeira parte de um livro que escrevi eu comento alguns trechos que esse meu crítico escreveu. Infelizmente eu não tenho o tempo necessário para abordar tudo, embora as falhas estejam presentes de ponta a ponta no que ele escreve, e poderiam receber a devida consideração. Detalhe: ele não me menciona nominalmente, pois diz que o tratamento ad hominem não combina com uma postura cristã (ainda que os primeiros apologistas cristãos tenham feito exatamente isso), e me chama apenas de “os imortalistas”.

 

Pois bem, esse escritor, a quem chamarei a partir de agora de “autor do MB” ou “bereano”, está sempre acrescentando informações em seu artigo crítico, dando a ele uma aparência de muita erudição. Um acréscimo recente que ele fez apareceu na forma de um apêndice com 51 obras de referência, inclusive as duas que citei no começo, que supostamente apoiariam as ideias materialistas que ele sustenta. Algum tempo depois ele transformou o referido apêndice em um artigo à parte, talvez para dar maior visibilidade ao mesmo, e acrescentou outras referências, totalizando 115 obras até à data em que a escrita deste livro foi concluída.

 

Note a seguir o que as 51 publicações inicialmente citadas de fato dizem sobre o assunto aqui em pauta. As demais estão comentadas na seção 8. Na maioria dos casos, os trechos escolhidos são apenas uma visão panorâmica do que os autores escreveram, e as partes transcritas podem ter sido extraídas de várias páginas e parágrafos distintos, mas sem desvirtuar o contexto e a intenção de cada autor. Em outros, porém, apresentei citações um pouco maiores e diversificadas. Quando necessário há um comentário após cada citação. Em uma eventual segunda edição deste livro poderei ampliar o que foi apresentado de cada obra, especialmente onde os excertos estão muito resumidos. De qualquer modo, as amostras abaixo expostas são mais do que suficientes para o propósito da presente pesquisa.

 

- Os negritos, sublinhados e destaques em azul ou vermelho são meus, exceto nos casos indicados.

 

- Se quiser ler apenas um breve resumo das citações de cada obra, vá para a seção 3. Mas sugiro que leia na íntegra ao menos a referência nº 99 e o comentário sobre ela, que estão na seção 8. Neste caso, para saber qual é o erro “1” que foi mencionado lá, consulte a explicação que está na seção 4.

 

- Caso esteja lendo diretamente no meu site, ao clicar no título de cada livro ou periódico você será encaminhado à lista completa de obras citadas pelo autor do MB que foram analisadas aqui.

 

1) Commentary Critical, Practical and Explanatory on the Old and New Testaments, de Robert Jamieson e outros (1871)

 

 

Note o que diz essa obra sobre os textos a seguir:

 

a) Gênesis 37:35

 

Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas para o consolarem, mas ele não quis ser consolado; e disse: Pois com choro hei de descer para meu filho ao Sheol.

 

“Não na terra, pois foi suposto que José tinha sido despedaçado, mas o lugar desconhecido - o lugar das almas que se foram, onde Jacó esperava na morte se encontrar com seu filho amado”. Vol. 1, pp. 23, 24.

 

b) 1 Samuel 28:8, 11

 

Ele [Saul] disse a ela: ‘Invoque um espírito para mim, fazendo subir aquele cujo nome eu disser’... ‘Quem devo fazer subir?’, perguntou a mulher. Ele respondeu: ‘Samuel’.

 

“Muitos [foram levados] a pensar que isso era um mero engano. Por outro lado, muitos escritores eminentes são da opinião de que Samuel realmente apareceu (considerando que a aparição veio antes de suas artes serem postas em prática, que ela mesma ficou surpresa e alarmada, que a previsão da própria morte de Saul e da derrota de suas forças foi confiantemente feita)”. Vol. 1, p. 189, colchetes acrescentados.

 

c) Mateus 10:28, 29

 

Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.

 

“Mas sim temer... aquele que é capaz de destruir a alma e corpo no inferno - Uma prova decisiva de que existe um inferno para o corpo, assim como existe para a alma no mundo eterno; em outras palavras, que o tormento que aguarda os perdidos terá elementos de sofrimento adaptados ao aspecto material, bem como à parte espiritual de nossa natureza, os quais assegura-se que existirão para sempre. Na advertência correspondente contida em Lucas (Lucas 12: 4), Jesus chama seus discípulos ‘Meus amigos’, como se Ele tivesse sentido que tais sofrimentos constituíam um vínculo de peculiar ternura entre Ele e eles”. Vol. 2, p. 38.

 

d) Lucas 16:23

 

No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado.

 

No inferno [Hades] - não o lugar final do perdido (para o qual uma outra palavra é usada), mas, como dizemos ‘o mundo invisível’. Mas como o objeto aqui é certamente retratar todo o tormento de um e a felicidade perfeita do outro, ele vem neste caso com muito do mesmo [sentido]. Vol. 2, p. 118, 119, colchetes acrescentados.

 

e) 1 Pedro 3:18-20

 

[Cristo] foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão que há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé.

 

“Não que Seu Espírito tenha morrido e vivificado, ou vivificado novamente, mas depois que Ele viveu segundo a maneira dos homens mortais na carne, Ele começou a viver a vida da ‘ressurreição’ espiritual (1 Pedro 3:21), segundo a qual Ele tem o poder de nos levar a Deus. Duas maneiras de explicar 1 Pedro 3:19 estão abertas para nós: (1) ‘Vivificado no Espírito’, isto é, imediatamente em Seu despreendimento da ‘carne’, a energia de Sua vida eterna foi ‘vivificada’ por Deus, o Pai, em novos modos de ação, isto é, ‘no Espírito Ele desceu (como subseqüentemente Ele subiu ao céu, 1 Pedro 3:22, o mesmo verbo grego) e anunciou aos espíritos na prisão (do Hades ou Sheol...)... que Sua obra tinha terminado. . . . (Seu Espírito falando aos espíritos) ‘Os que foram desobedientes antigamente e aguardavam julgamento’, (2) O ponto mais forte em favor de a posição de o ‘há muito’ significar na Antiguidade, conectado com ‘desobedientes’; Também, não Seu Espírito, mas Sua alma, foi para o Hades. Seu Espírito foi encomendado por Ele na morte a Seu Pai, e foi então ‘ao Paraíso’. A teoria exigiria assim que Sua descida aos espíritos na prisão deveria ser após Sua ressurreição! Compare com Efésios 4: 9-10, que faz a descida preceder a ascensão. A Escritura também é silenciosa em outros lugares sobre esse tal anúncio, embora possivelmente a morte de Cristo tenha tido efeitos imediatos sobre a situação tanto dos piedosos quanto dos ímpios no Hades: as almas dos piedosos até então em confinamento comparativo, talvez então tenham sido, como alguns Pais [da Igreja] pensaram, levadas para à presença celestial e imediata de Deus. . . . Como ‘Ele veio e pregou a paz’ pelo Seu Espírito aos apóstolos e ministros após Sua morte e ascensão: assim antes de Sua encarnação Ele pregou em Espírito através de Noé para os antediluvianos. . . . e pregou aos espíritos na prisão, ou seja, os antediluvianos, cujos corpos pareciam livres, mas seus espíritos estavam na prisão. . . . Cristo, que em nossos tempos veio na carne, nos dias de Noé pregou em Espírito por Noé aos espíritos então na prisão. . . . [Cristo] foi vivificado em virtude de seu ‘Espírito’ (ou natureza divina, Romanos 1:3, 1 Coríntios 15:45), que agora atuou em toda a sua energia, cujo primeiro resultado foi a elevação do Seu corpo (1 Pedro 3:21...) da prisão do túmulo e Sua alma do Hades”. Vol. 2, pp. 541, 542, colchetes acrescentados.

 

Commentary Critical, Practical and Explanatory on the Old and New Testaments, Robert Jamieson, A.R. Fausset and David Brown, 1871, Volume 1 e Volume 2.

 

Comentário:

 

Como se vê, os autores dessa obra mostram que a Bíblia ensina que as almas dos que morreram estão conscientes no Hades, ou Seol, ainda que haja dúvidas com respeito a determinados detalhes e eventos relacionados ao mundo dos mortos. (Observa-se também que eles usam livremente a forma latinizada de Hades, que é “Inferno”). É o caso da pregação aos espíritos em prisão. (1) Uma corrente defende que depois de sua ressurreição Jesus foi até o Hades e pregou aos espíritos dos que tinham sido desobedientes na época de Noé, e (2) outra interpretação sustenta que Jesus pregou para tais pessoas através de Noé antes do Dilúvio, mas que na época da carta de Pedro elas não existiam mais e eram apenas espíritos no mundo dos mortos. (3) E ainda há quem pense que esses espíritos são os anjos que pecaram na época de Noé, apesar dessa ser a hipótese menos provável. De qualquer modo, seja qual for o entendimento que se tenha sobre essa passagem, os eruditos sempre concordam que o Hades, a habitação dos mortos, é, na verdade, a moradia das almas ou espíritos dos mortos. Embora quando se refira à morte o Antigo Testamento costume dizer que o Seol é o lugar da alma, e não do espírito, pouco antes da época de Jesus houve uma tendência generalizada de intercambiar esses dois termos (“almas” e “espíritos”), e isto se refletiu no Novo Testamento, estando presente até hoje no linguajar judaico-cristão.

 

Com tantas informações em prol do entendimento de que a alma do homem sobrevive à morte do corpo, é realmente inacreditável que alguém se sinta à vontade para usar essa enciclopédia bíblica para contradizer tal crença e insinuar que ela contém alguma coisa que favoreça ideias materialistas ou aniquilacionistas. A seção 4 tratará sobre o que levou o autor do MB a tal imprudência desmedida.


2) The Jewish Encyclopedia, de William Popper e outros (1901-1906)

 

 

Tal como todos os povos antigos, os hebreus primitivos acreditavam que os mortos descem para o mundo subterrâneo e vivem ali uma existência pálida (Isaías xiv, 15-19, Ezequiel, xxxii, 21-30) . . . . Uma visão diferente, que tornou uma ressurreição desnecessária, foi abraçada pelos autores dos Sal[mos]. xlix e lxxiii, que acreditavam que na morte apenas os ímpios iriam para o Seol e que as almas dos justos partiriam diretamente para Deus”.

 

The Jewish Encyclopedia, [Enciclopédia Judaica], Nova Iorque e Londres, Funk & Wagnalls Co., 1901-1906, Vol. 10, verbete “Ressurreição”, p. 382.

 

3) The International Standard Bible Encyclopedia, de James Orr e outros (1915)

 

 

“Seja qual for o ponto de vista assumido a respeito do desenvolvimento da doutrina da imortalidade da alma no A[ntigo] T[estamento] (veja Escatologia do AT), dificilmente haverá dúvida que é completamente assumido no N[ovo] T[estamento] que as almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte (veja Imortalidade). Só há necessidade de se referir a duas passagens para provar isso: uma, os dizeres de Cristo em Mt 10 28: ‘Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes disso, temam aquele que pode destruir tanto a alma quanto o corpo no inferno’ (Geena); a outra, a parábola do Homem Rico e Lázaro em Lc 16 19-31: Lázaro é carregado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico levanta os seus olhos no Hades, estando em tormentos. Toda a doutrina do futuro julgamento no Novo Testamento pressupõe a sobrevivência após a morte”.

 

The International Standard Bible Encyclopedia [Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional], EUA, 1915, Vol. 4, verbete “Punição”, p. 2502.

 

4) Jewish Theology: Systematically and Historically Considered, de Kaufmann Kohler (1918)

 

 

“Até muito depois do Exílio, os judeus compartilhavam o ponto de vista do inteiro mundo antigo, – tanto das nações semíticas, tais como os babilônios e fenícios, quanto das arianas, a exemplo dos gregos e romanos, – de que os mortos continuavam a existir em uma morada sombria do mundo subterrâneo (Seol), a terra da qual não há retorno (Beliyaal), de eterno silêncio (Dumah), e esquecimento (Neshiyah), uma existência tediosa e fantasmagórica, sem uma consciência clara e sem nenhuma expectativa de uma vida melhor. . . . Tão tarde quanto o autor do livro de Jó e dos primeiros Salmos, o Seol era conhecido como o déspota do mundo inferior com suas formas demoníacas, como o 'rei dos terrores’ que estende seu cetro sobre os mortos. . . . No decurso do tempo, porém, a questão da existência depois da morte demandou mais e mais respostas satisfatórias”.

 

Jewish Theology: Systematically and Historically Considered, [A Teologia Judaica: Considerada Sistematica e Historicamente], Kaufmann Kohler, 1918 (republicado várias vezes), p. 279.

 

5) Die Letzten Dienge: Lehrbuch der Eschatologie, de Paul Althaus (1926)

 

 

“O corpo e a alma desaparecem. A morte é o colapso do homem em um poço sem fundo... É uma partida para o nada... A morte é mais do que uma saída da alma do corpo. A pessoa, corpo e alma, está envolvida na morte... A fé cristã nada sabe sobre uma imortalidade da pessoa. Isso significaria uma negação da morte, não reconhecê-la como julgamento de Deus. Ela conhece apenas um despertar da morte real por meio do poder de Deus. Só há existência após a morte por um despertar da ressurreição da pessoa inteira”.

 

Die Letzten Dienge: Lehrbuch der Eschatologie, de Paul Althaus, C. Bertelsmann Verlag, Gütersloh, Germany, 1957, pp. 83, 157.

 

Comentário:

 

Nota-se no trecho acima que Althaus diz que a pessoa é a alma com o corpo (pessoa = alma + corpo). Em seguida diz que a fé cristã não conhece a imortalidade de nenhuma pessoa. Isto é absolutamente verdadeiro! Aliás, é um fato evidente para qualquer sistema de crenças, pois não há ser humano que não morra. Depois da morte é a alma que permanece em existência, e sua imortalidade definitiva só será selada depois da ressurreição, quando estará novamente unida ao corpo físico. É nesse momento que o ser humano pleno voltará à existência. E a fórmula apresentada nessa explicação também difere de uma conclusão do autor do MB de que alma é sempre sinônimo de “pessoa” (humana). Se isto fosse verdade invalidaria a supracitada igualdade (pessoa = pessoa + corpo?).

 

E com respeito à partida para o poço sem fundo, o Seol, ele é um “nada” apenas no sentido de que é um lugar desolado e esquecido, sem atividades humanas. É como quando alguém se encontra em um lugar ermo e diz: “Vim parar no meio de lugar nenhum”.

 

Embora as palavras de Althaus possam ser entendidas da maneira acima descrita, caso se leve em consideração o verdadeiro cenário bíblico, é óbvio que esse trecho pode ser compreendido também à maneira aniquilacionista. E desta vez não é por causa de um eventual erro de leitura ou desconsideração de contexto autoral. Paul Althaus realmente é um teólogo que deixou a porta entreaberta para o aniquilacionismo. Mas em outro texto ele se explicou melhor, indicando que realmente existe um dualismo corpo-alma na Bíblia, e que não há conflito entre a ideia cristã de existência continuada e a ressurreição futura. Veja mais detalhes sobre essa “retratação” de Paul Althaus na seção 4.

 

6) Dictionnaire Encyclopedique de la Bible, de Alexandre Westphal e outros (1935)

 

 

“Em muitas passagens, a palavra alma refere-se à parte imaterial do homem (Sl 19,8; Salmo 33:20; Sl 63,2; Sl 74,19; Salmos 84.3; Salmos 86,4; Is 55,3; Mateus 10:28). . . . [Hades é a] palavra grega usada para se referir à morada dos mortos, e que o Novo Testamento usa para designar o hebraico Seol. . . . O Hades tem sido costumeiramente apresentado como um abismo debaixo da terra; e os que lá ficam estão reduzidos a meras sombras, os espíritos dos mortos . . . . No entanto, elas são sombras terríveis. São evocadas. Anunciam o futuro (Samuel disse a Saul: 1 Samuel 28,11-19). Perscrutam a própria morada. O olhar do profeta acompanha a queda do rei até lá embaixo (Isaías 14:[9-20]; e a seguir, Ezequiel 32:18)”.

 

Dictionnaire Encyclopedique de la Bible [Dicionário Enciclopédico da Bíblia], Valence, França; 1935, editado por Alexandre Westphal, verbetes “Alma”, “Hades” e “Descida ao Inferno”, pp. 204, 1393 e 2158, colchetes acrescentados.

 

7) The Distinctive Ideas of the Old Testament, de Norman H. Snaith (1944)

 

 

“[As ideias distintivas da religião do Antigo Testamento] são diferentes das ideias de qualquer outra religião. Em particular, elas são bem distintas das ideias da religião grega. Em particular, elas são bem distintas das ideias dos pensadores gregos. O alvo da religião hebraica era Da'ath Elohim (o Conhecimento de Deus); o alvo do pensamento grego era Gnothi seauton (Conheça a ti mesmo). Entre estes dois objetivos há um grande abismo. Não vemos como possa haver qualquer harmonia entre eles. Eles são fundamentalmente diferentes na premissa a priori, no método de abordagem e na conclusão final.

 

“O cristianismo tradicional tem procurado encontrar um meio termo, combinar Sião e a Grécia no que se defende ser uma síntese harmoniosa. O Novo Testamento tem sido interpretado de acordo com Platão e Aristóteles, e as ideias distintivas do Antigo Testamento foram deixadas de lado. Aqui está a causa da negligência moderna do Antigo Testamento. A ‘justiça’ de Aristóteles substituiu a ‘justiça’ do Antigo Testamento. O logos spermatikos dos estoicos suplantou amplamente o Espírito Santo. A doutrina inteiramente não bíblica da imortalidade da alma humana é amplamente aceita como uma doutrina cristã típica. Platão é de fato ‘divino’, e Aristóteles ‘o mestre daqueles que sabem’...

 

“Encontramos apenas dois trechos [bíblicos] que falam de uma ressurreição à vida além do túmulo, e absolutamente nenhum que fale sobre alguma imortalidade da alma, que não é uma ideia bíblica de maneira alguma. Um trecho é Isaías 26:19, onde os mortos israelitas deverão se levantar do pó e viver. Isso está no trecho de Isaías 24-26, provavelmente do início do terceiro século A.C., na época das rivalidades dos ptolemaicos com os selêucidas na Palestina. O outro é Daniel 12:2 (primeira metade do século II AC), onde lemos sobre uma ‘ressurreição geral’ parcial, ‘alguns para a vida eterna, e alguns para vergonha e desprezo eterno’. . .

 

Não encontramos essa abordagem dos gregos em nenhum lugar da Bíblia. Toda a Bíblia, o Novo Testamento, bem como o Antigo Testamento, baseia-se na atitude e abordagem hebraicas. Somos da firme opinião de que isso deveria ser mais reconhecido por todos. Está claro para nós, e esperamos ter deixado claro nestas páginas para outros, que existe muitas vezes uma grande diferença entre a teologia cristã e a teologia bíblica. Ao longo dos séculos, a Bíblia foi interpretada num contexto grego, e até mesmo o Novo Testamento foi interpretado com base em Platão e Aristóteles. Isto pode ser justificável, mas consideramos que aqueles que adotam esse método de interpretação deveriam perceber o que estão fazendo e deveriam deixar de sustentar que estão baseando sua teologia na Bíblia.”

 

The Distinctive Ideas of the Old Testament, de Norman Henry Snaith, Epworth Press, London, UK, 1944, pp. 9, 89, 185.

 

Comentário:

 

Certamente Norman Snaith, um catedrático de Oxford, foi um dos que rejeitaram qualquer possibilidade de comunicação entre o helenismo e a Bíblia, embora o mundo judaico-cristão desde a época de Jesus esteja repleto dessa mistura, conforme o próprio Snaith admite. Também é de admirar que nenhum escritor do Novo Testamento tenha combatido essas coisas, tal como fazem esses teólogos atuais de discurso preponderantemente monista, como se isto fosse uma questão de honra para o Cristianismo. De qualquer maneira, é correto dizer que o conceito grego sobre a alma não é bíblico, porém dentro do contexto correto. Consulte o apêndice A para mais informações.

 

Mesmo encarando o assunto sob a óptica completamente hebraica, segundo a qual o homem é chamado de “alma” e por isso a alma morre (isto é, o homem morre), não resulta de modo algum na ideia de completa aniquilação, conforme preconizado pelo materialismo, que é uma ideia bem posterior à criação da nação de Israel, conforme está comentado na seção 7. E Snaith, como bom conhecedor da cultura hebraica, sabia disso. Esta é a razão porque ele também afirmou o seguinte em outros dois textos:

 

“O Sheol é a terra dos fantasmas... fracos e desamparados, sem vida em si mesmos”. – “Vida após a Morte: A Doutrina Bíblica da Imortalidade”, Interpretação I, N. H. Snaith, 1947, pp. 309-24, citado em The Interpreters Bible, 1954, Volume III, de Norman Snaith, p. 24.

 

É verdade que os hebreus dos tempos primitivos falavam do Seol como sendo a morada dos espíritos dos mortos, mas o Seol era essencialmente um mundo morto, um mundo sem esperança e sem desejo”. – Have Faith in God (Tenha Fé em Deus), The Epworth Press, 1935, de Norman Snaith, p. 22.

 

Ou seja, para os hebreus primitivos alguma coisa do ser humano sobrevivia literalmente à morte, e experimentava uma existência sombria no mundo subterrâneo. Era devido a essa realidade lúgubre que os hebreus não consideravam tal experiência no Além uma verdadeira vida, já que achavam que se tornariam fantasmas num lugar estranho e deprimente. À medida que as obras aqui forem sendo citadas ficará claro ao leitor tal cenário que os israelitas concebiam sobre o mundo dos mortos, que não tinha nada de simbólico, mas era tido como algo realmente existente, fora do alcance dos seres humanos, exceto pela morte, e só Deus sabia ao certo o que acontecia em tal lugar (Sheol). Informações adicionais pertinentes ao Seol podem ser vistas também na seção 5.

 

E sobre o que Snaith afirmou sobre o tratamento que os antigos cristãos deram aos filósofos gregos em relação ao Novo Testamento, qualquer estudioso do assunto sabe que a teologia cristã resultante desse processo não surgiu imediatamente depois da era apostólica. Conforme o próprio Snaith mencionou, isso aconteceu ao longo dos séculos. No entanto, o método de interpretação da filosofia grega que foi gradualmente aproveitado por teólogos cristãos nada contribuiu para a crença que a igreja primitiva sempre teve na sobrevivência imediata depois da morte. Um exame da literatura cristã do século II revela esse fato, pois nessa época ainda não existia a teologia cristã a que Snaith se referiu, pois ela surgiu somente no tempo de Orígenes. Nos dois textos a seguir você terá acesso a um farto material antigo que comprova o que estou dizendo:

 

O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

 

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

 

8) The Interpreter’s Dictionary of the Bible, de George Arthur Buttrick (1952)

 

 

“Na morte, a unidade do ser humano é destruída e ele perde vitalidade. A nephesh ou ‘alma’ (veja acima, pags. 367-68), portanto, não continua a existir. Ela se desintegra, ou como no caso do servo sofredor, diz-se que ela é ‘derramada’ como uma oferenda à morte (Isaías 53:12). Os mortos são como águas ‘derramadas na terra que já não se podem juntar.’ . . . . Isso não significa, porém, que a existência cessa. O homem continua a viver, embora em um estado muito fraco, no submundo do Seol, junto com os que passaram para este reino antes dele. Lá ele subsiste nas trevas (Jó 10:21-22), numa espécie de sono (Naum 3:18), na fraqueza (Isaías 14:10), no esquecimento (Salmo 88:12). Assim, a existência no Seol era concebida como o oposto da vida”.

 

The Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário Bíblico do Intérprete], George Arthur Buttrick, Abingdom Press, EUA, 1952, Vol. 1, pp. 370, 371.

 

Comentário:

 

Era costume do povo hebreu, e em certa medida de outros povos também, usar a palavra “alma” (nephesh) com o sentido de “ser humano” ou a pessoa em si (o “eu”). Por uma implicação lógica, a morte então significava o fim da nephesh. Ou seja, o fim de uma pessoa de carne e osso. No entanto, isso era apenas uma questão de enfoque, pois não existe a menor dúvida que eles acreditavam que permaneceriam vivos no mundo sombrio do Seol, porém não com o corpo humano que tinham, mas na forma que é própria de quem vive lá, os comumente chamados espíritos dos mortos. “Não deixarás a minha alma no Seol”, disse o salmista (Sal. 16:10). Visto que o Seol era entendido como estando nas regiões profundas da Terra, obviamente essa “alma” que seria retirada de lá não era o corpo que estava se decompondo, quilômetros acima, em uma sepultura. Até o final desta minha análise esse ponto será retomado e tratado com mais detalhes.

 

9) The Encyclopedia Americana (1959)

 

 

a) Verbete “Ressurreição”, Vol. 23, pp. 422-425:

 

“A raça humana, na sua criação, foi dotada com o dom sobrenatural da imortalidade. No alvorecer da vida humana, a separação da alma do corpo na morte foi impedida pela providência especial de Deus. A árvore da vida estava no meio do Éden (Gênesis 3); e comer do fruto dessa árvore estava de alguma forma associado à imortalidade do corpo animado de Adão. Javé pretendia perpetuar essa união preternatural e imortal da alma do homem com seu corpo, se Adão não tivesse pecado...

 

“Assim como o corpo e a alma são separados na morte, por causa do pecado do primeiro Adão; então o corpo e a alma ficam juntos depois da morte [através da ressurreição] por causa do mérito do segundo Adão (1 Cor. xv, 20-23)... tanto os justos quanto os injustos se levantarão para a imortalidade nos mesmos corpos que foram animados pela alma antes de morrerem. Não seria uma ressurreição se os mortos não se levantassem em seus próprios corpos. Estes corpos idênticos, em toda a sua totalidade, serão então transformados na ressurreição para serem imortais... Para o justo, esta imortalidade do corpo transformado será uma felicidade eterna; ao injusto, uma tortura que nunca acabará. Esta tortura está vividamente descrita em Mat. v. 29, 30; xxv, 41-46; Marcos, ix, 43-49 e Apoc. ix. Na última perícope é dito que as torturas impingidas aos maus ‘não os permitirão morrer.’ Os torturados ‘procurarão a morte, mas não a encontrarão; desejarão morrer, mas a morte fugirá deles’ (Apoc. ix, 5, 6)…

 

“[Conforme se depreende das explicações de Paulo em 1 Cor. 15:35-41 e 1 Tess. 4:16-18, o corpo do justo ressuscitado terá quatro qualidades] A primeira destas qualidades é a impassibilidade, através da qual o corpo glorificado não estará sujeito à dor e estará para sempre livre das mudanças orgânicas que resultam na morte... (verso 53). A segunda qualidade do corpo glorioso levantado é a glória, ou o brilho, através da qual os corpos dos santos serão refulgentes e deslumbrantes em beleza, e ‘brilharão como o sol’ (Mat. xiii, 43)... A terceira qualidade dos corpos dos justos ressuscitados é a agilidade, pela qual o corpo ressurrecto estará livre do impedimento da gravidade e se moverá como muita rapidez pelo espaço assim como fazem os espíritos... A quarta qualidade do corpo ressuscitado é a subtilidade, através da qual ele se torna espiritualizado ou como um espírito, passando através de objetos materiais tal como fez o corpo glorificado de Cristo, e estará sob o absoluto controle da alma. ‘Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual’ (I Cor. xv. 42-44)”.

 

b) Verbete “Imortalidade”, Vol. 14, pp. 716-718:

 

“O Sheol, ou o reino das sombras, aparece na história primitiva dos judeus como uma amplificação da ideia do túmulo, como a morada escura dos espíritos que partiram, onde as almas vivem sem corpo, inconscientes, sem sentimentos. As referências na primeira parte das Escrituras do Antigo Testamento a uma vida futura são raras e vagas, e a doutrina da imortalidade da alma não é explicitamente ensinada em parte alguma nos livros primitivos. Os ritos de necromancia eram desencorajados pelos profetas e legisladores do antigo Israel como antagônicos à crença no Deus da vida, cujo reino excluía o Sheol (ou o reino dos mortos), até os tempos pós-exílicos. A vida eterna pertence unicamente a Deus e aos seres celestiais que comeram da árvore da vida e viverão para sempre. Em conexão com a esperança messiânica e sob a influência de ideias gregas e persas, os judeus mais tarde adotaram uma doutrina da ressurreição do corpo que abriu espaço para a crença na vida contínua da alma . . . .

 

“Nos profetas tanto do período assírio como do babilônico, a redenção de Israel da servidão à Assíria e de Judá à servidão babilônica é um tipo de ressurreição da escravidão ao pecado para o mundo. A libertação sagrada do escravo ao pecado, por meio da mediação do Messias, é completada na gloriosa ressurreição do corpo. É por isso que Isaías de vez em quando é inspirado a mudar seu pensamento da salvação de Israel ou de Judá para a da alma do homem pela reunião com seu corpo em glória...

 

“.... A crença escatológica judaica corrente, no início da era cristã, é manifestada por Marta em relação ao seu irmão Lázaro: ‘Eu sei que ele se levantará na ressurreição no último dia’ (João 11:24)....

 

“Ele disse a Marta: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente.’ (João 11:25, 26). A caridade receberá sua ‘recompensa na ressurreição dos justos’ (Luc. 14:14). Os injustos também ressuscitarão dos mortos para serem punidos pelos seus pecados (Mat. 5:29, 30; Marcos, 9:43-49); Eles irão, alma e corpo, para o inferno (Mat. 10:28). Na Parousia, os justos ressuscitados ficarão à direita e os injustos ressuscitados à esquerda do Juiz. Ele pronunciará a sentença de condenação dos últimos ao fogo eterno, e de acolhida dos primeiros à felicidade eterna (Mat. 25:31-46)...”

 

c) Verbete “Morte”, Vol. 8, p. 540, 541:

 

“De acordo com Homero, o Sono e a Morte são gêmeos, e Hesíodo os chama de filhos da Noite. São muitas vezes retratados juntos em camafeus, etc. Durante o período mais próspero das artes a Morte foi representada nos túmulos como um gênio amigável com uma tocha invertida, e segurando uma coroa de flores na mão; ou como uma criança com asas dormindo, com uma tocha invertida descansando em sua coroa de flores. O sono foi representado da mesma maneira, exceto que a tocha e a coroa de flores foram omitidas. De acordo com uma ideia originária do Oriente, a morte na flor da juventude era atribuída ao apego de uma divindade particular, que arrebatava seu favorito a um mundo melhor... Eurípides, em sua ‘Alcestis’, até mesmo introduziu a Morte no palco, em uma túnica preta, com um instrumento de aço na mão, para cortar o cabelo de suas vítimas, e assim devotá-las aos deuses infernais”.

 

d) Verbete “Alma”, Vol. 25, p. 269:

 

“[Para o filósofo grego Platão] A alma é imortal e incriada e os universos de nossos conhecimentos são apenas a lembrança do que se aprendeu em uma vida anterior. A alma não pode ser destruída, pois ela participa da própria ideia da vida. [Para Platão] O corpo é a prisão da alma e impede que ela volte para sua casa no reino das Ideias. [Para Platão] Cada alma contém três partes - uma desiderativa, uma espirituosa e uma racional. A alma em que o racional prepondera retomará aquela vida de que todas as almas participaram originalmente - a vida abençoada de uma estrela”.

 

Trecho da edição de 1977, Vol. 25, p. 236:

 

“O conceito de homem no Antigo Testamento é o de uma unidade, não de uma união de alma e corpo. Embora a palavra hebraica nephesh seja frequentemente traduzida como ‘alma’, seria impreciso ler nela um significado grego... [Nephesh] jamais é concebida como operando separadamente do corpo. No Novo Testamento, a palavra grega psykhe é frequentemente traduzida como ‘alma’, mas, novamente, não deve ser prontamente entendida como tendo o significado que a palavra tinha para os filósofos gregos”.

 

e) Verbete “Necromancia”, Vol. 20, p. 55:

 

“[Necromancia é a] Arte de adivinhar o futuro por conjurar os espíritos dos mortos e os questioná-los. O Antigo Testamento faz menção desse ritual supersticioso antigo, por exemplo em Deuteronômio 18:10, 11, onde ele é expressamente proibido. O capítulo 28 de I Samuel relata a bem conhecida história da bruxa de Endor que levantou a alma de Samuel para satisfazer o desejo de Saul. O décimo primeiro livro da Odisseia de Homero descreve como Odisseu consulta a sombra de Tirésias”.

 

f) Verbete “Inferno”, vol.14, pp. 81-83:

 

“[Sobre o Inferno:] Esta região era geralmente considerada como estando debaixo da terra, na escuridão das vastas cavernas subterrâneas, ou na região onde se supunha haver fogo... A existência além da morte é quase universalmente pensada como sendo ‘algo entre ser e não ser.’ O hebraico Sheol e o grego Hades são boas ilustrações disso. Não se pensava em dividir o estado futuro em condições distintas de existência. Mesmo tardiamente um escritor como o autor de Eclesiastes declara que ‘todos (homens e animais) vão para um lugar’ (Ec. iii, 20) e ‘há um evento para o justo e o ímpio’ (Ec. ix, 2). Muita confusão e mal-entendido têm sido causados pelos primeiros tradutores da Bíblia que persistentemente verteram o hebraico Sheol e os gregos Hades e Geenna pela palavra inferno. A simples transliteração dessas palavras pelos tradutores das edições revisadas da Bíblia não foi suficiente para esclarecer sensivelmente esta confusão e equívoco...

 

“Uma das ideias ou motivos que levaram à divisão do estado futuro em céu e inferno, um lugar de recompensa e um lugar de punição, é sugerida em algumas passagens do Velho Testamento. Todos os mortos, sem distinção, assim se acreditava, desciam ao Sheol. Mas, segundo Isaías, o rei de Babilônia, que exilara e oprimia Israel, e por isso era considerado inimigo de Jeová e de seu povo, será ‘derrubado... até as partes mais extremas do Sheol.’ Ele deveria ser empurrado para as profundezas onde presumivelmente houve maior desconforto. Jeová enviaria seus inimigos a um lugar muito pior do que aqueles que o serviam. Essa ideia operou poderosamente na vida dessas pessoas como aconteceu na vida de muitas gerações. Estes exilados e perseguidos adoradores de Jeová reuniram consolo e uma nova resignação, visto que eles acreditaram que no pós-vida os seus inimigos seriam lançados para a parte mais profunda do Sheol ao passo que eles estariam na parte superior, mais brilhante e mais feliz . . . .

 

“... qualquer que seja o real sentido da palavra Sheol, conforme usada pelos escritores bíblicos, não parece ter sido a opinião entretida pelos clérigos cristãos primitivos - Clemente, Orígenes e outros. Embora tenha sempre existido com os homens da Igreja que o consideram, a eternidade dos tormentos do inferno foi geralmente mantida e mais ardentemente pregada. Mas, no momento presente, a ideia de punir uma alma eternamente encontra um número cada vez menor de crentes”.

 

The Encyclopedia Americana, 1953, 1959, 1961, 1963, 1968, 1977, colchetes acrescentados.

 

Comentário:

 

Observe que um mesmo verbete diz que o homem é formado por uma unidade inseparável composta por corpo e alma e ao mesmo tempo afirma que ambos são separados devido à morte, para depois serem reunidos novamente em uma unidade por ocasião da ressurreição do corpo. Diz-se ressurreição do corpo porque este é a única das duas partes que se dissolve depois da morte, ao passo que a outra fica sempre em existência, conforme ensinou Jesus:

 

Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena”. – Mateus 10:28.

 

Logo, o raciocínio é dual. A morte é o fim e ao mesmo tempo não é. É o fim para o corpo, mas não para a alma. O homem é uma alma e ao mesmo tempo possui uma alma que sobrevive à morte, conforme demonstra o entendimento dos judeus antigos sobre o Seol. O texto mencionado de Isaías na última citação não apenas diz que o rei de Babilônia foi banido para as partes mais profundas do Seol, mas também que os habitantes sonolentos de lá despertaram para acompanhar tal chegada:

 

Debaixo da terra se agita a morada dos mortos, para receber-te à tua chegada; despertam em tua honra as sombras dos grandes, e todos os senhores da terra, e levantam-se de seus tronos todos os reis das nações. Todos tomam a palavra para dizer-te: Finalmente, eis-te fraco como nós, eis-te semelhante a nós. Tua majestade desceu à morada dos mortos, acompanhada do som de tuas harpas. Jazes sobre um leito de vermes e os vermes são a tua coberta. Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações! Tu dizias: Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembléia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo. E, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo”. – Isaías 14:9-15.

 

Note que no Seol os mortos (1) se agitam, (2) tomam iniciativa, (3) dormem e acordam, (4) sentam-se em tronos, no caso dos reis que lá estão, (5) levantam-se desses mesmos tronos, (6) falam e (7) raciocinam. Além disso, percebemos no texto a mesma dualidade de entendimento sobre esse assunto. De um lado a alma do rei está viva e sendo recepcionada com ironias, e de outro seu corpo está inerte em uma sepultura sendo consumido por vermes. Os habitantes do Seol o enxergam assim, sob duas perspectivas.

 

De modo que a inconsciência dos mortos, que também foi mencionada pela enciclopédia Americana, não significa a ausência de pensamentos ou de percepções sensoriais. Refere-se apenas às faculdades cognitivas que, segundo os hebreus pensavam, ficavam comprometidas quando a alma entrava no mundo dos mortos e se transformava em uma “sombra” triste e debilitada. Mesmo assim, infere-se do conjunto de relatos bíblicos apresentados que essa situação debilitante possuía exceções relacionadas ao povo fiel. Quando Saul resolveu chamar o falecido profeta Samuel foi com a intenção de obter informações que só Samuel saberia. O que demonstra que, para os hebreus, nem todos que desciam ao Seol se tornavam seres entregues ao esquecimento e que não sabem mais nada das coisas terrenas. Além disso, judeus do pós-exílio achavam que ficariam numa situação mais confortável no Seol, e experimentariam certa medida de felicidade, enquanto aguardavam a ressurreição do corpo.

 

Tudo isso demonstra, acima de qualquer dúvida, que jamais as pessoas naquele tempo acreditaram que a morte significa o fim absoluto da vida e da consciência. A inconsciência no reino da morte é apenas em sentido relativo, devido à sonolência das almas que lá estão. É como quando dizemos que um recém-nascido ainda não tem consciência. Não é a ausência de pensamentos ou percepções, mas apenas a incapacidade de transformá-los em ações úteis para a manutenção da vida.

 

Por fim, a enciclopédia também menciona que embora os gregos acreditassem na imortalidade da alma, dentro de um sistema de ideias que difere do conceito bíblico de vida após a morte, eles também associavam a morte ao sono e inatividade. Certamente porque pensavam pelos dois lados envolvidos, o do corpo e o da alma, conforme atestam os camafeus que eram vistos em túmulos do mundo greco-romano. Leia também o meu comentário da citação nº 39, para ver a descrição que os egípcios fizeram do sono da morte. Este assunto será complementado na seção 4.

 

10) Studies In Dogmatics. Man: The Image of God, de G. C. Berkouwer (1962)

 

 

“No Antigo Testamento há, de fato, uma profunda consciência da generalidade e finalidade da morte, e as palavras da mulher de Tekoa - a mulher sábia - expressam bem esse sentimento: ‘Que teremos que morrer um dia, é tão certo como não se pode recolher a água que se espalhou pela terra. Mas Deus não tira a vida; pelo contrário, cria meios para que o banido não permaneça afastado dele’ (2 Sm 14.4). Mas isso não faz da morte um evento natural. Encontramos a morte em todo o Antigo Testamento apresentada como se opondo às riquezas dos vivos. A morte foi vista e experimentada como uma transição para a fraqueza e impotência, como privação de vitalidade, e há alegria quando a vida é salva da sepultura e os dias do homem são alongados. . . .

 

“Há alegria quando não se morre, como quando Ezequias viu seus anos serem prolongados e depois de todos os seus momentos de ansiedade pôde cantar sua canção da vida: ... ‘Os vivos, somente os vivos, te louvam, como hoje estou fazendo; os pais contam a tua fidelidade a seus filhos’ (Isa. 38:15, 19; conf. Num. 4:19) . . . . O fim da vida aparece vez após vez como sendo um roubo de todas as riquezas que existem na vida. [Tal como em Sal. 6:6, 30:10, 49:15-16, 88:11-13 e 115:17] Por isso tais palavras tem sido frequentemente usadas para mostrar que Israel não tinha expectativa escatológica, nenhuma perspectiva que incluísse uma ressurreição dos mortos ou uma vida genuína depois da morte; outros, por sua vez, rejeitaram enfaticamente essa conclusão; mas citamos estas passagens aqui para mostrar que o Antigo Testamento não deve ser lido em termos de uma distinção entre morte e morrer (como uma coisa natural e boa), mas apenas em termos do contraste constantemente recorrente entre a morte e a vida, em que morrer é ligado à terra da escuridão e do esquecimento.

 

“O fim da vida não está, de modo algum, integrado com a vida como um morrer natural, mas precisamente com o fim retratado como sendo a remoção, a privação da riqueza da vida, a perda de todos os ‘conhecidos’ (Sal. 88: 8) E é em relação a este perigo, que o salmista estende suas mãos para o Deus da vida. . . . Na crença cristã, morrer também nunca foi interpretado como o morrer natural, mas sempre e exclusivamente no contexto da conquista de Cristo sobre a morte. Nada pode nos separar, nem mesmo a morte, do amor de Cristo; e morrer pode de fato assumir um contexto completamente novo (morrer no Senhor), e o Catecismo de Heidelberg (L.D. 16) pode dizer que a morte é apenas uma passagem para a vida eterna - mas isso não faz da morte um evento natural.

 

“. . . . Kuyper já havia dito em 1870 que a expressão ‘imortalidade da alma’ não poderia existir na Bíblia, e apontou que nenhum credo das igrejas calvinistas usou o termo: ‘O que o racionalista chama de imortalidade é para os cristãos a vida eterna’. É claro que a questão decisiva aqui é o que se entende por imortalidade da alma e se a afirmação de uma imortalidade natural se baseia ou não numa ‘essência’ abstraída de sua relação com Deus, da qual podemos extrair (sem considerar esta relação) outras conclusões, tais como a ‘indestrutibilidade’ da alma. E também agora deve estar claro por que a crítica da imortalidade natural da alma é muitas vezes mais estreitamente relacionada com a crítica da dicotomia substancial da alma e do corpo. A questão não era a existência após a morte, nem um agnóstico [conceito] ‘morte é morte’, mas o problema de uma antropologia que define a ‘essência’ do homem e dela extrai novas conclusões. Assim, também é possível que uma crítica da ideia de imortalidade natural possa ir de mãos dadas com a plena aceitação da expressão do Catecismo (Dia do Senhor 22) de que a alma após a morte será imediatamente levada a Cristo. O fato de que nenhuma objeção foi feita contra este artigo de fé mostra que os problemas não são primariamente de natureza escatológica, mas sim antropológicos . . . .

 

“Agora está bastante claro que várias questões poderiam surgir em torno de tais críticas. E é perfeitamente compreensível que o status intermedius, o estado da alma após a morte e antes do julgamento, fosse uma questão especial em muitas das discussões . . . .

 

“[Nota:] Em 1855, contra Bonnetty, que relativizava o poder sabedor da razão natural, a Igreja sustentava que a existência de Deus, a liberdade da vontade e a espiritualidade da alma podiam ser provadas - mas a imortalidade da alma não estava incluída (Steur, op. cit., Página 106)”.

 

“. . . . Diz-se que tal ideia [da imortalidade da alma] está em conflito com a base da crença cristã, pois mostra vestígios do conceito de alma como algo divino, de uma deificação parcial do homem. E, junto com isso, há uma crítica da dicotomia de duas substâncias (corpo e alma) como resultando no escapar da alma do julgamento de Deus, Seu sagrado julgamento da morte por causa do pecado. A imortalidade da alma, diz-se, parece implicar que este julgamento não afeta o homem inteiro; afeta apenas o corpo, não a alma. A crítica é especialmente associada com Althaus; por exemplo, ‘a fé cristã não sabe nada de um imortalidade da alma’ – que, na verdade, chamam a morte de mentira e mal interpretam o julgamento de Deus - mas apenas de uma ressurreição de uma morte verdadeira através do poder de Deus. E, com essas palavras, encontramos um dilema influente que tem desempenhado um papel cada vez mais importante na recente discussão escatológica: a imortalidade ou a ressurreição.

 

“Não pode haver a ideia de que a morte afeta apenas o corpo, como parte do homem; a alma também é afetada pela morte, de modo que depois que o homem morre, resta apenas uma perspectiva escatológica: despertar da morte. Essa é uma perspectiva que nada tem a ver com a imortalidade ou indestrutibilidade ‘natural’ da alma, mas que vem exclusivamente do ato futuro de Deus em Jesus Cristo... Van der Leeuw continua, dizendo que só Deus é imortal; ‘Ele dá ao homem a promessa da ressurreição.’ Isso deve ser tomado com rigorosa seriedade; o homem, o homem inteiro, caiu na morte. Mas as promessas da ressurreição não implicariam necessariamente em uma certa continuação da existência após a morte, de modo que somos ‘nós’ que despertamos? Sim, parece que deve haver algo que permanece, que continua, através do qual Deus constrói a nova criatura . . . .

 

Não há nenhuma dúvida de que a Igreja, desde os tempos mais antigos, estava convencida da existência contínua após a morte. Não só a ressurreição do corpo foi afirmada contra a desvalorização espiritualista e gnóstica do corpo, mas porque nossa salvação em Cristo, nosso ‘estar com o Senhor’ foi da mesma maneira firmemente mantida. As antigas confissões da Igreja, como Kuyper já observou, falam de ‘vida eterna’ em vez de ‘imortalidade da alma’. Steur até mesmo diz que a Igreja nunca falou oficialmente da imortalidade da alma durante os séculos anteriores ao Renascimento; a explicação desse fato encontra-se no acordo universal sobre o assunto. Podemos concordar com esta explicação se ela se refere à continuação da existência após a morte; Desde que não haja nenhuma implicação de acordo geral de que a imortalidade ‘natural’ da alma era como tal uma tese na crença da Igreja. Evidentemente, a Igreja se contentou em limitar seus pronunciamentos sobre a vida eterna e a ressurreição do corpo à área da pneumatologia [que enfoca aspectos do espírito] . . . .

 

“[Nota:] Calvino fala da alma como ‘bona pars hominis’... É uma substância, que tem raciocínio e inteligência após a morte (p. 21). A alma (que é celestial) é tão diferente do corpo (que é terrestre) como os céus da terra (p. 55). Esta noção está relacionada, obviamente, com a ideia de Calvino de que a alma é a imagem de Deus. As palavras de Gn 1.26 não podem ser aplicadas ao corpo (p. 27); o corpo não é parte da imagem... [Para Calvino] uma vez que [o crente está] unido a Cristo na fé, ele nunca pode ser separado dele, e assim nunca pode afundar de volta ao sono [da morte]”.

 

Studies In Dogmatics. Man: The Image of God, Gerrit Cornelis Berkouwer. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, MI, USA, 1962, pp. 239, 240, 249-251, 269, 272, colchetes acrescentados.

 

Comentário:

 

Conforme explicado acima, biblicamente falando, a morte não significa a inexistência de quem morreu. Quem morre continua existindo e consciente, ainda que essa realidade tenha enfoques diferenciados em cada uma das duas seções da Bíblia. No Antigo Testamento quem morre desce espiritualmente para o Seol, que fica nas profundezas da Terra, e lá permanece em uma existência enfraquecida, que nem uma “sombra”, afastado das atividades próprias dos vivos que se encontram na superfície do globo. Já no Novo Testamento cristão a morte significa a transferência imediata para a companhia de Cristo no céu, ainda que não receba ainda o corpo glorificado da ressurreição. Este detalhe tem sido objeto de discussão, pois o Novo Testamento não o esclarece totalmente. Isso resulta em interpretações que tentam explicar como se darão essas coisas. A ressurreição em duas etapas é uma das propostas apresentadas. O apóstolo Paulo toca um pouco nessa questão quando compara o corpo a uma roupa (o que, aliás, é uma analogia recorrente dos espiritualistas de hoje), o que implica, logicamente, que não é o corpo físico que vai para a presença de Cristo no momento da morte, mas a alma:

 

“Sabemos que, se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos [ou seja, o corpo], temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no céu, não construída por mãos humanas. Enquanto isso, gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação celestial, porque, estando vestidos, não seremos encontrados nus. Pois, enquanto estamos nesta casa [ou seja, o corpo], gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser despidos, mas revestidos da nossa habitação celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida. Foi Deus que nos preparou para esse propósito, dando-nos o Espírito como garantia do que está por vir. Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor”. – 2 Coríntios 5:1-8, colchetes acrescentados.

 

E quando comentaristas falam em “imortalidade da alma” que conflita com o entendimento cristão, eles têm em mente dois aspectos principais: (1) Tal imortalidade refere-se à indestrutibilidade absoluta da alma, como se ela fosse uma fração de Deus que jamais poderia ser destruída, e (2) que ser a alma imortal no sentido grego implicaria no desprezo total de uma vida futura humana e corpórea, pois a alma por si só seria o estágio pleno da vida eterna, tornando o sacrifício de Cristo e a ressurreição física sem sentido. Ambos os pontos de vista não são fundamentados em base bíblica. Primeiro porque só Deus é verdadeiramente imortal, e qualquer criatura, ainda que não morra, não pode ser chamada de imortal em sentido absoluto, pois Deus poderia erradicá-la da existência se assim quisesse. E em segundo lugar, o ensinamento da ressurreição implica no restabelecimento da alma ao corpo físico para que ela venha a interagir novamente com o mundo material da maneira que fazia antes.

 

De qualquer maneira, está muito claro nos trechos acima destacados que existe uma “alma” que sobrevive à morte do corpo, ainda que não possua todas as características preconizadas pela filosofia grega. Portanto, em termos cristãos a expressão “imortalidade da alma” está correta apenas em sentido relativo, pois a alma continua viva depois da morte, especialmente se for a alma de um cristão, que já vai imediatamente para a presença de Cristo e não fica confinada no Seol / Hades, cumprindo-se assim a promessa de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, viverá e todo aquele que vive e exerce fé em mim nunca jamais morrerá. Crês isso?” – João 11:25, 26.

 

Note também que seja qual for o entendimento que se tenha da palavra “alma” no contexto hebraico, a obra acima demonstra claramente que os cristãos sempre acreditaram que continuariam vivos depois da morte. Ou seja, uma alma invisível e inalcançável continua existindo depois da morte do corpo, conforme Jesus disse em Mateus 10:28. Alma que, na prática, é uma pessoal espiritual que vive em outro mundo. O que poderia ser trazido à discussão é o que acontece com a alma depois do Julgamento Final, preocupação que não havia entre os gregos. De fato, vários cristãos já debateram sobre isso ao longo dos séculos. No entanto, a existência permanente da alma jamais foi questionada nos tempos antigos, com uma única exceção, mencionada na introdução: aqueles cristãos árabes que acabaram voltando atrás na opinião materialista que esboçaram.

 

Portanto, o cenário apresentado por Berkouwer em seu “Estudos em Dogmática” difere radicalmente daquele que os materialistas cristãos(?) sustentam, segundo o qual depois da morte do corpo não existe alma alguma em lugar nenhum, uma vez que entendem que a alma é apenas o próprio corpo quando está vivo e com o cérebro funcionando. Neste caso, a afirmação bíblica de que a alma vai para o Seol depois da morte seria apenas uma figura de linguagem. O que implica em dizer que o próprio Seol não existiria realmente. Seria no máximo um símbolo da sepultura ou da inexistência. Não haver obras sérias de referência que apresentem esse ponto de vista materialista é uma evidência inconteste de que ele não corresponde à realidade bíblica.

 

11) The New Bible Dictionary, de J. D. Douglas (1962)

 

 

“Visto que no antigo Israel o problema da morte não encontra sua resposta nem na especulação filosófica sobre a imortalidade nem na subvida do Seol, mas sim na libertação do Seol, ser um filho de Deus é ser um filho da ressurreição (Luc. xx. 36). E é o Filho de Deus ressuscitado que transmite esta vitória à Sua Igreja; Em Adão todos morrem, então, em Cristo, todos serão vivificados (1 Cor. xv. 22)”. – Verbete “Vida”, p. 739.

 

“A segunda palavra foi dirigida ao salteador arrependido (Luc. Xxiii. 43), que viu, além da cruz, a coroa e a glória futura, e disse a Jesus: ‘Lembra-te de mim quando vieres em teu reino’ (verso 42, RV). Para ele Jesus disse efetivamente: ‘Não nas eras muito distantes, mas antes do sol se por, tu estarás comigo na alegria do Paraíso’. Não haveria purgatório, mesmo para um pecador assim”. – Verbete “As Sete Palavras”, p. 1167.

 

“O fato de que, por um lado, Deus é onipotente e Deus é amor, e por outro a retribuição eterna é nitidamente ensinada nas Escrituras, pode suscitar problemas para nossas mentes que, com toda a probabilidade, não podemos resolver completamente. É fácil, em tais casos, produzir uma resposta lógica ao custo de um lado da verdade bíblica, e isso muitas vezes foi feito. E. Brunner, por sua vez, invoca a concepção do paradoxo necessário na revelação de Deus, dizendo que a Palavra de Deus não se destina a nos ensinar fatos objetivos sobre a vida futura, mas apenas nos desafiar a agir (Eternal Hope, 1954, 177 ff.). Embora não adotemos esta doutrina, devemos admitir que os conselhos de Deus vão além de nossas mentes finitas. A realidade e a eternidade do sofrimento na Geenna é um elemento da verdade bíblica da qual uma exegese honesta não pode se evadir”. – Verbete “Inferno”, p. 519.

 

The New Bible Dictionary [O Novo Dicionário da Bíblia], J. D. Douglas, Inter-Varsity Fellowship, Londres, 1962.

 

Esse dicionário bíblico é a mesma obra nº 36, citada mais adiante. Isto ocorreu porque na lista do autor do MB esse dicionário aparece como se fossem duas publicações diferentes. A razão disso é que aqui se trata da primeira edição, de 1962, e no outro caso é a terceira edição de 1995. Além disso, o autor do MB citou nesta primeira menção trechos da versão em português dessa obra, publicada pela editora Vida Nova em 2006. Eu fiz o contrário. Aqui traduzi trechos da edição em inglês, e na edição mais recente citei trechos da versão em português.

 

12) A Theological Word Book of the Bible, de Alan Richardson, editor (1962)

 

 

a) Verbete “Ascender”, p. 22:

 

“Na Bíblia, o céu, a morada de Deus e seus anjos, é concebido como uma localização espacial situada acima da terra e do céu atmosférico, exatamente como o Seol ou o Hades, a morada dos espíritos dos mortos, é concebida como estando debaixo da terra”.

 

a) Verbete “Corpo”, p. 35:

 

O N[ovo] T[estamento] também fala de um corpo espiritual que os homens receberão na ressurreição (I Cor. 15.44, cf. II Cor. 5.1-6: ‘uma casa não feita por mãos, mas eterna nos céus’) em contraste com o corpo de carne e sangue que não pode herdar o Reino de Deus (I Cor. 15.50). O que Paulo quer dizer não é que haverá uma restauração das partículas carnais do falecido, mas que a cada indivíduo será conferido um corpo espiritual, conforme Deus ache apropriado (I Cor. 15.44), isto é, um corpo de outra ordem diferente daquele de carne e sangue. A visão grega da imortalidade como sendo a absorção no Infinito é repudiada e asseverada a doutrina cristã da ressurreição (q.v.), que, considerando seriamente o corpo, postula um órgão de personalidade, o expressando e definindo, e adaptado às condições da vida de ordem eterna, mesmo que o corpo de carne e sangue sirva aos mesmos fins na presente ordem. A relação entre o corpo mortal e o corpo ressurgido pode ser expressa como ‘identidade de essência, distinção da forma’ (Thornton, op. cit., pág. 299), ou mais brevemente, a identidade com uma distinção. Deve ser entendido neste ensino uma certa continuidade do corpo terrestre, bem como a ideia de um novo organismo espiritual”.

 

c) Verbete “Morte”, pp. 60, 61:

 

Os hebreus, da mesma maneira que outros povos primitivos, não consideravam a morte como sendo a inexistência total; a morte – ‘sendo juntar-se com os pais’ – significava reunir-se com as almas que partiram no mundo dos mortos (Sheol), uma existência triste e sem significado onde a pessoa era cortada ‘da terra dos vivos’ e da presença de Jeová (cf. Sal. 88.10-12 e muitas outras passagens). Fica claro em uma leitura cuidadosa do Saltério que a angústia que a aproximação da morte causava à consciência genuinamente religiosa dos homens do A[ntigo] T[estamento] resultava não do medo da extinção, mas da expectativa de que todo relacionamento com Deus acabaria... embora o N[ovo] T[estamento] fale da vida eterna, em nenhum lugar menciona a morte eterna; E não devemos ser pressionados a abraçar ideias sobre a extinção eterna, etc., sobre as quais não há nenhuma sanção bíblica clara... o verdadeiro terror da morte não consiste na destruição eterna; Citando o Dr. H. F. Lovell-Cocks (p. 57, veja a seguir): ‘Visto que o Deus da religião ampliou seu domínio sobre as terras escuras além do túmulo, a crença em uma vida no além, longe de mitigar o medo da morte, intensifica seu terror; O Seol é transformado na Geena. Epicuro, com mais perspicácia do que alguns de seus discípulos modernos, viu que o homem teme a morte não porque ela seja a aniquilação, mas o horror da morte, ao invés de ser a extinção, é “a ira do porvir”.’ ”.

 

d) Verbete “Inferno”, pp. 106, 107:

 

“Os hebreus (da mesma maneira que outros povos) não achavam que a morte fosse a total extinção, uma noção que não é encontrada em nenhum lugar do A[ntigo] T[estamento] ou do N[ovo] T[estamento]. Por quase todo o período do A[ntigo] T[estamento] abraçou-se a crença de que os mortos continuam a existir no mundo subterrâneo, uma região de sombras, miséria e futilidade; eles viviam como [seres] insubstanciais, sombras semi-materiais numa terra de silêncio e esquecimento. O nome dessa região era Seol... A parábola do rico e Lázaro (Lucas 16.19-31) mostra que Jesus aceitou a visão rabínica comum (pelo menos para fins de ensino), mas devemos lembrar que não é objetivo da parábola nos fornecer detalhes da vida no porvir, mas nos confrontar com nosso dever nesta vida... A morada de contentamento dos justos que morreram era chamada de PARAÍSO (Lucas 23.43, II Cor. 12.4, Rev. 2.7) – originalmente uma palavra persa para parque ou jardim dos nobres; o termo contém uma referência ao Jardim do Éden, onde ficava a árvore da vida... a expressão conforme usada por Jesus (apenas uma vez) é meramente a maneira convencional de dizer ‘depois da morte física’.”.

 

A Theological Word Book of the Bible (Vocabulário Teológico da Bíblia), de Alan Richardson (Ed.), The MacMillan Company, Nova Iorque, EUA, 1951.

 

Comentário:

 

A palavra “insubstancial”, em referência aos seres que estão no Seol, é a tradução do inglês unreal. Optei em não traduzir por “irreal” para não dar a impressão que se trata de algo fictício. Como está muito claro no trecho acima, os habitantes do Seol são reais e conscientes de si próprios, porém enfraquecidos em suas formas e invisíveis para nós. Por isso eles foram chamados de “irreais”, já que não podem ser vistos ou tocados.

 

Ao se deparar com declarações semelhantes a essa o autor do MB concluiu erroneamente que os eruditos querem dizer que a região dos mortos é fictícia, quando não é este o caso. Pelo menos estou deduzindo que foi isso, uma leitura errada da parte dele. Mas se não foi e ele entendeu, porém mesmo assim apresentou o sentido incorreto, então a situação passaria a ser de desonestidade intelectual, seja para enganar a si mesmo ou para ludibriar o leitor.

 

13) Theological Dictionary of the New Testament (TDNT), de Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich (1964-1976)

 

 

“a. [Hades no Judaísmo Tardio] usado para o hebraico Seol, a morada dos mortos, este termo veio a denotar o lugar de permanência temporária antes da ressurreição (cf. Is. 26:19). b. Neste lugar os bons foram vistos então separados do maus (Enoque Etíope 22; cf. Lc. 16:23, 26). c. Os bons foram finalmente compreendidos como estando em contentamento (Lc. 16:9, 23 em diante)... A visão do N[ovo] T[estamento] é próxima da do Judaísmo (cf. Lc 16). a. [No Hades] não é lugar de sono da alma. b. Desce-se para o Hades (Mt. 11:23; 12:40). c. A estada é limitada (Apoc. 20:13). Às vezes todos os mortos são vistos no Hades (Atos 2:27), mas em outros momentos os crentes são vistos no paraíso (Lc. 16:9, 23 em diante), ou com o Senhor (2 Cor. 5:8), ou sob o altar (Apoc. 7:9). E ainda o Hades é às vezes apenas a morada do iníquo (Lc. 16:23; Apoc. 20:13-14) . . . . A morte destrói a vida; a existência sombria dos mortos no Hades não é a verdadeira vida”.

 

Theological Dictionary of the New Testament (TDNT) [Dicionário Teológico do Novo Testamento], Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich, EUA, 1964-1976; a edição citada aqui é a condensada em um volume, de 1985, pp. 22, 312, colchetes acrescentados.

 

14) Dictionary of the Bible, de John L. McKenzie (1965)

 

 

a) Verbete “Anjos”, p. 31:

 

“Eles aparecem como a corte celestial, atendendo ao Senhor (Lc 12:8), a quem Deus pode ser esperado para manifestar seus desígnios (Mt 24:36). Eles provavelmente devem ser entendidos como guardiães dos pequeninos em Mt 18:10, e Jesus poderia chamá-los para salvá-Lo de Seus captores (Mt 26:43). Eles carregam Lázaro para o seio de Abraão (Lc 16:22). Os anjos são ministros do juízo de Deus na Parusia; eles ajuntam os pecadores para o julgamento (Mt 13:41, 49), eles acompanham o Filho do Homem na Sua vinda (Mt 16:27, Mc 8:38, Lc 9:26), eles recolhem os eleitos (Mt 24:31, Mc 13:27). Este resumo mostra que as concepções dos anjos nos Evangelhos não avançam além da concepção do AT, e em alguns aspectos é menos imaginativa...”.

 

b) Verbete “Paraíso”, p. 637:

 

“... Mas a concepção explícita do fim como sendo uma restauração do Paraíso por este nome se torna patente na literatura apócrifa do Judaísmo pré-cristão. O Paraíso foi criado antes da terra (4 Ez 3:6). Depois da queda de Adão está preservado no céu (2 Bar 4:6; 59:8), mais especificamente no terceiro céu (Segredos de Enoque 8). É o paraíso de deleite dos justos (4 Esdras 4:7; 7:36, 123; 8:52; Seg. de Enoque 42:3; 65:10). O paraíso dos justos está em algumas concepções representadas como em um estado intermediário entre a morte do justo e o julgamento final.

 

“A altamente imaginativa, porque não dizer fantástica, natureza dessas concepções deve ser levada em conta quando vemos que o NT adota a linguagem do Judaísmo apocalíptico em três passagens onde o Paraíso é mencionado. Paulo localiza sua visão extática no Paraíso do terceiro céu (2 Cor. 12:4; cf. Seg. de Enoque indicado acima). Lucas 23:43 faz do paraíso o lugar onde tanto Jesus quanto o ladrão arrependido vão depois da morte; este é o paraíso dos justos, possivelmente concebido como um estado intermediário. Apocalipse 2:7 representa o Paraíso de Deus com a árvore da vida e como sendo o lugar para onde os vitoriosos estão destinados a ir. Este é claramente um caso do Paraíso preservado no céu como recompensa para os justos. O paraíso é apenas um aspecto da concepção do N[ovo] T[estamento] da vida após a morte”.

 

c) Verbete “Xeol”, p. 801:

 

“O Xeol é um dos limites do universo, e ele é a marca do poder e conhecimento de Yahweh, pois eles alcançam até mesmo o Xeol. Sua ira arde até o Seol (Dt 32:22), e quem fugir para o Xeol não poderá escapar de Sua presença (Sal. 139:8) ou de Sua vingança (Am 9:2). O Xeol e o Abadom estão abertos e nus para Yahweh (Prov. 15:11; Jó 26:6). Isaías pede a Acaz para solicitar um sinal mesmo no céu acima ou do Xeol abaixo, i.e., dentro dos limites do universo inteiro (Is 7:11); porque o poder de Yahweh alcança o universo inteiro.

 

“No pensamento do Judaísmo intertestamentário o Xeol se torna um lugar apenas para os maus, mas a concepção não é consistente na literatura; ao passo que o Xeol é o lugar do ímpio depois da morte, o justo é levado ao Paraíso. O lugar de punição dos maus é a Geena, um desenvolvimento de Xeol que é distinto dele”.

 

d) Verbete “Corpo”, p. 100:

 

“Nos Evangelhos o corpo não é uma concepção teológica ou psicológica de importância primária. É iluminado pelo olho, o que significa a intenção (Mt 6:22; Lc 11:34); se o olho tem luz, ele comunica a luz para todo o corpo. Ele é mais importante que a comida (Mt 6:25; Lc 12:22 em diante); aqui o corpo é paralelo à vida e é tomado quase como sendo a própria pessoa. É distinguido da alma em Mt 10:28; Lc 12:4; a morte do corpo é para ser temida menos que a destruição da alma e do corpo pela punição divina. A vida do corpo não é a totalidade da vida humana, pois o homem sobrevive na ressurreição do corpo; mas se pelo pecado ele perde sua alma, a esperança e o princípio da ressurreição são perdidos...

 

“Em outros escritos do N[ovo] T[estamento] o corpo se torna um conceito teológico e psicológico importante apenas em Paulo. O primeiro significado de corpo é concretamente a existência do ser humano; em alguns contextos ele aparece novamente quase como sinônimo da própria pessoa (Rm 6:12 em diante; 8:10?; 1 Cor. 6:18 em diante), mas ‘corpo’ e ‘alma’, ambos são usados para o ‘ser em si [o ‘eu’],’ tendo diferentes ênfases. O corpo é a totalidade ao invés do eu consciente, e o constituinte corporal da vida humana nunca desaparece da vista. Pecados sexuais são uma particular desonra para o corpo (Rom. 1:24). O corpo é ‘o corpo da morte,’ o corpo mortal (Rom. 7:24), do qual o homem é libertado através de Jesus Cristo. A morte do corpo é o resultado do pecado (Rom. 8:10); mas o espírito sobrevive a esta morte através da justiça.

 

O corpo pode ser descrito como sinônimo de carne em Rom. 8:13 [Ver apêndice E]; os pecados são os atos do corpo, que devem ser mortos pelo espírito para assegurar a vida. Mas a carne normalmente se distingue mais como uma qualidade do corpo em sua existência concreta; pela união com Cristo, a carne é morta permanentemente, mas o corpo se elevará a uma nova vida... Aqui também, porém, o padrão de Paulo não é completamente consistente, pois a existência no corpo significa que a pessoa está ausente do Senhor, e é preciso abandonar o corpo para estar presente com o Senhor (2 Cor. 5:6, 8). O corpo, portanto, como existencialmente identificado com a carne deve ser surrado e subjugado (1 Coríntios 9:27).”

 

e) Verbete “Espírito”, p. 842:

 

“Os escritos do Judaísmo extrabíblico usam o termo espírito em sentidos que vão além do A[ntigo] T[estamento] e que afetaram o uso do termo pelo N[ovo] T[estamento]. Tanto os anjos quanto os demônios são chamados espíritos. O espírito do homem é um princípio de funções animais e psíquicas, e seu uso torna-se quase sinônimo de nepes (cf. alma). O judaísmo, talvez influenciado pelo pensamento grego, introduz um dualismo do espírito e do corpo no homem que não aparece no AT; O espírito é um elemento preexistente de origem celestial que sobrevive à morte e é preservado em uma espécie de câmara de armazenamento até a ressurreição. O espírito de Deus é predominantemente o espírito de profecia e revelação, e torna-se o agente inspirador da redação da lei. É um princípio de justiça no homem. Não está claro que o espírito adquire caráter pessoal nos escritos do judaísmo; a personificação do espírito vai além do AT, mas não claramente além da metáfora. O dualismo do bom e do mau espírito é básico na teologia de Qumran; A vida do homem é um conflito entre a influência desses dois espíritos. Os documentos de Qumran falam do espírito do homem em sentidos semelhantes aos de outras literaturas judaicas como sendo o ser em si, o entendimento ou o caráter do homem... [No Novo Testamento] A palavra grega que é traduzida por espírito é pneuma. O significado original e uso desta palavra é muito parecido com o significado e uso do hebraico ruah; é o movimento do ar, principalmente respiração ou vento. O NT, no entanto, traz para a palavra grega o pano de fundo do AT esboçado acima; E o significado primário da palavra é raro no NT. Nos parágrafos seguintes, o espírito representa o grego pneuma; Como acima, seu significado é buscado em seu uso. Os escritores do NT variam em ênfase e significado e a palavra é tratada de acordo com cada um dos escritores”.

 

f) Verbete “Vida”, pp. 507, 508:

 

“O AT não distingue entre ‘vida’ como princípio de vitalidade e vida como viver, a experiência concreta de vitalidade. Sua linguagem é a experiência concreta de vitalidade. Sua linguagem é mais concreta do que abstrata, e a vida é vista como a plenitude do poder, o prazer que acompanha o exercício das funções vitais, a integração com o mundo da sociedade....

 

A concepção de vida acima indicada mostra que os israelitas não conceberam o homem vivo como um espírito encarnado, como muitos estudiosos disseram, mas como um corpo animado. É o vigor e o poder do corpo e suas funções, sua capacidade de prazer, que é a plenitude da vida. ‘Água viva’ é água corrente (Gn 26:19, Lv 15:13, Nm 19:17, e 2:13, 17:13). A morte é total e Israel não sabia de nenhuma atividade vital que sobrevivia a ela. Os mortos não vivem (Is 26:14). São os vivos, e não os mortos, que louvam a Javé (Is 38, 19). O AT não conhece nenhuma vida após a morte até seus últimos livros (cf SHEOL); quando a ideia surge, ela poderia ser concebida apenas como restauração da vida que os hebreus conheciam, uma ressurreição do corpo ....

 

“Quando Elias levanta o filho da viúva, a nepeš do corpo retorna e ele vive (1 Rei 17:22); Na verdade, a frase descreve o fenômeno: ‘a consciência voltou para ele’. Uma comparação entre essa linha e Gn 45:27 mostra que ‘espírito’ e ‘alma’ são usados livremente...”

 

g) Verbete “Morte”, pp. 183, 184:

 

“O conceito prevalecente no A[ntigo] T[estamento] é de que a morte é terminal. O conceito de morte de uma pessoa é determinado, em última instância, pelo seu conceito de vida; daí o conceito hebraico da pessoa humana como um corpo animado, em vez de um espírito encarnado, fez com que o fim da animação parecesse ser a cessação de toda atividade vital. Quando uma pessoa morria, o ‘espírito’ partia; o falecido continuava a existir como um ‘eu’ (nepeš) no Seol, mas era incapaz de qualquer atividade ou passividade vital. Os mortos não participam no culto divino (Sal 6:6; 30:10; 88:11; 115:17, compare também com Isa 38:11, 18). É contra esse pano de fundo da crença do A[ntigo] T[estamento] que Jesus disse que Deus não é Deus dos mortos, mas de vivos (Mat. 22:32, Mar. 12:27, Luc. 20:38). A morte é aceita como o fim natural do homem (2 Sam. 14:14).... Há expressões ocasionais no AT de uma distensão da esperança de que a morte não é tão terminal como parece. Assim, em Sal. 16:9, o poeta se alegra de que Iavé não o abandonará ao Seol, nem lhe permitirá ver a cova. Em Sal. 49:16 o poeta está certo de que Deus o redimirá do Seol. Expressões semelhantes não são incomuns nos Salmos e geralmente não significam nada mais que a preservação da morte súbita ou prematura.... Ainda mais clara é a certeza do poeta em Sal. 73:23, de que ele não tem qualquer quinhão, a não ser Iavé no céu ou na terra. Se as promessas de Iavé e sua bondade são eternas, então deve haver alguma maneira pela qual o israelita fiel as experimente. Como ele deve fazer isso não é formulado nesta fase inicial da crença israelita. A concepção israelita da morte foi afetada pelo mito cósmico subjacente da criação em que tanto do pensamento israelita foi lançado.... Obviamente, porém, conforme eles desenvolveram uma crença na vitória final de Iavé sobre as forças da escuridão, do mal e do caos, da mesma maneira a lógica de sua fé exigiu que Ele vencesse a morte também. Este desenvolvimento parece bastante tardio na crença do AT; não encontramos qualquer traço certo de uma crença clara na ressurreição dos mortos antes do século II AC em Daniel. A imortalidade da alma, conforme proposta na S[abedoria] de S[alomão], um produto do judaísmo alexandrino, era realmente um elemento estranho à crença hebraica e à psicologia hebraica, que jamais foi assimilado dentro do AT ou do NT”.

 

h) Verbete “Geena”, pp. 299, 300:

 

“... O seu verme não morrerá nem o seu fogo será apagado – uma alusão às passagens de Jer[emias]. já citadas. Esta passagem é de importância para traçar a origem do conceito de Gehenna como um lugar de punição após a morte em escritos judaicos extrabíblicos. Ela aparece na Assunção de Moisés 10:19 e no Siríaco Apocalipse de Baruque 59:10; Livro de João 4; em 2 Esdras 7:36 é uma fornalha, um lugar de fogo e tormentos que está à vista do Paraíso. 1 Enoque freqüentemente menciona este lugar de tormento, embora o nome Gehena nem sempre seja usado. É para o maldito (27: 2); é um abismo ardente (90:26 e outros), onde o ímpio queimará como palha (48: 9). É um lugar de trevas, correntes e chamas ardentes (103:8), vale de fogo ardente (54:1). Gehena também é mencionada freqüentemente na literatura rabínica onde também aparece como um poço de fogo, um lugar de punição para os ímpios. Na literatura rabínica, no entanto, o fogo eterno seguramente não é punição eterna. Os rabinos, às vezes, veem a possibilidade de aniquilação dos ímpios ou mesmo de sua libertação após um período de punição. Gehenna no N[ovo] T[estamento] é mencionada sete vezes em Mt., três vezes em Mc., uma vez em Lc., uma vez em Tg. É um lugar de fogo (Mt 5:22; 18: 9; Tg 3: 6). O fogo é inextinguível (Mc 9:43). É um poço no qual as pessoas são lançadas (Mt 5:29, 18: 9, Mc 9:45, 47, Lc 12: 5). É um lugar onde dos ímpios são destruídos o corpo e a alma, o que talvez ecoe na ideia de aniquilação (Mt 10:28)....

 

“A comparação dessas passagens [sobre a Geena] no N[ovo] T[estamento] com os livros apócrifos citados anteriormente mostra que os Evangelhos Sinóticos, Judas, Tiago, 2 Pedro e Apocalipse empregam a linguagem e as imagens do Judaísmo [que lhe eram] contemporâneos. É de se destacar que essa linguagem e simbolismo não aparece em outros escritos do NT; Chaine sugeriu que não aparecem precisamente porque as imagens da escatologia apocalíptica popular do Judaísmo são inadequadas para os Cristãos Gentios”.

 

Dictionary of the Bible, John L. McKenzie, The Bruce Publishing Company, New York, USA and Collier MacMillan Ltd., Toronto, Canada, 1965, colchetes acrescentados.

 

Comentário:

 

Nota-se nas declarações acima que o jesuíta John McKenzie não afirma em sua obra que o homem deixa de existir depois da morte, ainda que ele pertença um grupo restrito de teólogos que “declarou guerra” ao conceito de imortalidade da alma importado da filosofia grega, conceito este que foi, de certa forma, “cristianizado” alguns séculos depois da época de Cristo. O que significa, na prática, que expurgaram tudo o que é incompatível com o ensino da Igreja e mantiveram apenas os pontos mais ou menos em comum, sendo o principal deles o fato de uma parte espiritual do homem sobreviver à morte. Além, é claro, de terem usado amplamente a linguagem dos filósofos gregos. Esse acontecimento na história do Cristianismo é uma das coisas que confundem a mente dos aniquilacionistas de hoje. Mais detalhes sobre isso na seção 4 e no apêndice A.

 

No entanto, ainda que McKenzie não fosse aniquilacionista, duas ressalvas se fazem necessárias em relação à sua obra. A primeira delas é que ele radicalizou bastante o discurso contra a ideia popular de vida após a morte, provavelmente por achar que ela diminui a importância da graça e do sacrifício de Cristo na cruz. Aliás, em geral este é o principal motivo de alguns teólogos assumirem essa postura de antagonismo a um tema que era relativamente pacífico em séculos anteriores. E quanto mais eles se distanciam do que era tradicionalmente aceito, mais os textos que escrevem se tornam convenientes para os aniquilacionistas citarem. O teólogo Robert Farrar Capon, que será visto na citação nº 26, também foi nessa mesma direção. A bem da verdade, eles não deixam de ter alguma razão, afinal, se a morte fosse o que os gregos ou egípcios pensavam, que importância teria a Paixão de Cristo para a vida eterna? Certamente nenhuma.

 

O problema desse zelo talvez excessivo em banir do Cristianismo a expressão “imortalidade da alma”, mesmo acreditando-se que a alma permanece viva depois da morte, é que isso tende a distorcer o próprio cenário apresentado na Bíblia como um todo, ainda que se leve em consideração cada estágio da fé ao longo do tempo. Por exemplo, quando McKenzie faz alusão ao antigo conceito hebreu de que o morto vira uma sombra indigente no subterrâneo da Terra, ele afirma que isso nem deve ser considerado para afirmar que havia um entendimento de continuidade da existência, e que a situação desses “espíritos dos mortos” no Seol era para todos os efeitos de inexistência. Consequentemente, quando Mckenzie se depara com declarações bíblicas sobre algum tipo de atividade no Seol, ele menospreza tais textos e diz que se tratam apenas de descrições “pitorescas”, minimizando assim o significado deles. – Dicionário Bíblico, de John L. Mackenzie, editora Paulus, verbete “Xeol”, 12ª edição, 2015, pp. 891-892.

 

Mas, como era de se esperar, quando Mckenzie iniciou seu esforço de desconstruir o cenário comumente aceito de vida após a morte, houve reação por parte de alguns estudiosos. Abaixo um exemplo:

 

“Uma nova geração de teólogos surgiu, uma geração que não mostra respeito pelo passado: ‘As visões tradicionais do Céu e do Inferno são cerca de 95% da mitologia’, declara o estudioso jesuíta John MacKenzie da Universidade de Notre Dame. Outros teólogos cristãos, protestantes e católicos, expressam opiniões semelhantes. A própria vida após a morte tornou-se sombria, mesmo duvidosa, e o centro de gravidade está sendo transferido para este mundo. A teologia está se tornando existencialista!

 

“No entanto, que não haja mal-entendidos: Se alguns teólogos progressistas agora consideram a ideia de Céu e Inferno como sendo um mito, eles chegaram bastante atrasados. Os escritores clássicos ridicularizaram tais crenças há mais de dois mil anos. ‘Onde podemos encontrar uma velha tão tola que acredite nas antigas histórias dos horrores do Mundo Inferior?’, pergunta Cícero; em outros lugares ele diz: ‘A ignorância da filosofia é responsável pela crença do Inferno e seus terrores.’ Do mesmo modo, Seneca argumenta: ‘Aqueles contos que tornam o mundo abaixo terrível para nós são ficções poéticas. Não há nenhuma negra escuridão à espera dos mortos, nem prisão, nem lago de fogo, nem rio de esquecimento, nem cadeira de juíz...’

 

“Outro filósofo que tentou limpar a mente do medo da morte e os terrores de um estado futuro é Lucrécio – ‘o primeiro Jean-Paul Sartre’, como bem podemos chamá-lo. Resolvendo o pavor da morte no medo do castigo eterno após a morte, nega a doutrina de uma vida futura e sustenta que todos os tormentos do inferno estão nesta vida e são auto-infligidos. Compare com a brincadeira do inferno de Sartre!” – “Gossip about Heaven and Hell”, de Prince John Loewenstein, Dalhousie Review, Vol. 54, Nº 3, 1974, pp. 634-647.

 

A reclamação acima toca também no segundo problema dessa “teologia progressista”. McKenzie não fez questão de esconder que era da opinião de que a Bíblia está repleta de mitos importados do Judaísmo rabínico e de livros apócrifos. Ele diz que todas as descrições da Bíblia sobre Geena, Hades, ir para o “coração da terra” depois da morte etc., são apenas cenários infantis imaginados por hebreus ignorantes do passado. É quase como se alguém dissesse que os escritores do Novo Testamento não podiam estar falando sério quando se apropriaram dessas informações supostamente míticas. Aliás, não somente eles, mas também todos os cristãos do século 2 em diante, conforme revela a literatura patrística que sobreviveu até os dias de hoje.

 

Sendo assim, é compreensível a indignação do arqueólogo e antropólogo John Loewenstein, quando disse que teólogos a exemplo de John McKenzie não respeitavam o passado cristão. Reflexão tão digna de consideração quanto aquela dos teólogos progressistas sobre a “reciclagem” da ideia grega de imortalidade da alma. Se todos os escritores cristãos dos séculos iniciais do Cristianismo acreditavam que a alma continua viva depois da morte e que as almas dos ímpios descem para o subterrâneo da Terra, o Hades, e lá passam por sofrimentos, como se sentir à vontade para supor que todas aquelas pessoas se basearam em fábulas? Justamente os homens que fizeram parte dos fundamentos do Cristianismo? No caso dos escritores bíblicos, McKenzie se esquiva desse inconveniente dando a entender que eles apenas usaram a linguagem do imaginário religioso sem que necessariamente acreditassem no que estavam dizendo! Imagine uma situação dessas hoje em dia. Será que haveria possibilidade, por exemplo, de um cristão evangélico usar histórias de Umbanda para ensinar o Cristianismo para as pessoas? Sem falar que no caso de Jesus não se tratava apenas de crença, pois por ser o Filho de Deus ele sabia a realidade do mundo espiritual. Se o Hades qual mundo invisível dos espíritos dos mortos realmente não existisse há de se supor que Jeses seria o primeiro a não mencioná-lo. A não ser que ele quisesse apenas assustar as pessoas.

 

Não que seja um pensamento absurdo achar que os antigos escreveram sobre escatologia por meio de representações figurativas. Mas se foi isso, elas representam eventos reais e não histórias fictícias. Não importa se o tal “inferno” está, na verdade, em outra “dimensão”, conforme muitos pensam hoje, ao invés de em compartimentos subterrâneos da Terra, contanto que ele realmente exista, a fim de dar sentido às advertências bíblicas. Mas também não haveria problema se esse mundo sombrio estivesse realmente lá perto do magma terrestre. Lembre-se que quem vai para lá não é uma pessoa de carne e osso, mas um ser invisível ou imaterial, um espírito (sobre o conceito de imaterialidade, veja o comentário à obra nº 71). Se fosse possível o homem cavar um túnel e chegar até o centro da Terra, ninguém seria encontrado nessa região, justamente por tratar-se de uma realidade paralela onde vivem pessoas invisíveis para nós. Isso acontece aqui mesmo na superfície, quando criaturas espirituais a exemplo de anjos transitam entre as pessoas carnais, porém ninguém os enxerga.

 

De qualquer maneira, não importa muito esses enfoques menos ortodoxos de McKenzie e outros. O importante é que a Bíblia é suficiente para demonstrar a realidade espiritual depois da morte e todos esses teólogos “progressistas” sabem disso. O próprio McKenzie foi um católico praticante até o último dia de sua vida aqui na Terra e não deu as costas à Igreja por conta de suas opiniões “bíblicas” peculiares sobre a morte. Então, pelo visto, elas não eram fortes o suficiente para demovê-lo da crença católica de que estaria imediatamente com Cristo depois que morresse, conforme o texto de 2 Coríntios 5:6-8, que ele comentou no seu dicionário:

 

“Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor... Temos, pois, confiança e preferimos estar ausentes do corpo e habitar com o Senhor”. – Compare com 1 Coríntios 5:5.

 

O que está de acordo com outra afirmação de Paulo:

 

“Sinto-me num dilema: meu desejo é partir e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”. – Filipenses 1:21-24, BJ.

 

O texto abaixo demonstra adicionalmente o que McKenzie realmente pensava sobre a natureza do homem:

 

“O triplo sentido da Bíblia que é derivado da tricotomia da natureza humana: corpo-alma-espírito, aparece tanto nas homilias como no Periarchon. De Lubac encontra as raízes desta tricotomia na Bíblia, especialmente em São Paulo, e não em Filo ou em qualquer escritor não-cristão (p. ISO em diante). De Lubac é mais reservado do que Danielou em admitir a influência de Filo nos princípios de Orígenes, embora admita a dependência em algumas características de suas alegorias”. – A Chapter in the History of Spiritual Exegesis: De Lubac's “Histoire et esprit”, 1951, p. 368, de John L. McKenzie.

 

Portanto, não é de admirar que ao comentar o episódio de Endor, ele não tenha dito que o espírito que apareceu para Saul fosse algum demônio, ou mesmo um embuste da necromante. No seu dicionário, McKenzie descreve o acontecimento da seguinte maneira:

 

“Assim, embora Saul tivesse expulsado todas as bruxas de Israel, ele próprio procurou alguém que evocou o espírito de Samuel (1 Sam. 28:13), aqui chamado elohim, um ser sobre-humano”. – p. 192.

 

Esse encontro é descrito na Bíblia de maneira nada duvidosa. Ela afirma claramente que era Samuel. Como era o costume da época, o escritor bíblico nem usa a expressão “espírito de” ou “alma de”. Informa que era o próprio profeta. McKenzie sabia disso e não poderia ter relembrado o episódio de outra maneira. Uma evidência de que sua opinião, afinal, não era assim tão “progressista”. O que aconteceu em Endor demonstra também que os israelitas não acreditavam que quem morria deixava de existir. Se Saul pensasse isso ele nem teria ido procurar a necromante. Veja mais sobre essa história na seção 5 e no apêndice C.

 

Por fim, sobre o conceito bíblico de Paraíso mencionado por McKenzie e sua relação com livros apócrifos, queira ler um texto que escrevi chamado “Onde ficava o Jardim do Éden?”. Lá você verá que os pontos de contato não se devem à importação de ideias erradas da literatura extrabíblica. Todos os livros religiosos do Judaísmo e do Cristianismo daquela época, inclusive os que vieram a formar a Bíblia, são produtos das crenças do mundo antigo e é absolutamente previsível que determinados conceitos sejam vistos dentro e fora da Bíblia.

 

15) The New Catholic Encyclopedia (1967)

 

 

“Nepeš vem de uma raiz original que provavelmente significa respirar. Assim, a forma substantiva significa pescoço ou garganta aberta para respirar, daí, sopro de vida. Uma vez que a respiração distingue os vivos dos mortos, nepeš veio a significar vida ou ser ou simplesmente vida individual. Nepeš é usada tanto para animais como para humanos. Se a vida é humana, nepeš é equivalente à pessoa, o ‘eu’. Após a morte, a nepeš vai para o Seol... O termo ψυχή [psyche] é a palavra do NT correspondente a nepeš... A psyche em Mat. 10:28, ‘E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma [psyche]; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo’, significa uma vida que existe separadamente do corpo. O significado de psyche na declaração de nosso Senhor: ‘...o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida [psyche] em resgate de muitos’, é obviamente sua existência mortal (Mat. 20:28; João 10:11). Como um ser vivo, sujeito a várias experiências, ela pode se referir a animais, ‘E toda coisa viva [psyche] no mar morreu.’ (Rev. 16:3), ou a seres humanos, ‘E em toda a alma [psyche] havia temor’ (Atos 2:43; Rom. 2:9; 13:1). Assim, a psyche sente, ama e deseja. Nesse sentido, ela pode ser usada para significar o pronome pessoal ou reflexivo, como em João 10:24, ‘Até quando nos deixará [nossas psyches] em suspense?’.”.

 

The New Catholic Encyclopedia [Nova Enciclopédia Católica], Catholic University of America e McGraw-Hill Book Company, 1967, Vol. 13, verbete "Alma", pp. 335, 336.

 

16) Theologisches Begriffslexikon zum Neuen Testament, de Lothar Coenen e Klaus Haacker (1967)

 

 

“Ele [Jesus] tem as chaves do mundo dos mortos (Ap 1:18), de tal maneira que a morte perdeu seu terror final para o crente. Ele, possuindo as chaves do abismo (Ap 20:1), é o Senhor que governa os espíritos do hades (20:3) . . . . [A palavra poreuomai, tradução do hebraico hàlak na LXX] pode, também, significar a ‘partida’ desta vida (1 Rs 2:2; 2 Sm 12: 23) e, em tempos posteriores, a viagem ao Sheol ou ao Hades (Inferno), como em Jó 10:21; 16:22; Ec 9:10. . . . Hades é a habitação temporária dos mortos... O judaísmo é a origem literária dos dois termos abyssos e gehenna. abyssos significa um lugar específico de terror que se constitui em refúgio para os demônios; gehenna é o inferno escatológico de fogo para o qual serão eternamente condenados os ímpios no Juízo Final”.

 

Theologisches Begriffslexikon zum Neuen Testament [Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento], Lothar Coenen e Klaus Haacker, 1967, Vol. 1, pp. 17, 137,138 e 1021, conforme aparece na 2ª edição em português do Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, colchetes acrescentados.

 

17) Christian Doctrine, de Shirley C. Guthrie, Jr. (1968)

 

 

“Cristãos biblicamente informados rejeitam a doutrina da imortalidade da alma por causa da divisão não bíblica que faz entre corpo e alma, a vida física-terrena e a espiritual-celestial. Se o conceito de imortalidade ‘divina’ inata da alma é não biblicamente otimista sobre o futuro que está à nossa frente, seu desprezo pelo corpo é, de forma não-bíblica, pessimista. A Bíblia não ensina que o corpo é uma concha ou prisão na qual estamos presos e da qual ansiamos escapar. Ensina que fomos criados e somos corpo (corpo masculino ou feminino!), bem como alma, e que a vida corporal e espiritual é desejada e abençoada por Deus. Também ensina que nossa esperança para o futuro não é a fuga da alma da vida físico-corporal para algum reino espiritual superior e melhor, mas para uma total renovação de nossa existência humana como almas encarnadas e corpos almados. Assim foi com Jesus: O Novo Testamento não nos diz que sua alma deixou seu corpo e ‘voltou para casa’ para estar com Deus; Ele nos diz que Deus o ressuscitou dos mortos e que o mesmo Jesus terreno que seus discípulos tinham conhecido antes (com certeza com um ‘novo’ corpo transformado) retornou ao Deus de quem tinha vindo. Assim será conosco... A esperança bíblico-cristã para o futuro é a esperança para os seres humanos que são corpo e alma em sua unidade inseparável. . . .

 

“Na maior parte dos escritos do Velho Testamento não há nenhuma esperança para uma vida além da vida neste mundo. As pessoas podem esperar que Deus irá abençoar os justos e punir os injustos nesta vida, mas depois desta vida não há nem céu nem inferno, nem qualquer vida real. Todos que morrem vão para o mesmo lugar, o Seol, ‘a terra triste e de escuridão profunda’ (Jó 10:21), a região onde todos os mortos têm o mesmo tipo de existência sombria, completamente apartados de Deus e esquecidos por Deus (Sl. 88:4-6, 10-12; 115:17). . . .

 

“Olhar para a frente, para a ‘vida após a morte’, não é vislumbrar a transformação em espíritos celestiais desencarnados, mas é para se tornar uma ‘nova criação’ (2 Cor. 5:17), parte de uma ‘nova humanidade’ (Ef. 2:15). É esperar a conclusão e a perfeição de nossa humanidade, e não escapar dela – é a existência humana que Deus quis para nós desde o início e estava trabalhando para restaurar a nós e em nós através de Jesus Cristo”.

 

Christian Doctrine, USA, 1968, de Guthrie, Shirley C., Jr. (Esta capa é da Revised Edition, Westminster John Knox Press, Louisville, KY, USA, 1994), pp. 380, 381, 384, 386.

 

Comentário:

 

Perceba que o conceito de imortalidade da alma apresentado e contradito é aquele tipicamente grego, onde não há nenhuma perspectiva futura para o corpo, e que o considera até mesmo indesejável para a vida eterna. Esse é um viés sobre a imortalidade da alma que jamais foi aceito pelos cristãos antigos. Esse ponto será analisado na seção 4 e no apêndice A, à luz do que é explicado pelos comentaristas aqui citados. De uma maneira ou de outra, Guthrie deixou claro que os israelitas não achavam que a morte resultava na inexistência de quem morreu, mas sim na transferência para um mundo sombrio afastado de Deus, onde os que estão lá experimentam grande melancolia. Realmente isso não pode ser chamado de vida, ainda que se esteja vivo lá! É como viver em um calabouço em condições extremamente degradantes. Naturalmente, conforme está explicado em várias obras aqui citadas, essa visão sobre a morte foi se modificando e ganhando novos contornos à medida que o tempo passou. Assim, quando chegou a época do Novo Testamento a expectativa em relação aos habitantes do Seol já não era a mesma de antes. Lembrando que na literatura judaico-cristã Seol passou a ser chamado de Hades, e depois de Inferno.

 

Para uma consideração adicional da obra acima, veja a seção 4.

 

18) The Religious Ideas of the Old Testament, de Henry Wheeler Robinson (1968)

 

 

“Obviamente, eles mantêm uma relação muito mais próxima com o desenvolvimento religioso subsequente de Israel do que com aquelas influências externas cananeias, babilônicas, persas e gregas que já foram observadas. A condição de sua sobrevivência era que eles poderiam ser assimilados ou reconciliados com a religião de Javé. Desta ordem são as ideias gerais da vida e da morte humana e da existência além da morte. Podemos facilmente fazer um paralelo com outros povos, semíticos e não semíticos, da ideia de respiração ou sangue como idêntica à alma e a atribuição de características psíquicas ao coração, fígado, olho, ossos; Os costumes funerários, como a refeição dos lamentadores e a mutilação pelos mortos, não são de modo algum estranhos aos hebreus; A concepção do Seol, a morada dos mortos, tem muitos pontos de semelhança com o Hades grego”. – pp. 46, 47.

 

“Em contraste com a ideia dualista de corpo e alma que é característica do pensamento grego como um todo, a ênfase hebraica recai na unidade da personalidade. A alma não continua uma vida imortal após a morte do corpo; Ela sai ou morre com o corpo, e tudo o que resta é a aparência sombria do eu anterior, do corpo e da alma, que está reunida no Seol [com outras “sombras”]. O resultado dessa limitação para o pensamento hebraico é uma notável concentração de atenção na vida presente”. – p. 48, colchetes acrescentados.

 

“Não há, portanto, nenhuma negação formal ou a priori da existência de outros deuses em seus reinos apropriados. O que realmente aconteceu foi a apropriação gradual desses reinos por parte de Javé e a extensão vitoriosa de Sua soberania sobre outros países, até que seus deuses se tornassem tão incolores como as sombras no Seol, e Isaías pudesse chamá-los por um termo zombador que denota sua inutilidade. Em primeiro lugar, a vitória de Javé sobre os deuses de outras nações dependia da vitória de Israel sobre as próprias nações”. – p. 59.

 

The Religious Ideas of the Old Testament [As Ideias Religiosas do Antigo Testamento], Henry Wheeler Robinson, T. and A. Constable, Ltda, Grã-Bretanha, 1921.

 

Comentário:

 

Vemos que o autor informa que as concepções religiosas dos hebreus guardavam algum grau de semelhança com as crenças de outros povos, e não apenas dos semitas (ramo do qual os hebreus faziam parte). Por isso o conceito deles de Seol era semelhante ao Hades dos gregos, ou seja, um lugar coletivo para onde as pessoas eram levadas depois da morte, porém não com sua plena aparência e vitalidade, mas na forma de seres enfraquecidos. Na visão homérica os mortos têm precisamente tais características decaídas. A única diferença substancial em relação à visão grega é que os hebreus não chamavam os mortos que moram no Seol de “almas”, mas sim de “sombras”. (Designação também presente na literatura grega).

 

Sendo assim, fica claro que a visão hebraica não é de modo algum de aniquilação completa. Conforme o autor da obra acima informa na nota 2 da página 54, o materialismo não fazia parte das crenças do antigos povos do Oriente Próximo. Todos eles acreditavam que a humanidade foi criada por alguma divindade e que algo do ser humano sobrevive à morte. O autor chega a comparar as vitórias de Javé sobre outros povos, mediante a nação de Israel, como a derrocada e rebaixamento dos deuses estrangeiros para o mundo pálido do Seol. Ainda que tais deuses fossem falsos, sabemos pela Bíblia que, na verdade, eles eram demônios invisíveis que influenciavam as nações em seus rituais religiosos. (1 Coríntios 10:18-22; Deuteronômio 32:17). O que torna a referida comparação pertinente, pois, do ponto de vista semítico, tais criaturas decaídas eram tão reais quanto as sombras no Seol.

 

Um último fator que convém destacar nessa obra é o discurso monista, e até certo ponto naturalista do seu autor. Conforme ficará claro ao longo deste trabalho, de meados do século 19 em diante surgiram vários teólogos, não necessariamente aniquilacionistas, que deram um novo enfoque à Teologia e, com o tempo, declararam “guerra” à linguagem platônica dentro do entendimento cristão sobre a natureza do homem. Não só à linguagem, mas também ao cenário de desapego às coisas terrestres tendo como objetivo o alcance do céu, expectativa que foi enfatizada por alguns teólogos católicos nos tempos antigos e contrasta com o sentimento dos hebreus primitivos, que não viam outra possibilidade de serem felizes que não fosse na Terra. Os referidos teólogos modernos assumiram uma postura segundo a qual essa visão cristã tradicional diminui o valor da pessoa enquanto ser humano, e o que ele pode fazer pela humanidade. Veja algumas coisas que Henry Robinson disse relacionadas com tais aspectos, tendo como referência a noção de mundo do povo hebreu:

 

“Pode-se afirmar que as tendências da filosofia moderna sustentam as ideias religiosas do Antigo Testamento. Aqui podemos parecer invocar um aliado perigoso e desnecessário. Resulta em menos pensamento e problemas declarar que a religião é independente da filosofia, e apontar que as escolas filosóficas estão em guerra é prova suficiente da futilidade da metafísica. Mas a filosofia é, afinal, comprometida com a verdade, como é a religião. Em última análise, elas devem ser aspectos diferentes da única verdade, e toda filosofia verdadeira deve ser considerada em uma religião, assim como toda religião envolve uma filosofia. Atualmente, o materialismo está em falência, no que diz respeito a pensadores competentes; O agnosticismo é um pouco melhor, que se salva como influência moderadora saudável contra o dogmatismo fácil; Apenas uma interpretação espiritualista do universo tem alguma chance de aceitação. Mas, dentro desse campo de pensamento, a inadequação de qualquer teoria intransigente da imanência tornou-se aparente para muitos. Os fatos da vida são muito complexos para serem rastreados tão facilmente à manifestação do Absoluto. A personalidade, em escolas de filosofia muito diferentes, afirma seu direito a um reconhecimento mais completo. O futuro da filosofia é visto depender da sua atitude com o grande mistério da personalidade, seja no homem ou em Deus. Mais atenção é dirigida aos valores morais e espirituais da personalidade do que, talvez, antes. Mas essa crescente ênfase na personalidade é em si mesma uma aproximação à ênfase religiosa do Antigo Testamento. O homem e Deus são trazidos face a face, sem barreira impenetrável entre eles. O homem é concebido como uma personalidade distinta de Deus, mas totalmente dependente dele. Deus transmitiu uma vida ao homem, que, pelo seu parentesco espiritual com a dele, torna possível a confissão religiosa entre eles. Deus controla a Natureza não menos diretamente, simplesmente e misteriosamente do que a vontade humana controla os movimentos do corpo humano, e o milagre pode ser interpretado como a operação da lei superior (onde há evidências adequadas para sua ocorrência), a lei mais elevada de Maior personalidade. Não há muito mais terreno comum entre as tendências do pensamento moderno e os pressupostos das ideias do Antigo Testamento do que muitas vezes é reconhecido? Não podemos afirmar com razão que a verdade e, portanto, a fonte divina, dessas ideias são confirmadas pelo testemunho extraído não apenas da experiência religiosa, mas também de muitos séculos de investigação filosófica?”. – pp. 226, 227.

 

Nota-se a ênfase na personalidade do homem e sua valoração, que vai ao encontro do conceito integralista do homem atribuída à crença hebraica, segundo a qual o homem só é real enquanto está completo em sua forma física, de modo que aquela versão distorcida que vai para o Seol pode ser desconsiderada, como se nem existisse de fato. O conceito grego sobre a alma ou mesmo a simples sobrevivência dela de uma maneira mais positiva e significativa do que a hebraica devem ficar de fora dessa visão do homem como um todo, pois sem a intervenção de Deus não pode haver uma vida desejável depois da morte, além do que seria contra a natureza dividir o homem, pois suas partes constitutivas devem estar sempre juntas (imanência). Ou seja, é preciso se opor às ideias espiritualistas e transcendentes. Tudo isso estaria de acordo com uma tendência filosófica moderna apreciada por Robinson, que prossegue em seu comentário:

 

“A convicção na verdade religiosa é condicionada religiosamente, assim como, inevitavelmente a convicção da beleza artística é condicionada esteticamente, ou uma convicção no domínio dos fenômenos naturais é cientificamente condicionada. Sem um determinado equipamento em cada um desses reinos, um homem não possui os dados para prova. Para dizer isso, a mais alta prova da revelação não deve render-se à mera subjetividade intencional; É antes elevar o discernimento espiritual ao nível da percepção artística e científica. Em cada caso, a verdade de fora é reconhecida através da capacidade espiritual pela verdade de dentro, e tudo o que é dito é realmente a explicação do reconhecimento, pelo apelo às doutrinas da religião, aos princípios da arte, às leis da natureza. Isso pode ser mais evidente se as quatro ideias fundamentais* do Antigo Testamento forem brevemente consideradas como uma interpretação da experiência religiosa universal”. – p. 228.

 

* De acordo com o autor, essas quatro ideias são: (1) a religião, (2) Deus, (3) o sofrimento do homem e (4) o reino de Deus.

 

Com respeito às leis da natureza, convém lembrar que as pessoas que acreditam que o corpo humano não possui nada de natureza espiritual, mesmo crendo que tudo foi criado por Deus, acreditam que o funcionamento do corpo é regido somente por propriedades físicas estabelecidas, que funcionam por si só, e que a mente é apenas o resultado cognitivo desses mecanismos. O homem seria, portanto, uma máquina biológica criada por Deus, e o pensamento os dados e informações processados dentro do cérebro. Essa realidade puramente material, quando vestida de sentimentos religiosos, permitiria ao homem o seguinte:

 

“A ideia de Deus que o Antigo Testamento apresenta é rica com a justa riqueza do atributo pessoal que a experiência religiosa exige. Tudo o que torna mais nobre a companhia entre os homens é representado aqui, enquanto os atributos divinos da perfeita sabedoria, poder e amor são aqueles que a experiência religiosa deve procurar para encontrar o descanso. A religião não pode se contentar com nada menos do que essa ideia, quando uma vez é alcançada, e nenhuma prova mais clara do seu valor pode ser dada. De maneira similar, desde o tempo de Schleiermacher, o elemento de dependência na experiência religiosa mais profunda foi geralmente reconhecido a qualquer custo. O homem encontra seus maiores poderes na entrega consciente de si mesmo a um mais elevado que ele. Existe uma lógica implícita no abandono da alma à misericórdia e ao amor de Deus, o direito do mais fraco sobre o mais forte, que é parte da estrutura moral do universo. Em relação ao grande problema de todas as religiões e de todas as filosofias, a existência do mal moral e físico, a interpretação do Antigo Testamento não deixa ainda margem de mistério insignificante, mas pode inspirar a coragem adequada para encarar o mistério. Se essa interpretação for verdadeira, vale a pena sofrer, seja por penalidade, disciplina ou serviço. Vale a pena, em um sentido em que a fuga budista pela negação da personalidade não vale a pena. Finalmente, a visão do Reino de Deus em justiça social dá justamente essa força e estímulo ao esforço humanitário e ao progresso social que eles precisam para um sucesso permanente e vital. Mais cedo ou mais tarde, a consciência religiosa levantará a questão da origem e do objetivo das tarefas sociais que a consciência moral exige. O Antigo Testamento estabelece os alicerces da única resposta satisfatória”. – pp. 228, 229.

 

Diante dessa combinação de pensamentos filosóficos, religiosos e naturalistas que Henry Robinson nos apresenta, pergunta-se: Tais conclusões resultaram apenas de suas reflexões e estudos da Bíblia Hebraica? Ou existiu alguma influência externa que contribuiu para o seu discurso? Ao invés de opinar sobre essas questões, sugiro a leitura da seção 7, para que você mesmo chegue a uma conclusão.

 

19) Anthropologie des Alten Testaments, de Hans Walter Wolff (1973)

 

 

“Como entre os povos vizinhos, por exemplo, na epopéia de Gilgamesh, aqui (v. 15) o mundo dos mortos (שְׁאוֹל [she’ol]) é concebido como um grande local subterrâneo de reunião no qual os mortos se levantam como espíritos das sombras e falam. Mas a [palavra] שְׁאוֹל também aparece como potentado que em expectativa agitada do rei da Babilônia, faz levantar-se os reis que jazem sem forças junto a ele (v. 9). Esse drama do mundo subterrâneo, porém, só é apresentado para expor drasticamente as conseqüências do juízo de Javé sobre o tirano que tinha escravizado Israel (14.3s.). O reino das sombras não tem qualquer poder nem dignidade própria. A fraqueza total é sua realidade (v. 10). Larvas e vermes são os verdadeiros regentes (v. 11)... O Antigo Testamento até relata um bem-sucedido esconjuro de mortos, o qual, porém, precisamente como ‘bem-sucedido’, mostra de modo óbvio o absurdo da empresa. Faz parte da insânia do rei Saul que, disfarçado, peca, contrariando sua própria proibição (1 Sm 28.3), à esconjuradora de mortos de En-Dor a evocação de Samuel morto, pois o silêncio de Deus em face da ameaça dos filisteus o deixou completamente desnorteado (1 Sm 28.4ss.). De fato, Samuel surge como um fantasma. Mas que diz? Repreende a perturbação de seu descanso e recorda aquilo que tinha anunciado antes a Saul: que Javé tinha se afastado dele e dado a realeza a Davi (vv, 15ss.). Assim, essa narrativa de uma evocação de mortos, singular no Antigo Testamento, mostra que dos espíritos dos mortos não se pode esperar nada que ultrapasse aquilo que os mensageiros vivos atestam. Exatamente nesta linha, na parábola de Jesus sobre o homem rico, o pedido de que Lázaro seja enviado do reino dos mortos aos irmãos vivos é recusado. ‘Eles têm Moisés e os profetas. Que os ouçam!’ (Lc 16.27ss.)... Quem a não ser Javé poderia oferecer refúgio mesmo em vista do mundo inferior, no qual sua mão não atua (v. 5!)? Afinal, é só ele quem dispõe sobre a entrada no reino dos mortos (v. 6): Tu me lanças no sepulcro profundo, nas trevas, em profundezas abismais”.

 

Anthropologie des Alten Testaments [A Antropologia do Antigo Testamento], Gütersloher Verlagshaus Mohn, Gütersloh, Germany, 1973, de Hans Walter Wolff. Citado aqui da versão em português: Antropologia do Antigo Testamento, Ed. Hagnos, São Paulo, Brasil, 2008, pp. 167-169, 174.

 

20) As Grandes Religiões, Abril Cultural (1973)

 

 

 

“[Fílon, de Alexandria foi] o primeiro sistematizador da alegoria bíblica... numa idade que estava madura para uma síntese do credo judaico e do pensamento grego... Fílon dedicou a maior parte de sua vida à interpretação do Pentateuco, no qual, a seu ver, se encontrava a fonte de todo conhecimento verdadeiro: a Escritura é a sabedoria revelada e toda a filosofia não passa de um reflexo dessa sabedoria. Para explicar a Bíblia, Fílon utiliza o método alegórico. Em suas exposições do texto bíblico, procura um duplo significado: o literal ou evidente e o alegórico ou oculto... Fílon não inventou o uso dos símbolos, através da alegoria, nem foi o primeiro a se valer deles. Esse método já havia sido aplicado à mitologia grega e a Homero por alguns filósofos. A obra de Fílon consistiu em lhe dar um novo alcance, partindo da alegoria como um método sistemático de conhecimento. Seu pensamento revela nítidas influências de diversas escolas gregas, especialmente a de Platão (428/7-348/7 a.C), com uma oposição entre o mundo sensível e o inteligível, entre a matéria e o espírito... O sábio deve ser ao mesmo tempo um asceta e um místico: libertar-se das paixões, dos sentidos, da matéria, elevar-se até a contemplação das realidades eternas e finalmente, pela contemplação mística, unir-se a Deus... Os seguidores do pensamento de Fílon não foram os rabinos, mas os teólogos do Cristianismo nascente”.

 

As Grandes Religiões, Victor Civita (Editor), Abril Cultural, São Paulo, Brasil, 1973, pp. 78-80 .

 

Comentário:

 

A referência ao método alegórico em conexão com os primeiros teólogos cristãos tem outro fator que também deve ser considerado, e que é ainda mais importante do que a influência de Fílon. A própria Bíblia apresenta esse tipo de interpretação. As cartas de Paulo aos gálatas e aos hebreus são as que mais se destacam nisso. Não há porque achar que o apóstolo esgotou todas as possibilidades de simbolismos e modelos proféticos do Antigo Testamento sobre realidades superiores. Uma maior amplitude desse tipo de aplicação combina com a grandeza da Palavra de Deus e sua excelsa sabedoria.

 

É claro que se Deus não inspirar alguém a entender tais coisas, as conclusões a respeito das possíveis alegorias ficarão à mercê da especulação. Porém é irracional achar que só por isso esse lado simbólico da Bíblia não deve ser procurado, ainda mais se determinadas referências bíblicas forem utilizadas nesse método de interpretação. O próprio texto bíblico indica a realidade da leitura alegórica. A história do paraíso no Éden é um bom exemplo que muito provavelmente se refere a algo que está além daquilo narrado na superfície do texto, e há sólidas evidências para se pensar assim. Caso queira considerá-las recomendo novamente o texto abaixo indicado:

 

Onde ficava o Jardim do Éden?

 

Na seção 4 há uma consideração adicional sobre as informações supracitadas, que foram extraídas dessa obra da Editora Abril.

 

21) The Zondervan Encyclopedia of the Bible, de Merrill C. Tenney & Moisés Silva, eds. (1975)

 

 

A morte para os ímpios não é aniquilação, mas a descida ao Seol ou ao Poço. É uma experiência consciente de separação de Deus, de destruição e, portanto, de retribuição (Salmos 49:11, 14, 19; 88: 10-12; Isa 14: 9-11)... O estado intermediário dos justos e dos ímpios é de experiência consciente ao invés de aniquilação. Os ímpios começam a suportar os tormentos da destruição (Lucas 16:23), mas somente no julgamento final na reunião do corpo e do espírito eles são lançados para o inferno para sempre (Ap 20: 13 em diante)”.

 

The Zondervan Encyclopedia of the Bible [Enciclopédia da Bíblia Zondervan], Merrill C. Tenney & Moisés Silva (eds.), 1975, Vol. 2, versão on line, verbete “Imortalidade”. Disponível em português na Enciclopédia da Bíblia, editora Cultura Cristã, 2009.

 

22) Calvinism and Scholasticism in Vermigli's Doctrine of Man and Grace, de John Patrick Donnelly (1976)

 

 

“A erudição bíblica do século vinte concorda amplamente que os judeus da antiguidade tinham pouca noção explícita de uma vida após a morte pessoal até bem tarde no período do Antigo Testamento. A imortalidade da alma era um conceito filosófico tipicamente grego, bem alheio ao pensamento dos antigos povos semitas. . . . [Pietro Martire Vermigli] também ataca aqueles que sustentam que a alma morre com o corpo e é recriada por Deus na ressurreição; esses primos primogênitos dos psicopaniquistas erram por causa de uma falsa interpretação de uma passagem de São Paulo; Martire tenta ajustar o registro correto em sua própria exegese da passagem”.

 

Calvinism and Scholasticism in Vermigli's Doctrine of Man and Grace [Calvinismo e Escolasticismo na Doutrina do Homem e da Graça de Vermigli], John Patrick Donnelly, Leiden, E. J. Brill, 1976, pp. 99, 100.

 

Comentário:

 

Veja que Donnelly não afirma que os hebreus não tinham absolutamente nenhuma noção de vida após a morte. Ele afirmou apenas que eles tinham pouca noção disso, pois, como era próprio dos povos semíticos, eles valorizavam apenas a vida na Terra e achavam que quando descessem para o mundo subterrâneo depois da morte experimentariam uma existência triste, perambulando enfraquecidos por um mundo sem nenhuma alegria ou atividade prazenteira para executar. Note o que diz a próxima citação.

 

23) Jewish Ideas & Concepts, de Steven T. Katz (1977)

 

 

“[A região dos mortos] está nas profundezas da terra; por isso é chamada de ‘as partes inferiores da terra’ (Ezequiel 31:14); ‘As profundezas da cova’ (Lam. 3:55); ‘A terra das trevas’ (Jó 10:21). Observe as expressões acadianas comuns para a região dos mortos: ‘casa das trevas’ e ‘país sem retorno’. Os mortos habitam este país, mesmo aqueles que não foram sepultados (Gênesis 37:35, Isaías 14:19, Ezequiel 32:17-32, A Epopeia de Gilgamesh xii: 153). Os mortos também são chamados ‘Rephaim’ [sombras] - em ugarítico também. . . . Nas confissões babilônicas os espíritos dos mortos são mencionados junto com os deuses. . . . Na Bíblia, eles foram chamados de espíritos (lit. ‘deuses’, i Sam. 28:13). A reticência da Torá em questões relativas aos mortos é facilmente compreensível. Não há nada em honrar os mortos; pelo contrário, há proibições sobre lamentar certas pessoas [que morreram], e é proibido dar-lhes oferendas (Dt 26:14) e consultá-las. Os sacrifícios aos mortos, proibidos em Deuteronômio 26:14, são ligados pelo Salmo 106:28 à idolatria. . . . O costume de trazer refeições aos mortos não desapareceu, entretanto, durante o período do Segundo Templo, pelo menos em certos círculos devotos foi considerado um trabalho piedoso: ‘Derrama o teu pão no túmulo dos justos e não o dê para os pecadores’ (Tobias 4:7). Ben-Sirac ataca essa crença (Eclesiástico 30:18). . . . Esse pessimismo sobre o destino do homem, expresso nos textos bíblicos e mesopotâmicos, pode ser mais claramente sentido nas palavras com as quais Siduri tenta convencer Gilgamesh de que não há sentido em buscar a vida eterna, pois ‘quando os deuses criaram a humanidade, eles reservaram a morte para ela, e a Vida eles retiveram em suas próprias mãos’; e ela continua aconselhando-o a desfrutar deste mundo (ver Pritchard, Textos, 90; ver também a passagem paralela em Ecles., 9:7-10). As duas exceções à crença bíblica de que o homem desce para o she'ol e permanece lá para sempre são Enoque (Gen. 5:24) e Elias (ii Reis 2:11; conforme o destino do herói da história do dilúvio Mesopotâmico Ziusudra / Utnapishtim)”.

 

Jewish Ideas & Concepts [Ideias e Conceitos Judaicos], Steven T. Katz, Schocken Books, Nova Iorque, EUA, 1977, pp. 113, 114, colchetes acrescentados.

 

24) The Concise Jewish Encyclopedia, de Cecil Roth (1980)

 

 

Seol: a morada dos mortos de acordo com a Bíblia. Está localizado em um longínquo lugar debaixo da terra e é especialmente a morada dos ímpios. Tornou-se sinônimo de inferno”.

 

The Concise Jewish Enciclopedia [Enciclopédia Judaica Concisa], Cecil Roth, New American Library, 1980, pp. 487,788.

 

Comentário:

 

Se o Seol fica nas profundezas da Terra e mesmo assim os mortos vão para lá, então significa que não são os corpos de quem morre que descem para esse lugar, mas suas almas ou espíritos (“sombras”). Os corpos ficam muitos quilômetros acima, nos cemitérios.

 

25) Genesis – Volume I, de John C. L. Gibson (1981)

 

 

“Na era antiga, os hebreus ansiavam por uma morte pacífica, quando seus corpos seriam enterrados ao lado daqueles de seus antepassados, enquanto suas ‘sombras’ se juntariam a todas as outras ‘sombras’ e ficariam presas por um tempo, em uma condição de extrema fraqueza, no mundo subterrâneo do Seol (veja Jó 3:13-19; Isa. 14:9-11). Quando o corpo tivesse se transformado em poeira, essa forma fantasmagórica também desaparecia. Até o fim do período do Antigo Testamento não havia qualquer concepção de uma vida significativa após a morte. A morte era para todos os efeitos e propósito o fim. . . .

 

“Para nós, que temos uma crença na vida além do túmulo e, devido a isso, costumamos fazer tanto barulho por morrermos, as descrições concisas e sóbrias da morte no Antigo Testamento não são muito bem-vindas. Talvez devêssemos nos sentir repreendidos por elas. Os hebreus não tinham a nossa esperança cristã, mas eles foram capazes de enfrentar a morte bravamente e aceitá-la com realismo e dignidade . . . .

 

“Visto que ele, Abraão, morreu como um bom hebreu, ele não teria tido nenhuma noção de sua própria sobrevivência após a morte. Mas com uma pequena licença cristã, podemos seguramente [atribuir a ele as seguintes palavras de John Bunyan:] . . . . ‘Ele se foi, e todas as trombetas soaram para ele no outro lado’.”.

 

Genesis - Volume I [Gênesis – Volume I], John C. L. Gibson, Westminster John Knox Press, Louisville, Kentucky, EUA, 1981, pp. 132-135, colchetes acrescentados.

 

Comentário:

 

Conforme será visto depois, este livro de John Gibson é um dos que têm as informações aparentemente mais fortes contra a ideia de uma vida imediata após a morte, caso determinados trechos sejam lidos fora do contexto da obra. Isso foi uma armadilha para o autor do MB, uma vez que Gibson demonstrou claramente que não teve a intenção de afirmar que a Bíblia ensina o materialismo referente à alma humana. Ele apenas contextualizou a verdadeira crença do povo de Deus conforme cada momento ao longo das eras, sendo que em nenhuma delas acreditou-se numa inexistência total e absoluta depois da morte. Os hebreus, da mesma maneira dos babilônios, achavam que os mortos se transformavam em espíritos fantasmagóricos no Seol, destinados a uma existência completamente inútil e sombria.

 

26) The Parables of the Kingdom, Grace and Judgment, de Robert Farrar Capon (1985-1989)

 

 

“Então, depois de mais do que um ‘santificado seja teu nome’ e um ‘venha o teu reino’, ele lhes pede que não orem por nada mais das aquisições humanas, mas apenas pela comida que eles precisam no dia a dia. Nenhuma realização espiritual, nenhuma perfeição ética. Apenas as necessidades básicas para manter o corpo e a alma juntos... A verdade do Evangelho é que o perdão vem a nós porque Deus em Jesus morreu para e pelos nossos pecados - porque, em outras palavras, o próprio Pastor tornou-se uma ovelha perdida por nossa causa... Uma pessoa que cancela uma dívida é uma pessoa que morre por seu próprio direito de possessão à vida... A morte e a ressurreição são a chave para todo o mistério da nossa redenção. Oramos na morte e ressurreição de Jesus, somos perdoados na morte e ressurreição de Jesus. Se tentarmos qualquer uma dessas coisas e ao mesmo tempo buscarmos preservar nossa vida, nunca saberemos lidar com elas. Elas são possíveis apenas porque estamos mortos e nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Colossenses 3:3). E elas só podem ser celebradas por nós se aceitarmos a morte como o veículo de nossa vida nele”.

 

The Parables of Grace, Robert Farrar Capon, Eerdmans Publishing Company, 1988, pp. 70, 71.

 

Comentário:

 

Robert Farrar Capon foi um bispo da Igreja Episcopal (um ramo do Anglicanismo) e escreveu, dentre outras obras, uma série de três livros onde comenta as parábolas de Jesus, dividindo-as em três categorias: (1) do Reino, (2) da Graça e (3) do Julgamento. Uma para cada livro. A série também foi condensada em um único volume. Não obstante as palavras da citação acima, Capon fazia parte do atual movimento que se popularizou no século 20 que rejeita o conceito de vida eterna com linguagem da filosofia grega, a exemplo da expressão “imortalidade da alma”. Mas ele não era aniquilacionista, conforme fez questão de deixar claro em outros textos de sua autoria:

 

“Uma vez eu fui acusado de ser um universalista e não acreditar nas doutrinas das Escrituras sobre o inferno e a punição eterna... Mas eu não sou um universalista, se você estiver falando sobre o que as pessoas fazem ao aceitar esse feliz e sortudo presente da graça de Deus. Encaro com toda a seriedade tudo o que Jesus tinha a dizer sobre o inferno, incluindo o tormento eterno de modo que uma insensibilidade tola de não aceitá-lo implicaria em sua aceitação”. – The Romance of the Word: One Man's Love Affair with Theology: Three Books, Eerdmans, 1995, pp. 9, 10.

 

“A velha balela sobre o céu ser para os bons e o inferno para os caras maus está completamente errada. O céu é povoado inteiramente por pecadores perdoados... e o inferno é povoado inteiramente por pecadores perdoados. A única diferença entre os dois grupos é que aqueles que estão no céu aceitam o perdão e aqueles que estão no inferno o rejeitam”. – The Mystery of Christ… And Why We Don’t Get It, Eerdmans, 1993, p. 10.

 

“Sem dúvida, a aniquilação deixaria uma eternidade mais agradável. Mas, aparentemente, a aniquilação não é uma das opções de Deus. Portanto, relembrando aqui todas as imagens do gusano que não morrerá e o fogo que não será extinto, e dos choros e ranger de dentes, nenhuma dessas coisas é um pouco forte demais para qualquer briga de namorados, e o que dizer se elas forem eternas!”. – Between Noon and Three: Romance, Law, and the Outrage of Grace, Eerdmans, 1997, p. 276.

 

No entanto, defender tais pontos de vista sem crer que a Bíblia ensina que uma alma sobrevive imediatamente à morte gera as mesmas dificuldades com as quais tiverem de lidar outros autores que também seguem a linha do discurso monista. Nem vale a pena explorar muito todas as explicações de Capon a esse respeito, pois elas apresentam os mesmos rodeios enormes já vistos em outros escritores, a fim de justificar o paradoxo causado por suas crenças inovadoras, que servem apenas para agradar os que gostam de uma teologia existencialista e menosprezam o milenar legado cristão deixado pelos primitivos seguidores de Jesus.

 

Na visão de Capon, é um mistério como quem morreu pode estar morto e ao mesmo tempo vivo com Cristo. É um “truque” (sic.) que Deus faz de alguma maneira. O que demonstra que Capon não entra no campo da exegese bíblica, e se concentra apenas em lições teológicas e especulativas. Conforme visto no comentário à obra nº 17, que está na seção 4, outro aderente dessa novidade chamou o tal “truque” de “kairosfera”. Ao explicar a parábola do rico e Lázaro, veja o que Capon disse sobre esse universo paralelo e misterioso da kairosfera:

 

“No tempo de Deus - no kairós, naquele devido período, naquele tempo superior em que o Verbo Encarnado vem no reino em um mistério - todos os nossos tempos são realmente reconciliados e restaurados agora. Mas em nosso tempo - no chrónos, a ordem seqüencial dos eventos terrestres, o tempo inferior de dias, anos, séculos e milênios - o naufrágio da história passa inalterado e imutável agora. E a fé é a única ponte entre o agora no qual nossos tempos estão triunfantemente em sua mão e o agora no qual eles estão tão desastrosamente em nós mesmos. A reconciliação consumada só pode ser crida. Não pode ser conhecida, sentida ou vista - e não pode, por qualquer esforço nosso, por bem ou por êxito, tornar-se visível, tangível ou inteligível. Como os servos na parábola do trigo e do joio, só podemos permitir que a reconciliação e os destroços cresçam até a colheita - até o julgamento em que a ressurreição finalmente exibe o tempo de Deus como vitorioso sobre o nosso e permite que a história se torne a celebração sempre intencionada, mas que nunca conseguiu ser. De certa forma, sinto vontade de me desculpar por ter vindo para o rico e Lázaro desta maneira - por colocar o carro de significado da parábola à frente do próprio cavalo, mas deixe assim. Pelo menos você saberá para onde eu vou, enquanto eu considero os detalhes da história”. – The Parables of Grace, Robert Farrar Capon, Eerdmans Publishing Company, 1988, p. 155.

 

Para mais informações pertinentes ao kairoferismo proposto por Capon, consulte o referido comentário que eu fiz à obra nº 17.

 

Capon também sabia perfeitamente que o ensino bíblico não tem a linearidade preconizada pelos monistas não aniquilacionistas, conforme exemplificado nas seguintes afirmações feitas por ele:

 

“Uma coisa é dizer que a alma saiu de um corpo vivo e que, como conseqüência, o corpo agora não é mais um corpo verdadeiro, mas um cadáver. Mas outra coisa é materializar o fantasma que o abandonou e depois comprometer-se a responder perguntas sobre suas viagens subsequentes. Você está em um terreno bastante seguro no primeiro caso: você está falando sobre um fato observado, a morte. E você está imaginando pela imagem não inapropriada da respiração* ou alma. No segundo caso, porém, você não está falando sobre algo empiricamente observado, mas a imagem que você usou para entendê-lo. E você está atribuindo ao referente dessa imagem uma existência real que, com toda a honestidade, você conhece muito pouco. É claro que não há necessariamente nada de errado nisso. Pode existir mesmo uma coisa real, invisível e imaterial, que atenda pelo nome de Alma. Mas você não sabe disso. Talvez você diga que sim. Talvez você pense que Deus, nas Escrituras, nos assegura. Bem, não tenha tanta certeza. Certamente alguma linguagem bíblica aponta nessa direção. Mas, no geral, a maior parte do discurso da Bíblia sobre a natureza humana parece dispensar tal visão. A ‘imortalidade da alma’ não é uma noção bíblica. Quando a Bíblia quer apresentar uma ideia do nosso destino eterno fora dos confins do tempo, ela tem uma forte preferência por imagens como a Ressurreição do Corpo e a Vida Eterna”. Between Noon and Three: Romance, Law, and the Outrage of Grace, Eerdmans, 1997, pp. 305, 306.

 

Como se nota, para Capon, o sair da alma depois da morte é literal e não se refere apenas à perda da vida biológica, ainda que ele tenha imposto a si mesmo um limite sobre como entender o que acontece com essa alma. Pudor não demonstrado por nenhum escritor cristão dos tempos antigos (e Capon também reconheceu isto). Vemos também que ele admitiu que há textos bíblicos que realmente apontam para o entendimento que existe uma alma que permanece viva depois da morte, dos quais poderíamos citar o aviso de Jesus de que os inimigos matam apenas o corpo e não a alma, ou aquele em que Paulo disse que estaria com Cristo imediatamente depois que morresse. No entanto, Capon minimiza tais referências, alegando que elas são apenas uma fração do cenário geral da Bíblia, que seria preponderantemente monista. Em suma, ele preferiu se ater ao que pode ser visto e não às coisas invisíveis e não ‘comprováveis empiricamente’ (compare com 2 Coríntios 4:18). Ainda que esse “existencialismo cristão” esteja na moda, as informações apresentadas aqui, em todas as seções e apêndices, demonstram que ele tem problemas insanáveis do ponto de vista bíblico e da história do cristianismo primitivo. Mateus 10:28; Filipenses 1:21-23; 2 Coríntios 5:8, 9.

 

* A ideia de alma como sendo um fôlego que passa pela garganta e sai pela boca no momento da morte também estava presente no pensamento grego, a exemplo do que Homero escreveu: “Por conduzi-lo com esforço talvez o gado fique um bom rebanho para se lidar, mas ainda assim apoiado por cavalos castanhos corredores; mas para que a alma do homem voltasse depois que passou pela porteira de seus dentes, nem um grande esforço nem a velocidade adiantariam”. – Ilíada 9:406-409; leia também Gênesis 35:18, na SBB.

 

27) Harper’s Bible Dictionary, de Paul J. Achtemeier e outros (1985)

 

 

Seol (shee’ohl), um termo bíblico para o mundo inferior. Em algumas fontes, particularmente poéticas e proféticas (cf. Deut. 32:22; Amós 9: 2), a referência é simplesmente às profundezas da terra. Mais comumente, Seol é o mundo subterrâneo para onde os espíritos partiram (Provérbios 9:18). Alguns dos textos bíblicos preservam um sabor mitológico distinto, onde o Seol é um poder que pode destruir os vivos (cf. Isa. 5:14). . . . Como um mundo inferior sombrio para os espíritos que partiram o Seol é a contrapartida do Hades e do Tártaro....”.

 

Para um hebreu, ‘alma’ indicava a unidade de uma pessoa humana; os hebreus eram corpos vivos, eles não tinham corpos. Este campo semântico hebraico é violado na Sabedoria de Salomão pela introdução explícita de ideias gregas sobre a alma. Um dualismo da alma e do corpo está presente: ‘o corpo corruptível torna pesada a alma’ (9:15). Este corpo corruptível é oposto por uma alma imortal (3:1-3). Tal dualismo poderia significar que a alma é superior ao corpo. No NT, ‘alma’ retém o seu campo semântico hebraico básico. Alma refere-se à vida de alguém: Herodes procurou a alma de Jesus (Mat. 2:20); pode-se salvar uma alma ou tirá-la (Marcos 3:4). A morte ocorre quando Deus ‘reclama a tua alma’ (Luc. 12:20). ‘Alma’ pode referir-se à pessoa inteira, o ser: ‘três mil almas’ se converteram em Atos 2:41 (veja Atos 3:23). Embora a ideia grega de uma alma imortal de espécie diferente do corpo mortal não seja evidente, ‘alma’ denota a existência de uma pessoa após a morte (veja Lucas 9:25; 12:4; 21:19); ainda assim a influência grega pode ser encontrada em uma observação de Pedro sobre ‘a salvação das almas’ (1:9). Um dualismo moderado existe no contraste do espírito com o corpo e até mesmo com a alma, onde ‘alma’ significa a vida que ainda não foi alcançada pela graça”.

 

HarperCollins Bible Dictionary [Dicionário Bíblico de Harper-Collins], de Paul J. Achtemeier e outros (Eds.), Editora HarperCollins Publishers, EUA, 1985, 1996, verbetes “Alma” e “Seol”, pp. 1011, 1055. A primeira edição desta obra, de 1985, utilizada pelo autor do MB, não tinha ainda o selo da Collins.

 

Comentário:

 

Como se nota, embora a concepção integralista dos hebreus sobre a alma apareça tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, percebe-se que a palavra “alma” tem várias acepções na Bíblia, dentre elas a existência da pessoa após a morte, conforme Jesus disse: “Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mateus 10:28a, TNM). Para mais detalhes sobre a explicação do Dicionário de Harper, veja a citação da obra nº 45 (Enciclopédia Britânica).

 

28) The Eerdmans Bible Dictionary, de Allen C. Myers e outros (1987)

 

 

a) Verbete “Seol”, p. 939:

 

“O Seol é descrito como estando nas profundezas da terra (ex., Gen. 37:35; Prov. 15:24; Eze. 31:15-18), de fato, o lugar mais profundo de todos (Deut. 32:22; Jó 11:8). É um lugar de escuridão (Jó 10:21, 22; conf. Ecl. 9:10) e decadência (Isa. 14:11), do qual não se escapa (Jó 7:9; cf. isa. 5:14); só Deus pode resgatar seu povo das garras do Seol (Sal. 49:15 [MT 16])”.

 

b) Verbete “Rephaim”, p. 881:

 

“[As “sombras” ou rephaim são] os mortos que habitam o Seol... refere-se aos que descem ao Seol e à fraqueza, uma existência sombria no mundo inferior... A discussão acerca da origem e relacionamento dos dois usos de rephaim tem se focado nos textos ugaríticos de Ram Shamra que apresentam as referências mais antigas e numerosas aos Rephaim (rphum, em ugarítico). Alguns eruditos consideram rphum como, primeiramente, os mortos que foram deificados e possuem poderes especiais de cura e recuperação. Pensa-se que Israel assumiu essa referência primária aos mortos, excluindo, entretanto, seus poderes especiais”.

 

c) Verbete “Imortalidade”, pp. 519, 520:

 

“No Velho Testamento não há nenhuma consideração sobre imortalidade inerente. Deus é o Senhor dos vivos, e não tem trato com os mortos (Isa. 38:18; conf. Sal. 88:10-12 [MT 11-13]). No entanto, a imagem dos habitantes do Seol sugere alguma existência contínua dos mortos (ex.: Jó 3:16-19), porém sombria e incompleta, ainda que não se possa dizer das ‘sombras’ no Seol (não almas) que elas estão vivendo... A verdadeira imortalidade não é como uma remoção da alma do corpo bruto que lhe impõe obstáculo. Em vez disso, a natureza espiritual e física da humanidade atual, como criaturas caídas, é comparativamente nua e vergonhosa. É como se os seres humanos ainda não estivessem incorporados; A humanidade deve ser vestida antes de ser plenamente santificada (2 Coríntios 5:4). A promessa da imortalidade é a promessa da renovada integridade da alma e do corpo em uma participação na glória de Cristo”.

 

d) Verbete “Alma”, p. 965:

 

“Alguns cristãos primitivos acreditavam na preexistência da alma [a exemplo de Orígenes]... Ampla evidência aponta que judeus do período intertestamental acreditavam na imortalidade das almas, que vivem em lugares intermediários de julgamento ou contentamento, aguardando o julgamento final e a ressurreição (ex.: 1 Enoque 22:1-14; ‘espíritos das almas dos mortos’; 39:3-14). Apocalipse 6:9 indica a presença no céu das almas dos mártires antes da ressurreição” (colchetes acrescentados).

 

e) Verbete “Ressurreição”, p. 882:

 

“O próprio Jesus acreditava que tanto os justos quanto os injustos estariam presentes no julgamento final (Mat. 10:15; 12:41-42). Ele também acreditava na ressurreição física no seu sentido mais literal, na qual as feridas infligidas nesta vida seriam eliminadas na vida eterna (18:8, 9)... Ele também aparentemente acreditava em um estado intermediário entre a morte e o juízo final, onde o justo pobre desfrutaria contentamento na presença de Abraão, ao passo que o rico mau sofreria nas chamas do Hades (Lucas 16:22-24)”.

 

f) Verbetes “Médium” e “Mago”, p. 705:

 

“A lei de Moisés proibia a necromancia (Lev. 19:31; 20:6), impondo a pena de morte (v. 27). As razões era devido à associação de tal divinação com as práticas das nações que estavam sendo expulsas por Israel da terra da promessa (Deut. 18:9-14; talvez também do Egito [conf. Isa. 19:3]) e a distinção entre a profecia e a necromancia (com outras formas de adivinhação; Deut. 18:9-22). Podia-se buscar saber o futuro tanto dos profetas quanto dos médiuns, mas as informações dos necromantes não eram confiáveis (Isa. 8:16-20). Quando Saul não conseguiu obter uma comunicação do Senhor através dos profetas e outros meios apropriados (1 Sam. 28:6), ele contatou o falecido Samuel através de uma médium (vv. 7-14). Mas Samuel recusou-se a dar um conselho neutro, ao invés disso falou como um profeta e confirmou o repúdio advindo do insucesso [de Saul] em obter uma informação dos profetas vivos (vv. 15-19; conf. 13:13-15; cap. 15)”.

 

g) Verbete “Inferno”, p. 478:

 

“No pensamento clássico o Tártaro era a parte mais profunda do mundo subterrâneo e um lugar de punição que se contrapõe aos Elíseos, o lugar dos abençoados. Deste modo foi diferenciado de Hades, a morada geral dos mortos, mesmo que no uso popular os dois termos fossem intercambiados. Em 2 Pedro o nome é usado em referência à região infernal para a qual os anjos rebeldes foram confinados, por isso neste caso significa um lugar de punição dos iníquos”.

 

The Eerdmans Bible Dictionary [Dicionário da Bíblia Eerdmans], Allan C. Myers, John W. Simpson, Jr., Philip A. Frank, Timothy P. Jenney e Ralph W. Vunderink (editores), Grand Rapids, MI, EUA, 1987.

 

Esse dicionário bíblico foi reescrito e transformado na obra nº 41, citada mais adiante. O Eerdmans Dictionary de 1987 é baseado no Bijbelse Encyclopedie (publicado na Holanda em 1975), em cujo corpo editorial estava Herman Ridderbos, autor da obra nº 58. Mas o outro dicionário Eerdmans, publicado em 2000, manteve alguns verbetes da primeira versão. Além disso, foram mantidos alguns dos mesmos editores. Quando isso acontece, normalmente a função de cada editor muda de uma edição para outra, ou então algum deles sai ou um novo entra.

 

29) New Dictionary of Theology, de Sinclair B. Ferguson e outros (1988)

 

 

a) Verbete “Desenvolvimento da Doutrina”, p. 287:

 

“Quando se fala de desenvolvimento da doutrina, pode-se geralmente se referir a uma relação do ensino posterior da Bíblia com o seu ensino anterior (e.g., o ensino da doutrina da ressurreição do corpo com o conceito de existência sombria no sheol)”.

 

b) Verbete “Descida ao Inferno”, pp. 285, 286:

 

“ ‘Inferno’, aqui, no entanto, não se refere ao inferno do castigo eterno (geena), mas, sim, ao ‘reino dos mortos’, o ‘mundo inferior’ (sheol, no AT, e hades, no NT)... Que Cristo se apartou na morte, em sua alma humana, para o lugar dos mortos até sua ressurreição é afirmado no NT (At 2.31; Rm 10.7; Ef 4.9), o que significa dizer que ele realmente morreu. De acordo com uma interpretação do que diz l Pedro 3.19; 4.6, Cristo pregou ali [no Hades] o evangelho àqueles que haviam morrido antes de sua chegada, a fim de tornar a salvação disponível também a eles. Observe-se, no entanto, que essa interpretação, dada pela primeira vez por Clemente de Alexandria, foi rejeitada por Agostinho e por muitos exegetas medievais e só nos tempos modernos passou a ser base exegética principal para a doutrina da descida ao inferno. Embora ainda fortemente defendida por alguns estudiosos..., muitos exegetas atualmente tomam o texto de 3.19 como que se referindo à ascensão de Cristo, durante a qual ele proclamou sua vitória aos anjos rebeldes aprisionados nos céus mais inferiores, enquanto 4.6 se referiria aos cristãos que morreram após o evangelho já haver sido pregado a eles em vida... Tem-se acreditado, como uma implicação de Mateus 27.52 e Hebreus 12.23, que a descida de Cristo efetuou a transferência dos crentes do AT, do hades, para o céu. Essa ideia pode ser encontrada nos mais antigos escritos pós-apostólicos (Inácio, Ascensão de Isaías), juntamente com a pregação do evangelho que Cristo teria feito aos mortos (Hermas, Evangelho de Pedro, Justino Mártir, Ireneu). Era esse, de modo geral, o entendimento comum no período patrístico sobre a descida de Cristo ao inferno”.

 

c) Verbete “Materialismo”, p. 656:

 

“[Materialismo é a] doutrina que prega que o que quer que exista é matéria física ou dela depende. Afirmada desse modo, a doutrina é suficientemente vaga para já ter tido numerosas expressões, desde o materialismo de Demócrito (c. 460-c. 370 a.C) e o epicurismo, em que tudo é reduzível aos movimentos dos átomos, até o materialismo mecânico de Thomas Hobbes (1588-1679) e o fisicalismo, tanto do positivismo lógico quanto do materialismo dialético de Karl Marx. Além de constituir uma posição filosófica com explicações ontológicas definidas (como a negação da existência da mente ou do espírito), o materialismo pode também ser considerado um programa de pesquisa e uma metodologia de pesquisa sem tais implicações. O materialismo é contestado tanto pelas formas de dualismo mente-corpo (e.g., Descartes) quanto por um antirreducionismo mais genérico, que adverte que, embora o universo tenha um aspecto materialista, não é válido concluir que ele nada seja senão matéria. A ênfase bíblica sobre a humanidade como parte de toda a criação pode parecer, à primeira vista, favorável a uma visão da criação totalmente material; mas a doutrina bíblica da continuidade pessoal após a morte do corpo (2Co 5.1-10) acaba prevalecendo (ver Imortalidade; Estado Intermediário)”.

 

d) Verbete “Estado Intermediário”, pp. 384, 385:

 

“Essa expressão [“estado intermediário”] não é encontrada na Bíblia, mas tradicionalmente se refere à condição da humanidade entre a morte e a ressurreição. Para os descrentes, é um estado de angústia e tormento no Hades (Lc 16.23-25,28; 2 Pe 2.9), enquanto esperam a ressurreição - e o juízo final (Jo 5.28,29)... Para o crente, é um período durante o qual sua alma descarnada, em comunhão consciente com Cristo, espera a recepção da ressurreição corporal. Uma ideia alternativa, porém, é a de que os crentes recebem seu corpo espiritual na morte, não havendo assim nenhum hiato de desencarnação entre a morte e o segundo advento, denotando o estado intermediário, de forma genérica, o intervalo entre a morte e a consumação de todas as coisas. Em qualquer dos casos, o estado é temporário e imperfeito (Ap 6.9-11). O foco do NT não está nesse penúltimo e interino estado do crente, mas, sim, em seu destino final, ou seja, seu estado ressurreto de imortalidade. Embora o corpo dos que partem não mais esteja ativo no mundo terreno de tempo e espaço, ou dele consciente (cf. Is 63.16), acha-se plenamente alerta quanto ao seu novo ambiente; pois não está somente ‘descansando’ de seus labores, em jubilosa satisfação (Hb 4.10; Ap 14.13), a salvo nas mãos de Deus (Lc 23.46; cf. At 7.59), mas (literalmente) na presença de Cristo (Fp 1.23; cf. 2 Co 5.8), ‘vivo’ na glória de Deus (Lc 20.38), vivendo ‘pelo Espírito segundo Deus’ (l Pe 4.6)”.

 

.   .   .    . 

 

“Através de toda a história da igreja, cristãos têm sustentado que, entre a morte e a ressurreição, o espírito ou ‘homem interior’ do crente, desencarnado, é mantido em um estado letárgico, ou de sono, na presença de Cristo. É o chamado psicopaniquismo, a doutrina do ‘sono da alma’... Há diversas objeções a essa visão: 1. O verbo koimasthai, usado por Paulo... geralmente significa ‘adormecer’. Somente quando se refere à necessidade de sono físico, o verbo significa ‘estar adormecido’. Os cristãos, ao morrer, ‘adormecem’, com isso, cessando a relação ativa com o presente mundo. Se esse eufemismo comum para o ato de morrer tem quaisquer outras implicações é somente a de que certamente haverá o ‘despertar’ de uma ressurreição, mas não que o estado intermediário seja de inconsciência ou de suspensão de animação. 2. Imediatamente após a morte, o cristão está ‘com’ o Senhor (meta, Lc 23.43; pros, 2Co 5.8; syn, Fp 1.23), o que se refere a uma comunhão ativa interpessoal, não a uma justaposição espacial impassível. 3. Paulo prefere (2Co 5.8) ou deseja (Fp 1.23) partir e estar na presença de Cristo. É bem provável que ele não estivesse se referindo a um descanso inconsciente com Cristo no céu como ‘muito melhor’ do que a comunhão consciente com Cristo na terra. 4. Lucas 16.19-31 sugere que no estado intermediário há (pelo menos) consciência da circunstância (v. 23,24), lembrança do passado (v. 27,28) e pensamento racional (v. 30; cf. Ap 6.9-11)”.

 

New Dictionary of Theology [Novo Dicionário de Teologia], Ferguson, Sinclair B., Wright, David F., Packer, J. I. (editores), 1988; trechos extraídos da versão em português “Novo Dicionário de Teologia”, Ed. Hagnos, 2011, colchetes acrescentados.

 

30) The True Image: The Origin and Destiny of Man in Christ, de Philip Edgcumbe Hughes (1989)

 

 

“A oposição de Calvino à opinião de que na morte física a alma morre junto com o corpo e no estado intermediário dorme um sono da morte estava em consonância com o fato exigido por sua crença na imortalidade da alma humana. Assim, ele sustentava que sua afirmação de que a alma, após a morte do corpo, ainda sobrevivia, dotada de senso e intelecto, era idêntica à afirmação da ‘imortalidade da alma’. Em apoio à doutrina da imortalidade da alma, ele citou uma série de textos bíblicos: em primeiro lugar, os dizeres de Cristo em Mateus 10:28: ‘Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; Antes temei aquele que pode destruir o CORPO E A ALMA no inferno’, com base nos quais ele tinha boas razões para concluir que a alma sobrevive à morte do corpo. Mas é difícil ver como ele poderia derivar um argumento para a imortalidade da alma a partir destes dizeres, uma vez que parece bastante o contrário, e implica na mortalidade da alma: Deus poder destruir a alma e o corpo certamente deve significar que a Alma é destrutível. As passagens citadas por Calvino indicam que a alma humana sobrevive à morte física, não que ela seja em si mesma imortal. . . . . no âmbito bíblico, a natureza humana é sempre vista como integralmente composta tanto do espiritual quanto do corporal. . . .

 

“Concordemente, a imortalidade com a qual o cristão é assegurado, não é inerente nele mesmo ou em sua alma, mas é concedida por Deus e é a imortalidade da pessoa inteira na plenitude de sua humanidade, tanto corporal quanto espiritual. Essa imortalidade, que não adquirimos por nós mesmos, foi conquistada para nós pelo Filho encarnado que, participando de nossa natureza humana em sua plenitude, tanto corporal como espiritual, e morrendo nossa morte, anulou o poder do diabo e removeu de nós o temor e o aguilhão da morte (Hebreus 2:14 e 1 Cor 15:55). Nossa nova vida em Cristo, que inclui nossa ressurreição final à vida e à imortalidade, deve-se inteiramente a Deus e à sua graça. É DEUS O ÚNICO QUE TEM A IMORTALIDADE e, portanto, quem sozinho pode ser devidamente descrito como imortal. Veja em 1 Timóteo 6:15, 16: . . . .

 

“Há uma boa razão, acreditamos, para sugerir que a questão da imortalidade da alma, no sentido de que é uma concessão que em nenhuma circunstância será removida, exige alguma reconsideração à luz da verdade bíblica. Temos argumentado que a sobrevivência da pessoa, ou da alma, no estado intermediário entre a morte e a ressurreição, não implica necessariamente na sua sobrevivência eterna. O que Deus trouxe à existência, ele também pode destruir. O Novo Testamento prevê ‘a ressurreição dos justos e dos injustos’ (Atos 24:15, João 5:29), quando estes ‘irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna’ (Mateus 25: 46) Esta separação final ocorrerá ‘quando o Senhor Jesus for revelado do céu’; pois é aí então que ‘aqueles que não conhecem a Deus’ e ‘que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus’ sofrerão o castigo da eterna destruição e exclusão da presença do Senhor e da glória do seu poder’ (2 Tessalonicenses 1: 7-9). Este castigo também é descrito como sendo ‘lançado no fogo eterno’ (Mateus 18: 8) ou ‘no inferno, onde seu verme não morre e o fogo não se apaga’ (Marcos 9:44) e como fazendo chorar e ranger os dentes para aqueles a quem isso vem (Mt 13:36 em diante)”.

 

The True Image: The Origin and Destiny of Man in Christ [A Verdadeira Imagem: A Origem e o Destino do Homem em Cristo], de Philip Edgcumbe Hughes, Eerdmans, 1989, texto on line.

 

31) Word Biblical Commentary: Ecclesiastes, de Roland E. Murphy (1992)

 

 

a) O estilo literário de Eclesiastes (Qoheleth, em hebraico):

 

“Não há necessidade de recordar o endividamento geral de Israel à antiga Suméria e Babilônia. Quanto à sabedoria, as realizações da Mesopotâmia são consideráveis (ver W. G. Lambert, Literatura da Sabedoria Babilônica [Oxford: Clarendon, 1960]). Aqui também se desenvolveu a literatura dos ‘problemas’, na qual o enigma secular do sofrimento humano apareceu. No Ludlul bel nemeqi (‘vou louvar o Senhor da sabedoria’) há a queixa de que os ímpios e os justos recebem o mesmo tratamento e que os decretos dos deuses não podem ser entendidos (2.10-38; ANET, 434-435 Ver Ecl. 8: 12-14 e 3:11, 8:17). O pessimismo do ludlul aparece também no que foi chamado de o ‘Eclesiastes babilônico’, embora também seja semelhante a Jó: ‘Um diálogo sobre a miséria humana’ ou ‘A teodiceia babilônica’ . . . . A obra hebraica tem em comum com a epopeia de Gilgamesh o tema da morte e da vida humana transitória, e a preocupação com o nome e a memória. Os comentaristas não deixam de apontar as semelhanças entre o conselho dado a Gilgamesh e o que é oferecido em Ecl. 9:7 em diante”. – pp. 41, 42.

 

Veja a seguir alguns trechos das três obras mesopotâmicas (dos povos semitas) que foram mencionadas por Roland Murphy.

 

1) Epopeia de Gilgamesh, Tabuleta X, Coluna III, linha 90:

 

Gilgamesh, aonde vais com tanta pressa? Jamais encontrarás a vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem, eles lhe destinaram a morte, mas a vida eles mantiveram em seu próprio poder. Quanto a ti, Gilgamesh, enche tua barriga de iguarias; dia e noite, noite e dia, dança e sê feliz, aproveita e deleita-te. Veste sempre roupas novas, banha-te em água, trata com carinho a criança que te tomar as mãos e faze tua mulher feliz com teu abraço; pois este também é o destino do homem.

 

2) O Poema do Justo Sofredor (Ludlul bel nemeqi), tabuleta II (são quatro tabuinhas, no total):

 

Aquele que estava vivo ontem
Está morto hoje
Por um minuto alguém está abatido
Então de repente cheio de alegria
Um momento ele canta em exaltação
Em outro geme com um luto profissional
A condição das pessoas muda

Como o abrir e fechar de olhos.

 

. . . .


Quanto a mim, o esgotado
Um turbilhão está me conduzindo!
Doença debilitante está solta sobre mim
Um vento malvado soprou
Das extremidades do céu
Dor de cabeça subiu sobre mim
Do peito do submundo
Um espectro maligno saiu

De sua profundidade escondida.

 

. . . .

 

Meu túmulo estava aberto
Meus bens funerários estavam prontos
(Mesmo) antes de eu estar morto
Lamentos para mim estavam concluídos
.

 

3) Teodiceia Babilônica (os colchetes [...] indicam trecho fragmentado na tabuleta cuneiforme):

 

Onde está o homem sábio de seu calibre?
Onde está o estudioso que pode competir com você?
Onde está o conselheiro a quem posso relacionar meu sofrimento?
Eu terminei. A angústia veio sobre mim.
Eu era uma criança mais nova; O destino tomou meu pai;
Minha mãe que me deu à luz e partiu para a Terra Sem Retorno.
Meu pai e minha mãe me deixaram sem um tutor.

 

. . . .

 

Preste atenção, meu amigo, entenda minhas ideias.
Ouça a expressão de escolha das minhas palavras.
As pessoas exaltam a palavra de um homem forte treinado em assassinato,
Mas derrubam os impotentes que não fizeram o mal.
Eles confirmam o ímpio cujo crime é [...]
Contudo, suprime o homem honesto que atende à vontade de seu deus.
Enchem de ouro a casa do opressor,
Mas esvazia a despensa do mendigo de suas provisões.
Eles apoiam os poderosos, cuja [...] é culpa,
Mas destroem o fraco e afasta os impotentes.
E quanto a mim, o pobre, um novo rico está me perseguindo.

 

b) O tratamento que Eclesiastes dá ao tema da morte:

 

“Os pontos de vista de Eclesiastes sobre a morte são, em alguns aspectos, surpreendentemente diferentes da visão bíblica padrão. Em geral, houve uma notável resignação à morte por parte dos antigos israelitas. E encontraram algum consolo no fato de que a ‘memória’ do justo vivia como uma bênção (Prov. 10:7). Mas, é claro, Eclesiastes negou que houvesse alguma ‘memória’ (Ecl. 1:11; 2:16). A imortalidade repousava na continuidade da posteridade, mas o ‘qohelista’ pergunta se aquele que virá após ele será sábio ou insensato (2:18-19). Os grandes sábios tiveram um problema com a morte, se ela acontecia logo em contraste com uma vida longa, ou se foi marcada com a adversidade. A morte dos ímpios tinha que ser triste, um dia de ira (Prov. 11:4). Aqueles que confiam nas riquezas em vez de em Deus não poderiam levá-las consigo (Sl. 49.16-17); suas mortes os deixariam desolados sem qualquer conforto ou força em que confiar. A visão de Eclesiastes sobre a morte é condicionada por seus interesses particulares”. – pp. 62, 63.

 

c) Sobre o destino do homem e dos animais:

 

O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda... Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó, e ao pó todos retornarão.

Eclesiastes 3:19, 20

 

“O ‘lugar’ a que todos vão é especificado pelo ‘pó’ (cf. 6:6), embora Eclesiastes reconheça prontamente a existência do Sheol (9:10). O tema do retorno ao pó é freqüente (Jó 10: 9; 34:15; Sl. 104: 29; 146: 4, Sir. 40:11)”. – p. 28-38.

 

d) O valor da vida humana e a expectativa da morte:

 

Ora, para aquele que está na companhia dos vivos há esperança; porque melhor é o cão vivo do que o leão morto. Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco têm eles daí em diante recompensa; porque a sua memória ficou entregue ao esquecimento. Tanto o seu amor como o seu ódio e a sua inveja já pereceram; nem têm eles daí em diante parte para sempre em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe o teu vinho com coração contente; pois há muito que Deus se agrada das tuas obras. Sejam sempre alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vida vã; porque este é o teu quinhão nesta vida, e do teu trabalho, que tu fazes debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.

Eclesiastes 9:4-11.

 

“Eclesiastes recorre ao que foi sem dúvida um ditado popular em apoio da vantagem de estar vivo. O valor de um cão no antigo Oriente Próximo era mínimo, se é que valia alguma coisa (1 Sam. [1]7:43; 24:[14,]15). Daí a pungência da comparação com o leão morto. Em conexão com o v. 4, tanto R. Braun (Kohelet, 104) quanto N. Lohfink citam Eurípides (Troad. II, 634-35): ‘Não, criança! Não compare a vida com a morte. A morte significa aniquilação! O que ainda está vivo pode esperar’. Braun apresenta várias outras citações de filósofos helenísticos. Mas o grau de relevância é a questão aqui. Talvez a atitude de Eclesiastes em relação à vida não seja tão positiva quanto a de Eurípides, mas esteja discutindo sobre um plano que é diferente daquele do filósofo grego. A ironia deste verso é inescapável; a vantagem dos vivos sobre os mortos é que eles sabem que vão morrer! Se Eclesiastes não é irônico aqui, ele está falando de forma muito abstrata (e alguns comentaristas o interpretam assim). Esse conhecimento teórico dificilmente é uma vantagem que os vivos têm sobre os mortos que não sabem nada... ‘recompensa’ / ‘lembrança’. O lucro e a lembrança já foram descartados para os vivos (1:3,11)... a última palavra [inveja] pode levar o significado de ‘rivalidade’ como no 4:4. Em outro lugar [o hebraico] hieµleq, ‘parte’ aparece em conexão com a recomendação de se gozar a vida (3:22; 5: 17-18; 9: 9), e pode manter uma nota positiva aqui. Mas também está associado a tudo o que é feito sob o sol (uma inclusão com v. 3), que permanece um mistério desagradável para ‘qohelista’... Em vista do uso que Eclesiastes faz de ‘vier [à mão]’ como um termo-chave em 6:10-8:17, onde ele nunca encontra nada, a ocorrência da palavra aqui merece atenção. O significado é bastante casual: qualquer atividade que se encontre à mão - o que for capaz de fazer - deve-se perseguir. Esse conselho, para viver intensamente, é motivado por uma perspectiva severa, mas realista: no Sheol não há atividade ou vida real, então aja agora! Esta descrição do Sheol é clássica; retrata um estado de não-vida”. – pp. 88-94, colchetes acrescentados.

 

A obra de Eurípedes mencionada chama-se “As Mulheres Troianas”. A parte citada encontra-se na linha 630, que traz o diálogo entre Andrômaca e Hécuba, mulheres sobreviventes da Guerra de Troia:

 

Andrômaca

 

Sua morte foi mesmo como foi, mesmo assim a morte dela foi, afinal, um destino mais feliz do que a minha vida.

 

Hécuba

 

A morte e a vida não são a mesma coisa, minha filha; Uma é a aniquilação, a outra mantém um lugar para a esperança.

 

Ou conforme diz outra versão desse mesmo trecho:

 

Andrômaca

 

Ela morreu sua morte, e mesmo sendo tão escura, sua morte é mais doce que minha miséria.

 

Hécuba

 

A morte não pode ser o que a vida é, criança; a xícara da morte está vazia, e a vida sempre tem esperança.

 

e) A morte é o fim da vida humana:

 

... porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; antes que se rompa a cadeia de prata... e o pó volte para a terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu.

Eclesiastes 12:5-7.

 

“A nota de morte continua. O processo aqui descrito é o inverso de Gen 2:7. O fim da vida é a dissolução (não aniquilação, os israelitas nunca especularam sobre como o ‘eu’ estava no Sheol, cf. Ecle. 9:10). Os seres humanos retornam ao pó (Gen. 3:19) de onde vieram, enquanto o fôlego da vida dado por Deus [‘espírito’] retorna ao seu possuidor original. Este é um quadro de dissolução, não de imortalidade, como se houvesse um reditus animae ad Deum, ‘o retorno da alma a Deus’. Não há discussão alguma sobre ‘alma’ aqui, e sim sobre fôlego de vida, uma categoria totalmente diferente de pensamento . . . . Alguns afirmam que há uma diferença entre o fôlego de vida dos seres humanos e o dos animais; a pergunta de Eclesiastes (‘quem sabe?’) nega qualquer diferença qualitativa. Mas ele certamente concorda com o resto do AT que Deus é o dono e doador da vida, isto é, o fôlego de vida”. – p. 120, colchetes acrescentados

 

Word Biblical Commentary: Ecclesiastes, de Roland E. Murphy. Word, Incorporated, Dallas, TX, USA, Vol. 23A, 1992.

 

Comentário:

 

O livro de Eclesiastes certamente é um dos favoritos das pessoas que abraçaram o materialismo “cristão”, pois é a única parte da Bíblia que realmente pode induzir um leitor a achar que a morte significa o fim absoluto da existência. No entanto, conforme explicado por Roland Murphy, trata-se apenas de um enfoque diferenciado que contrasta com o resto da Bíblia. O autor de Eclesiastes, de maneira muito semelhante à literatura mesopotâmica, supervaroliza a existência humana terrestre e não nutre qualquer esperança de felicidade para depois da morte. Para todos os efeitos ela é o fim de tudo o que diz respeito à vida humana. Ressalte-se, porém, que mesmo havendo esse tratamento radical e pessimista, que quase abraça o ideal aniquilacionista, abaixo da superfície do texto percebe-se que o “qohelista” não advoga a extinção completa de quem morre, mas apenas a de sua existência física. E o motivo é simples. Ele menciona o Seol, que todo israelita entendia como um lugar nas profundezas do subsolo, para onde todos os que morressem iriam. Murphy destaca essa distinção, ao dizer que embora Eclesiastes se refira frequentemente ao “pó” como destino do homem, o autor bíblico reconhece também a existência do Seol, que por tratar-se de uma região do subterrâneo profundo é obviamente um lugar diferente daquele de uma simples sepultura no solo da superfície terrestre. Ou seja, ao passo que depois da morte um corpo ficava na sepultura (“pó”), a pessoa de alguma maneira iria para o coração da Terra, longe das atividades típicas dos seres humanos. De modo que havia uma continuidade da existência, ainda que de maneira sombria e triste, aspectos que o escritor de Eclesiastes evitou comentar. Talvez para deixar ainda mais patente o conceito apresentado de que vida mesmo é só a material. Ele também não falou nada da possibilidade de um dia alguém sair do Seol, tal como escreveu o salmista: “Não deixarás a minha alma no Seol”. – Salmo 16:10; compare com Atos 2:22-28.

 

Tendo tudo isso em mente, é por isso que Murphy destacou que a ênfase de Eclesiastes é na dissolução do corpo e aquilo que ele proporciona, e não na aniquilação total da pessoa, pois os hebreus acreditavam que iriam para um outro mundo chamado Seol, embora eles não tenham feito nenhuma sistematização teológica a respeito, nem especulado como isso se daria. Em suma, o que o “qohelista” tinha em mente era apenas a existência humana, e não a continuidade das almas (“sombras”) no Seol, cujos moradores não possuem o mecanismo da respiração (“fôlego”) nem podem dizer que têm uma verdadeira vida lá, ainda que estejam conscientes de si mesmos e dos companheiros ao redor. Conforme Murphy bem lembrou, esse tratamento literário de apresentar a morte como o fim de tudo (o que é humano) pode ser encontrado até mesmo na literatura grega, ainda que os gregos acreditassem indubitavelmente que a alma sobrevive à morte. De modo que quando Eurípedes diz que a morte é o fim de tudo e só os vivos nutrem esperança, ele não está afirmando o aniquilacionismo materialista, mas apenas aspectos puramente humanos e terrenos, os quais desaparecem quando a alma desce para o Hades.

 

Portanto, é muito prematuro alguém se valer dessas passagens de Eclesiastes no intuito de defender o materialismo, uma crença que é estranha às Escrituras Sagradas. Quem faz isso demonstra o quão distante se encontra da verdadeira perspectiva bíblica sobre esse assunto, especialmente quando o Novo Testamento é considerado.

 

32) A Theology of the New Testament, de George Eldon Ladd (1993)

 

 

“Jesus falou pouco sobre o destino do indivíduo além do lugar dele ou dela no Reino de Deus escatológico. O Novo Testamento inteiro faz uma clara distinção entre Hades, o estado intermediário, e a Geena (inferno), o lugar da punição final. Hades é o equivalente grego do Seol do Antigo Testamento. No Antigo Testamento, a existência humana não termina com a morte. Ao invés disso, a pessoa continua a existir no mundo subterrâneo. O Antigo Testamento não fala da alma ou espírito de alguém descendo ao Seol; as pessoas continuam a existir como ‘sombras’ (rephaim). As rephaim são ‘continuações sombrias e enfraquecidas dos vivos que então perderam sua força e vitalidade’ (conf. Sal. 88:11; Prov. 2:18; 21:16; Jó 26:5; Isa. 14:9). Elas ‘não são almas extintas mas suas vidas têm pouca substância’. O Seol, onde as sombras estão reunidas, é descrito como um lugar abaixo (Sal. 86:13; Prov. 15:24; Eze. 26:20), uma região de escuridão (Jó 10:22), uma terra de silêncio (Sal. 88:12; 94:17; 115:17). Os seus mortos, que estão reunidos em tribos (Eze. 32:17-32), recebem os que morrem (Isa. 14:9, 10). O Seol não é tanto um lugar, é mais o estado dos mortos. Não é a inexistência, mas também não é a vida, porque a vida só pode ser desfrutada na presença de Deus (Sal. 16:10, 11). O Seol é a maneira do Antigo Testamento assegurar que a morte não elimina a existência humana.

 

“Existem umas poucas indicações no Antigo Testamento de que a morte não é capaz de destruir o companheirismo que o povo de Deus usufrui com ele. Visto que Deus é o Deus dos viventes e o Senhor de tudo, ele não abandonará os do seu povo ao Seol, mas os habilitará de alguma maneira não definida a continuar desfrutando dessa comunhão com Ele (Sal. 16:9-1; 49:15; 73:24; Jó 19:25, 26). Estas passagens não têm um claro ensinamento de um abençoado estado intermediário, mas corporificam a semente de tal ensino. Os salmistas não conseguem conceber que a comunhão com Deus seja em algum momento quebrada, nem mesmo pela morte”.

 

. . . .

 

“Em uma única declaração, Jesus lançou um raio de luz no destino dos justos. Ao ladrão moribundo que expressou fé em Jesus, ele prometeu: ‘Hoje você estará comigo no Paraíso’ (Luc. 23:43). Aqui é uma clara afirmação que a alma ou espírito do homem que estava morrendo estaria com Jesus na presença de Deus. ‘Paraíso’, significando parque ou jardim, é usado na LXX [Septuaginta Grega] como jardim do Éden (Eze. 28:13; 31:8) e, às vezes, é usado para a era messiânica, quando as condições do Éden serão restauradas (Eze. 36:35; Isa. 51:3). A palavra é também usada na literatura intertestamentária para a era messiância de bem-aventurança (Enoque 60:7, 23; 61:12). A palavra aparece apenas três vezes no Novo Testamento - na referida passagem de Lucas, em 2 Coríntios 12:3 e em Revelação (Apocalipse) 2:7 - onde ela simplesmente designa a morada de Deus. Devemos concluir que Jesus não deu nenhuma informação sobre o estado dos iníquos, e ele afirma somente que os justos que morreram estão com Deus”.

 

A Theology of the New Testament, George Eldon Ladd, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1974, 1993, pp. 194, 195.

 

33) Enciclopédia Mirador (1994)

 

 

“No judaísmo antigo é incerta a condição dos mortos no sheol (lugar obscuro, caverna situada por debaixo dos oceanos, fechada por portas |Jó 10,21; 26,5; 38|). Primitivamente, pensava-se que os mortos permaneciam para sempre separados de Deus, incapazes de louvá-lo. Mais tarde, admite-se que Deus pode libertar do sheol os justos; a morte seria finalmente vencida. Nos últimos livros do Antigo Testamento esboça-se a doutrina do juízo final e da ressurreição dos mortos . . . . No cristianismo são claramente afirmadas as seguintes doutrinas: imortalidade da alma; juízo particular, em que cada pessoa é julgada perante Deus segundo os atos praticados durante a (única) existência terrestre, sendo os bons recompensados e os maus condenados; juízo ou julgamento universal no fim do mundo, após a ressurreição corporal”.

 

Enciclopédia Mirador (Encyclopaedia Britannica do Brasil), 1986, Vol. 8, verbete “Escatologia”, pp. 4012-13; a edição citada pelo autor do MB foi a de 1994, que também apresenta esse trecho.

 

Comentário:

 

Nota-se, mais uma vez, a mesma ideia já vista em outras obras aqui: os hebreus acreditavam que depois da morte continuavam vivos no Seol, que não é o mesmo que sepultura, pois fica nas profundezas da Terra. Entretanto, a existência nesse lugar estranho não era tida por eles como verdadeira vida, mas apenas uma versão triste e enfraquecida da pessoa humana que antes morava na Terra. Ou seja, uma mera sombra do que era antes, longe das atividades dos seres humanos, dentre elas o louvor a Deus. Essa concepção de que os mortos possuem uma existência consciente no subterrâneo, porém entristecida, também é vista na crença de outros povos antigos, a exemplo dos gregos, sobre os quais a Enciclopédia Mirador também informou:

 

“Essa mesma unidade de fins e de composição [a tragédia] patenteia-se na Odisseia, a partir do canto XI, quando Ulisses desce ao Hades para lá encontrar as vítimas do conflito troiano a lamentarem suas vidas perdidas, cessam as aventuras fantásticas do herói”. – Vol. 26, p. 3941, verbete “Epopeia I”, colchetes acrescentados.

 

34) New Testament Theology, de George Bradford Caird and L. D. Hurst (1994)

 

 

“O enfoque histórico é quase o único tipo de escatologia que encontramos no Antigo Testamento – isso não é surpreendente quando se considera que quase todos os livros do Antigo Testamento já tinham sido escritos antes que os judeus alcançassem uma crença na vida após a morte. . . . A complexidade da questão é exacerbada no Novo Testamento, uma vez que nessa época tanto os judeus quanto os cristãos têm uma crença bem estabelecida na vida após a morte. . . .

 

“Que durante o período formativo da escatologia judaica o povo hebreu não tinha nenhuma crença na vida após a morte é um fato que dificilmente pode ser superstimado. O Seol, tal como o Hades dos gregos, era a terra dos mortos, o despejo final, e foi associado geralmente com termos tais como a morte, o esquecimento, a escuridão, o túmulo e o poço. Seus habitantes eram sombras, fantasmas, fotocópias pálidas relegadas ao armário de arquivos subterrâneos. . . .

 

“Quando a crença na vida após a morte finalmente começou a surgir, foi como um subproduto da crença em uma nova era da história do mundo amanhecendo para a nação de Israel. A ideia de uma ressurreição, que automaticamente associamos com a imortalidade pessoal, foi usada figurativamente pela primeira vez por Oséias e Ezequiel referindo-se a um renascimento nacional, e apenas quatro séculos mais tarde veio a ser usada literalmente por Daniel relacionada à ressuscitação dos mortos justos, que precisariam de seus corpos para se juntarem ao futuro glorioso da nação. . . . Quando o autor da Sabedoria de Salomão afirma que ‘as almas dos justos estão nas mãos de Deus... porque, embora aos olhos dos homens eles tenham sido punidos, têm uma esperança segura de imortalidade... porque Deus os testou e os achou dignos de serem Seus’ (3:1-5), ele pode estar usando linguagem emprestada do mundo helenístico, mas suas ideias são um legado de seus antepassados judeus . . . .

 

“Quando nos voltarmos para as Epístolas de Paulo, recebemos a impressão geral de que a ressurreição do corpo deve ocorrer somente na última trombeta. Contudo, na sua primeira carta ele pôde dizer que, quer acordemos quer durmamos [na morte], estaremos vivos com Cristo (I Tess. 5:10), e em sua última carta ele pôde falar de estar pronto para partir e estar com Cristo (Fil. I:23...). No Apocalipse há a passagem já mencionada, na qual os mártires recebem as vestes brancas que os equipam para a vida eterna na cidade celestial”.

 

Dentro dos parágrafos onde estão os trechos acima, duas notas de rodapé ainda dizem o seguinte:

 

Nota 18: “De acordo com Ezeq. 32:22-30 os mortos no Seol estão dispostos em nações. Cf. também o começo da Ilíada de Homero, que retrata os corpos dos soldados espalhados no campo de batalha enquanto suas sombras estão no Hades”.

 

Nota 19: “Os gregos, já não satisfeitos com a obscuridade do Hades clássico, vieram sob a influência dos filósofos a acreditar que o corpo é um túmulo e a terra uma prisão da qual a alma piedosa deve esforçar-se para escapar na morte”.

 

New Testament Theology [A Teologia do Novo Testamento], George Bradford Caird e L. D. Hurst, editores, 1994, pp. 243-246, colchetes acrescentados.

 

35) What Do Jews Believe? – The Spiritual Foundations of Judaism, de David S. Ariel (1995)

 

 

“Esta passagem [da sentença de morte dada a Adão], como outras (‘Se um homem morrer, pode ele viver novamente?’ - Jó 14:14), sugere que a vida termina no momento da morte. Outras seções [da Bíblia Hebraica, porém,], particularmente nos escritos proféticos, sugerem que há uma vida após a morte em que todos os mortos descem a uma região nas profundezas da terra chamada Sheol. Esta região também é chamada kever (o túmulo), bor ou shachat (o poço), e avadon (terra de descarte). É um lugar de escuridão e tristeza onde todos os mortos compartilham o mesmo destino infeliz. Os mortos que já esperam no Sheol saúdam os recém-chegados com avisos sobre o que encontrarão: ‘Os vermes serão sua cama, as larvas, sua manta’ (Isaías 14:11). . . . A única referência explícita bíblica à vida após a morte vem do muito tardio Livro de Daniel: ‘Muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, alguns para a vida eterna e outros para as repreensões e aborrecimento eternos’ (12:2)”.

 

What Do Jews Believe? - The Spiritual Foundations of Judaism [Em Que Creem os Judeus? – As Fundações Espirituais do Judaísmo], David S. Ariel, 1995, pp. 73, 74, colchetes acrescentados.

 

36) New Bible Dictionary, de D. R. W. Wood e outros (1996)

 

 

a) Verbete “Alma”, pp. 39, 40:

 

“As numerosas ocorrências com uma referência psíquica incluem estados de consciência: (a) onde nefesh é a sede do apetite físico (Nm 21.5; Dt 12.15, 20, 21; 23.24; Jó 33.20; Sl 78.18; 107.18; Ec 2.24; Mq 7.1); (b) onde é a origem das emoções (Jó 30.25, Sl 86.4; 107.26; Ct 1.7; Is 1.14); (c) onde é associada com a vontade e com a ação moral (Gn 49.6; Dt 4.29; Jó 7.15; Sl 24.4; 25.1; 119.129, 167). Em adição a esses empregos há outros onde nefesh designa um indivíduo ou pessoa (p. ex., Lv 7.21; 17.12; Ez 18.4), ou então é usada com um sufixo pronominal para denotar o próprio ‘eu’ (p. ex., Jz 16.16; Sl 120.6; Ez 4.14). Notável extensão deste último sentido é a aplicação de nefesh a um cadáver (p. ex., Lv 19.28; Nm 6.6; Ag 2.13). Usualmente a nefesh é considerada como a parte do homem que se separa do corpo por ocasião da morte (p. ex., Gn 35.18), ainda que a palavra jamais seja empregada para indicar o espírito dos mortos. Visto que a psicologia hebraica ressentia-se de falta de terminologia exata, há certa indiscriminação no emprego de nefesh, lev (levav) e ruah (v. CORAÇÃO, ESPÍRITO)”.

 

. . . .

 

“Quando Paulo emprega psyche juntamente com pneuma em 1 Ts 5.23 está meramente descrevendo a mesma parte imaterial do homem em seus aspectos inferior e superior. O emprego que Pedro faz dos termos é diferente. Ele aplica psyche à personalidade inteira do homem, incluindo seus aspectos mais elevados. Por outro lado, reserva o vocábulo pneuma, em sua acepção humana, para aquela porção do homem que sobrevive à morte. Dessa maneira, uma das principais diferenças entre o uso do AT e o do NT é a aplicação de ambos os termos, psyche e pneuma à existência humana além da morte. V. tb. ESPÍRITO”.

 

b) Verbete “Inferno”, p. 617:

 

“Nos escritos judaicos posteriores, Geena veio a ter sentido de lugar de punição para os pecadores (Assunção de Moisés 10.10; 2 Esdras 7.36). A literatura rabínica contém diversas opiniões sobre quem haveria de sofrer a punição eterna. Eram generalizadas as idéias que os sofrimentos de alguns terminariam no aniquilamento, ou que os fogos da Geena em alguns casos eram purgatórios. Porém, aqueles que sustentavam essas doutrinas também ensinavam a realidade do castigo eterno para certas classes de pecadores (A. Edersheim, The Life and Times of Jesus the Messiah, 1894, ii. 44, 791s). Tanto essa literatura como os livros apócrifos afirmam a crença numa retribuição eterna (cf. Judite 17.16; Salmos de Salomão 3.13). O ensino do N[ovo] T[estamento] endossa essa crença (v. ESCATOLOGIA). As passagens sobre as quais se tem baseado a negação dessa verdade não suportam um exame cuidadoso. Assim é que Lc 12.47s. se refere à intensidade, e não à duração do castigo. Mt 5.26 é passagem metafórica, e certamente não pode ser pressionada para dar base a essa negação; enquanto apenas um violento esforço da imaginação pode fazer com que Mt 12.32 ensine que haverá perdão para alguns pecados no mundo vindouro, ainda que não no mundo atual”.

 

New Bible Dictionary [Novo Dicionário da Bíblia], D. R. W. Wood, A. R. Millard, J. I. Packer, D. J. Wiseman, I. Howard Marshall, editors, 3ª Edição, 1996.

 

37) “Christianity and The Survival of Creation”, de Wendell Berry, em The New Religious Humanists, de Gregory Wolfe (1997)

 

 

“A Bíblia é um livro inspirado escrito por mãos humanas; e como tal, é certamente sujeita a críticas. Mas os ambientalistas anti-cristãos não dominaram a primeira regra da crítica dos livros: você tem que lê-los antes de criticá-los . . . . Não posso fingir, obviamente, ter feito um estudo tão meticuloso; se eu fosse capaz disso, não viveria tempo suficiente para fazê-lo. Mas eu tentei ler a Bíblia com algumas dessas questões em mente . . . . Se lermos a Bíblia tendo em mente a conveniência dessas duas sobrevivências - do Cristianismo e da Criação -, estaremos aptos a descobrir várias coisas que as organizações cristãs modernas mantiveram notavelmente silenciosas . . . . Não temos o direito da Bíblia de exterminar ou destruir permanentemente ou desprezar qualquer coisa na terra ou nos céus acima dele ou nas águas abaixo . . . .

 

“O bom trabalho humano honra a obra de Deus . . . . Ele não dissocia vida e trabalho, ou prazer e trabalho, ou amor e trabalho, ou utilidade e beleza . . . . Esse dualismo, eu acho que é a doença mais destrutiva que nos aflige. No seu mais conhecido, seu mais perigoso, e talvez sua versão fundamental, é o dualismo do corpo e da alma. Esta é uma questão tão difícil quanto importante, e por isso para lidar com ela, devemos começar do início. O teste crucial provavelmente é Gênesis 2:7, que dá o processo pelo qual Adão foi criado: ‘O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida; e o homem foi feito alma vivente.’ . . . . Podemos ver como é fácil cair no dualismo do corpo e da alma quando se fala sobre as inevitáveis dualidades mundanas do bem e do mal, do tempo e da eternidade. Mas desprezar o corpo ou maltratá-lo por causa da ‘alma’ não é apenas queimar sua casa para receber o seguro, nem é apenas o auto-ódio, do mais profundo e perigoso tipo. É mais uma blasfêmia . . . .

 

“Se pensarmos em nós mesmos como criaturas meramente biológicas, cuja história é determinada pela genética, pelo ambiente, pela história... então, por mais agradável ou doloroso que seja o papel que desempenhamos, não importa muito. Seu significado é o de mera auto-preocupação . . . . Se pensarmos em nós mesmos como almas elevadas presas temporariamente em corpos humildes em um mundo desanimado, desesperado e não amado, que devemos desprezar por causa do Céu, então o que fizemos para essa questão de significativo? Não muito, eu acho . . . . Se, por outro lado, acreditamos que somos almas viventes, a poeira de Deus e a respiração de Deus. . . . então todos os nossos atos têm um significado supremo . . . . Se pensarmos em nós mesmos como almas vivas, criaturas imortais, que vivem no meio de uma Criação... então vemos por que alguns professores religiosos entendem o trabalho como uma forma de oração”.

 

“Christianity and The Survival of Creation” [O Cristianismo e a Sobrevivência da Criação], Wendell Berry. Artigo publicado em The New Religious Humanists [Os Novos Religiosos Humanistas], Gregory Wolfe, The Free Press, 1997, pp. 243-256.

 

Comentário:

 

Conforme os trechos acima transcritos indicam, o escritor Wendell Berry não está defendendo o materialismo ou a descrença de uma vida após a morte. Na verdade, ele apenas tangencia essa questão, pois o enfoque principal do texto dele não é a análise bíblica dos conceitos de corpo e alma. Mas sim a atitude dos cristãos diante do desafio de respeitar e preservar a natureza. Mesmo assim, nota-se que Berry deixa transparecer que tem a mesmíssima crença da maioria dos que advogam o Cristianismo, que é a de que a morte não significa o fim automático da vida. O argumento básico apresentado por ele é o que está apresentado na citação nº 45, de que o ser humano deve ser visto como um todo único, formado por corpo e alma, tal como visto na maior parte do Antigo Testamento, quando chama o homem de “alma vivente”, e não de um alma encarnada, presa temporariamente no corpo mau que não faz parte dos planos eternos de Deus. Esta ideia é tipicamente grega helenística e não tem amparo nas Escrituras Sagradas. O dualismo grego seria assim o primeiro de vários outros dualismos maléficos impregnados na sociedade humana. A visão integralista esboçada por Berry é, de acordo com ele, um passo importante para reconhecer a sacralidade do corpo e adquirir a consciência necessária para a preservação da natureza e de todos os seres que vivem no bioma terrestre.

 

38) The Death of Death – Resurrection and Immortality in Jewish Thought, de Neil Gillman (1997)

 

 

“Não inesperadamente, o retrato bíblico do Sheol não é tão coerente como o descrevemos até agora. Primeiro, a Bíblia não podia suportar a noção de limites territoriais ao domínio de Deus:... Mais importante, apesar da nossa insistência de que o Seol marca o fim absoluto do destino humano, o fato é que existe alguma forma de continuidade humana, que as pessoas não se extinguem totalmente na morte. Se Jacó afirma que vai chorar seu filho no Sheol, isso significa que seu filho está lá para ele ir. Isso de modo algum melhora ou dilui a realidade da morte de seu filho, mas sugere que, de alguma forma, seu filho continua a ‘ser’ mesmo após a morte. O problema aqui é a dificuldade de conceber apenas o que acontece com uma pessoa após a morte, ou mais grosseiramente, exatamente para onde essa pessoa ‘vai’...” – p. 68.

 

Os antigos claramente compartilhavam esse sentido. Estar o corpo deles enterrado na terra provavelmente os levou a localizar o Seol como nas entranhas dela. Eles também sabiam que o corpo se desintegra na terra. No entanto, a pessoa morta, de alguma forma, continua ‘existindo’ após o seu enterro. Isso não deve de modo algum ser interpretado como se referindo à existência contínua, após a morte, de uma ‘alma’ humana. Não há noção deste tipo de entidade, independente do corpo, na Bíblia. Mas sugere que o ser humano é, de alguma forma, mais do que apenas um corpo e que essa dimensão extra da personalidade continua após a morte. Portanto, não há questionamento sobre o testemunho esmagador da Bíblia de que qualquer forma de existência contínua no Sheol está singularmente comprometida”. – p. 69.

 

[Em nossa consideração] Eschatology: Our Vision of the Future nós afirmamos em parte que para o ser humano individual a morte não significa extinção e esquecimento”. – p. 237.

 

The Death of Death – Resurrection and Immortality in Jewish Thought [A Morte da Morte – A Ressurreição e a Imortalidade no Pensamento Judaico], Neil Gillman, Jewish Lights Publishing, EUA, 1997.

 

Comentário:

 

Neil Gillman é um rabino dos Estados Unidos. Ele é um caso no Judaísmo moderno que lembra aqueles teólogos “progressistas” cristãos que combatem qualquer coisa que lembre o conceito grego de imortalidade da alma, porém sem aderir ao aniquilacionismo materialista. A queixa de Gillman é que judeus recentes abandonaram uma parte da doutrina do antigo judaísmo sobre a morte e mantiveram o restante. No caso, deram as costas ao conceito de ressurreição do corpo físico e reconheceram somente a imortalidade da alma destinada a uma vida espiritual. Isto seria uma ruptura na ortodoxia judaica e Gillman se posiciona contra tal mudança doutrinária.

 

A opinião desse erudito judeu sobre o tema da morte é visivelmente contraditória. E ele próprio reconhece isso, conforme exemplificado nos trechos supracitados. Ele não acredita que a alma (nefesh) sobreviva de alguma maneira à morte do corpo físico e acha que quando a Bíblia diz que ela sai do corpo quando a pessoa morre é apenas uma figura de linguagem, que se refere à dissipação da vida. Ou seja, ela não sai de fato para nenhum lugar. O mesmo ocorre no caso do espírito. Por outro lado, ele admite que os antigos hebreus não acreditavam na aniquilação total de quem morre e que há textos bíblicos que sugerem uma “dimensão extra da personalidade” que continua existindo depois da morte. Naturalmente, ele não quer chamar essa parte invisível de “alma” devido ao “juramento” que fez de repelir a todo custo ideias gregas. E note o seguinte. Ele diz que não tem culpa desse discurso paradoxal e responsabiliza a Bíblia por isso:

 

“Não há nenhuma razão pela qual devamos escolher entre essas explicações variadas da etiologia da morte. A Bíblia não é um livro internamente coerente. Em vez disso, é uma biblioteca, uma coleção de documentos compostos em vários momentos por várias comunidades. Até ser canonizado, cada documento passou por um extenso processo de composição. Não é incomum, portanto, que a Bíblia preserve explicações múltiplas e mesmo contrárias de eventos históricos e fenômenos naturais. Se há uma diferença entre os quatro relatos das origens da morte, ela se baseia na forma como entendemos a afirmação judaica de que a morte será abolida para sempre. Nossas duas interpretações favoritas consideram este estado como restaurador, um retorno a um estado de coisas primitivo ideal. Suas alternativas veem a escatologia como vetorial, isto é, uma mudança de um estado imperfeito no início para um estado ideal no final”. – p. 56.

 

Traduzindo tudo o que foi dito acima por Gillman... A Bíblia hebraica apresenta dois cenários relativos à morte e ao Seol: um de continuidade e outro de fim absoluto, sendo este mais preponderante na narrativa bíblica. Por isso optou por ele e rejeitou o anterior. (Lembre-se que os comentários desse rabino não levam em consideração a escatologia do Novo Testamento, que dirime qualquer dúvida que poderia haver entre os dois pontos de vista supostamente contraditórios do Antigo Testamento). Na página 120 do seu livro, Gillman também opina que até mesmo as declarações e narrativas atribuídas a Jesus não são confiáveis, pois não há certeza de que elas são autênticas, pois os documentos que as contêm são polêmicos.

 

39) The Encyclopaedia of Judaism, de Jacob Neusner e outros (1999)

 

 

Após a morte, as pessoas vão para o Sheol... o mundo inferior, as entranhas da terra, o limite (juntamente com os ‘céus’) da percepção humana (Jó 11: 7-8). O Sheol é tipicamente retratado em termos aterrorizantes. É um monstro que devora todas as pessoas e nunca está saciado (Is. 5:14, Prov. 27:20). É um lugar de vermes e decadência (Jó 17: 13-16). Não há consciência entre os habitantes do Sheol (Jó 14:21-22), nem têm um relacionamento com Deus (Salmo 88: 4-5, 11-13). Apesar da afirmação frequentemente repetida de que ninguém volta do Sheol (Jó 7: 9-10, 10: 20-21), a Bíblia preserva uma narrativa que fala de tal retorno. 1 Sam. 28 relata como Saul, desesperado para obter a garantia de Deus antes de entrar na batalha com os filisteus, solicitou a mulher de Endor que fizesse Samuel subir do Sheol . . . .

 

Apesar do fato de que a existência no Sheol significa total esquecimento, em certo sentido existe uma forma de existência contínua lá... Samuel claramente existia em algum sentido enquanto estava no Sheol . . . .

 

Finalmente, se alguém especular sobre as razões para a ênfase bíblica no caráter definitivo da morte, surgem duas possibilidades. A primeira é distanciar a religião bíblica das religiões pagãs que adoravam os mortos. A segunda baseia-se na insistência bíblica de que somente Deus é imortal. Os seres humanos morrem, e essa é a diferença entre eles e a divindade . . . .

 

Uma característica importante da religião são os elementos mais sombrios que são muitas vezes esquecidos nos tratamentos padrão: a adivinhação, a magia e as ‘artes esotéricas’. A condenação destas nas fontes bíblicas e outras (por exemplo, Deut. 18:9-14, Is. 65:3-4) tem sido muitas vezes tomada por seu valor nominal, para indicar que essas coisas não tinham lugar no judaísmo. A evidência indica o contrário... A adivinhação foi oficialmente praticada pelos sacerdotes desde cedo com o uso do Urim e do Tumim, e certamente estava presente entre as pessoas, mesmo quando algumas franziam a testa. Isso evidentemente incluiu cultos para os mortos . . . . Embora não haja evidência para cultos aos mortos no período do segundo Templo, em particular, outras formas de contato com o mundo espiritual estão bem documentadas. . . .

 

[Com respeito à alma e sua imortalidade] A segunda metade do tratado de Saadia [um filósofo judeu da Idade Média] é principalmente dedicada a um conjunto de problemas que têm a ver com a questão geral da recompensa e da punição . . . . A própria Bíblia não é muito clara nestes tópicos. Em algumas passagens fala sobre um dia de julgamento; em outros lugares, e mais uma vez não muitos, refere-se à alma, ou espírito, retornando a Deus. Apenas no Livro de Daniel, o último livro da Bíblia [hebraica], aparece uma clara referência à doutrina da ressurreição dos mortos... Saadia pode ter sido o primeiro a tentar formular uma teoria do ‘fim dos dias’, um relato que integra as várias ideias bíblicas e rabínicas desses assuntos. Primeiro ele discute a natureza da alma. Embora Saadia trabalhe com algum tipo de dualismo alma-corpo, ele não exibe as distinções e preconceitos como os dualismos platônicos ou cartesianos fazem... [para ele] a alma assume principalmente a responsabilidade por nossas ações; faz as escolhas que nossos corpos realizam. De fato, o corpo não é intrinsecamente impuro, como os platonistas haviam sustentado. Torna-se impuro se a alma faz escolhas imprudentemente. A alma e seu corpo são criados juntos. Aqui Saadia rompe novamente com o platonismo, que havia afirmado a preexistência da alma. Ao rejeitar a preexistência, Saadia também é capaz de negar a transmigração, ou metempsicose. Isso não significa, contudo, que a alma morra com a morte de seu corpo. Quando este último morre, a alma sobrevive em uma ‘sala de espera neutra’, a bíblica ‘bolsa da vida’, onde aguarda a próxima etapa de sua carreira”.

 

The Encyclopaedia of Judaism [Enciclopédia de Judaísmo], Neusner, Jacob, Avery-Peck, Alan J., Green & William Scott (eds.), Brill Academic Publishers (Leiden, Boston e Tóquio), 1999, pp. 595, 596, 1307, 1410, 1411, entradas “Doutrinas Judaicas sobre Morte e Vida no Além”, “História do Judaísmo, Parte II: A Época do Segundo Templo” e “Filosofia e Teologia do Judaísmo, Era Medieval”, respectivamente, colchetes acrescentados.

 

Comentário:

 

Conforme se percebe acima, a inconsciência dos mortos é apenas em sentido relativo. Conforme já visto, as almas (“sombras”) estão debilitadas no Seol e, por conseguinte, têm suas faculdades perceptivas comprometidas. Não estão inconscientes no sentido de não terem pensamentos, nem tampouco tal inconsciência denota simbolicamente a própria inexistência. Conforme demonstram os autores dessa enciclopédia, toda história do Judaísmo desde os seus primórdios, o que inclui o conceito primitivo de Seol, demonstra que os judeus jamais acreditaram na inexistência completa de quem morreu. Por isso era difícil banir da nação a prática de tentar conversar com os mortos, cuja proibição não era motivada por ideias materialistas e muito menos porque os mortos que se manifestavam eram demônios, ainda que houvesse esta possibilidade. Os mortos existem e se assemelham a presidiários detidos em algum local de confinamento. O cenário de debilidade e inconsciência relativa dos mortos pode ser visto até mesmo na literatura egípcia tardia:

 

“O Oeste [a terra dos mortos] é uma terra de sono e densas sombras, um lugar onde os habitantes uma vez instalados, cochilam em suas formas mumificadas, nunca mais acordarão para ver seus irmãos; nunca mais reconhecerão seus pais e suas mães, esqueceram em seus corações das suas esposas e filhos. A água da vida, que a terra dá a todos que nela moram, é para mim [, que já morri,] estagnada e morta; a água flui para todos os que moram na terra, enquanto que para mim é apenas um líquido putrefato, esta é a minha água. Desde quando eu vim para esse vale de mortos eu não sei onde estou nem quem eu sou”. – History of Egypt, Chaldea, Syria, Babylonia and Assyria (1901-1906), vol. 1, de Angelo S. Rappoport, Gaston Maspero e outros, pp. 158, 159, palavras da falecida esposa de Pasherenptah, chamada Taimhotep; colchetes acrescentados.

 

40) Baker Encyclopedia of Psychology and Counseling, de David G. Benner & Peter C. Hill, orgs., (1999)

 

 

“A erudição moderna tem ressaltado o fato de que os conceitos hebraico e grego de alma não eram sinônimos. Embora a visão de mundo hebraica distinguisse a alma do corpo (como base material da vida), não havia qualquer questão sobre duas entidades separadas, independentes. Uma pessoa não tinha um corpo, mas era um corpo animado, uma unidade de vida que se manifestava em forma carnal – um organismo psicofísico (Buttrick, 1962). Embora os conceitos gregos da alma variassem amplamente, de acordo com a era específica e a escola filosófica, o pensamento grego frequentemente apresentava um conceito da alma como uma entidade separada do corpo. Até décadas recentes, a teologia cristã da alma tem refletido mais o pensamento grego (compartimentalizado) do que as ideias hebraicas (unificadoras)”.

 

Baker Encyclopedia of Psychology and Counseling [Enciclopédia Baker de Psicologia e Aconselhamento], David G. Benner & Peter C. Hill (editores), 2a Edição, 1999, p. 1148.

 

Comentário:

 

David Baker é Ph.D em aconselhamento psicológico pela Universidade do Texas e não escreve sobre doutrinas bíblicas (veja o currículo dele aqui). Logo, o foco do livro acima é a psicologia e não assuntos teológicos. Baker faz parte de uma “escola” de psicólogos cristãos que pegaram carona nessa “onda” recente do discurso monista, segundo o qual a visão patrística sobre a alma não tem nenhuma serventia numa abordagem psicológica do ser humano, voltada para ajudá-lo aqui mesmo neste mundo. Ainda que não se possa negar completamente tal visão, o fato é que a informação bíblica geralmente não é o forte de tais escritores que são profissionais da saúde mental. Além disso, eles parecem estar comprometidos com a opinião de que tudo o que acontece na mente humana é resultado apenas de uma combinação de elementos físico-químicos que geram impulsos elétricos no cérebro. O que implica dizer que não há nenhuma substância verdadeiramente espiritual no corpo humano. Mesmo assim eles se esforçam para integrar a teologia com a psicologia, e isso tem ocasionado algumas críticas. Note a seguir um exemplo:

 

“Nos anos e décadas desde que os pioneiros no movimento de orientação cristã clamaram por uma integração rigorosa da psicologia com a teologia, uma guerra interna entrou em erupção. ‘Os cristãos tomaram posições diferentes em relação até onde deveriam ter alguma coisa a ver com a psicologia moderna, alguns abraçando de todo o coração, outros a rejeitando muito vigorosamente, e muitos outros recaindo em algum lugar entre as duas situações’ (Johnson & Jones, 2000, p. 9)... Uma segunda visão argumenta que a psicologia e a teologia são disciplinas paralelas que envolvem diferentes níveis de explicação e, portanto, não são campos verdadeiramente integráveis (Myers, 2000). Esta segunda visão, na prática, muitas vezes dá mais atenção ao lado psicológico da equação do que ao lado teológico. Uma terceira visão argumenta que devemos procurar construir uma psicologia cristã, vasculhando a sabedoria dos santos que nos precederam, ao invés de tentar separar a verdade de fontes contemporâneas e largamente seculares de informações psicológicas (Roberts, 2000). Obviamente, essa visão coloca maior ênfase nas fontes históricas, bíblicas e teológicas da informação do que no lado psicológico”. – The Integration of Psychology and Theology: An Enterprise out of Balance, Seminário de Denver, de James R. Beck, p. 6.

 

E o fato mais importante que interessa aqui é que quando Baker, por exemplo, dá a entender que nos últimos anos houve entre os cristãos uma migração do entendimento dualista para o monista, fica a impressão de que isso, além de ser uma coisa boa, é uma evidência de que o Cristianismo está progredindo ao caminhar para essa outra direção, que não tinha sido vislumbrada pelos cristãos primitivos. É a própria rejeição do legado da antiga igreja. No entanto, a real situação não é assim tão simples. Não só as vozes em prol da ortodoxia continuam ativas, como também apontam a fragilidade da maneira como o conceito monista é hoje apresentado. O artigo prossegue:

 

“Os autores da integração às vezes podem deturpar posições teológicas. Boyd (1996) afirma que o monismo contingente de Erickson ou a unidade condicional é ‘tendenciosa em favor desta vida’ (p.27) e que está no extremo oposto do espectro do dualismo modificado de Cooper... Os autores da integração às vezes citam as Escrituras com pouca atenção dada ao contexto ou intenção autoral. Por exemplo, em muitos trabalhos recentes sobre a alma, um tópico apropriadamente bíblico, os escritores citam passagens sem deixar claro que os autores da Escritura usam o termo de forma diferente, como podemos constatar observando como Pedro usa a palavra em relação ao que Paulo escreve sobre a alma (veja Beck, 2001, para exemplos mais específicos)... Em outros casos, o material bíblico e teológico está quase ausente das conversas de integração na literatura... Minha intenção em apontar esses exemplos não é desencorajar os autores da integração de usarem conceitos teológicos e bíblicos em seus escritos. Pelo contrário, precisamos desse tipo de reflexão. Mas precisamos atualizar a qualidade e a quantidade das observações teológicas e bíblicas que fazemos para não prejudicar a intenção do nosso trabalho, a saber, construir a igreja e edificar os santos”. – Ibid., pp. 8, 9.

 

Falando em desencorajar, quando eu menciono que a explicação monista nega o valor do Cristianismo histórico, eu não estou querendo dizer que ela seja errada em si mesma. De fato, se não fosse a queda edênica o homem jamais teria que ser “dividido” e ficar em um estado anormal no Hades, ou no céu, aguardando a restauração de todas as coisas ao padrão original. O erro não está no monismo* (que é a intenção divina, de acordo com a Bíblia), mas no discurso daqueles que o reivindicam, que não considera todos os fatores bíblicos envolvidos e aquilo que foi ensinado no primeiro século de Cristianismo. Não há dicotomia e dualismo no sentido grego, porém existe uma parte espiritual que se separa do corpo depois da morte, comumente chamada de “alma”, e enquanto isso não acontece o corpo se opõe a ela, devido ao pecado. Era isso o que os cristãos antigos pensavam. Os que hoje aderem a uma visão lastreada apenas no que é material, numa aparente submissão plena ao Velho Testamento, ainda que sejam chamados de “progressistas”, na realidade regrediram teologicamente, pois ignoraram o ensino dos apóstolos e seus sucessores diretos. Para que não haja dúvida quanto a isso, recomendo outra vez a leitura dos dois textos indicados a seguir:

 

O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

 

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

 

Depois que os ler, verá que não existe justificativa razoável para essa negação de crenças básicas do antigo Cristianismo por parte dos referidos teólogos “progressistas”, mesmo que sejam válidos alguns argumentos apresentados por eles.

 

* Por outro lado, se o que a pessoa entende como monismo é que ele significa que o corpo humano é uma peça única sem características internas invisíveis de natureza espiritual (própria do mundo celeste de Deus) e que funciona apenas devido a mecanismos físicos, conforme preconizam as ciências naturais, então, neste caso, tal tipo de monismo deve ser rejeitado pelo cristão, pois ele não passa de um materialismo disfarçado. – Compare com 2 Coríntios 4:18.

 

41) Eerdmans Dictionary of the Bible, de David Noel Freedman e outros (2000)

 

 

a) Verbete “Depois da Morte”, p. 25:

 

“No A[ntigo] T[estamento] vários termos hebraicos como šĕ’ôl (“Seol”), māwet (“morte”), ‘ereṣ (“terra”), šaḥaṭ (“poço”), bôr (“poço”), e ‘ăḇaddôn (“lugar de destruição”) podem se referir ao mundo inferior ou morada dos mortos. Alguns destes termos são adicionalmente qualificados por taḥtît ou suas várias outras formas que significam ‘as partes mais baixas’. O Seol mais frequentemente designa as regiões inferiores, embora tenha poucos cognatos, se é que tem algum, no antigo Oriente Próximo, tornando a origem de sua etimologia ainda mais obscura. Mesmo que pudéssemos descobrir sua história etimológica completa, não seria necessário esclarecer o significado ou função do Seol.

 

Tal como suas contrapartes do Oriente Próximo, o mundo inferior na antiga tradição israelita é tipicamente retratado como um lugar para o qual se desce. É escuro, empoeirado, e um lugar de silêncio. Pode ser conectado com as águas do caos sobre o qual tipicamente se viaja até o mundo subterrâneo. O Seol é descrito como possuindo barras, portões, cordas e laços, com os quais se sugere que é completamente improvável escapar do mundo inferior... E se aproxima, pelo que sabemos, do que dizia a tradição mesopotâmica onde o mundo subterrâneo é descrito como ‘a terra da qual não há retorno’... O mundo inferior também é sobreposto com vários outros termos do AT para ‘sepultura’, sugerindo que eles consideravam a sepultura como estando incorporada à ampla morada do Seol. Só se poderia entrar no Seol a partir de uma sepultura, indicando que ela poderia ter a função de entrada para o mundo subterrâneo.

 

“No antigo Israel aqueles que moram no mundo subterrâneo são chamados de mēṯîm (‘os mortos’) e rĕpā’îm (‘enfraquecidos’; conf. esp. Sal. 88:11 [MT 12]); Isa. 26:14). O termo ‘rephaim’ (ou rp’m) é usado dois textos fenícios do sexto século para denotar simplesmente os mortos (KAI 13.7.7-8; 14.8-9). Os espíritos dos mortos são designados repetidamente como ‘os que sabem’ (yiddĕ‘ōnîm) e ‘os que nunca retornam’ (’ŏḇôt) em textos bíblicos mais tardios, quando a prática da necromancia é também abordada pela primeira vez como uma adaptação vinda da Mesopotâmia. Em Isa. 19:3 eles são chamados de ’iṭṭîm (‘espíritos’ ou ‘fantasmas’), provavelmente o equivalente hebraico do acadiano eṭemmu. É frequentemente alegado que os mortos poderiam ser chamados de ‘deuses’ (‘ĕlōîhm) baseado na tradução questionável do texto deuteronomista de 1 Sam. 28:13-14 e na dúbia suposição que os espíritos e deuses foram igualados na Mesopotâmia e na tradição israelita. Embora alguns textos acadianos pareçam representar duas classes de seres do outro mundo, a familiar ou deuses pessoais (’ilu) e os espíritos de parentes falecidos (eṭemmu), sua exata conexão permanece inconclusiva”.

 

Sobre a relação da sepultura com o Seol veja o Salmo 141:7, na ARIB.

 

b) Verbete “Alma”, p. 1245:

 

“Embora o N[ovo] T[estamento] contenha pouca evidência do dualismo corpo-alma que é apresentado na filosofia helenística, algumas passagens indicam que a alma sobrevive à morte (Lucas 9:25; 12:4; 21:19)”.

 

c) Verbete “Inferno”, pp. 572, 573:

 

“Originalmente, todos os mortos tinham a mesma existência banal no Seol. Só mais tarde o Seol foi incluído na dimensão escatológica, um futuro com ressurreição, o julgamento final, as doutrinas... Durante o tempo de Jesus a Geena significava uma irrevogável e eterna condenação para os completamente maus... O Seol e o antigo conceito de Hades denotam escuridão, as moradas sombrias dos mortos. O aumento da crença judaica na ressurreição resultou que Deus traria os mortos do Hades de volta à vida - um retorno da vida corpórea, uma vida para os espíritos ressuscitados no céu. Deus traz a alma do Hades e o corpo do túmulo para serem rejuntados na ressurreição. Na ressurreição, a morte cessa, e o Hades será fechado. Tanto a morte como o Hades desaparecem no lago de fogo (Apocalipse 20:14)”.

 

d) Verbete “Dualismo”, p. 358:

 

“Embora a antropologia bíblica assevere a unidade das pessoas (Gen. 2:7; 1 Cor. 15:35-50), algumas literaturas bíblicas podem refletir a influência do dualismo antropológico (Deut. 6:5; Sab. 3:1-4; Mc. 5:3; 2 Cor. 5:1-10). Paulo, no entanto, afirma que uma alma desencarnada é semelhante à nudez (2 Cor. 5:3). Outros exemplos da influência do dualismo na ideologia e antropologia bíblicas pode ser observada em algumas bipolaridades do antigo pensamento cristão (luz vs. escuridão, vida vs. morte, amor vs. ódio e verdade vs. mentira)”.

 

e) Verbete “Corpo”, p. 194:

 

“O pensamento semítico não fez nenhuma clara distinção entre o aspecto físico e o espiritual ou psicológico da existência humana, por isso o AT não contém palavras com a conotação de ‘corpo’ conforme o entendimento moderno do termo. O hebraico bāśār, ‘carne’, que designa basicamente toda a aparência externa de um ser humano (ex.: Lev. 13:3; Sal. 109:24), como distinguido de suas partes específicas (pele, ossos, sangue; conf. Lam. 3:4; Ez. 37:6, 8), se refere geralmente à criatura viva por inteiro e pode ser usado de maneira intercambiável com nepeš, ‘alma’... O NT distingue mais claramente o ‘corpo’ (gr. sṓma) da ‘carne’ (sárx). Embora ambos possam se referir ao aspecto externo, soma carrega uma conotação mais holística (conf. Mat. 5:29).... [No NT] maior distinção é feita entre a natureza física dos humanos e a espiritual, ou alma (Mat. 10:28; 1 Tes. 5:23; conf. 2 Cor. 12:2-3)”.

 

f) Verbete “Morte”, p. 330:

 

“No AT a morte física (heb. māweƫ mûṯ) resultava no retorno do corpo para a terra (Gen. 3:19), o espírito para Deus (ec. 12:7) e a partida da alma ou essência da vida (Gen. 35:18; 1 Reis 17:21; Jon. 4:3)... Acreditava-se que os mortos vivem no Seol ou no Poço, um lugar sombrio de escuridão e silêncio (Jó 10:21,22; Sal. 94:17; Prov. 2:18; Jon. 2:6[7]). O poder de Deus se estendia ao Seol (Sal. 139:7,8; Amós 9:2), mas ele não se fazia presente lá (Sal. 88:5[6]; Isa. 38:18). Aqueles que moravam no Seol não podiam louvar a Deus (Sal. 30:9[10]; 115:17) ou se lembrar dele (Sal. 6:5[6]; 88:12[13]). Apenas Enoque (Gen. 5:24) e Elias (2 Reis 4:35) escaparam do destino usual... [No NT] fala-se da morte física em termos positivos, como sendo um ganho (Fil. 1:21) e como partir para estar com Cristo (v. 23)... sobre aquele que uma vez conheceu Cristo é dito que ele já recebeu a vida eterna, mesmo estando na presente vida mortal (João 3:3-8)”.

 

Eerdmans Dictionary of the Bible [Dicionário da Bíblia Eerdmans], David Noel Freedman, Astrid B. Beck & Allen C. Myers (Eds.), 2000, colchetes acrescentados.

 

42) Christ and the Future in New Testament History, de E. Earle Ellis (2000)

 

 

“Em meados do século, duas hipóteses, que têm efeitos contínuos até hoje, tiveram uma importância considerável para a reconstrução da escatologia de Lucas. A tese mais discutida foi que Lucas introduziu uma teologia da história da salvação para explicar o atraso da parousia (Hans Conzelmann). Uma segunda tese foi que a escatologia lucana envolveu uma mudança de categoria horizontal (apocalíptica - esta Era x a Era por vir) para categoria vertical (platônica - terra x céu, tempo x eternidade). Por esta mudança, a consumação da salvação é removida do futuro temporal para uma esfera atemporal (Helmut Flender). Anteriormente, Johannes Weis havia argumentado de forma semelhante para a transformação precoce na escatologia da igreja a partir de uma expectativa de uma parousia iminente e nova criação para uma visão em que os justos foram transferidos na morte para o reino messiânico no paraíso ou no céu. Como exemplos do efeito desta mudança, ele apontou para Atos 14:22 (‘através de muitas tribulações, devemos entrar no reino de Deus’) e às tradições lucanas, especialmente em Lc. 16:19-31 e 23:43, quais sejam, sobre o homem rico e Lázaro e a promessa ao ladrão na cruz, cuja origem ele colocou na congregação de Jerusalém (pós-70 A.D.)”. – p. 108.

 

Outro exemplo é a visão de Estevão pouco antes de ser assassinado, que tem sido interpretada como uma mensagem de boas vindas de Jesus para aqueles que são martirizados (Atos 7:56). Por isso, o livro de Apocalipse diz que as almas dos que foram mortos por defenderem o nome de Jesus já estão no céu (Revelação 20:4). Sobre esse entendimento, Edward Ellis comenta:

 

“Indo além de Weiss, C. K. Barrett considerou essa interpretação de Atos 7:56 como indicativo de que Lucas reescreveu a escatologia primitiva: ‘Lucas entendeu que para o cristão individual a morte era verdadeiramente um eschaton (mesmo não sendo o eschaton...), marcado pelo que se pode considerar uma parousia particular e pessoal do filho do homem. O que aconteceria no sentido universal no último dia, acontecia em termos individuais [na morte]’.” – p. 108.

 

Em seguida, cita outro autor que propõe uma visão semelhante:

 

“Helmut Flender, em St. Luke: Theologian of Redemptive History, numa avaliação da teologia de Lucas sobre esta questão, chegou essencialmente à mesma conclusão por outro caminho. De acordo com Flender, Lucas busca relacionar a história em andamento do mundo ao ‘novo mundo de Deus trazido por Cristo’ (164). Por fazer da exaltação de Jesus – em distinção de sua ressurreição – o evento decisivo, Lucas situa a consumação da salvação no céu (91-106). Para Paulo, a mudança das eras acontece na ressurreição de Jesus, ou seja, no tempo. Para Lucas, ‘a transição... é deste mundo para o mundo celestial que existe simultaneamente’ (19). Embora a escatologia seja feita (de maneira escondida) presente para a igreja e no Espírito venha ‘descendo do céu’ e na palavra da proclamação (140-152), Flender prossegue dizendo que sua origem celestial determina seu aspecto: ‘A presença divina não pode ser projetada indefinidamente no tempo’ (151). Visto que o objetivo de Jesus é alcançar sua exaltação, ela e sua parousia são essencialmente idênticas (94). Os dizeres apocalípticos de Lucas 17 são, portanto, considerados como uma aplicação individual e de transferência por Lucas: ‘Naquela noite um será tomado, e outro será deixado’ (Lc. 17:34; conf. 12:20), sendo similares à promessa de Jesus ao ladrão na cruz: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’ (Lc. 23:43). Ambas se referem ao dia da morte individual no qual ele tanto perde sua vida quanto ‘a ganha’ (15, 159)”. – p. 109.

 

Christ and the Future in New Testament History [Cristo e o Futuro na História do Novo Testamento], Edward Earle Ellis, Brill Academic Publishers Inc., Boston , MA, EUA, 2000.

 

Comentário:

 

Edward Earle Ellis foi um teólogo batista americano que abandonou uma formação na área jurídica para dedicar-se à teologia. Em seu novo campo de estudo, obteve o doutorado (PhD) na Universidade de Edinburgh. Foi professor de alguns seminários teológicos dos Estados Unidos e ficou conhecido por combater o tradicional ensino cristão sobre a alma e o inferno. Ele fazia parte da “escola” de Oscar Cullmann, um dos principais responsáveis no século 20 em disseminar ideias aniquilacionistas e negar o ensinamento do Cristianismo primitivo sobre a alma e o destino do homem. Tanto Ellis quanto Cullmann alegavam estreita aderência à Bíblia e achavam que a antiga igreja foi corrompida pelo platonismo. Mas eles foram ainda mais longe que aqueles teólogos “progressistas” contemporâneos que são contra o uso da filosofia grega no Cristianismo, pois advogaram abertamente o aniquilacionismo, porém numa linguagem mais refinada, filosófica e cheia de circunlóquios.

 

Sendo assim, as informações acima citadas, na verdade, não fazem parte da opinião de Ellis. Ele as citou apenas com o intuito de combatê-las. De qualquer modo, citá-las aqui é útil, pois demonstram que a realidade bíblica não é o que ele gostaria que fosse. Um exame adicional de seus argumentos de refutação à ortodoxia reforça mais ainda tal conclusão, conforme ficará claro a seguir. Para começar, Ellis lança mão do velho discurso monista para cativar o interesse do leitor:

 

“O homem é totalmente uma unidade que pode ser vista de diferentes perspectivas, mas não é, por exemplo, um dualismo alma/corpo. Não há nada no homem inerentemente imortal ou divino e, consequentemente, o homem inteiro é igualmente sujeito ao poder da morte”. – p. 110.

 

E, como sempre acontece, ele tenta comprovar que essa é a visão bíblica correta. Não discutirei aqui os argumentos que ele apresenta porque é algo totalmente desnecessário, visto que uma exegese séria e completa destrói facilmente o que ele apresenta. Mas se quiser se inteirar das explicações dele sobre esse tema, basta acessar o link acima do livro dele (está em inglês). No entanto, sugiro que termine primeiro de ler este meu comentário. Depois disso talvez você chegue à mesma conclusão a que eu cheguei, de que é uma grande perda de tempo estudar o que Ellis e outros teólogos aniquilacionistas escrevem sobre esse assunto.

 

Note, por exemplo, o que ele disse na pequena amostra abaixo:

 

“É verdade que alguns grupos do Judaísmo do primeiro século tinham uma visão dualística do homem, e a parábola de Lucas 16:19-31 [do rico e Lázaro] parece apoiar esse tipo de pressuposto. Além disso a igreja patrística posterior, ou seja, aquela parte influenciada pelo filosofia grega e o gnosticismo, similarmente complementou sua afirmação dos atos de Deus na história com a crença da partida da alma na morte para uma morada eterna e atemporal. De fato, este ponto de vista continua sendo prevalecente na teologia popular e tradicional de hoje. Mas tal síntese depende de um entendimento sobre o homem e a morte muito diferente daquele encontrado em Lucas”. – p. 111, colchetes acrescentados.

 

Em adição a isso, Ellis também afirmou que na igreja primitiva havia três visões conflitantes sobre a natureza e o destino do homem: (1) todos serão salvos, (2) os maus sofrerão eternamente no fogo da Geena e (3) os maus vão ser erradicados da existência ou aniquilados. Portanto, a imortalidade recebida pelos justos é completamente condicional, e não inerente conforme ensinavam os platonistas. E a melhor parte vem agora... Ele disse que os principais representantes do terceiro entendimento foram Inácio de Antioquia, Justino de Roma, Arnóbio de Sica e Atanásio. – pp. 179-196; as mesmas explicações podem ser vistas também no artigo dele intitulado “New Testament teaching on hell”, publicado em Rethinking Hell: Readings in Evangelical Conditionalism, pp. 116-137.

 

Caso não tenha percebido, veja quantos erros e incoerências já podemos de imediato identificar nessas explicações de Ellis:

 

1) Ele admite que o contexto religioso do primeiro século não se adequa a tal visão monista aniquilacionista. Não só as pessoas acreditavam que o homem possui uma alma que sobrevive à morte, como não houve nenhuma tentativa por parte dos apóstolos em combater tal crença (detalhe que é convenientemente sempre “esquecido” pelos aniquilacionistas).

 

2) O próprio Novo Testamento, em especial o evangelho de Lucas, contém afirmações que corroboram o ponto anterior, a exemplo da parábola do rico e Lázaro, e da promessa que Jesus fez ao malfeitor na cruz.

 

3) Mesmo reconhecendo o fato acima, Ellis diz que esse conceito de separação da alma “é muito diferente daquele encontrado em Lucas”, mesmo o evangelista tendo dito que o Senhor ensinou que o rico sofria nas chamas do Hades! Você já viu alguma sepultura pegando fogo com alguém sofrendo nela e reclamando de tal sofrimento?

 

4) E, como se não bastasse, além de “uma parte” da igreja primitiva ter sido influenciada pelo platonismo, ela também recebeu semelhante influência do gnosticismo! (No ponto seguinte você entenderá porque ele poupou “uma parte” da igreja). Será que esse homem não leu os escritos patrísticos e não viu que foi justamente contra os gnósticos o primeiro grande combate da igreja dos dois primeiros séculos? Como é que alguém poderia ensinar as próprias coisas que combate?

 

5) Pelo que parece, Ellis realmente não leu as obras patrísticas e escreveu apenas do que ouviu falar, pois nenhum dos homens que ele citou era aniquilacionista e todos eles, sem exceção, acreditavam que o homem possui uma alma que permanece viva e consciente depois da morte. O que eles ensinavam de diferente (e nem todos) é que essa alma poderia ser extinta para sempre depois do julgamento final de Deus. Para confirmar isso leia o seguinte estudo já recomendado: O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

 

6) Até mesmo os antigos cristãos “imortalistas” acreditavam que a imortalidade, no fim das contas, é condicional. Afinal, qualquer cristão que saiba ler já viu na Bíblia que só Deus é verdadeiramente imortal. Os demais que não morrem continuam a existir por mera concessão divina. Ellis disse que Orígenes foi o principal representante dos imortalistas. Mas veja o que Orígenes disse: “[Deus] é capaz de proporcionar uma vida imortal para a alma”. (Contra Celso, Livro V, cap. 24). Será que Orígenes estava então se contradizendo? Claro que não. O que acontece aqui é que Ellis misturou tudo e mais um pouco, e não disse nada que faça sentido para esclarecer essa questão. Falou de uma coisa e apresentou outra.

 

7) E ainda há outro problema que não vou analisar aqui. Ellis usa textos bíblicos normalmente utilizados contra o aniquilacionismo para apoiar o que ele acredita! (ou melhor dizendo, acreditava, pois ele morreu e hoje já deve saber como as coisas realmente são).

 

8) Por fim, mesmo diante de explicações tão questionáveis, ele distorceu a realidade do que acontece nesse assunto e apresentou os que creem no ensino ortodoxo sobre a alma como aderentes de uma teologia “tradicional e popular”, que estaria em contraste com a suposta interpretação correta dos teólogos aniquilacionistas. A verdade, porém, é que o entendimento tradicional sobre a morte tem uma base muito segura que remonta à era apostólica. A fragilidade está no aniquilacionismo.

 

O trecho abaixo resume bem a razão de Edward Earle Ellis ter trilhado o incoerente caminho do aniquilacionismo:

 

“O contraste platônico do tempo e da eternidade está igualmente ausente da escatologia de Lucas, como está do Novo Testamento em geral. O contraste de Lucas entre o céu e a terra não é motivo de especulação cosmológica. É um contraste do ‘visto’ e do ‘não visto’ que, como sua antropologia, tem antecedentes em Paulo e no Antigo Testamento. Importante para esta questão é a tese do meu professor Oscar Cullmann em Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Não é um tema isolado, mas é um vínculo significativo na teologia total de Cullmann. Como ele reconhece corretamente, uma teologia que inclui uma partida da alma para um reino atemporal ou a antecipação da realização da parousia na morte contradiz o conceito do Novo Testamento de uma redenção temporal de todo o homem”. – p. 112.

 

O exemplo acima demonstra que um doutorado em teologia e uma vida dedicada a ela não é garantia de que um erudito ensinará sempre o que é correto. Um erro religioso muito enraizado tem mais força que evidências bem apresentadas, por mais sólidas que sejam. Ainda que essa falha não comprometa a conduta que se espera de quem quer seguir a Cristo, mesmo assim ela não deixa de ser algo indesejável. É no mínimo decepcionante ver homens da envergadura de Ellis e Cullmann* não terem enxergado isso. E o pior, se tornarem referências para aniquilacionistas que procuram apoio acadêmico para sua crença não bíblica. Isso é a prova que nenhum cristão deve achar que é incapaz de trilhar o seu próprio caminho no conhecimento das coisas de Deus ou então se intimidar com o título acadêmico de outrem. Às vezes, uma boa capacidade de leitura aliada a muito esforço vale mais do que um diploma.

 

De qualquer maneira, na história da igreja sempre houve desafios e seus membros se envolveram em várias querelas doutrinais, não raro acaloradas. Agora não é diferente. Cabe aos cristãos que não perderam de vista a antiga sabedoria cristã, hoje tão menosprezada, tentar mostrar aos que foram enlaçados pelo materialismo “cristão” que o homem não é apenas um animal racional. Uma centelha da realidade divina e espiritual está dentro dele.

 

* Uma ressalva, porém, se faz necessária no caso de Cullmann. Em alguns pontos do seu trabalho, ele parece contradizer o conceito de aniquilacionismo. Por exemplo, ele admite que os hebreus achavam que experimentariam depois da morte uma existência sombria no Seol, logo não seriam completamente aniquilados. Além disso, afirmou que a falta de informações no Novo Testamento sobre o estado intermediário não dá o direito de supor que ele realmente não existe. Talvez a razão desse discurso contraditório seja porque ele não queria ser identificado como aniquilacionista, mas apenas alguém que apresentou uma ideia alternativa sobre a morte, para fazer frente à suposta adaptação do conceito grego no Cristianismo. Portanto, existe uma zona nebulosa que impede dizer com segurança que a crença de Cullmann era realmente aniquilacionista. Para dissipar essa dúvida seria preciso fazer uma investigação minuciosa de tudo o que ele escreveu. Já Ellis foi mais claro ao se identificar como adepto do aniquilacionismo.

 

43) Tyndale Bible Dictionary, de Philip W. Comfort e Walter A. Elwell (2001)

 

 

“[Abaddon:] Palavra hebraica que significa ‘lugar de destruição’. A palavra ocorre seis vezes no AT, geralmente se referindo ao lugar dos mortos (Jó 26: 6; 28:22; 31:12; Sal. 88:11; Prov. 15:11) 27:20). Ele serve como sinônimo de Seol e é traduzido de maneira variada como ‘inferno’, ‘morte’, ‘sepultura’ ou ‘destruição’. A mesma palavra hebraica ocorre uma vez no NT em seu equivalente grego, Apollyon (Rev. 9:11). Aqui, a ideia de destruição é personificada como o ‘anjo do abismo’, então a palavra é muitas vezes traduzida como ‘destruidor’. Abaddon (ou Apollyon) era o anjo que reinava sobre o reino dos mortos, que apareceu após a quinta trombeta na visão de João (Rev. 9:1)”. – Verbete “Abadon”, p. 11.

 

“[‘Seio de Abraão’:] Figura de linguagem provavelmente derivada do costume romano de se reclinar ao lado esquerdo nas refeições, com o convidado de honra no seio do seu anfitrião (ver Tg. 13:23-25). Foi usado por Jesus na história de Lázaro como uma descrição do paraíso (Luc. 16:22-23). Em escritos rabínicos, bem como em 4 Macabeus 13:17, os povos justos foram considerados bem-vindos na morte por Abraão, Isaque e Jacó. Jesus, provavelmente ciente disso, também aludiu ao ‘banquete messiânico’, uma imagem que ele usou diversas vezes. Assim, no mundo vindouro, os pobres piedosos como Lázaro não só seriam bem recebidos por Abraão, mas ocupariam o lugar de honra ao lado dele no banquete”. – Verbete “Abraão”, p. 16.

 

Comentário:

 

Ser um anjo retratado como o governante do reino dos mortos (Seol) demonstra que tal lugar não é uma mera sepultura com um cadáver dentro dela. O que está de acordo com a definição dos eruditos bíblicos sobre esse local e seu significado preponderante na Bíblia.

 

Mesmo que as histórias contadas por Jesus em suas parábolas sejam fictícias, ele nunca usou elementos que não existem de fato. Com a ilustração sobre o rico e Lázaro não poderia ser diferente. Por isso aprendemos do relato que existe um lugar paradísico chamado “seio de Abraão” para onde determinadas pessoas podem ser levadas pelos anjos, o que torna pertinente o fato de que o evangelista Lucas também contou que Jesus prometeu o paraíso ao criminoso arrependido na cruz, dizendo que ele estaria lá no mesmo dia de sua morte. De modo que tudo se encaixa perfeitamente no contexto geral do Novo Testamento. E ainda há o detalhe que essa morada abençoada de Abraão era um entendimento no Judaísmo do primeiro século. Se isso fosse uma falsa crença religiosa dificilmente Jesus a usaria para ensinar uma lição aos seus ouvintes.

 

Tyndale Bible Dictionary [Dicionário Bíblico Tyndale], Philip W. Comfort e Walter A. Elwell, 2001.

 

44) Care for the Soul: Exploring the Intersection of Psychology & Theology, de Mark R. McMinn e Timothy R. Phillips, orgs. (2001)

 

 

“Acreditava Paulo que morreria e deixaria para trás o seu cadáver, ou ele acreditava que levaria o seu sōma com ele depois que partisse?... Em 2 Coríntios 5:8, Paulo diz que ‘preferia ficar ausente do corpo (sōma) e fazer seu lar junto com o Senhor’ (NASB). Novamente, em Filipenses 1:23, ele diz que deseja ‘partir e estar com Cristo’ (NASB). O contexto torna claro que ele estava se referindo a deixar a carne (vv. 22-24). Disto eu concluo que Paulo também acreditava na existência de cadáveres, o que implica dizer que ele era um dualista corpo-alma. Então ele não acreditava na existência da pessoa total depois da morte antes da ressurreição. Ele era um dualista porque ele era um realista sobre o destino do sōma carnal. Paulo fazia distinção entre dois corpos diferentes. O sōma carnal de 2 Coríntios 5:8 não é idêntico ao sōma espiritual de 1 Coríntios 15:42-44.

 

“Quando eu fiz uma palestra baseada nesse capítulo na conferência de Wheaton, um erudito bíblico do Moody Bible Institute se levantou e me desafiou usando o argumento com o qual os eruditos bíblicos costumam me desafiar. Ele disse que eu estava ignorando a vasta literatura sobre o significado holístico da palavra hebraica bāsār e da grega sōma. Ambas as palavras significam ‘corpo’, mas há bastante literatura acadêmica que discute sobre a consequência de toda pessoa ser um bāsār. Por exemplo, o referido erudito bíblico disse que há qualidade física nos espíritos dos mortos que estão no Sheol do Antigo Testamento. E no Novo Testamento há uma qualidade física na alma de Lázaro que se recosta no seio de Abraão (Luc. 16:19-31), e há uma qualidade física no rico que arde nas chamas e deseja uma gota de água para a sua língua. Ele tem uma língua, que é uma característica física. Portanto, de acordo com meu desafiante o meu argumento não tem base escritural porque nós humanos sempre somos pessoas inteiras, até depois da morte, porque somos seres físicos mesmo assim.

 

“Eu não nego que as metáforas físicas são usadas para descrever o estado intermediário. Para falar a verdade, eu tenho dificuldade de imaginar a vida sem o meu corpo, e por mais que eu pense a respeito como isso seria, menos eu entendo. Eu me conforto com o pensamento que se eu estiver nu ou sem esta tenda terrena (2 Cor. 5:1-3), pelo menos eu estarei com Cristo.

 

“Considerando a história do rico e Lázaro (Luc. 16:19-21). Ambos os homens morreram e foram imediatamente para o céu e o inferno, mesmo enquanto os cinco irmãos do rico ainda estavam vivos. O que significa que a ressurreição geral não tinha acontecido ainda. Se os cinco irmãos cavassem a sepultura do homem rico, eles encontrariam lá o corpo dele (Luc. 16:22). Portanto, existe um dualismo corpo-alma porque o corpo na sepultura é diferente da alma queimando nas chamas do inferno. De modo que dizer que há uma ‘qualidade física depois da morte’ não prova nada.

 

“Os pais da igreja são de ajuda neste assunto. No seu livro sobre a alma Tertuliano cita a história do rico e Lázaro. Ele observa que o rico no fogo tem uma língua que pode ser vista por Lázaro, que está recostado ao seio de Abraão. Disto Tertuliano conclui que há uma qualidade física e visível da alma, ou seja, que ‘a alma possui um corpo’. Ele diz que há dois corpos: o corpo carnal é idêntico ao corpo da alma durante esta vida, mas a morte os separa. Alguma coisa que é translúcida e que tem a forma de um corpo humano deixa o corpo físico, pois a alma tem um corpo que é feito de ar e luz. É justamente como visto naquelas imagens em filmes de Hollywood que mostram como ficam as almas que partiram depois da morte: a alma tem uma espécie de luminosidade, visível, um corpo etéreo para si mesma. Mas Tertuliano afirma claramente que é um dualista corpo-alma. O corpo deixado para trás comprova isso. Durante o estado intermediário há dois corpos (‘o corpo material’ e ‘o corpo da alma’), o que implica em dualismo. Eruditos bíblicos têm distorcido o significado da palavra dualismo como se o termo sempre significasse que uma parte é desprezada. O termo significa simplesmente ‘dicotomia’ ou ‘dois’, de acordo com o American Heritage Dictionary.

 

“Afirmaria algum erudito bíblico que os escritores da Bíblia não esperavam que os humanos deixassem um cadáver para trás quando partissem dessa terra? Por que há tanta conversa sobre corpos e ossos na Bíblia? Eu considero que tanto os escritores do Novo quanto do Velho Testamento sabiam que as pessoas deixam um corpo morto para trás. Tanto Pedro quanto Paulo falam de partir depois desta morada terrestre, ou seja, o corpo (2 Ped. 1:13-15; 2 Cor. 5:1-3). O que os faz dualistas, porque há duas partes: a morada terrestre e o ‘eu’ que deixa essa morada.

 

“Não é um procedimento erudito estudiosos da Bíblia redefinirem a palavra dualismo como algo antibíblico e em seguida argumentar que a Bíblia não é dualista. É um raciocínio circular. Se você considerar os antigos teólogos no argumento sobre o dualismo corpo-alma então você terá de aceitar a mesma definição de dualismo que eles usavam, ou seja, o conceito de duas partes. Em uns poucos escritos de Agostinho ele segue Platão e Plotino na ideia de desprezo do corpo. Mas se nos concentrarmos no significado central da frase dualismo corpo-alma em Agostinho, descobriremos que ele se refere ao momento da morte, depois da qual o corpo é realmente inferior à alma porque ele se desintegra e apodrece. Se os teólogos do século vinte tivessem sido um pouco mais cuidadosos com sua definição da palavra dualismo então não haveria nenhum debate sobre o dualismo corpo-alma, e a palavra alma não teria sido ‘tirada’ da Bíblia (Os leitores que tenham mais afinidade com teologia filosófica talvez queiram ver uma discussão mais extensa sobre o monismo versus dualismo corpo-alma; para isso eles poderão considerar o meu artigo ‘O Conceito de Si Mesmo e a Teologia Bíblica’.).

 

“A maioria dos teólogos jamais ponderou se sua doutrina cristã da pessoa inteira é similar ou diferente do conceito da psicoterapia secular da pessoa inteira. Nem eles jamais se perguntaram como a ideia deles de que o corpo é a pessoa inteira difere da ideia promovida na campanha publicitária dos tênis da Nike de que o corpo é a pessoa inteira. Esta falha dos teólogos de não ponderar a mais óbvia das questões me faz suspeitar que eles devem ter assimilado uma ideia do século vinte e feito dela uma leitura bíblica (eisegesis), sem ponderar a respeito. Aqui está o que eu gostaria de saber: será que sorrateiramente a empresa Nike pagou muito dinheiro aos teólogos bíblicos com o intuito deles promoverem um conceito de que o ser está limitado à vida nesta terra como prelúdio da campanha publicitária da Nike? Eu faço essa pergunta despropositada apenas para provocar reflexão.

 

“Mas ainda há outro importante aspecto que esses teólogos bíblicos não indagaram. Será que esse alegado conceito hebraico da pessoa inteira não soaria para os leigos como algo muito parecido com a visão secular da natureza humana a ponto deles o confundirem com um aval ao movimento secular* sobre a saúde mental?”. . . .

 

“… é notável que os psicólogos e psiquiatras seculares com nível zero de sofisticação teológica tenham triunfado sobre a teologia cristã. Hoje a teologia é considerada irrelevante para o povo americano, mas a psicologia secular é um assunto necessário em todos as universidades; há psicólogos conselheiros na maioria das escolas secundárias americanas, e o ‘psicologuês’ enche os meios de comunicação de massa”.

 

* A tendência atual, devido à disseminação do materialismo, é considerar que a mente humana é resultado apenas dos impulsos eletroquímicos do cérebro, não havendo espaço para nada de natureza espiritual. A realidade seria fruto apenas do que é físico. Visto que este é um dos pilares do ateísmo científico, em especial nas ciências naturais, não é algo confortável constatar que o discurso monista valoriza exatamente tal realidade material em detrimento de aspectos espirituais intrínsecos ao corpo humano. – O artigo a seguir pode ser útil nesta consideração: O debate - possível - entre materialismo reducionista e fenomenologia, Universidade da Beira Interior, Portugal, de Urbano Mestre Sidoncha.

 

Care for the Soul: Exploring the Intersection of Psychology & Theology [Cuidado para a Alma: Explorando a Intersecção da Psicologia Com a Teologia], Mark R. McMinn e Timothy R. Phillips (Eds.), 2001, pp. 111-113, 115.

 

Comentário:

 

Jeffrey H. Boyd é médico e presidente do departamento de ética e psiquiatria do Waterbury Hospital, em Connecticut, EUA. Como se nota, ele fez a “lição de casa” e escreveu conforme o conselho de James Beck, citado no comentário à obra nº 40 (Baker Encyclopedia of Psychology and Counseling), pois ele teve extremo cuidado ao apresentar informações bíblicas, patrísticas e teológicas em conexão com a área da psiquiatria, que é sua especialidade. Ao contrário do autor da obra nº 42, por exemplo, ele demonstrou que os pais da igreja acreditavam que a alma do cristão sai do corpo por ocasião da morte e vai para a presença de Cristo, em conformidade com a expectativa que os apóstolos Pedro e Paulo tinham.

 

É realmente gratificante ler um texto cujo autor sabe realmente do que está falando, e não fica apenas repetindo o discurso “politicamente correto” do monismo com o alegado intuito de se opor a concepções gregas no Cristianismo. E Boyd ainda nos faz o favor de expor a realidade nua e crua sobre a verdadeira razão desse ponto de vista materialista ter se infiltrado na teologia contemporânea. Caso leia na língua inglesa, será proveitoso considerar a análise inteira de Boyd, pois ela é ainda melhor do que a amostra acima deixa transparecer. Ler o artigo que ele indicou também é recomendável. Basta clicar nos links que você será remetido aos respectivos materiais.

 

45) Encyclopædia Britannica (2004)

 

 

“Não obstante a horrível evidência da decomposição física causada pela morte, tem persistido a crença de que algo da pessoa individual sobrevive a tal experiência. Em contraste, a ideia da extinção pessoal devido à morte é um conceito sofisticado que era desconhecido até o 6º século antes de Cristo, quando apareceu no pensamento metafísico do Budismo indiano; ele não encontrou expressão no antigo Mediterrâneo antes de sua exposição pelo filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.). . . . A mais primitiva [das interpretações sobre a natureza humana, a integralista, concebia o homem] como um organismo psicofísico, do qual tanto os constituintes materiais como os não-materiais são essenciais. . . . A partir de tal avaliação, seguiu-se que a morte é a quebra fatal da existência pessoal. Embora se acreditasse que algum elemento constituinte da pessoa viva sobrevivesse. . . . As conseqüências dessa estimativa da natureza humana podem ser vistas nas escatologias de muitas religiões. Os antigos mesopotâmicos, os hebreus e os gregos, por exemplo, pensavam que, após a morte, apenas um espectro sombrio descia ao reino dos mortos, onde existia miseravelmente na poeira e na escuridão. Tal concepção do homem, por sua vez, significou que, onde a possibilidade de uma vida efetiva após a morte foi prevista, como na religião egípcia antiga, no judaísmo, no zoroastrismo, no cristianismo e no Islã, a ideia de uma reconstituição ou ressurreição do corpo também foi envolvida, pois se considerou algo essencial para restaurar o complexo psicofísico da personalidade [Por isso os egípcios preservavam corpos na mumificação]. . . . A visão alternativa da natureza humana pode ser denominada dualista. Ela concebe a pessoa individual como compreendendo um eu essencial interno ou alma, que é não-material, e um corpo físico. . . . a alma é considerada como sendo essencialmente imortal e como existente antes da formação do corpo. Sua encarnação no corpo é interpretada como uma penalidade incorrida por algum pecado primordial ou erro”.

 

Encyclopædia Britannica, 2003-2005, Vol. 26, p. 805, verbete “Rituais fúnebres” (Death rite), colchetes acrescentados.

 

46) Grande Enciclopédia Barsa (2004)

 

 

“A ideia de céu como destino final das almas não é bíblica. O Novo Testamento é discreto em indicá-lo como habitação das almas dos eleitos, preferindo falar de seio de Abraão ou paraíso. Na tradição cristã, no entanto, o céu aparece como a mansão dos eleitos”. – Verbete “Céu”.

 

“Mesmo em Israel, somente depois de lenta evolução da consciência moral foi que se impôs a ideia de punição depois da morte, paralelamente à noção dos escolhidos por Deus para a partilha de sua vida e de sua felicidade. Os excluídos seriam então condenados a sofrer num lugar de horrores, que se chamava geena, alusão ao vale de Ge Ben-Hinnom, lugar onde tinham sido cremadas crianças sacrificadas a Moloch e onde se queimava o lixo de Jerusalém. No Novo Testamento, alude-se freqüentes vezes a um lugar em que serão punidos os condenados: ‘geena’ (Mc 9:44; Mt 5:22,29 e 18:9); ‘fornalha’ (Mt 13:42,50), ‘lago de fogo, que arde com enxofre’ (Ap 19:20); ‘fogo eterno’ (Mt 18:8; 25:41; Jd 7) etc.” – Verbete “Inferno”.

 

Grande Enciclopédia Barsa, Editorial Planeta, edição digital, 2002.

 

Comentário:

 

Conforme apresentado no apêndice A, o platonismo ensinava que a esfera celestial é o destino de todas as almas, não importando os vícios ou pecados demonstrados aqui na Terra, pois os mesmos seriam apagados no processo de reencarnações sucessivas. Já para os judeus e cristãos, só os justos herdariam o paraíso ou o céu, enquanto que os maus seriam punidos depois da morte num lugar chamado Geena (ou mesmo no Hades), concepção que com o tempo passou a ser chamada de “inferno”, devido à tradução latina. Como se nota, a Enciclopédia Barsa está dizendo que tais conceitos são bíblicos, ainda que tenham se desenvolvido gradualmente em Israel.

 

47) The Modern Theologians: An Introduction to Christian Theology Since 1918, de David F. Ford e Rachel Muers, orgs. (2005)

 

 

“Não só o conceito budista do não-eu esclarece os conceitos bíblicos da individualidade, como também esclarece a doutrina da ressurreição. Pois, se as pessoas são constituídas pelo não-eu, a questão permanece: o que continua depois da morte? Em contraste com a doutrina budista da reencarnação, a resposta bíblica é a doutrina da ressurreição... Não pode haver sobrevivência após a morte a menos que, e somente se, Deus recriar um novo ser. Isto, segundo De Silva, é a verdade do ensino bíblico da ressurreição interpretado através das lentes da doutrina do não-eu. A ressurreição é um ato de Deus pelo qual Ele cria o que São Paulo chamou de ‘corpo espiritual’. Para explicar o significado de ‘corpo espiritual’, De Silva usou uma ‘teoria da réplica’, segundo a qual, no momento da morte, Deus cria uma ‘réplica psicofísica exata da pessoa falecida’. É uma nova criação. Mas visto que é uma recriação, o corpo espiritual não é idêntico ao eu que existia em um corpo terrestre. É uma réplica psicofísica exata. A doutrina da ressurreição como uma ‘replicação’ é, conforme ele acreditava, uma maneira de reconceber significativamente ‘o além aceitando ao mesmo tempo o fato do anātta’ [‘não-eu’]”.

 

The Modern Theologians: An Introduction to Christian Theology Since 1918 [Os Teólogos Modernos: Uma Introdução à Teologia Cristã Desde 1918], Editado por David F. Ford com Rachel Muers (3ª Edição), Malden, Massachusetts: Blackwell Publishing, 2005, p. 693; o mesmo texto está publicado em The Process of Buddhist-Christian Dialogue, 2009, de Paul O. Ingram, que é o autor do capítulo do The Modern Theologians de onde foi extraído o trecho acima.

 

Comentário:

 

O autor deste texto, que é um protestante da Igreja Luterana do Pacífico, discorre sobre um enfoque inusitado: entender o Cristianismo pela óptica do budismo. Mas, ao invés de emitir sua própria opinião sobre o assunto, ele apresenta o que outros religiosos escreveram sobre esse “diálogo com o budismo” (sic.). O objetivo é demonstrar que há muito mais semelhanças e afinidade entre os dois sistemas do que se imagina, e isto se soma ao esforço recente dos teólogos “progressistas” para rejeitar a epistemologia da filosofia grega (note o título do livro). Além de Cristo ser equiparado a Buda, pontos da filosofia oriental são adaptados ao modelo cristão, a exemplo da metafísica idealista da Yoga carā (caminho da Yoga). Uma “Cristologia Mahayana” é também criada. É por meio de tais conceitos que se dá o alegado esclarecimento pela perspectiva budista...

 

Bem, com um tratamento assim dispensado ao Cristianismo dá para imaginar a qualidade exegética de um “diálogo” desse tipo. E veja que são essas pessoas que criticam a mais que milenar interação do Cristianismo com a filosofia grega. Mas, enfim, o que eu gostei mesmo nessa citação não tem nada a ver com os méritos ou deméritos desse procedimento. Foi o fato dela sustentar que a ressurreição é um processo pelo qual se cria uma cópia da pessoa original e o indivíduo que surge é um novo ser com características diferentes (espirituais). Ou seja, o ressuscitado seria apenas uma réplica da pessoa cujo corpo foi para o túmulo. Para quem bradou aos quatro ventos contra a minha explicação de tal cenário e disse que isso ‘ofende a inteligência do leitor’, muito admira o autor do MB achar que esse trecho serve aos interesses dele. Ou será que ele também não entendeu o que Paul Ingram disse? Leia o item “b” da seção 7 para compreender o caso.

 

E ainda há mais agravantes. Além dele ter trazido para debaixo do próprio nariz aquilo que ele não gosta que lhe seja apontado, o autor do MB parece que não percebeu outros dois detalhes inconvenientes desse “cristianismo budista”. O budismo diz que a experiência da vida não comporta um ser substancialmente permanente. É a chamada doutrina do não-eu. Ninguém dura para sempre. No entanto, ainda que o indivíduo que morre seja extinto, ele reencarna e se torna outra pessoa que acumulará novas lembranças e experiências, que serão também apagadas quando essa nova criatura morrer também.

 

Do acima se conclui que alguma coisa permanece em existência entre uma encarnação e outra, pois se não fosse assim não haveria como dizer que o replicado tem alguma coisa a ver com o replicante. Mas vamos ignorar esse ponto, para facilitar a vida dos aniquilacionistas. Lynn de Silva adaptou essa história dizendo que a ressurreição entra no lugar da reencarnação. No entanto, há uma sensível diferença em relação ao que o autor do MB acredita. A cópia da pessoa é feita no momento exato da morte e ela recebe simultaneamente o novo corpo. Essa dinâmica explicaria como alguém deixa de existir de maneira completa quando morre, isto é, sem sair uma alma espiritual do corpo, e ao mesmo tempo continuará viva no céu. É praticamente a explicação daqueles teólogos “progressistas”, porém dita de outra forma, aqueles que não acreditam na imortalidade da alma, mas acham que a morte não implica na inexistência da pessoa até uma data indeterminada no futuro.

 

48) Old Testament Theology, de John Goldingay (2006)

 

 

“O Primeiro Testamento sugere uma analogia racional. Deus é como se fosse um xeique senhor do deserto, espalhando os céus como uma tenda na qual vive (Is. 40:22; cf. Is. 42:5; 51:13; Jó 9:8; Sal. 104:2, 3). Posto de outra maneira, ele esticou o Zafon sobre o vazio (tōhû) e suspendeu a terra sobre o norte, exceto o Seol e as águas debaixo da terra (Jó 26:5-7). Notamos que o monte Zafon era a montanha sagrada dos cananeus, onde Baal vivia e os deuses se reuniam (Is. 14:13, 14). No Salmo 48 o nome é aplicado polemicamente ao monte Sião, como sendo o verdadeiro local sobre a terra onde Deus vive”. – p. 84.

 

“A similaridade entre nĕpilîm e nāpal (‘caídos’) convida o leitor a entender o substantivo como significando ‘os caídos’ e os relacionar aos ‘anjos caídos’, criaturas que caíram do céu para a terra e/ou da terra para o Seol, ainda que não se diga que eles realmente caíram ou foram lançados abaixo. Alguns dizem que o conceito de anjos banidos se baseia nas referências da ‘queda’ de um ‘céu’ que está em Isaías 14 e Ezequiel 28, onde as histórias do Oriente Próximo sobre tentativas de deuses novatos usurpar a posição de deuses veteranos na hierarquia do céu se tornou parte das parábolas dos objetivos políticos dos reis de Babilônia e de Tiro. Teólogos do segundo século a exemplo de Tertuliano e Orígenes argumentaram que estes textos se referem à ‘queda de Satanás’ (veja Tertuliano, Contra Marcião 2.10 e Orígenes, Fundamentos 1.5), o que proveu para a igreja a informação sobre a origem de Satanás para satisfazer os anseios de saber algo sobre o qual a Escritura nada diz”. – Nota 17 da página 144.

 

“[Saul] no seu desespero solicitou que seus homens encontrassem uma médium nos limites entre a os territórios filisteu e israelita, a fim de consultar o falecido Samuel... A morte não abrandou Samuel. Ele diz as mesmas coisas sobre a desobediência e rejeição que ele falou quando estava vivo, mas ele não responde a pergunta de Saul”. – p. 584.

 

“Dentre as árvores [do Éden] uma foi chamada de ‘árvore viva’ ou ‘árvore da vida’. Sua significância não é explicada, porém duas passagens posteriores podem nos ajudar de diferentes maneiras. Em Provérbios ‘árvore da vida’ é uma metáfora para algo que significa a transferência de vida plena, e isto faz sentido em Gênesis 2. A árvore é um sacramento que implica em proporcionar plenamente a vida para as pessoas... Não houve talvez necessidade dos primeiros humanos comerem imediatamente desta árvore, mas eventualmente eles teriam que fazê-lo. Desde o Princípio, a humanidade estava destinada para a vida eterna com Deus. Talvez um embasamento teológico implícito desta noção seja o argumento que Jesus depois apresentou, de que Deus é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó -  não o Deus de mortos, mas de vivos (Mc. 12:26, 27). Se Deus ainda é o Deus dessas pessoas a quem chamamos de mortos, então, como eles podem realmente ou permanentemente estarem mortos? Se você entra em um relacionamento com Deus, isso transmite a vida de Deus. Dificilmente pode desaparecer. Portanto, ela deve ser para a humanidade em geral. Mas isso não aconteceria automaticamente. Na verdade não aconteceria nada, e o Seol se tornaria o tedioso destino da humanidade até que Deus fizesse alguma coisa para implementar o Plano Original”. – pp. 119, 120.

 

Old Testament Theology [A Teologia do Antigo Testamento], John Goldingay, Volume 2 – A Fé de Israel, 2006.

 

Comentário:

 

Nota-se que o livro informa que o Seol é uma região longínqua abaixo da Terra, assim como o céu está acima. Logo, não pode se referir a uma simples sepultura. Se a pessoa vai para lá depois da morte, então significa que não é o corpo dela que vai para esse lugar, pois nenhum cadáver é transportado para um lugar muito longe abaixo da Terra ou no interior dela. Portanto, é algo imaterial que sobrevive à morte que vai para o Seol.

 

Aprendemos também que apesar do mundo dos mortos ser o destino comum para a humanidade em geral, os que possuem um relacionamento com Deus podem ser poupados das garras da morte, ou seja, de uma existência sombria no Seol (morte na Bíblia tem sempre este sentido, e não se refere à aniquilação completa), pois eles são retratados como possuidores da vida, conforme Jesus falou a respeito de Deus não ser Deus de mortos, mas de vivos.

 

49) Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament: Introducing the Conceptual World of the Hebrew Bible, de John H. Walton (2006)

 

 

 

“Teve Israel alguma revelação sobre a vida após a morte que os levaria a rejeitar seu ambiente cognitivo? O principal elemento do ambiente cognitivo que foi rejeitado no texto bíblico, embora não sempre pelos israelitas que lutavam contra o sincretismo, foi o culto aos mortos totalmente articulado, embora certamente Israel ainda venerasse os antepassados de alguma das mesmas maneiras que são encontradas no contexto cultural maior.

 

Sheol é o termo hebraico usado para designar o lugar para onde os mortos vão. O termo não tem antecedentes conhecidos em outras culturas ou religiões do mundo antigo, e a etimologia da palavra é incerta e, portanto, incapaz de contribuir para a discussão. A mais extensa passagem do Antigo Testamento sobre o Seol é Isaías 14:9-11. Nela os espíritos dos mortos são retratados como indo ao recém-falecido rei da Babilônia. Os espíritos de outros reis falecidos se compadecem dele pela perda de seu poder. Eles observam que sua antiga pompa não encontrou lugar no Seol, onde ele tem apenas um colchão de vermes e cobertores de minhocas. A natureza figurativa desta passagem torna difícil fazer declarações conclusivas sobre os detalhes da vida no Seol, mas o autor é bastante bem sucedido ao transmitir a ideia de que não é particularmente agradável. Nesse sentido, é muito parecido com a imagem do mundo inferior da literatura mesopotâmica, ainda que lá eles acreditassem que os reis retivessem um pouco do seu status terrestre.

 

“Uma das questões complicadas ao tentar desenvolver uma compreensão do Seol como o mundo inferior é que o termo é freqüentemente usado metaforicamente para se referir à morte ou ao túmulo (por ex., Isa. 28:15). Como resultado, fala-se dele como um lugar de decadência. (Sal. 16:10) para o qual alguém cavaria abaixo (Amós 9: 2). A conseqüência do uso metafórico é que muitas passagens se tornam ambíguas. Quando Jacó fala de ir ao Seol (Gênesis 37:35; 42:38; 44: 29,31) ele está falando sobre o mundo inferior ou da sepultura? Alguns sustentaram que o termo nunca se refere ao mundo inferior, mas sempre ao túmulo. As dificuldades deste entendimento incluem:

 

“- No Salmo 55:15, o salmista ora: ‘Que a morte tome meus inimigos de surpresa; Deixe-os descer vivos ao Seol, pois o mal encontra hospedagem entre eles’. O contraste entre a ‘morte’ no primeiro ponto e ‘vivo’ no segundo nos adverte que a morte e o Seol não são sinônimos. Seria difícil imaginar que o salmista espera que seu inimigo fosse enterrado vivo.

 

“- No Salmo 139: 8, o salmista observa: ‘Se eu fizer minha cama no Seol, lá você está’, devido ao que ele diz da impossibilidade de fugir de Deus. Dificilmente se argumentaria que Deus está na sepultura, ao passo que o acesso dele ao mundo inferior é de significado apropriado (veja também Amós 9:2; Prov. 15:11).

 

“Estes textos sugerem que o conceito de Seol como o mundo inferior deve ser considerado como central na compreensão do entendimento israelita sobre a vida após a morte”.

 

Ancient Near Eastern Thought and the Old Testament: Introducing the Conceptual World of the Hebrew Bible [O Pensamento no Oriente Próximo da Antiguidade e o Antigo Testamento: Apresentando o Mundo Conceitual da Bíblia Hebraica], John H. Walton, Baker Academic, Grand Rapids, MI, EUA, 2006, p. 320.

 

Comentário:

 

Não obstante o esclarecimento que diversas obras de referência dão sobre o verdadeiro sentido de Seol, a exemplo desta agora citada, observe o que o autor do MB disse sobre isso em uma nota de seu texto:

 

“Conforme outros eruditos citados aqui esclarecem, a crença judaica relacionada com os mortos no Seol não era de modo algum semelhante às crenças das nações circunvizinhas deles. Os judeus não acreditavam em nenhuma ‘existência literal’ dos mortos ‘nas profundezas da terra’.” (Os negritos são dele).

 

E veja que as tais obras eruditas que supostamente apoiariam tal afirmação são justamente as que estão sendo aqui apresentadas e que ensinam precisamente o contrário do que foi dito acima! É o caso dessa referência nº 49. A miopia do autor do MB em relação a esse assunto é realmente surpreendente. Na verdade é mais do que isso. É uma cegueira total e pelo visto irreversível.

 

Com respeito à pergunta retórica de Walton, relacionada ao desejo que Jacó expressou de morrer, a ambiguidade não é tanta assim, ainda que algumas versões bíblicas realmente tragam no texto “sepultura” ao invés de “Seol”. Isso porque Jacó afirmou que com a morte se juntaria ao seu filho José. Jacó não sabia do paradeiro dele. Sendo assim não poderia ter em mente o próprio túmulo ao falar que queria ir para junto do filho, porque o corpo de José não estaria lá. Sob esse ponto de vista apenas material, a morte não o deixaria perto de José. E naquele momento de dor tudo o que Jacó queria era estar novamente com seu filho. Por outro lado, tendo em mente o mundo subterrâneo as palavras que Jacó disse passam a fazer sentido. Se morresse ele poderia encontrar a “sombra” (espírito) de José no Seol, e ficar outra vez próximo de seu filho. Isso se José tivesse morrido mesmo. Na verdade, tudo não passou de uma armação de seus irmãos invejosos, que o venderam para mercadores.

 

Outro exemplo que atesta que Seol não é o mesmo que sepultura, e que os israelitas acreditavam literalmente na existência dos mortos nas profundezas da Terra, é o caso do que aconteceu depois da morte do profeta Samuel. O rei Saul, que tinha caído no desfavor de Deus, pediu a uma necromante que ela fizesse Samuel subir do Seol, a fim de receber do profeta informações sobre o futuro. A Bíblia diz que a alma de Samuel saiu de dentro da terra, subindo. O que demonstra que ele veio de outro lugar que não era o cemitério, pois o túmulo de Samuel estava a muitos quilômetros de onde aconteceu esse encontro. Ou seja, não era necessário eles se postarem em cima da sepultura onde o corpo de Samuel estava para que sua alma subisse de lá. Isto porque não é de uma cova que alguém do mundo dos mortos pode vir, mas das partes longínquas do subterrâneo terrestre, que é onde fica o Seol de acordo com a Bíblia. – 1 Samuel 28:13-15 (compare com 2:6); Salmo 71:20; Mateus 12:40.

 

50) Encyclopaedia Judaica – Second Edition (2007):

 

 

O judaísmo sempre manteve uma crença na vida após a morte, mas as formas que essa crença assumiu e os modos nos quais ela foi expressa variaram grandemente e diferiram de período para período. Assim, ainda hoje existem várias concepções distintas sobre o destino do homem após a morte, relativas à imortalidade da alma, à ressurreição dos mortos e à natureza do mundo vindouro após a redenção messiânica, que existem lado a lado dentro do judaísmo. Embora estas concepções estejam entrelaçadas, não existe qualquer sistema teológico aceito geralmente sobre sua inter-relação... A Bíblia é comparativamente inexplícita sobre o destino do indivíduo após a morte. Parece que os mortos descem ao Seol, uma espécie de Hades, onde vivem uma existência etérea e sombria (Núm. 16:33, Sal. 6:6, Isa. 38:18). Diz-se também que Enoque ‘andou com Deus, e não era mais; porque Deus o tomou’ (Gen. 5:24); e que Elias é levado para o céu em uma carruagem de fogo (2Reis 2:11). Mesmo o trecho mais completo sobre o assunto, o incidente necromântico envolvendo o profeta morto Samuel em En-Dor, onde seu espírito é ressuscitado dos mortos por uma bruxa por ordem de Saul, pouco faz para lançar luz sobre o assunto (1 Sam. 28:8 em diante.). O único ponto que emerge claramente das passagens acima é que existia uma crença na vida após a morte de uma forma ou de outra. (Para uma discussão completa, veja-se Pedersen, Israel, 1-2 (1926), 460 e seguintes). Uma visão mais crítica pode ser encontrada em G. von Rad, Old Testament Theology [Teologia do Antigo Testamento], 2 vols., 1962.)”.

 

Encyclopaedia Judaica - Second Edition, Thompson Corporation, USA, in association with Keter Publishing House, Jerusalem, Israel, 2007, Vol. 1, p. 441, verbete “Vida após a morte”.

 

Comentário:

 

Note que essa crença em uma vida após a morte estava presente entre judeus antigos, na história inicial do povo de Deus descrita no Velho Testamento. Por isso Jacó pôde dizer que desceria chorando ao Seol, por achar que seu filho José havia morrido. Nenhum cadáver vai pranteando para dentro de uma cova. Além do mais, Jacó expressou o desejo de se encontrar com seu filho no Seol. Não se sabia o paradeiro do corpo de José. Portanto, é óbvio que Jacó não estava pensando que seria posto numa sepultura ao lado do seu filho, pois isso era impossível, devido às circunstâncias (Gênesis 37:35). Tais expectativas da pós-morte não surgiram por causa do contato de Israel com Babilônia ou a Grécia, séculos depois, conforme muitos alegam equivocadamente para justificar o fato de que na época de Cristo os judeus, em geral, acreditavam que ficavam vivos depois da morte, especialmente os fariseus, dos quais o apóstolo Paulo fazia parte. E foi justamente Paulo quem disse o seguinte sobre sua morte iminente:

 

“Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo”. – Filipenses 1:23-24.

 

A mesma ideia se apresenta no último livro da Bíblia:

 

“Quando ele abriu o quinto selo, vi por baixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que haviam dado. Eles clamaram em alta voz: 'Até quando, Soberano Senhor, santo e verdadeiro, tu te refrearás de julgar os que moram na terra e de vingar o nosso sangue, que eles derramaram?’.”. – Apocalipse 6:9, 10.

 

Apesar dos aniquilacionistas terem o costume de formular teorias no intuito de mudar o sentido desses textos, tais versículos são muito claros em si mesmos.

 

51) A Hebrew and English Lexicon Without Points, de John Parkhurst (2015)

 

 

a) Verbete “Juntar-se”:

 

אסף [asap] Reunir, reunir-se, retirar-se, congregar-se, juntar-se (coligere), se retrair (retrahere). Gên. vi. 21. xxix. 22. Êxo. iii. 16. Em Niph. Ser reunido, coletado. Gên. xxix. 3, 7. Comp. Gên. xxv. 8, 17. Num. xx. 24. Jud. ii. 10. Então נאספיﬦ Isa lvii. 1 é usado elipticamente para juntar-se aos seus pais ou povo, i.e., ir para o [Seol] שאול ou Hades, o estado separado, ou receptáculo geral dos falecidos. Veja Vitringa em Isaías. Como substantivo feminino אספות Collections. Também a tradução francesa des recueils, Ecle. xii. 11. Veja sob שמר IX. e compare com Harmer’s Observations, vol. Iv. P. 70, &c. Em hith. reunir-se, juntar a si próprios. Deut. xxxiii. 5”. – pp. 31, 32.

 

b) Verbete “Seol”:

 

שאול [Sheol] O invisível estado dos mortos, ‘o lugar e estado daqueles qui in quæstiones sunt (Cocceius) que está fora do caminho e pelo qual se procura’. Bate. Ver inter. Gên. xlii. 38. xliv. 31. 1 Reis ii. 9. Num. xvi. 30, 33. Jó xvii. 13, 14. Sal. xlix 15. lxxxix. 49. cxli. 7. Isa. xiv. 9, 11. Nesta visão ele parece se aproximar ao conceito de Hades* dos gregos ‘Aδης (pelo qual a LXX quase constantemente traduz), i.e. ὁ αϊδης τοπος, o lugar invisível, e para a nossa antiga palavra inglesa Hell [Inferno], que agora é tão pouco usada exceto como o lugar de tormento, sendo ainda um derivado do saxão hillan ou helan, esconder ou de holl, a caverna. Antigamente denotava o lugar escondido ou não visto dos mortos em geral, como é notório na versão dos Salmos xlix. 14, lv. 16, lxxxviii. 9 e lxxxix. 44 na Grande Bíblia do Rei Henrique VIII, que ainda é utilizada em nossa Liturgia; e é assim que deve ser entendido em outros locais da Tradução. קבר [qabar, enterrar] denota a sepultura ou o túmulo propriamente dito; שאול [Sheol] significa aquilo que é comum a todos, o receptáculo comum dos mortos. Compare Ecle. iii. 20. Eclo. xl. 11. xli. 10. Deste modo Leigh em seu  Crit. Sacra bem observa que ‘Jacó, Gen. xxxvii. 35, desceria pranteando ao Sheol (שאול) para o seu filho; não para o Inferno (o lugar dos condenados), pois ele nunca pensou que seu filho fosse para tal lugar, e nem para a sepultura propriamente dita, porque ele achou que seu filho tinha sido devorado por um animal selvagem, mas sim que iria para o receptáculo dos mortos. Não é שאול às vezes usado para se referir a uma grandeprofundidade no subterrâneo, fora da vista, e pela qual se procura’ (Bate) sem nenhuma referência aos mortos? Veja Deut. xxxii. 22. Jó xi. 8. Salm. cxxxix. 8. Eze. xxxi. 17. Am. ix. 2”. – p. 673.

 

* A palavra grega Hades denota algo que é invisível ou escondido da vista humana, e ela guarda grande semelhança com o inglês hidden (“escondido”) e hide (esconder). O que indica que essas palavras podem ter uma origem etimológica em comum. Essa é uma evidência adicional de que Hades não se refere a uma cova, que pode ser vista ou escavada por qualquer pessoa.

 

A Hebrew and English Lexicon Without Points: In Which the Hebrew and Chaldee Words of the Old Testament Are Explained in Their Leading and Derived Senses,... to This Work Are Prefixed, a Hebrew and a Chaldee Grammar, Without Points, London, 1823 (reimpressão de 2015).

 

Comentário:

 

A definição bíblica sobre o Seol, de acordo com os eruditos, é muito clara. Ele é um local invisível nas profundezas da Terra. O que implica dizer que não se refere a uma simples sepultura, ainda que a palavra Sheol seja ocasionalmente usada como sinônimo de morte ou túmulo. Isto é assim por causa do vínculo que há entre esses conceitos (morte, sepultura e Seol). Eles fazem parte do destino único do homem. Primeiro a pessoa morre, depois é enterrada e em seguida sua parte imaterial desce para o Seol. Além disso, ao dizer que as sombras dos mortos habitam tal lugar e que lá elas podem se reconhecer e serem reconhecidas, a Bíblia Hebraica atesta a realidade do mundo inferior. O que indica que a morte não significa a aniquilação ou extinção total de quem morreu. Para lá vão as “almas” ou “espíritos” dos falecidos, conforme dizemos na linguagem de hoje.

 

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Para ver mais obras citadas pelo autor do MB consulte a seção 8.

 

3. VISÃO GERAL DAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS QUE FORAM ANALISADAS

 

A ideia agora é listar os pontos mais relevantes que aprendemos em cada uma das citações transcritas na seção 2, para que o quadro geral fique bem claro e de maneira mais rápida. As principais informações apresentadas foram as seguintes:

 

- Os colchetes e parêntesis são meus, com informações complementares que não aparecem na respectiva obra a que se referem.

 

1) Commentary Critical... on the Old and New Testaments:

 

Almas de parentes que morrem se reencontram no Seol, o mundo dos mortos. O falecido profeta Samuel apareceu para o rei Raul. O homem é formado de corpo e alma, e por isso no mundo terreno assassinos só podem matar o corpo. A alma, a parte espiritual do homem, sobrevive. E a punição dos ímpios consistirá em sofrimentos físicos e espirituais. O Hades, também chamado de Inferno, é o mundo invisível. As almas dos justos talvez tenham sido retiradas do Hades depois da ressurreição de Cristo e foram para a presença celestial de Deus.

 

2) The Jewish Encyclopedia:

 

Os antigos hebreus acreditavam que continuavam vivendo no mundo subterrâneo (Seol) depois da morte, porém numa existência pálida e entristecida. Mas depois surgiu a crença da ressurreição, que consistia na retirada da pessoa do Seol, embora alguns Salmos indiquem que a ressurreição não é absolutamente necessária para se estar na presença de Deus de maneira espiritual.

 

3) The International Standard Bible Encyclopedia:

 

As almas dos homens, bons e maus, sobrevivem à morte. Não há nenhuma dúvida que esse conceito é ensinado no Novo Testamento.

 

4) Jewish Theology – Systematically and Historically Considered:

 

A crença dos hebreus de continuarem a existir depois da morte no mundo subterrâneo e sombrio estava presente no inteiro mundo antigo, a exemplo de babilônios, fenícios, gregos e romanos. E a crença dessa existência depois da morte foi se modificando com o tempo, de modo a satisfazer os anseios de uma vida verdadeira depois da morte, e não apenas uma existência entristecida.

 

5) Die Letzten Dienge – Lehrbuch der Eschatologie:

 

O homem é formado de corpo e alma (ou seja, pessoa = corpo + alma). Nenhuma pessoa é imortal. Na morte, a alma e o corpo desaparecem, pois o homem [ou melhor dizendo, a alma que restou dele] vai para o poço sem fundo [o Seol]. A ressurreição é o despertar da pessoa inteira (alma + corpo), [e não somente a parte que ficou no Seol], o lugar que é chamado de “nada” [por ser desolado e esquecido]. Veja na próxima seção mais detalhes sobre o que Paul Althaus escreveu.

 

6) Dictionnaire Encyclopedique de la Bible:

 

A alma é a parte imaterial do homem, e o Hades é um abismo debaixo da terra para onde vão os espíritos dos mortos, reduzidos em meras sombras.

 

7) The Distinctive Ideas of the Old Testament:

 

As ideias religiosas do Antigo Testamento são diferentes das ideias de qualquer outra religião. O Novo Testamento tem sido interpretado de acordo com as filosofias de Platão e Aristóteles, quando deveria ser com base no Antigo Testamento. A abordagem dos gregos sobre a imortalidade da alma não é encontrada em nenhum lugar da Bíblia, por isso não é um ensino bíblico de maneira alguma.

 

8) The Interpreter’s Dictionary of the Bible:

 

A unidade do ser humano (corpo + alma) é destruída na morte e ele perde a vitalidade, o que significa que ele continua vivo no Seol, mas num estado muito fraco.

 

9) The Encyclopedia Americana:

 

A alma e o corpo eram inseparáveis na criação, porém com a entrada do pecado no mundo esse vínculo que deveria ser eterno foi comprometido e com a morte a alma se separa do corpo. A ressurreição consistirá em deixá-los juntos novamente e a alma passará a animar o corpo da maneira que fazia antes. Os judeus adotaram a crença na ressurreição do corpo por influência de ideias gregas e persas. Mas o corpo da ressurreição será um corpo melhorado, em glória. Os injustos sofrerão no inferno de maneira completa, com corpo e alma. Os gregos também comparavam a morte com o sono. Na filosofia grega de Platão o corpo é desprezado e a alma anseia se separar dele para sempre. [Ou seja, o oposto da ideia judaico-cristã]. A bruxa de Endor fez que a alma do profeta Samuel se levantasse do Seol [O que indica que os israelitas acreditavam na existência dos espíritos dos mortos]. Com o tempo os hebreus começaram a nutrir a esperança que ficariam numa situação melhor no Seol, e que só os ímpios sofreriam lá. A crença do tormento do inferno sempre existiu na igreja primitiva.

 

10) Studies In Dogmatics. Man – The Image of God:

 

O Antigo Testamento apresenta a morte como uma transição para um estado de fraqueza e impotência, com privação de vitalidade, ligados à terra da escuridão e do esquecimento [o Seol]. O fim causado pela morte é a privação da riqueza da vida, é a remoção deste mundo para outro. Na esperança cristã a morte passou a ser uma passagem direta para a vida eterna [obviamente, longe das tristezas do Seol]. Em ambas as seções bíblicas (A.T. e N.T.), a existência depois da morte nunca foi questionada, porém ela não equivalia ao conceito grego de imortalidade natural da alma e de sua dicotomia substancial do corpo, ainda que a alma do fiel vá imediatamente para Cristo e nunca venha a experimentar a destruição. O estado intermediário é o período de tempo entre a morte do corpo e a ressurreição, seguida do Julgamento Final. A alma tem uma natureza espiritual. Há total certeza que a igreja primitiva sempre acreditou na existência contínua depois da morte. A alma é uma substância que tem raciocínio e inteligência.

 

11) The New Bible Dictionary:

 

Uma exegese bíblica honesta não pode se evadir da verdade bíblica sobre o sofrimento eterno na Geena. Jesus prometeu ao malfeitor na cruz que eles estariam juntos no paraíso naquele mesmo dia, antes do por do sol. Na concepção hebraica, a ressurreição consiste em tirar a pessoa do Seol [profundo], onde lá experimenta uma subvida [devido à fraqueza de seus moradores e a tristeza do lugar, conforme aprendemos em outras obras aqui citadas].

 

12) A Theological Word Book of the Bible:

 

O Seol (ou Hades) é a morada dos espíritos dos mortos. O ensino bíblico da ressurreição repudia a visão grega sobre a imortalidade. Os hebreus, da mesma maneira que outros povos antigos, não acreditavam que a morte significava a completa inexistência ou aniquilação, pois achavam que os mortos continuam existindo em formas semimateriais (“sombras”) em um mundo de silêncio e miséria. Também não devemos abraçar o conceito de extinção eterna, já que a Bíblia não autoriza esse entendimento. Jesus, por sua vez, aceitou a visão rabínica corriqueira (sobre o que acontece no Hades), ao contar a parábola do rico e Lázaro, ainda que os detalhes relatados não devam ser entendidos como aquilo que realmente acontece no mundo dos mortos.

 

13) Theological Dictionary of the New Testament:

 

No Judaísmo tardio [em especial o intertestamentário] a permanência no Hades é temporária e esta visão é semelhante à do Novo Testamento. A existência sombria no mundo dos mortos não é a verdadeira vida.

 

14) Dictionary of the Bible:

 

Os anjos exercem funções a exemplo do que fizeram com a alma do mendigo da ilustração do rico e Lázaro. Os judeus e cristãos antigos imaginaram muitas dessas funções para os anjos. O paraíso do Éden já existia antes da criação da Terra, de acordo com vários escritos judaicos, e este paraíso passou a ser o lugar dos justos no estado intermediário entre a morte e o Julgamento Final. Este entendimento é apenas um dos aspectos do conceito de vida após a morte no Novo Testamento. O Xeol é um dos limites do universo [portanto, não é o mesmo que sepultura]. A alma e o corpo são elementos distintos. O corpo é a expressão concreta da existência. Ele morre como resultado do pecado, porém o espírito sobrevive a esta morte devido à justiça. Para estar com Cristo é preciso se ausentar do corpo. Ou seja, morrer. A palavra “espírito” no Novo Testamento assumiu outros significados diferentes daquele conceito básico do Antigo Testamento e passou a ser usado com o sentido de vida espiritual consciente. Na concepção hebraica vida estava associada somente às características físicas do corpo humano e o que este proporciona. Não chamavam de vida a existência no Seol [ainda que lá continuassem conscientes]. Por isso a ideia de vida futura foi atrelada à restauração do corpo, mas em um momento tardio do Antigo Testamento. [Ou seja, não houve um desenvolvimento gradual dessa crença nos períodos anteriores]. A Geena é um conceito de punição depois da morte que está presente tanto em livros apócrifos quanto no Novo Testamento.

 

15) The New Catholic Encyclopedia:

 

A respiração distingue os vivos dos mortos. Após a morte a nefesh (alma) vai para o Seol [mas sem a capacidade da respiração]. Quando Jesus disse que os homens podem matar o corpo, mas não a alma, ele estava se referindo a uma vida que existe separadamente do corpo.

 

16) Theologisches Begriffslexikon zum Neuen Testament:

 

O Senhor tem autoridade sobre os espíritos do Hades. O fim da vida humana resulta em uma viagem para o Sheol ou Hades, que é a habitação temporária dos mortos.

 

17) Christian Doctrine:

 

No conceito bíblico o corpo não é uma prisão da qual a alma deseja escapar. A vida eterna resultará na restauração da existência humana, na forma de almas encarnadas e corpos dotados de alma. Há, portanto, um contraste entre essa vida e os que existem de maneira sombria no Seol [ou seja, uma existência que não pode ser chamada de vida porque não possui nenhum contentamento, ainda que os que estejam lá sejam seres vivos, porém invisíveis para nós].

 

18) The Religious Ideas of the Old Testament:

 

O conceito hebraico sobre o Seol tem muitos pontos semelhantes ao Hades dos gregos [exemplos: fica no subterrâneo profundo, seus habitantes são versões enfraquecidas do que eram e são invisíveis aos olhos humanos]. Mas os hebreus não tinham a visão dualista dos gregos sobre o corpo e a alma, pois consideravam que o homem é uma unidade formada por corpo e alma que desaparece inteiramente na morte. Mesmo assim acreditavam que algo de aparência sombria da pessoa continuava existindo no Seol (e compartilhava essa morada com outros que também foram para lá). Devido a tal cenário limitante, os hebreus concentravam sua atenção na vida presente [pois o que achavam que vivenciariam no Seol não era desejável].

 

19) Anthropologie des Alten Testaments:

 

Os hebreus, da mesma maneira que os povos vizinhos, concebiam o mundo dos mortos como um grande local subterrâneo nas profundezas abismais, onde os mortos existem na forma de espíritos sombrios e falam uns com os outros. Esse lugar é chamado de Seol, sendo completamente desprovido de poder e dignidade. A Bíblia também relata o encontro do espírito de Samuel com o rei Saul.

 

20) As Grandes Religiões:

 

O judeu Fílon foi um dos primeiros a utilizar o método alegórico para descobrir informações ocultas na Bíblia. Essa metodologia já tinha sido utilizada na mitologia grega. Ele foi influenciado pelo platonismo, que preconizava a oposição entre a matéria e o espírito. Os teólogos do Cristianismo nascente se valeram mais de Fílon do que os judeus.

 

21) The Zondervan Encyclopedia of the Bible:

 

A morte para os ímpios não é aniquilação, mas a descida para o Seol. O estado intermediário dos justos e dos iníquos é uma experiência consciente ao invés de aniquilação.

 

22) Calvinism and Scholasticism in Vermigli's Doctrine:

 

Os judeus da antiguidade tinham apenas uma pequena noção da vida após a morte. Os aniquilacionistas [da época de Pietro Martire Vermigli] estavam errados por causa de uma falsa interpretação de uma passagem escrita pelo apóstolo Paulo.

 

23) Jewish Ideas & Concepts:

 

A região dos mortos localiza-se nas profundezas da Terra e os que estão lá são chamados de rephaim (“sombras”, em hebraico). O pessimismo presente entre os hebreus em relação ao mundo dos mortos era típico dos povos semitas, inclusive dos babilônios, cuja literatura se assemelha à dos hebreus nesse pormenor.

 

24) The Concise Jewish Encyclopedia:

 

O Seol é a morada dos mortos, um longínquo lugar no interior da Terra. [O que implica dizer que não são corpos físicos que vão para lá, pois estes ficam no cemitério, mas sim a parte imaterial do homem, ou seja, a sua alma]. O Seol se destina especialmente aos ímpios. Por isso, com o tempo, tornou-se sinônimo de inferno [lugar onde sofrem os pecadores].

 

25) Genesis – Volume I:

 

De acordo com os antigos hebreus, os mortos se transformam em “sombras” fantasmagóricas que vivem no mundo subterrâneo em condições de extrema fraqueza. Os cristãos, por outro lado, têm uma crença na vida plena depois da morte, e Abraão, apesar de não ter nutrido essa expectativa certamente foi recebido com alegria no mundo espiritual.

 

26) The Parables of the Kingdom, Grace and Judgment:

 

O alimento mantém a alma e o corpo juntos. A morte e a ressurreição de Jesus são a chave de nossa redenção. Embora mortos, nossa vida está escondida com Cristo. Nossa morte é o veículo para a vida com ele.

 

27) Harper’s Bible Dictionary:

 

O Seol é o mundo subterrâneo para onde vão os espíritos dos que morrem. Embora o conceito de alma no Novo Testamento difira do conceito grego, a alma denota a existência de uma pessoa depois da morte.

 

28) The Eerdmans Bible Dictionary:

 

Na concepção hebraica, o Seol fica no subterrâneo e é o lugar mais profundo que existe, além de escuro e decadente. Lá habitam as “sombras” dos mortos, que são versões enfraquecidas das pessoas que morreram [O termo pode ser tomado como sinônimo de “espíritos”, conforme a literatura ugarítica]. A existência das “sombras” no Seol é tão triste e incompleta que não pode ser chamada de vida. O ser humano tem uma natureza espiritual e física. A ressurreição consiste na integração da alma com o corpo. Dentro da ideia de estado intermediário, o livro de Apocalipse mostra a presença no céu das almas dos cristãos que foram assassinados. O falecido profeta Samuel apareceu para o rei Saul. O lugar para onde foram banidos os anjos rebeldes foi chamado pelo apóstolo Pedro de Tártaro, palavra que na literatura clássica se referia à parte mais profunda do Hades [literalmente, Pedro disse que eles foram “tartarizados”].

 

29) New Dictionary of Theology:

 

A alma de Cristo desceu para o Hades depois de sua morte. Desde os tempos primitivos, muitos cristãos crêem que essa descida implicou em uma pregação para os que lá estavam, embora tal entendimento não seja unanimidade. O conceito de “sombras” [conscientes] no Seol é uma ideia prévia que contribuiu para o desenvolvimento da crença da ressurreição [neste caso, seria trazer de volta quem continua existindo e não “recriar” a pessoa]. O “estado intermediário” tem dois pontos de vista: (1) a existência da alma no céu até a ressurreição do corpo, ou (2) o cristão já ter recebido o corpo espiritual definitivo e a ressurreição ser apenas a manifestação visível da consumação de todas as coisas. (Em ambos os casos é um estado consciente e não de inexistência). Há várias objeções bíblicas contra a crença do “sono da alma” (psicopaniquismo). O materialismo nega o dualismo mente-corpo e, à primeira vista, a Bíblia parece apoiar a visão materialista. No entanto, a doutrina bíblica da continuidade pessoal depois da morte do corpo prevalece.

 

30) The True Image – The Origin and Destiny of Man in Christ:

 

Calvino se opôs à ideia de que a alma morre junto com o corpo, e ele tinha boas razões para acreditar que a alma sobrevive à morte do corpo, com base em Mateus 10:28. Mas as passagens citadas por Calvino mostram apenas que a alma sobrevive à morte física e não que ela seja em si mesmo imortal [aqui no sentido de que jamais poderá ser destruída; mas se isso acontecer não é depois da morte do corpo, e sim após o Julgamento Final]. A imortalidade assegurada ao cristão será em sua natureza total, de corpo e alma. Ou seja, natureza humana e natureza espiritual.

 

31) Word Biblical Commentary – Ecclesiastes:

 

O livro de Eclesiastes é uma peça literária sue generis dentro da Bíblia que se assemelha a obras babilônicas a exemplo do Épico de Gilgamesh, onde se destaca que a vida humana é transitória e tudo o que importa está ligado apenas a ela, e quando finda resulta na inexistência do homem. Mas, veja bem, é o fim do homem enquanto ser humano. Eclesiastes não aborda a existência dos mortos no Seol, mas reconhece isso implicitamente porque menciona tal lugar. Esse tratamento de Eclesiastes ao tema da morte difere da visão bíblica padrão, pois nele a morte está condicionada por interesses particulares do escritor [relacionados à vida humana que ele tanto preza]. Por isso, Eclesiastes é irônico ou abstrato. Estilo semelhante também pode ser visto na literatura grega, a exemplo de Eurípedes. O que Eclesiastes fala sobre a morte não é o conceito de aniquilacionismo, pois os hebreus nunca acreditaram nisso, ainda que não tivessem o costume de especular como a existência no Seol se dá. O que Eclesiastes destaca são apenas aspectos de natureza humana, que inexistem no Seol [onde não há criaturas de carne e osso, mas apenas espíritos, isto é, as “sombras” dos mortos]. Portanto, Eclesiastes não ensina a aniquilação, mas apenas a dissolução da vida humana na morte.

 

32) A Theology of the New Testament:

 

A existência humana não termina com a morte. O ensino do Antigo Testamento é que as pessoas continuam existindo no mundo subterrâneo, porém em formas enfraquecidas chamadas de “sombras”. A morte não é capaz de destruir o companheirismo que o povo de Deus usufrui com ele, o que denota um abençoado estado intermediário (dos justos), ainda que não haja um claro ensinamento sobre isso no Velho Testamento. Quando Jesus prometeu ao malfeitor na cruz o paraíso para o mesmo dia, indicou que uma alma ou espírito do homem continua existindo depois da morte, podendo ir para a presença de Deus.

 

33) Enciclopédia Mirador:

 

No judaísmo antigo o Seol era concebido como uma vasta região abaixo dos próprios oceanos e os mortos iam para lá, embora não se soubesse muito bem qual era a situação deles nesse lugar sombrio. Mas, de uma maneira geral, acreditava-se que eles eram privados de todas as atividades corriqueiras do ser humano. Depois os hebreus passaram a acreditar que os mortos poderiam ser resgatados do Seol através da ressurreição. Já no cristianismo a doutrina da imortalidade da alma foi afirmada juntamente com a ressurreição do corpo.

 

34) New Testament Theology:

 

Na época do Novo Testamento tanto judeus quanto cristãos tinham uma crença bem estabelecida de vida após a morte, de modo que a antiga visão dos hebreus do Seol qual lugar de despejo de almas fracas e entristecidas não deve ser superestimado. [Naturalmente por tratar-se de outro estágio da fé].

 

35) What Do Jews Believe? – The Spiritual Foundations of Judaism:

 

Não obstante a sentença de morte dada a Adão, há passagens do Antigo Testamento que sugerem uma vida após a morte em que todos descem para uma região nas profundezas da Terra chamada de Seol [palavra que, às vezes, é utilizada como sinônimo de sepultura, certamente porque os dois conceitos estão relacionados]. Nessa visão, os mortos compartilham o mesmo destino triste.

 

36) New Bible Dictionary:

 

Dentre as várias acepções da palavra “alma” no Antigo Testamento uma delas refere-se à parte do homem que se separa do corpo por ocasião da morte (ex.: Gênesis 35:18), ainda que tal palavra nunca seja usada para se referir aos espíritos dos mortos. Isto pode ser assim porque a psicologia hebraica carecia de terminologia exata. O Novo Testamento inova no uso intercambiável das palavras “alma” (psyche) e “espírito” (pneuma), pois os aplica à existência humana além da morte. Além disso, endossa a crença no sofrimento eterno dos pecadores na Geena (“Inferno”), de maneira semelhante à apresentada na literatura extrabíblica.

 

37) “Christianity and The Survival of Creation”:

 

O dualismo grego é, na opinião de Wendell Berry (autor da obra acima), a doença mais destrutiva que aflige a crença cristã, pois o corpo é desprezado e maltratado por causa da alma. Isso é uma blasfêmia, pois o corpo está nos planos de Deus para a nossa imortalidade.

 

38) The Death of Death – Resurrection and Immortality in Jewish Thought:

 

As pessoas não se extinguem por completo depois da morte. De alguma forma elas continuam a existir, ainda que a maior parte do Antigo Testamento diga que a morte é o fim total do ser humano. Conforme sugerido por alguns versículos bíblicos, os antigos hebreus acreditavam que uma dimensão extra da personalidade continua existindo depois da morte, embora não costumassem chamá-la de “alma”. Portanto, a morte não significa extinção.

 

39) The Encyclopaedia of Judaism:

 

Depois da morte as pessoas vão para o Seol, um mundo que fica nas entranhas da Terra e que é um dos limites do universo juntamente com os céus. Embora a Bíblia em geral diga que ninguém volta de lá, ela registra um retorno, o do falecido profeta Samuel em um reencontro com o rei Saul. Embora a existência no Seol signifique total esquecimento, continua havendo uma forma de existência lá [ou seja, de pessoas vivas e conscientes]. O dualismo grego de corpo e alma é uma forma de preconceito, pois classifica o corpo como sendo intrinsecamente impuro.

 

40) Baker Encyclopedia of Psychology…:

 

Os conceitos hebraico e grego de alma não eram sinônimos. Embora distinguissem alma de corpo, para os hebreus a pessoa era um corpo vivo e eles não discutiam sobre uma alma separada do corpo, da maneira que os gregos faziam.

 

41) Eerdmans Dictionary of the Bible:

 

No Antigo Testamento Seol significa mais frequentemente as regiões inferiores para onde vão os mortos. Tal como em outras literaturas semíticas, esse lugar é descrito como escuro e sombrio. Outra semelhança é que seus moradores são chamados de “sombras”, palavra com o significado de espíritos dos mortos. Algumas passagens do Novo Testamento indicam que a alma sobrevive à morte. A ressurreição consiste em trazer a alma do Hades e juntá-la ao corpo físico. O apóstolo Paulo afirmou que a alma desencarnada é semelhante a um estado de nudez. O Velho Testamento não fez uma clara distinção entre a parte material e a espiritual do homem, porém no Novo Testamento essa diferenciação foi feita mais claramente. Além disso, outra diferença é que no N.T. a morte é apresentada em termos positivos, significando a ida para a presença de Cristo.

 

42) Christ and the Future in New Testament History:

 

Alguns estudiosos da Bíblia propõem que logo cedo, na história da igreja, instalou-se o conceito escatológico que os justos são transferidos na morte para o reino de Deus, num eschaton particular, enquanto não ocorre a parousia do Cristo. Os escritos de Lucas (Atos e evangelho) refletem essa teologia antiga, em passagens a exemplo da parábola do rico e Lázaro e a promessa que Jesus fez ao ladrão na cruz. [Estas não são opiniões do autor do livro. Ele apenas as mencionou].

 

43) Tyndale Bible Dictionary:

 

A palavra hebraica Abadon ocorre na Bíblia com o significado de Seol, dentre outros, e significa “lugar de destruição”. Esse termo também designa o nome do anjo que reinava sobre o reino dos mortos, que aparece na visão do apóstolo João em Apocalipse. O seio de Abraão é uma figura de linguagem que foi utilizada por Jesus para descrever o paraíso onde o mendigo Lázaro ficou depois que morreu. Este conceito fazia parte das crenças judaicas e Jesus sabia disso. Razão provável porque usou tal conceito em sua ilustração.

 

44) Care for the Soul:…Intersection of Psychology & Theology:

 

Tanto os escritores do Novo Testamento quanto os autores patrísticos acreditavam que depois da morte deixariam para trás um corpo físico que se decomporia na sepultura, e iriam para a presença de Cristo em um corpo invisível e imaterial chamado de “alma”. O discurso monista de determinados teólogos de hoje demonstra que a teologia foi indevidamente influenciada por conceitos que valorizam apenas o que é físico (em detrimento de aspectos espirituais intrínsecos do corpo). Muitas pessoas não têm mais interesse pela teologia que existe desde os tempos antigos, pois ela perdeu espaço nas universidades e foi sobrepujada pela psicologia [que alguns querem integrar com a própria teologia].

 

45) Encyclopædia Britannica:

 

O conceito de aniquilação total depois da morte, ou seja, a extinção completa, é uma ideia sofisticada que não existia entre os povos da Antiguidade e só apareceu no século 6 a.C. no pensamento budista indiano, e no Mediterrâneo foi expresso pelo filósofo grego Epicuro no final do século 4 a.C. Embora os hebreus antigos não fossem aniquilacionistas, pois acreditavam que os mortos sobrevivem em formas sombrias no Seol, eles viam o homem como um organismo cujos elementos materiais e não-materiais eram essenciais para a personalidade humana e a morte quebrava essa ligação. [Por isso os mortos eram “sombras” enfraquecidas no Seol]. Já no dualismo grego a ruptura da alma-corpo é irrelevante, pois o corpo é visto como um constituinte mau do qual a alma anseia libertar-se, pois estar junto a ele é uma forma de penalidade.

 

46) Grande Enciclopédia Barsa:

 

Tanto os judeus quanto os cristãos antigos acreditavam que só os escolhidos receberão a vida eterna e que os maus serão condenados à Geena ardente. Este ensinamento está no Novo Testamento, que também mostra que as almas dos eleitos iriam para o seio de Abraão ou paraíso, chamado também de céu na tradição cristã.

 

47) The Modern Theologians… Christian Theology Since 1918:

 

De acordo com uma visão budista adaptada ao Cristianismo, na morte a pessoa deixa de existir completamente (sem alma espiritual) e simultaneamente recebe o corpo da ressurreição. [Não há período de “sono” ou inatividade]. Porém o ressuscitado é uma cópia da pessoa original, uma réplica psicofísica exata de quem morreu.

 

48) Old Testament Theology:

 

Assim como os céus são uma região acima da Terra, o Seol é uma região abaixo dela. O Seol é tão distante que uma pessoa pode ser lançada para lá da mesma maneira que alguém pode ser lançado do céu para a Terra. O falecido profeta Samuel falou com o rei Saul. A “árvore da vida” do Éden pode ser um simbolismo para representar a vida plena que Deus dá ao homem. E enquanto Deus não proporciona à inteira humanidade tal benefício, alguns servos dele já podem usufruí-lo de imediato, conforme sugerido nas palavras de Jesus de que Ele não é Deus de mortos, mas de vivos. Quanto aos demais, que não conhecem a Deus, eles aguardam no Seol pela ressurreição.

 

49) Ancient Near Eastern… World of the Hebrew Bible:

 

O Seol é a morada dos espíritos dos mortos e não é o mesmo que sepultura. Quando a Bíblia usa “Seol” em referência à sepultura ou à morte é apenas uma metáfora. O sentido literal dessa palavra se refere ao mundo inferior [ou subterrâneo]. A concepção que os hebreus tinham sobre tal lugar é semelhante à encontrada na literatura mesopotâmica. Ou seja, um lugar desagradável [e que fica nas profundezas da Terra].

 

50) Encyclopaedia Judaica – Second Edition:

 

O judaísmo sempre possuiu a crença de uma vida após a morte, embora ela tenha tido vários formatos ao longo do tempo. O judaísmo primitivo, por exemplo, concebia que os mortos estão vivos no Seol, porém em uma existência etérea e sombria. [Por isso eles são chamados no Antigo Testamento de “sombras”]. Embora o episódio de Endor não seja de muito esclarecimento sobre a realidade dos mortos, ele indica claramente que existia entre os israelitas uma crença na vida após a morte.

 

51) A Hebrew and English Lexicon Without Points:

 

O Seol é o lugar invisível para onde vão os mortos. É retratado nas profundezas da Terra, mesmo quando os mortos não são mencionados. Portanto, não é o mesmo que sepultura.

 

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Para saber o que dizem outros livros mencionados pelo autor do MB consulte a seção 8.

 

Dentre todas essas informações, uma coisa ficou bastante evidente: a maioria das obras citadas não dão qualquer indicativo de que a Bíblia ensina que a pessoa que morre deixa de existir completamente. As únicas exceções são as de nº 42 e 47 (esta com ressalva), e talvez as obras 5, 37 e 40, e mesmo assim apenas uma delas parece ensinar exatamente aquilo em que o autor do MB acredita. Também está claro que quase todas afirmam que há uma existência contínua fora do corpo físico. Portanto, tais referências bibliográficas não servem para dar suporte ao aniquilacionismo materialista.

 

Saiba que não é de hoje que o autor do MB utiliza obras eruditas de referência no afã de conseguir extrair delas afirmações a favor do que acredita sobre a morte. Por exemplo, ao tentar provar que Hades ou Seol é simplesmente sinônimo de sepultura ele já havia citado determinadas declarações dos comentaristas Albert Barnes e S. D. F. Salmond, onde eles expressam a opinião de que Jesus não desceu às profundezas da Terra para pregar a espíritos aprisionados, contrariando assim o entendimento de muitos cristãos da Antiguidade (e atuais). Mas, não obstante a opinião que Barnes e Salmond tinham contra essa famosa “pregação de Jesus no Inferno” (Efésios 4:9; 1 Pedro 3:18-20), eles acreditavam totalmente na existência do Hades no subterrâneo profundo da Terra e que os espíritos dos mortos iam para lá! Veja o que Salmond disse a respeito:

 

“A morte não é o fim do ser, mas a penalidade e redução do ser, que leva a dois resultados distintos – remoção da convivência dos vivos na terra e remoção da convivência de Deus. O homem morto não deixa de existir. Ele passa a uma condição de existência inferior ao que usufruía aqui. . . . Mas se a pessoa não deixa de existir integralmente quando morre, onde ela existe e em que condição? A resposta é no mundo subterrâneo e como uma sombra. A ideia de um lugar subterrâneo que reúne os que partiram aparece tanto no Velho Testamento quanto entre gregos e babilônios... seu nome declarado é Sheol... diferindo do sentido de sepultura. . . . Então a pessoa viva se torna no Além uma pessoa morta, retendo uma existência negativa, uma versão enfraquecida do que era antes, com suas faculdades dormentes, sem força, memória, consciência, conhecimento ou a energia de qualquer afeição. A identidade continua; a forma persiste, tanto que ela pode reconhecer e ser reconhecida... A subsistência vazia, lânguida, gasta e magra, que é tudo o que é possível lá, encontra expressão no nome característico que é dado em Jó, Provérbios e Isaías aos habitantes do Sheol – os Rephaim, as sombras, os habitantes debilitados, flácidos”. – A Doutrina Cristã da Imortalidade (1896), de Stewart Dingwall Fordyce Salmond, pp. 199-206.

 

Salmond ainda dedicou um capítulo inteiro de seu livro (p. 630) para discorrer contra o aniquilacionismo, e também afirmou que há três categorias de seres vivos: os anjos, os que vivem na terra e os que partiram para o mundo subterrâneo (p. 542). Barnes, por sua vez, escreveu bastante contra ideias aniquilacionistas. Por exemplo, comentando a afirmação de Jesus de que ninguém consegue matar a alma, mas apenas o corpo, Barnes disse o seguinte em seu comentário bíblico:

 

“Eles que matam o corpo. Isto é, os homens, que não têm nenhum poder para ferir a alma, a parte imaterial. O corpo é a matéria menor, em comparação com a alma. A morte temporária é algo mínimo, comparada à morte eterna, ele os alerta, entretanto, a não se alarmarem diante da perspectiva de uma morte temporária; antes temam a Deus, aquele que pode destruir tanto a alma quanto o corpo para sempre. Esta passagem prova que os corpos dos iníquos serão levantados para serem punidos para sempre”. – Comentário sobre Mateus 10:28.

 

Para finalizar com mais um exemplo, o autor do MB ao tentar provar que os apóstolos não acreditavam na existência de fantasmas (espíritos dos mortos que assombram os vivos), cita o comentarista John A. Broadus, que defendeu o ponto de vista de que quando os apóstolos viram na escuridão Jesus andando sobre as águas e gritaram “É um fantasma!”, a tradução mais adequada seria “É uma aparição!”, versão que seria ainda melhor do que “É um espírito!” (Mateus 14:26). Dependendo da Bíblia utilizada, qualquer uma dessas possibilidades pode ser vista. Naturalmente, ao citar Broadus, o autor do MB pretendia dizer que os espíritos dos mortos não podem existir porque os mortos não existem mais. Ou seja, foram aniquilados. Mas, para “variar”, no mesmo livro onde falou da palavra “fantasma”, Broadus se posicionou abertamente a favor da imortalidade da alma e contra o aniquilacionismo, e em sua acepção mais ortodoxa:

 

“Não temam os homens, mas temam a Deus. A ideia de alguns de que a frase Aquele que é capaz de destruir a alma e o corpo no inferno significa Satanás é totalmente injustificada e inadequada. Deus é capaz de destruir; Ele não deseja que ninguém pereça. (2 Pedro 3: 9) Jesus não diz que Deus matará a alma, mas, evitando esse termo, diz que vai destruir a alma e o corpo. Pois ‘destruir’ não significa aniquilação, mas apenas ruína, perdição, a destruição de tudo o que torna desejável a existência”. – Comentário sobre Mateus 10:28.

 

“As associações mais íntimas desta vida serão, em muitos casos, separadas, num momento e para sempre, pela vinda de Cristo. E assim a morte, todavia para nenhum [será] um sono eterno, infelizmente será para muitos uma separação eterna... Se a punição eterna envolve qualquer realidade física correspondente ao fogo, não sabemos; haverá algo tão ruim quanto o fogo, e sem dúvida pior, pois nenhuma imagem terrena pode ser adequada... Será imediatamente dado como certo, por qualquer mente sem preconceitos e dócil, que o castigo dos ímpios durará tanto quanto a vida dos justos; é extremamente improvável que o Grande Mestre teria usado uma expressão que tão inevitavelmente sugere uma grande doutrina caso realmente ele não tivesse a intenção de ensiná-la; Aqueles que negam a doutrina [do sofrimento eterno] devem estabelecer aqui uma diferença de significado, e com uma presunção esmagadora em desfavor deles”. – Comentário sobre o capítulo 25 de Mateus (destino dos justos e dos injustos), colchetes acrescentados.

 

No capítulo 7 do meu livro “Sobre o Aniquilacionismo e a Imortalidade da Alma” eu comentei esse mau uso que o autor do MB faz de fontes bibliográficas ao tratar desse assunto de vida após a morte. É muito provável que ele tenha lido tudo o que eu escrevi, pois depois que foi avisado da existência do meu livro ele começou a ampliar as suas críticas, citando pontos específicos do meu texto, mas sem revelar a origem ou o seu autor.

 

Logo, ao invés de desistir dessa prática inadequada depois que ela foi exposta publicamente, ele fez exatamente o contrário, a reforçou... Lançou mão de todas essas obras aqui analisadas como se elas servissem para apoiar o que ele defende, quando, na verdade, a maioria delas ensina precisamente o contrário da crença aniquilacionista! Se isso não é obstinação ou teimosia, o que então poderia ser?

 

4. O QUE O AUTOR “BEREANO” PENSOU QUE VIU NOS LIVROS QUE CITOU

 

Conforme visto nas seções anteriores, o verdadeiro ensino de quase todas as referências citadas pelo autor do MB é bastante diferente do que ele gostaria que fosse. A única maneira de tais obras serem utilizadas para alimentar o ideal aniquilacionista é citá-las fora do contexto autoral e, consequentemente, em desacordo com a intenção dos autores. O que levaria alguém a fazer isso? Quem está fora dessa discussão poderá concluir que foi devido a uma leitura incompleta desses livros, o que realmente deve ter acontecido em determinados casos, ou tão somente má fé. Ainda que haja esta última possibilidade em algum momento, a verdadeira origem do problema está nos cinco erros descritos a seguir:

 

1) Não entender as críticas contra o conceito de imortalidade da alma

 

Quando teólogos fazem críticas ao conceito grego da imortalidade da alma, eles estão pensando somente no que ele significa. Para os gregos, em especial os seguidores de Platão, a alma já existe antes do nascimento da pessoa e se encarna no corpo apenas para passar uma temporada na Terra, e durante sua estada no mundo físico anseia por sua partida, pois o corpo é um repositório mau que deve ser descartado para o alcance da plenitude na esfera celeste. Nesse sistema filosófico não há espaço para a ressurreição do corpo. Além disso, a alma não pode ser destruída sob nenhuma hipótese, pois é uma parte secundária de Deus. Veja mais detalhes no apêndice A.

 

A crença judaico-cristã, por outro lado, diverge do entendimento grego, pois sustenta que Deus ressuscitará o corpo físico da pessoa falecida. E essa ressurreição consistirá em recolocar no corpo recriado a sua alma, que até chegar esse momento fica esperando por isso no Hades (Seol) ou até mesmo no céu. A partir desse reencontro a alma ficará para sempre junto de seu corpo físico, porém num estado glorificado e poderoso. Características que nenhum ser humano atualmente possui. Ou seja, os referidos teólogos, ainda que rejeitem as ideias de independência e indestrutibilidade inerentes da alma, em sua maioria acreditam que ela sobrevive à morte física e fica consciente em algum lugar, aguardando a ressurreição. Depois deste evento é que se inicia a verdadeira vida, pois a pessoa estará apta a viver tanto no mundo físico quanto no espiritual, da mesma maneira de Jesus. Tal expectativa está de acordo com o texto abaixo:

 

“E vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido mortos porque haviam anunciado a mensagem de Deus e tinham sido fiéis no seu testemunho. Eles gritavam com voz bem forte: – Ó Todo-Poderoso, santo e verdadeiro! Quando julgarás e condenarás os que na terra nos mataram? – Cada um deles recebeu uma roupa branca. E foi dito a eles que descansassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus companheiros no trabalho de Cristo, que eram seus irmãos e que iam ser mortos como eles tinham sido. . . . Em seguida vi alguns tronos, e os que estavam sentados neles receberam o poder de julgar. Vi também as almas das pessoas que tinham sido degoladas porque haviam anunciado a mensagem de Deus e a verdade que Jesus revelou. Elas não tinham adorado o monstro nem a sua imagem, nem tinham recebido o seu sinal na testa ou na mão. Essas pessoas tornaram a viver e reinaram com Cristo durante os mil anos. Os outros mortos não tornaram a viver até que os mil anos terminaram. Esta é a primeira ressurreição”. – Apocalipse 6:9-11, 20:4, 5.

 

O cenário acima descrito confirma o que Jesus já tinha dito sobre os cristãos que seriam assassinados na Terra:

 

“Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28, TNM.

 

2) Deslocar o centro da discussão para se esquivar da ideia primária

 

Um exame da literatura cristã do século 2 em diante, chamada de Patrística, demonstra acima de qualquer dúvida que todos os cristãos acreditavam que a alma sobrevive à morte. O que demonstra que os textos bíblicos supracitados devem ser entendidos assim mesmo, do jeito que estão, longe das releituras e interpretações que os aniquilacionistas insistem em fazer.

 

No entanto, como se vê nas palavras de Jesus, há um detalhe adicional relacionado à sobrevivência da alma, que já foi objeto de controvérsias no início do Cristianismo: Seria a alma inerentemente imortal e por isso não poderia jamais ser destruída? Se a resposta fosse dada pelo viés helenístico a resposta seria indubitavelmente “sim!”. No entanto, se nos basearmos apenas no que Jesus disse a resposta não será bem essa, pois ele indicou claramente que a alma pode ser destruída ou perecer, conforme a tradução mais aceita. Mas isso não acontece depois da morte do corpo físico. É um evento possível apenas para depois do Julgamento Final, numa data desconhecida no futuro. Até lá as almas ficam no Hades ou no domínio celestial, vivas e conscientes.

 

O que Mateus 10:28 apresenta relaciona-se apenas à destrutibilidade da alma, e não à sua extinção imediata após a morte do corpo físico. Embora isto esteja bastante claro no versículo, devido à advertência de Jesus os aniquilacionistas dizem: “Olha aí! Está vendo como a alma não é imortal? Pois Jesus disse que ela pode ser destruída”. Sim, e daí? Qual é o problema nisso? Absolutamente nenhum! A questão importante aqui é saber se o homem possui ou não uma alma que continua viva depois da morte. O que acontecerá com ela na eternidade é uma questão completamente secundária. Além disso, não faz o menor sentido os adeptos do materialismo “cristão” se agarrarem à segunda parte desse versículo, visto que eles acham que a morte do corpo resulta automaticamente na morte da alma, visto que atrelam o sentido dessa palavra (“alma”) ao enfoque dado pela parte hebraica da Bíblia. Fazer isso sem considerar todos os fatores envolvidos é o terceiro problema.

 

3) Usar de maneira errônea o enfoque da Bíblia hebraica sobre o termo “alma” (nefesh)

 

O Velho Testamento diz que o homem é uma alma vivente. Então, se o homem morre, logicamente a alma também morre. No entanto, isso é apenas uma peculiaridade literária, pois o próprio Antigo Testamento traz também a ideia implícita de que existe uma alma que sobrevive à morte, ainda que não seja a nefesh enquanto homem. É o caso do texto de Salmos que foi aplicado à morte de Jesus:

 

“Não deixarás a minha alma do Seol”. – Salmo 16:10; Atos 2:22-28.

 

De acordo com o raciocínio inflexível dos aniquilacionistas, após a morte não existe mais nenhuma alma, então, como uma alma poderia ser tirada do Seol?

 

O que os defensores do materialismo “cristão” não entendem é que a concepção bíblica sobre a existência não é rígida e apresenta pontos de inflexão, que não estão obrigatoriamente atrelados à visão hebraica mais usual. Observe no texto abaixo de Jó que a alma vivente chamada “homem” possui outra alma dentro dele:

 

“O homem, nascido de mulher, é de vida curta e está empanturrado de agitação. Como a flor, ele brota e é cortado, e foge como a sombra.... Apenas a sua própria carne, enquanto estiver nele, continuará a sentir dores, e a sua própria alma, enquanto estiver nele, continuará a prantear”. – Jó 14:1, 2, 22, TNM.

 

E foi justamente Jó quem disse que gostaria de ficar aguardando no Seol a chamada de Deus, e assim que a ouvisse ele responderia prontamente. Ou seja, ao que parece ele quis dizer que desejava morrer para interromper o sofrimento pelo qual estava passando na carne. Quem não existe não pode nutrir as expectativas que Jó disse que nutriria caso fosse para o Seol. Note que outras partes da Bíblia também chamam os que estão no Seol de sombras (Jó 10:20-22; Salmos 88:10, 11; Isaías 26:19), o que está de acordo com o que foi dito por Jó e isso certamente não é coincidência. Sobre essa passagem de Jó 14:2, 22 uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém diz:

 

“Ou o autor pretende dizer que esta sombra só pensa e sente pena por ela própria; ou então, que se lembra com saudade da sua existência carnal”. – Comentário sobre Jó 14:1-22.

 

4) Ignorar o que comentaristas disseram sobre o mundo dos mortos

 

Os aniquilacionistas ainda ampliam a incoerência por acharem que o Seol é sempre sinônimo de sepultura, seja em sentido figurado, referindo-se à humanidade inteira, ou em sentido literal, indicando uma sepultura individual. Mas como foi visto em algumas obras de referência aqui citadas, na visão bíblica o Seol é um dos limites do universo e está muito distante do lugar onde ficam os cemitérios. Neste caso, quando a Bíblia diz que alguém vai para lá depois da morte ela não se refere ao corpo que fica em uma sepultura, ainda que esta seja a “porta de entrada” para tal lugar normalmente inacessível.

 

De acordo com alguns textos do Antigo Testamento, o Seol é um lugar de trevas onde as almas que lá estão são “sombras” indigentes, fracas e entristecidas, e o sono é a marca característica delas. O que é bastante lógico, pois comparando com a realidade terrestre, o que é que normalmente se faz na escuridão da noite? Isso mesmo. Dorme-se! Sendo assim, a existência dos mortos, de acordo com o ponto de vista semítico, não pode ser chamada verdadeiramente de vida, embora eles estejam vivos lá no mundo deles (eles estão mortos apenas do nosso ponto de vista). É um cenário tão deprimente e indesejável que já houve quem se referisse a ele como o “não-mundo”, dado o contraste que há com a vida na Terra, repleta de atividades das mais diversas e também de alegrias.

 

No entanto, partindo-se da compreensão errônea que os aniquilacionistas têm do Seol, as declarações dos comentaristas bíblicos sobre esse lugar passam a ser entendidas incorretamente ou menosprezadas. Quando os eruditos dizem que os mortos não têm atividade vital no Seol, estão dormindo ou inconscientes é dentro da realidade acima descrita. Não se trata de uma linguagem figurada para se referir à inexistência completa de quem morreu. É uma referência à realidade sombria do Seol que, para todos os efeitos, é o oposto da vida com a qual todo hebreu estava acostumado enquanto sua alma não partisse como uma sombra para tal lugar, no momento da morte.

 

5) Valer-se de peculiaridades de cada autor ou de teorias formuladas por teólogos liberais

 

Como veremos melhor nesta seção, há eruditos que, embora não sejam aniquilacionistas ou materialistas, quiseram inovar em alguns entendimentos e romperam com visões que eram aceitas amplamente na Antiguidade entre judeus e cristãos. Normalmente o que leva esses autores a tomarem esse caminho é o desconforto que sentem diante da doutrina grega da imortalidade da alma, que foi parcialmente aceita pelos cristãos ao longo dos séculos, e por acharem que as pessoas no passado estavam entregues a crenças primitivas que não podem corresponder à realidade. O mundo dos mortos situado a milhares de quilômetros no subterrâneo terrestre* seria um desses mitos. Visto que nenhum estudo de algum instituto sismológico ou geológico detectou qualquer tipo de atividade inteligente nas profundezas da Terra, essa concepção dos antigos aparentemente estaria mais para mitologia. Obviamente se o mesmo critério fosse utilizado para determinar a existência do céu onde os anjos estão, esta crença também seria posta em dúvida.

 

* Considerando a cosmografia hebraica, quando se diz que o Seol está “debaixo da terra” isto também pode significar que ele está depois dela, para baixo, assim como o céu está para cima, nas alturas. Ou seja, dois mundos localizados em pontos opostos com a Terra no meio. Isto explicaria porque a literatura rabínica diz que o Seol é muitas vezes maior do que a Terra. Se é maior, então significa que ele não está dentro dela.

 

Nos parágrafos seguintes serão apresentadas algumas dessas peculiaridades que vez ou outra são citadas por aniquilacionistas no intuito de anular a força de determinados textos bíblicos que sempre foram utilizados para provar biblicamente a vida depois da morte. Dentre elas está um conceito que foi chamado por um religioso brasileiro de “kairosfera”, que se refere ao mundo celestial, o qual supostamente seria atemporal. Em contraste, a esfera terrestre é chamada de “cronosfera”, pois é aqui onde existe a passagem do tempo e a cronologia.

 

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Veja a seguir as principais citações que o autor do MB fez das 51 obras que foram aqui analisadas. Perceba que se os cinco pontos acima explicados forem levados em consideração, poucas das referências citadas atendem realmente o que pressupõe o autor do MB, ainda que lhe convenha uma ou outra peculiaridade presente no entendimento de cada comentarista bíblico.

 

- Os negritos são do autor do MB, e os destaques em azul ou vermelho são meus.

 

- As citações foram abreviadas para visualizar facilmente os pontos que interessam.

 

- Os trechos completos citados pelo autor do MB estão publicados neste link: A ‘Vida Após a Morte’ na Concepção Hebraica e Cristã Primitiva.

 

1) Commentary Critical... on the Old and New Testaments:

 

“[Jó 15]:22. ‘Carne’ e ‘alma’ descrevem o homem inteiro. As Escrituras baseiam a esperança de uma vida futura, não na imortalidade inerente da alma, mas na restauração do corpo com a alma. . . . [Marcos 12:]27. Ele não é o Deus dos mortos, mas [o Deus] dos vivos... É certamente verdade que para Deus nenhum ser humano está ou estará morto, mas toda a humanidade mantém uma relação consciente permanente com Ele... Estes mantêm uma graciosa relação pactuada com Deus que não pode ser dissolvida. (Cf. Romanos 6:10, 11) Nesse sentido, nosso Senhor afirma que para Moisés chamar o Senhor de ‘Deus’ dos seus servos patriarcais, se naquele momento eles não tivessem qualquer existência, seria indigno dele... nosso Senhor mostrou que até mesmo lá a doutrina da Ressurreição foi ensinada. . . . Em parte alguma [das Escrituras] se ensina a imortalidade da alma, distinta do corpo: um conceito que muitos erroneamente derivaram de filósofos pagãos. As Escrituras não contemplam o estado anômalo provocado pela morte como a meta a se buscar seriamente (2 Coríntios, 5, 4), e sim a ressurreição”. – Vol. I, p. 789; Vol. III, pp. 212, 213; Vol. III, p. 784, colchetes acrescentados.

 

Não obstante a interpretação apresentada sobre ninguém estar morto para Deus, não foi dito que os mortos são pessoas que não existem mais. O que deixa de existir é a versão física da pessoa, ou seja, a constituição humana. Mas sua alma espiritual continua viva literalmente, conforme essa mesma obra afirmou, em referência ao Seol: “O lugar das almas que se foram, onde Jacó esperava na morte se encontrar com seu filho amado”. Conforme já visto, José não estava enterrado em lugar algum. E tampouco o local onde Jacó esperava encontrar-se com ele seria a sepultura onde o seu corpo viesse a ser depositado, e muito menos tal encontro seria com o corpo físico sem vida, ou seja, sem a alma que desceria ao Seol. Logo, seria a alma de Jacó, a alma que toda nefesh possui, que se encontraria com a alma de José no mundo dos mortos. – Vol. 1, pp. 23, 24.

 

Sobre a questão da imortalidade, é completamente verdadeiro que a Bíblia não ensina o que os gregos ensinavam sobre a alma, conforme comentado anteriormente. Mas as almas continuam existindo no Seol e de maneira consciente, ainda que taciturna.

 

2) The Jewish Encyclopedia:

 

“A crença de que a alma continua sua existência após a dissolução do corpo é uma questão de especulação filosófica ou teológica, e não de simples fé e, concordemente, não é ensinada expressamente em parte alguma da Sagrada Escritura... a alma desce para o SHEOL ou Hades, para levar lá uma existência sombria, sem vida e inconsciente... a vida eterna era atribuída exclusivamente a Deus e aos seres celestiais que ‘comem da árvore da vida e vivem para sempre’... Foi só em conexão com a esperança messiânica que, sob a influência de ideias persas, a crença na ressurreição emprestou à alma desencarnada uma existência contínua... A crença na imortalidade da alma chegou aos judeus do contato com o pensamento grego e principalmente por meio da filosofia de Platão, seu principal expoente. . . . Como todos os povos da antiguidade, os hebreus primitivos acreditavam que os mortos descem ao mundo inferior e vivem ali uma existência descaracterizada... A concepção hebraica mais antiga sobre a vida considerava de tal maneira a nação como uma unidade que não se considerava qualquer mortalidade ou imortalidade individual... Um conceito diferente, que tornava uma ressurreição desnecessária, foi mantido pelos autores do Sal. xlix. e lxxiii., que acreditavam que na morte apenas os ímpios iam para o Seol e que as almas dos justos iam diretamente para Deus. Isto, também, parece basear-se em conceitos análogos aos de Jeremias e Ezequiel, e provavelmente não foi mantido amplamente. No longo prazo, o antigo conceito nacional se afirmou na forma das esperanças messiânicas. Estas deram origem a uma crença numa ressurreição” – Verbetes “Imortalidade da Alma” e “Ressurreição”.

 

Novamente, a Bíblia não ensina a versão grega de imortalidade. E a existência descaracterizada no Seol é apenas uma referência ao estado debilitado dos que estão lá (a palavra inglesa utilizada aqui é colorless, que ficaria melhor traduzida por “pálida” ou “sem cor”, que é uma alusão à aparência das “sombras” do Seol, ou seja, as almas dos mortos). Não se refere à inexistência absoluta de quem morreu. Por isso a Enciclopédia Judaica disse que os mortos vivem no Seol. Os mortos podem até estar enfraquecidos, mas mesmo assim são fracos que existem literalmente e que se movimentam quando querem. Quanto à questão da influência persa, diz respeito à ressurreição do corpo. Muitos comentaristas dizem que essa crença surgiu entre os judeus devido ao contato com os persas durante o exílio babilônico, sendo que na visão de alguns salmos bíblicos a ressurreição não é absolutamente necessária para o fiel ir até à presença de Deus. O que está totalmente de acordo com outras partes da Bíblia, mesmo levando-se em consideração que a ressurreição do corpo ocorrerá de qualquer maneira. É o caso quando Paulo disse que só estaria na presença de Cristo quando deixasse o corpo e também das almas que pediram vingança diante do altar de Deus. – 2 Cor. 5: 6, 8; Apocalipse 6:9-11, 20:4, 5.

 

3) The International Standard Bible Encyclopedia:

 

“Pois sempre somos mais ou menos influenciados pelo conceito grego, platônico, de que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita, e não se encontra em parte alguma no Antigo Testamento. O homem inteiro morre, quando na morte o espírito... Não só o seu corpo, mas sua alma também retorna a uma condição de morte e pertence ao mundo inferior; desta forma o Antigo Testamento pode falar da morte da alma de alguém... O Seol (she'ol) está em contraste com a terra dos vivos em todos os aspectos... é uma morada de escuridão e sombra da morte... um lugar de destruição, sim a própria destruição... Os mortos (‘as sombras’ na Versão Revisada, margem; confira o artigo MORRER) estão dormindo... enfraquecidos (Isa. 14:10) e sem forças (Sal. 88:4) . . . . Será visto à medida que avançamos, que o conceito bíblico é diferente de todos estes [dos conceitos mantidos pelos povos da antiguidade, como os egípcios]. A alma, de fato, sobrevive ao corpo; mas esta condição desencarnada nunca é encarada como uma de completa ‘vida’... A esperança deles de imortalidade, portanto, era, em princípio, não apenas a esperança de uma ‘imortalidade da alma’, mas também da ressurreição – do completo livramento do Seol”. – Vol. II, pp. 811, 812; Vol. III, pp. 1458-1460, colchetes acrescentados.

 

A mesma coisa: a imortalidade da alma conforme os gregos concebiam não é ensinada na Bíblia. Mesmo assim, de acordo com a mesma Bíblia, os que morrem continuam vivos no Hades ou Seol, ainda que enfraquecidos, dormindo ou inconscientes. Mas a inconsciência aqui é mais ou menos como a inconsciência durante o sono de um ser humano. Não significa que a pessoa não existe ou não está viva. Os pensamentos continuam e a pessoa acorda quando quer ou precisa. Ou seja, há movimento e atividade, mesmo que no Seol hebraico seja tudo muito mais restrito.

 

4) Jewish Theology: Systematically and Historically Considered:

 

O homem inteiro, tanto o corpo como a alma, tem assim a potencialidade de uma vida mais elevada e mais nobre... a totalidade do homem é permeada pelo espírito de Deus... a teoria dele [de Filo] era a platônica [e]... não tem qualquer fundamento bíblico... Além da doutrina filosófica da imortalidade da alma, porém, a crença tradicional na ressurreição do corpo exigiu alguma consideração por parte desses filósofos [judeus]... A crença na ressurreição tinha criado raízes tão profundas na consciência judaica e tinha sido estabelecida tão firmemente por meio da liturgia da Sinagoga, que filósofo algum poderia tocá-la sem ferir os próprios fundamentos da fé”. – pp. 212-214; 290-293, colchetes acrescentados.

 

A desvalorização do corpo, especialmente em relação à vida eterna, era um pensamento tipicamente grego e não encontra respaldo nas Escrituras. A ressurreição envolve necessariamente um corpo físico, embora a parte espiritual do homem continue viva depois da morte. Logo, mais uma vez o trecho citado não atende ao propósito pretendido pelo autor do MB. É “confundir alhos com bugalhos”, como diz o adágio popular.

 

5) Die Letzten Dienge: Lehrbuch der Eschatologie:

 

“O corpo e a alma desaparecem. A morte é o colapso do homem em um poço sem fundo ... É uma partida para o nada... A morte é mais do que uma saída da alma do corpo. A pessoa, corpo e alma, está envolvida na morte... A fé cristã nada sabe sobre uma imortalidade da pessoa. Isso significaria uma negação da morte, não reconhecê-la como julgamento de Deus. Ela conhece apenas um despertar da morte real por meio do poder de Deus. Só há existência após a morte por um despertar da ressurreição da pessoa inteira”. – pp. 83, 157.

 

Este é um fragmento bastante divulgado por diversos sites adventistas, que o reproduzem exatamente como está transcrito acima, com reticências. Nunca trazem o texto completo de Althaus. Provavelmente porque nenhum de seus divulgadores o leu completamente no original em alemão, e se dão ao trabalho apenas de copiar e colar esses dois trechos que alguém traduziu. Essas afirmações do teólogo Paul Althaus é o que podemos chamar de um desvio ocasional do padrão das obras sérias citadas pelo autor do MB, pois têm feições nitidamente aniquilacionistas, embora o que Althaus escreveu possa ser compreendido perfeitamente à base do entendimento verdadeiramente bíblico sobre a morte. A escolha que ele fez das palavras talvez tenha tido exatamente esse propósito dúbio.

 

O que o autor do MB talvez não soubesse ao citar esse trecho é que Althaus fazia parte de um pequeno grupo de teólogos independentes que tentaram embaçar a imagem que a Bíblia apresenta sobre a existência contínua depois da morte. Dentre tais teólogos o mais conhecido e citado atualmente é Oscar Cullmann. Se o autor do MB tivesse percebido isso, provavelmente ele não teria citado Paul Althaus naquele momento, pois, ao que parece, a intenção inicial com essas citações era demonstrar que as próprias fontes “imortalistas” admitem tacitamente a “verdade” do aniquilacionismo. E citar uma obra abertamente aniquilacionista, ou algo próximo disso, não teria o mesmo valor. Naturalmente, essa “metodologia” implicaria em supor certo grau de desonestidade dos autores “imortalistas” citados, pois mesmo com tais “evidências” eles continuam acreditando que a alma continua viva depois da morte.

 

De qualquer maneira, um detalhe que deve ter passado sem o conhecimento do crítico renitente do MB é que Paul Althaus se “retratou” dessas coisas que dizia e, na prática, reconheceu que estava vendendo uma ideia que não corresponde completamente à realidade bíblica. Aparentemente esta é a razão porque, com um pouco de esforço, é possível ver no trecho citado uma negação do aniquilacionismo, dada à escolha que Althaus fez das palavras. Quem chamou atenção para a “retratação” de Althaus foi o também alemão Joseph Ratzinger, cardeal católico mais conhecido por Papa Bento XVI, no seu livro “Escatologia: a Morte e a Vida Eterna”. Note o que ele disse:

 

“Nas últimas décadas, surgiu uma questão básica sobre a imortalidade da alma e da ressurreição. A discussão que se seguiu tem transformado cada vez mais o panorama da teologia e da devoção. Oscar Cullmann coloca a situação de maneira superficial, senão drástica:

 

‘Se hoje se pergunta a um cristão mediano, não importa se protestante ou católico, intelectualmente inclinado ou não, o que o Novo Testamento ensina sobre o destino do ser humano individual após a morte, em quase todos os casos receberá a resposta “A imortalidade da alma”. Nesta forma, esta opinião é um dos maiores mal-entendidos do cristianismo que pode existir’.

 

“Hoje, poucos se aventurariam a oferecer a resposta que era antes uma questão bem definida, uma vez que a ideia de que esta resposta foi baseada em um mal-entendido se espalhou com uma velocidade surpreendente entre as congregações da cristandade. No entanto, nenhuma nova resposta de qualquer concretude tomou seu lugar. O caminho para essa mudança de atitudes foi pavimentado por dois homens: os teólogos protestantes Carl Stange (1870-1959) e Adolf Schlatter (1852-1938), até certo ponto auxiliados e coadjuvados por Paul Althaus, cuja escatologia foi publicada pela primeira vez em 1922. Apelando à Bíblia e a Lutero, esses homens rejeitaram como sendo dualismo platônico a noção de separação do corpo e da alma na morte, como pressupõe a doutrina da imortalidade da alma. A única doutrina verdadeiramente bíblica é a que sustenta que quando o homem morre ‘Perece, corpo e alma’. Somente dessa forma pode-se preservar a ideia da morte como um julgamento, do qual a Escritura fala com acentos tão inconfundíveis. A verdadeira coisa cristã, portanto, é falar não da imortalidade da alma, mas da ressurreição do ser humano completo e só isso... A piedade que circunda a morte, impregnada como está com uma escatologia de ir para o céu, deve ser eliminada em favor da única verdadeira forma de esperança cristã: a expectativa do Último Dia. Em 1950, Althaus tentou envidar algumas advertências contra esta visão que, entretanto, já tinha ganhado bastante terreno. Ele observou que a Bíblia estava perfeitamente familiarizada com o ‘esquema dualista’. Ela sabia não só da expectativa do Último Dia, mas também de uma forma de esperança individual para o céu. Althaus também tentou mostrar que o mesmo era verdadeiro para Lutero [ou seja, Lutero também reconhecia os dois aspectos: o integralista e o dualista]. E assim [Althaus] reformulou sua posição nas seguintes palavras:

 

‘A escatologia cristã não deve lutar contra a imortalidade como tal. O escândalo a que nos últimos tempos temos freqüentemente nos envolvido por esta luta não é o skandalon do qual o Evangelho fala’.

 

“Embora a discussão que se seguiu ao artigo [de ‘retratação’] de Althaus tenha produzido um amplo consenso a seu favor, suas ‘retratações’ não tiveram impacto no debate contínuo como um todo. A ideia de que falar da alma não é bíblica foi aceita de tal forma que até o novo Missal romano suprimiu o termo anima em sua liturgia para os mortos. Também desapareceu do ritual de sepultamento.

 

“Como foi possível derrubar tão rapidamente uma tradição firmemente enraizada desde a era da Igreja primitiva e sempre considerada central? Em si, a aparente evidência dos dados bíblicos certamente não teria bastado. Essencialmente, a força da nova posição decorria do paralelo entre, por um lado, a suposta ideia bíblica da indivisibilidade absoluta do homem e, por outro, uma antropologia moderna, elaborada a partir da ciência natural e a identificação do ser humano com seu corpo, sem qualquer resto que pudesse admitir uma alma distinta desse corpo. Pode-se admitir que a eliminação da imortalidade da alma remove uma possível fonte de conflito entre a fé e o pensamento contemporâneo. Entretanto, isso dificilmente salva a Bíblia, já que a visão bíblica das coisas é ainda mais primitiva pelos padrões modernos. A aceitação da unidade do ser humano pode ser satisfatória e boa, mas quem, com base nos princípios atuais das ciências naturais, poderia imaginar uma ressurreição do corpo? Essa ressurreição pressupõe um tipo de matéria completamente diversa, um cosmos fundamentalmente transformado que está completamente fora do que podemos conceber. Novamente, a questão de o que, neste caso, aconteceria com o morto até o ‘fim dos tempos’ não pode simplesmente ser deixada de lado. A ideia de Lutero sobre o ‘sono da alma’ certamente não resolve esse problema. Se não há nenhuma alma e, portanto, nenhum sujeito que se aproprie de tal ‘sono’, quem é essa pessoa que vai ser realmente levantada? Como pode haver uma identidade a partir do nada entre o ser humano que existiu em algum ponto do passado e a contraparte que tem de ser recriada? A irritada recusa de [ponderar] tais questões de ordem ‘filosófica’ não contribui para uma discussão mais significativa”. – Eschatology: Death and Eternal Life (1988), 2ª edição, de Joseph Ratzinger, pp. 104-106, colchetes acrescentados.

 

Há bastante sobriedade nesses comentários de Ratzinger, os quais demonstram que o aniquilacionismo, além de não ser bíblico, peca num aspecto crucial que seus defensores ignoram, referente à noção de existência, sobre o qual venho falando há bastante tempo. Se a morte ocasiona a inexistência total e absoluta, ao recriar um corpo no futuro e implantar nele as lembranças de alguém que faleceu Deus estaria criando apenas uma cópia da pessoa original. Embora isso possa parecer mera reflexão filosófica, desprezá-la é fechar os olhos ao que seria uma realidade inescapável. O que Ratzinger disse também toca na essência do que Jesus falou aos incrédulos saduceus, que só acreditavam no Pentateuco, de que Yahweh não é Deus de mortos, mas de vivos, e justamente por isto eles podem ser levantados. Ou seja, trazidos de volta. (Êxodo 3:1-6; Lucas 20:27-38). O que resulta em dizer que eles existem de alguma maneira após a morte, conforme o mesmo evangelista que registrou essa lição de Jesus aos saduceus deixou claro, ao mencionar o caso do ladrão arrependido na cruz e a parábola do rico e Lázaro (Lucas 16:19-31; 23:43). Comparando, alguém só pode ser levantado, depois de tropeçar e cair, se continuar existindo no chão onde caiu. Mas se a pessoa se precipitar nas lavas incandescentes de um vulcão e virar cinzas, não haverá ninguém para ser levantado. As ponderações subsequentes de Ratzinger deixam isso ainda mais patente:

 

“O primeiro ponto a que podemos chegar em uma tentativa de conclusão é que o elemento decisivamente novo que permitiu que o cristianismo emergisse do judaísmo era fé no Senhor ressuscitado e na veracidade atual de sua vida. A presença do Cristo ressuscitado transforma a fé em uma reivindicação realizada sobre o futuro, preenchendo-a com a certeza da própria ressurreição do crente. Mais parciais, os aspectos individuais são assumidos do judaísmo, sem ruptura de continuidade, e assimilados fragmentadamente neste fundamento cristológico. Através da fé no Senhor ressuscitado, o estado intermediário e a ressurreição estão ligados um ao outro de uma maneira mais completa do que poderia ter sido o caso anterior. No entanto, eles permanecem distintos [ou seja, a vida após a morte e a ressurreição são coisas distintas]. No Novo Testamento e nos pais [da Igreja] reaparecem todas as imagens geradas pelo judaísmo para o estado intermediário: o seio de Abraão, o paraíso, o altar, a árvore da vida, a água, a luz. Veremos daqui a pouco o quão conservadora a Igreja primitiva estava para ser nesta mesma área de representação escatológica. Longe de sofrer uma mudança do ‘semitismo’ para o ‘helenismo’, a Igreja permaneceu inteiramente dentro do cânon semítico de imagens, como demonstra a combinação da arte das catacumbas, da liturgia e da teologia...”. – Ibid., pp. 129, 130, colchetes acrescentados.

 

O conservadorismo da igreja primitiva mencionado refere-se à adesão dela ao entendimento semítico sobre a morte, segundo o qual a alma era lançada no poço profundo do Seol e não aniquilada. E sobre isso, Ratzinger disse:

 

“Parte desse conceito primitivo e generalizado da morte, para o qual Israel ainda não fez nenhuma contribuição distinta, é que a morte não é simplesmente aniquilação. O homem morto desce ao Sheol, onde experimenta uma espécie de ‘desvida’ entre as sombras. Como uma sombra, ele pode fazer uma aparição no mundo acima, e é assim percebido, como algo terrível e perigoso. No entanto, ele é essencialmente cortado da terra dos vivos, da vida prezada, banido para uma zona de não comunicação onde a vida é destruída precisamente porque o relacionamento é impossível. A extensão total do abismo do Sheol [feito] de nada é vista pelo fato de que Yahweh não está lá, nem é louvado lá. Em relação a ele também, há uma completa falta de comunicação no Sheol. A morte é, portanto, uma prisão interminável. É simultaneamente o ser e o não ser, de alguma forma a existência permanece e ainda assim a vida não . . . .

 

“Os antigos não comunicavam aos seus sucessores qualquer conceito claro do destino humano além do túmulo. A Igreja primitiva não poderia derivar suas respostas dessa fonte. Com base nos resultados que a nossa investigação produziu até agora, podemos formular com alguma confiança a nossa principal tese sobre esta questão. A visão da vida após a morte, o período de tempo entre a morte e a ressurreição que se desenvolveu na Igreja primitiva, é baseada em tradições judaicas da vida dos mortos no Sheol, tradições transmitidas e que receberam o foco cristológico no Novo Testamento. Qualquer outra posição diferente está em conflito com os fatos históricos. A doutrina da imortalidade na Igreja primitiva tinha dois lados. Primeiro, foi determinada pelo centro cristológico, de onde se garantia a indestrutibilidade da vida ganha pela fé. Em segundo lugar, ligou esta visão teológica à ideia de Sheol, utilizando essa ideia como fundamento antropológico e, assim, encontrou um amadurecimento numa crença básica que é, como vimos, de um tipo humano universal. Esta crença fundamental certamente se desenvolveu além do arcaico, mas suas implicações antropológicas não foram elaboradas de maneira consistente e precisa. Isso explica porque a Igreja primitiva não tinha uma terminologia unificada neste reino. Na tradição judaica, esse ser da pessoa humana que sobrevive à morte e, portanto, na perspectiva cristã, o portador da existência com Cristo, é mais freqüentemente chamado de alma ou espírito (esses termos estão lado a lado, por exemplo, no livro etíope de Enoque).

 

“Infelizmente, ambos os conceitos foram obscurecidos pelos sistemas gnósticos que se espalham rapidamente, nos quais a psique, a alma, é classificada como o mais baixo degrau da existência humana, em contraste com a condição mais elevada dos homens de espírito, os ‘pneumáticos’. O lastro assim levado a bordo por esses termos teve seu efeito muito além do âmbito dos simpatizantes do pensamento gnóstico”. – Ibid., pp. 80, 146, colchetes acrescentados.

 

Para mais informações sobre a teologia particular de Paul Althaus, consulte o livro Twentieth-Century Lutheran Theologians (2013), de Mark C. Mattes, p. 136 em diante. Se quiser ler as retratações de Althaus elas estão no artigo “Retraktionen zur Eschatologie”, do periódico de teologia liberal Theologische Literatur Zeitung 75 [Jornal de Literatura Teológica] (1950), número 4/5, coluna 256. O texto está em alemão.

 

6) Dictionnaire Encyclopedique de la Bible:

 

“A ideia judaica deriva da concepção judaica da personalidade humana, cujo ponto de partida é a afirmação da unidade desta personalidade. Para o hebreu, o princípio pessoal do homem, o seu ego não está no espírito apenas, e sim no corpo animado pelo sopro do Eterno, que se torna uma alma vivente; (Cf. Gênesis 2:7) essa alma é inseparável do corpo... A ressurreição marca a permanência da personalidade inteira, corpo e alma. É a vitória completa sobre a sepultura... Para os gregos, a personalidade humana compõe-se de duas partes, corpo e alma; mas esses dois elementos, longe de formarem um conjunto harmonioso, opõem-se um ao outro... a ideia de uma ressurreição do corpo não tinha lugar no pensamento grego”. – Vol. 2, p. 557.

 

Novamente, nenhuma novidade. O que essa obra 6 está dizendo é que a Bíblia não adere ao conceito grego sobre a alma. Nada mais que isso. Ela não está afirmando que quem morreu deixa de existir ou que não há uma alma invisível que permanece viva depois da morte. E nem poderia, pois, conforme visto na seção 2, esse mesmo dicionário diz que aqueles que vão para o Hades continuam conscientes, apesar de serem apenas “sombras”, e também que a alma é a parte imaterial do homem.

 

7) The Distinctive Ideas of the Old Testament:

 

“Estas [as ideias distintivas da religião do Antigo Testamento] são diferentes das ideias de qualquer outra religião. Em particular, elas são bem distintas das ideias da religião grega... [não] absolutamente nenhum [trecho do Antigo Testamento] que fale sobre alguma imortalidade da alma, que não é uma ideia bíblica de maneira alguma”. – pp. 10, 89, colchetes acrescentados.

 

Perfeito! A versão grega sobre a imortalidade da alma realmente não é ensinada na Bíblia. Mesmo assim, a Bíblia ensina, em especial no Novo Testamento, que a alma do homem permanece viva depois da morte e fica separada do corpo temporariamente. O que vai acontecer com ela na eternidade já é outra questão.

 

8) The Interpreter’s Dictionary of the Bible:

 

“... A nephesh ou ‘alma’ (veja acima, pags. 367-68), portanto, não continua a existir. Ela se desintegra, ou como no caso do servo sofredor, diz-se que ela é ‘derramada’ como uma oferenda à morte (Isaías 53:12). Os mortos são como ‘águas derramadas na terra que já não se podem juntar.’ (2 Sam. 14:14). Isso não significa, porém, que a existência cessa. O homem continua a viver, embora em um estado muito fraco, no mundo inferior do Seol, junto com os que passaram para este reino antes dele. Lá ele subsiste na escuridão (Jó 10:21-22), numa espécie de sono (Naum 3:18), na fraqueza (Isaías 14:10), no esquecimento (Salmo 88:12). Assim, a existência no Seol era concebida como o oposto da vida. A terra é o lugar da luz; o Seol está cheio da treva primordial (Gen. 1:2). Vida significa vitalidade e energia; a morte é fraqueza, inação, uma mera sombra da vida...  a ideia do homem como consistindo de corpo e alma que são separados na morte não é hebraica, e sim grega”. – Vol. II, 1953, p. 1015.

 

“A partida da nefesh [alma] deve ser encarada como uma figura de linguagem, pois ela não continua a existir independentemente do corpo, mas morre com ele (Num. 31:19; Jz. 16:30; Eze. 13:19). Nenhum texto bíblico autoriza a afirmação de que a ‘alma’ se separa do corpo no momento da morte.” – Vol. I, 1962, p. 802.

 

No AT ela jamais significa a alma imortal, mas é essencialmente o princípio da vida, ou o ser vivo, ou o eu como sujeito de apetite e emoção, ocasionalmente de volição [vontade própria].” – Vol. IV, 1962, p. 428.

 

O próprio fato da enciclopédia acima dizer que quem morreu experimenta um estado consciente em outro lugar, ainda que desprovido de força e alegria, descarta qualquer possibilidade dela ser usada para apoiar o aniquilacionismo. Mesmo assim, o autor do MB faz vista grossa a isso e destaca pontos que ele acha que dão suporte ao seu entendimento, quando, na verdade, são apenas tecnicismos ou detalhes idiomáticos. Não percebe que quando um erudito escreve um comentário sobre uma crença antiga ele se coloca no lugar de uma pessoa da época, a fim de descrever com precisão o que ela acreditava e de que maneira expressava sua crença (que se fosse descrita na linguagem atual atestaria mais ainda que os hebreus não eram aniquilacionistas).

 

Se a palavra “alma” for entendida apenas como pessoa humana que respira, é óbvio que o ser consciente no Seol (o “morto” do nosso ponto de vista) não poderá ser chamado de alma, pois ele sequer precisa respirar para continuar vivo. E a respiração é justamente a ideia por trás da origem etimológica da palavra alma e seu conceito subjacente. Mas isto não foi empecilho para que os gregos também chamassem as “sombras” do Hades de “almas” (eles intercambiavam as duas palavras). Se os hebreus não fizeram o mesmo é um detalhe completamente irrelevante no referido cenário. E nem isso é completamente verdadeiro, conforme está explicado na seção 5. O Seol é outra realidade: etérea, imaterial ou espiritual. Não é física, mas nem por isso menos real.

 

Portanto, não existe justificativa minimamente razoável para o autor do MB não compreender a verdadeira intenção autoral do livro citado, pois ela está demasiadamente escancarada para o leitor. E praticamente todas as outras obras citadas que abordam esses assuntos da nephesh e do Sheol colocam a situação na mesmíssima perspectiva!

 

9) The Encyclopedia Americana:

 

As citações desta enciclopédia apresentadas na seção 2 demonstram que essa obra é uma das mais “imortalistas” de todas as que o autor do MB citou. De modo que nem seria necessário dizer mais nada para comprovar o uso inadequado feito por ele. Mas vejamos mesmo assim o que as citações escolhidas pelo autor “bereano” dizem.

 

Ressurreição, um artigo de crença contido em todos as formulações da fé cristã, a saber, que no último dia todas as criaturas humanas que tiverem vivido na terra se levantarão de suas sepulturas nos corpos que tiveram em vida. Trata-se de uma doutrina peculiar à religião cristã, que não era mantida pelas nações pagãs da antiguidade nem pelos hebreus até o último período de sua história como nação. Nas Escrituras Hebraicas há muitos trechos que favorecem mais ou menos a doutrina da ressurreição dos mortos; mas tais trechos não estão em nenhum caso livres de ambigüidade”. – Edição de 1904, verbete “Ressurreição”.

 

Nenhuma novidade. A ressurreição do corpo físico é um dos principais ensinos do Cristianismo e sempre foi assim. Já em outras religiões onde esse conceito apareceu não houve a mesma consistência ao longo do tempo, embora o Judaísmo em dado momento também tenha se firmado nessa crença.

 

“A doutrina varia de uma crença num período de sobrevivência indefinido após a morte até a crença na vida pessoal eterna, sendo esta última o uso legítimo do termo imortalidade… O Seol, ou o reino das sombras, aparece na história primitiva dos judeus como uma amplificação da ideia do túmulo, como a morada escura dos espíritos que partiram, onde as almas vivem sem corpo, inconscientes, sem sentimentos. As referências na primeira parte das Escrituras do Antigo Testamento a uma vida futura são raras e vagas, e a doutrina da imortalidade da alma não é explicitamente ensinada em parte alguma nos livros primitivos... A origem da doutrina da imortalidade entre os gregos está perdida na mais remota antiguidade. Encontra-se nas primeiras tradições dos mistérios órfico e dionisíaco, nos poemas de Homero e Hesíodo, e constitui um princípio central na filosofia de Pitágoras... foi só com Platão que uma base filosófica foi fornecida à doutrina... Os conceitos dos gregos e, especialmente, os conceitos de Platão tiveram uma influência profunda e incalculável no pensamento cristão, nas primeiras formulações teológicas e na totalidade da filosofia ocidental. Platão não era apenas um estruturador da filosofia, um intérprete intelectual da realidade, era, mais ainda, um homem de religião, um vidente”. – Edição de 1959, Vol. XIV, pp. 716-718.

 

Note a incoerência em destaque. O autor do MB deixa em negrito a palavra “inconscientes”, em referência aos mortos, como se ela significasse total inexistência como preconiza o aniquilacionismo. No entanto, não foi essa a intenção de quem escreveu o trecho, pois ele afirmou que os tais “inconscientes” são “espíritos que partiram” para um lugar onde “as almas vivem”. Ele não estava falando de pessoas que deixaram de existir completamente, como acham os aniquilacionistas. Por isso que quando eles dizem que os mortos “estão inconscientes” estão usando esta expressão apenas em sentido figurado, pois quem não existe não pode experimentar qualquer estado.

 

Se considerarmos tudo o que as obras aqui analisadas disseram sobre o reino das “sombras” (Seol) nota-se facilmente que a inconsciência dos mortos é tal qual a que vemos nas madrugadas do nosso mundo. Qual o resultado de combinar cansaço com escuridão? Isso mesmo. Sono, muito sono. Ou seja, um estado de inconsciência temporária, porém de plena atividade cerebral, com sonhos, pesadelos e sobressaltos. Ou seja, a pessoa continua viva. Além disso, ao passo que a maioria dorme, insones estão curtindo a Netflix ou assaltando a geladeira. Mesmo não contando com tais benefícios, os que estão na noite eterna do Seol hebraico vivem uma realidade análoga. Estão permanentemente cansados e sonolentos*, mas mesmo assim vivos. Por isso podem se movimentar quando querem, como foi o caso dos que recepcionaram o rei de Babilônia ou dos servos do Faraó que continuavam a servi-lo no mundo inferior. – Isaías 14:9-11, 14, 15; Ezequiel 32:21, 22, 27.

 

Por fim, quando os hebreus, assírios ou babilônios se recusavam a chamar de vida a existência consciente no mundo subterrâneo, e sempre se referiam a ela com sentimentos negativos, sendo a palavra morte a única designação possível, é porque eles sabiam que lá embaixo não haveria atividades humanas, alegria ou diversão. O cenário que concebiam era todo deprimente e ausente daquilo que gostavam de fazer enquanto viviam na superfície do solo. E em épocas posteriores os hebreus ainda acrescentaram ao Seol a ideia de punição e tortura no fogo para aqueles que merecessem tal castigo (Hades / Geena / Inferno). Jesus Cristo e os escritores do Novo Testamento se referiam frequentemente a essa perspectiva de sofrimento para os maus que morriam. O mesmo fizeram os autores patrísticos.

 

* Quando a Bíblia diz que na morte o ‘espírito do homem volta para Deus’, há possibilidade disso significar que quando a pessoa desce para o Seol ela perde parte de suas faculdades cognitivas e sentimentos que tinha qual ser humano. Isto porque a palavra “espírito” frequentemente aparece na Bíblia com significado de atividade mental. Deste modo, os mortos agiriam que nem sonâmbulos, vagando por um mundo escuro e sem sentido. Só quando Deus ressuscitasse a pessoa, num corpo físico, é que o seu “espírito” lhe seria devolvido.

 

O tempo e os detalhes da Parousia são tratados em outro lugar. (Veja ESCATOLOGIA). Este artigo limita-se ao fato e à maneira da ressurreição. A crença escatológica judaica corrente, no início da era cristã, é manifestada por Marta em relação ao seu irmão Lázaro: ‘Eu sei que ele se levantará na ressurreição no último dia’ (João 11:24)”. – Edição de 1959, Vol. XXIII, pp. 422-425.

 

Sendo que eles acreditavam que a ressurreição consistiria no resgate daqueles que estivessem no Hades, o profundo mundo subterrâneo. O resultado disso é que eles receberiam novos corpos físicos para viver na Terra novamente. Esta é a verdadeira expectativa que eles nutriam e que está de acordo com os outros comentários da Enciclopédia Americana. Nada tem a ver com a reconstituição da pessoa a partir do nada ou da criação de uma cópia perfeita de quem já viveu juntamente com suas lembranças, conforme pensam os aniquilacionistas (para mais detalhes veja o item “b” da seção 7).

 

“O conceito do Antigo Testamento sobre o homem é o de uma unidade, não uma união de alma e corpo. Embora a palavra hebraica ne'phesh seja freqüentemente traduzida como ‘alma’, seria impreciso ler nela um significado grego... Ne'phesh jamais é concebida como funcionando à parte do corpo. No Novo Testamento, a palavra grega psy·khe' é traduzida frequentemente como ‘alma’, mas, de novo, não se deve entender prontamente que tenha o significado que a palavra tinha para os filósofos gregos. Geralmente ela significa ‘vida’ ou ‘vitalidade’ ou, às vezes, ‘o eu’. Enquanto a maioria dos cristãos acredita numa vida após a morte, a Bíblia não fornece uma descrição clara de como uma pessoa sobrevive após a morte. Os teólogos cristãos tiveram de recorrer às discussões de filósofos em busca de um meio adequado de descrever a sobrevivência do indivíduo após a morte, e os filósofos tradicionalmente utilizaram o conceito da alma como o veículo da imortalidade. – Edição de 1977, Vol. XXV, p. 236.

 

O acima é o conceito monista ou integralista a que tanto os aniquilacionistas se referem, por acharem que é de alguma serventia nessa discussão (mais informações no apêndice F). O que foi visto nos demais trechos dessa obra atesta que não passa de mais outro esforço infrutífero, pois a ideia judaico-cristã de permanência consciente depois da morte foi muito bem definida pelos eruditos que escreveram os verbetes da Enciclopédia Americana. Igualmente ineficaz é destacar que o conceito hebraico de alma não tem nada a ver com o da filosofia grega. Esta afirmação está totalmente correta, porém sem nenhuma implicação no que interessa, uma vez que as duas visões apresentam o ponto em comum de que uma parte do ser humano sobrevive à morte de maneira consciente. Por isso eu prefiro dizer que as duas correntes têm pouco a ver uma com a outra, ao invés de afirmar que elas não têm nenhuma semelhança. Mas quase todo o ensino da filosofia grega sobre a alma é realmente muito diferente do que antigos judeus e cristãos acreditavam, conforme pode ser visto no apêndice A.

 

10) Studies In Dogmatics. Man: The Image of God:

 

“Parece claro, portanto, que as Escrituras jamais retratam o homem como um ser dualista ou pluralista... Esse conceito de superior e inferior no homem geralmente forma o pano de fundo para o dualismo antropológico e muitas vezes também se manifesta na teologia. A alma então vem a ser encarada como mais próxima de Deus do que o corpo, o qual forma a parte inferior do homem... Não analisaremos mais a fundo essa depreciação do corpo do homem, que veio à tona na teologia sob a influência do pensamento grego, e que se manifestou não só na teoria da salvação do corpo como se fosse a salvação duma forma inferior, como também na prática do ascetismo. É claro que não há margem para tal concepção de uma parte superior e inferior no conceito bíblico do homem. – pp. 203-205.

 

Da perspectiva do platonismo, de fato a Bíblia não ensina o dualismo e a pluralidade do ser. Ou seja, a alma não odeia o corpo e nem o encara como punição ou algo a ser desvalorizado. Nem tampouco ensina que a alma fica habitando em vários corpos diferentes em uma série de reencarnações ao longo do tempo. Por outro lado, as Escrituras ensinam que o ser humano tem um corpo e uma alma, sendo que esta sobrevive à morte do corpo (Jó 14:1, 2, 22; Mateus 10:28). É por isso que esse mesmo livro citado pelo autor do MB disse que há total certeza que a igreja primitiva sempre acreditou na existência contínua depois da morte. A alma é uma substância que tem raciocínio e inteligência.

 

11) The New Bible Dictionary:

 

“A vida é proporcionada ao indivíduo como uma unidade psicossomática na qual ‘nossas próprias distinções entre a vida física, a vida intelectual e a vida espiritual não existem’ (von Allmen, p. 231 e seg.); e o ponto de vista do AT sobre o homem pode ser descrito sumarizadamente como ‘corpo animado’ (Robinson, p. 27). Dessa maneira, alma pode ser paralela à carne (SI 63.1; cf. Mt 6.25; At 2.31), à vida (Jó 33.28), ou ao espírito (SI 77.2 e seg.; cf. Lc 1.46 e seg.), bem como a todos os termos que indicam o ‘eu’. É o ‘eu’ que vive — e que morre (cf. Gn 7.21; Ez 18.4)”. – p. 1376.

 

Dizer que um corpo é animado significa dizer que ele tem uma alma, ou seja, é “almado”. (Anima é alma em latim). Até mesmo o grego clássico apresenta essa ideia de possessão.  A palavra comumente traduzida por “ser vivo” ou “criatura” é ἔμψυχα (émpsykha), que significa “alma nele” ou “almado”. E certamente o “eu” (a pessoa em si) tanto vive quanto morre, porém é a morte no sentido judaico e não de acordo com o pensamento aniquilacionista. Por isso essa mesma obra disse que na concepção hebraica, a ressurreição consiste em tirar a pessoa do Seol, onde lá experimenta uma subvida.

 

12) A Theological Word Book of the Bible:

 

Os escritores da Bíblia, apegando-se à convicção de que a ordem criada deve a sua existência à sabedoria e ao amor de Deus e é, portanto, essencialmente boa, não poderiam conceber a vida após a morte como uma existência desencarnada (‘não seremos encontrados nus’, 2 Cor. 5:3), e sim como uma renovação sob as condições da íntima unidade de corpo e alma, que era a vida humana como eles a conheciam. Assim a morte... era encarada como a morte do homem inteiro, e frases tais como ‘libertação da morte’, incorruptibilidade ou imortalidade só poderiam ser adequadamente utilizadas para descrever o que se entende pela expressão Deus eterno ou vivo (v. VIDA, VIVO), ‘o único que tem imortalidade’ (1 Tim. 6:16). O homem não possui dentro de si a qualidade da imortalidade, mas deve, se ele há superar o poder destrutivo da morte, recebê-la como um dom de Deus que ‘levantou Cristo dentre os mortos’, e pôs a morte de lado como uma peça de roupa (1 Cor. 15:53-54). É através da morte e ressurreição de Jesus Cristo que esta possibilidade para o homem (2 Tim. 1:10) foi trazida à existência e foi confirmada a esperança de que a corrupção (Rom. 11,7), que é uma característica universal da vida humana será efetivamente superada”. – pp. 111, 112.

 

O “homem inteiro” de fato não sobrevive à morte. Quem é que pode questionar isso? No entanto, uma parte dele, comumente chamada de “alma”, continua viva depois da morte, porém em um miserável estado semimaterial chamado de “sombra”, conforme explicou essa mesmíssima obra, que também afirmou que a Bíblia não autoriza o entendimento de completa extinção depois da morte. E o que Paulo quis dizer com a esperança de ‘não ser achado nu’ depois da morte foi que, mesmo antes da ressurreição geral, ele esperava possuir um corpo depois da morte. Algo bem diferente do conceito grego de vida incorpórea no mundo das ideias.

 

13) Theological Dictionary of the New Testament:

 

“A marca decisiva da criatura viva é a respiração, e sua cessação significa o fim da vida. Assim, a raiz נפשׁ na forma do substantivo נָ֫פֶשׁ [nephesh], que ocorre 755 vezes na Bíblia hebraica, denota ‘vida’ ou ‘criatura vivente’, sendo o sentido especial de ‘fôlego’ expresso por נְשָׁמָה [neshamah], embora com frequência este compartilhe o desenvolvimento da נָ֫פֶשׁ [nephesh] Deut. 20:16; Jos. 10:40; 11:11, 14; 1 Reis 15:29; Sal.150:6; Isa. 57:16. Alguém poderia dizer que a נָ֫פֶשׁ [nephesh] sempre inclui o נְשָׁמָה [neshamah] mas não se limita a ele. Em 1 Reis 17:17 a falta de נְשָׁמָה [neshamah] causa a partida da נָ֫פֶשׁ [nephesh], que retorna quando o profeta dá à criança o fôlego novamente, pois só a נָ֫פֶשׁ [nephesh] é que faz duma criatura vivente um organismo vivo... Contudo, não se deve concluir que a נָ֫פֶשׁ [nephesh] seja um princípio imaterial que pode ser abstraído da sua subestrutura material e que pode levar uma existência independente. A partida da נָ֫פֶשׁ [nephesh] é uma metáfora da morte, um homem morto é aquele que deixou de respirar… נָ֫פֶשׁ [nephesh] é o termo usual para a natureza total de um homem, para o que ele é e não simplesmente para o que ele tem... Ela não tem qualquer existência à parte de um corpo. Assim, a melhor tradução em muitos casos é ‘pessoa’ compreendida na realidade corpórea”. – Vol. 9, 1974, pp. 618-620.

 

É bastante questionável esse entendimento de que a partida da alma mencionada na Bíblia seja uma metáfora, e entre os eruditos não há uma unanimidade sobre isso. Há os que defendem que é uma saída literal. Mas, de qualquer maneira, realmente o enfoque que os hebreus davam à palavra “alma” era de caráter físico, e não de acordo com a visão metafísica dos gregos. No entanto, há exceções, ainda que implícitas, conforme está comentado na seção 5. E lembre-se também que essa mesma obra disse que a pessoa continua existindo no Seol, embora o que ela experimenta lá não possa ser chamado de verdadeira vida, devido ao que foi explicado nas obras precedentes. De modo que não é incorreto, se considerarmos o contexto da Bíblia inteira, incluindo o Novo Testamento, dizer que uma alma deixa literalmente o corpo por ocasião da morte. Concentrar-se somente na abordagem predominante da Bíblia hebraica é recusar o benefício da evolução que houve sobre esse assunto até o início do Cristianismo.

 

E com respeito à tradução do hebraico nefesh, ao passo que esta obra diz que a melhor opção é “pessoa”, a obra nº 18, por sua vez, diz que é “vida”. A verdade, porém, é que não há tradução melhor, e o ideal seria verter sempre por “alma” e deixar que o leitor concluísse qual é o sentido em cada situação, pois este claramente pode variar de acordo com o contexto. É o próprio caso quando se diz que “a alma parte” por ocasião da morte (Gênesis 35:18). Uma partida denota um deslocamento de um lugar para outro. Nada que fique parado em um mesmo local partirá para outro. Por isso é muito mais natural entender a partida da alma como algo imaterial que sai do corpo do que supor que é uma metáfora para dizer que a vida teve fim. Ao que parece, alguns comentaristas não aceitam o entendimento óbvio por mero preconceito e também por causa do temor tolo que se instalou na teologia contemporânea de dar margem à filosofia grega.

 

Outro caso é quando o salmista diz que Deus não deixaria sua alma no Seol (Salmo 16:10). Se todos sabem que esse lugar fica numa distante região abaixo da Terra e que um corpo em decomposição no túmulo não é uma pessoa, e muito menos com vida, conclui-se que essa alma é algo imaterial que não se encontra mais neste mundo, mas continua sendo um ser vivo e consciente. A opção de traduzir o termo hebraico nefesh por um pronome pessoal ou reflexivo não muda em nada essa realidade (“Não me deixarás no Seol”), pois quando o salmista afirmou isso ele era uma pessoa viva que demonstrou que continuaria existindo em outro lugar, nem que fosse na forma de uma “sombra” em um mundo caótico e escuro. Era deste lugar que ele tinha esperança que Deus um dia o tirasse. O mesmo pensamento nutria Jó, que nem usou a palavra nefesh ao dizer que, uma vez instalado no Seol, aguardaria com expectativa a chamada de Deus, denotando assim que estaria vivo nesse lugar:

 

“Quem dera que me escondesses no Seol, que me mantivesses secreto até que a tua ira recuasse, que me fixasses um limite de tempo e te lembrasses de mim! Morrendo o varão vigoroso, pode ele viver novamente? Esperarei todos os dias do meu trabalho compulsório, até vir a minha substituição. Tu chamarás e eu mesmo te responderei”. – Jó 14:13-15, TNM.

 

O “varão vigoroso”, ou seja, o homem integral do conceito monista pode morrer, porém a alma que desce para o Seol continua existindo, sendo ela o “me” e o “eu” do texto acima. Não se refere a um cadáver. Porém sabemos que é uma versão enfraquecida da pessoa (“sombra”) em um mundo sem contentamento, conforme o mesmo Jó expressou em outro momento de suas angústias:

 

“Quão poucos são os meus dias! Que Deus termine e se afaste de mim, e terei um instante de alegria, antes de partir, sem retorno, para o país de trevas e sombras, para a terra escura e opaca, de confusão e negrume, onde a própria claridade é sombra”. – Jó 10:20-22, PER.

 

Por isso para Jó e todos os antigos hebreus a única vida verdadeira e desejável é a que pode ser usufruída na superfície do solo terrestre, onde todas as atividades humanas são possíveis. Será que essa partida que Jó mencionou seria apenas uma metáfora para se referir ao fim da vida e à própria inexistência? A descrição que ele fez do Seol indica que não, pois reforça o conceito de que o mundo dos mortos é um lugar amplo e distante, e não se refere a uma mera sepultura.

 

14) Dictionary of the Bible:

 

O conceito prevalecente no AT é de que a morte é terminal. O conceito de morte de uma pessoa é determinado, em última instância, pelo seu conceito de vida; daí o conceito hebraico da pessoa humana como um corpo animado, em vez de um espírito encarnado, fez com que o fim da animação parecesse ser a cessação de toda atividade vital. Quando uma pessoa morria, o ‘espírito’ partia; o falecido continuava a existir como um ‘eu’ (nepeš) no Seol, mas era incapaz de qualquer atividade ou passividade vital. Os mortos não participam no culto divino (Sal 6:6; 30:10; 88:11; 115:17, compare também com Isa 38:11, 18). É contra esse pano de fundo da crença do AT que Jesus disse que Deus não é Deus dos mortos, mas de vivos (Mat. 22:32, Mar. 12:27, Luc. 20:38). A morte é aceita como o fim natural do homem (2 Sam. 14:14).... A imortalidade da alma, conforme proposta na S[abedoria] de S[alomão], um produto do judaísmo alexandrino, era realmente um elemento estranho à crença hebraica e à psicologia hebraica, que jamais foi assimilado dentro do AT ou do NT”. – Vol. 1, pp. 183, 184.

 

Pode ser aplicado a essa citação o mesmo que foi dito no caso da obra nº 8. Ou seja, o próprio teor do trecho impede qualquer possibilidade de usá-lo em apoio ao aniquilacionismo. E sobre a questão do judaísmo alexandrino e sua suposta influência sobre o livro da Sabedoria, que é um livro canônico na Bíblia católica e sempre foi considerado dos tempos antigos antes da definição do cânon hebraico, não há nada nessa informação que invalide o fato de que esse dicionário bíblico está ensinando sobre uma existência consciente depois da morte, não importando se os seres que estão no Seol eram chamados de “almas” ou não. De qualquer maneira, como foi visto na segunda seção há outros trechos em que essa obra diz enfaticamente que o homem possui uma alma e que ela sobrevive à morte do corpo.

 

15) The New Catholic Encyclopedia:

 

“Com o advento do neoplatonismo fundado por Amônio e desenvolvido por Plotino, o platonismo definitivamente entrou na causa do paganismo contra o cristianismo. Mesmo assim, a grande maioria dos filósofos cristãos até S. Agostinho era platonista. Eles apreciavam a influência edificante da psicologia e da metafísica de Platão e reconheceram nessa influência um poderoso aliado do cristianismo na guerra contra o materialismo e o naturalismo. Estes platonistas cristãos subestimavam Aristóteles, a quem geralmente se referiam como um lógico ‘aguçado’ cuja filosofia favorecia os oponentes heréticos do cristianismo ortodoxo... Fora das escolas de filosofia que são descritas como platônicas, há muitos filósofos e grupos de filósofos nos tempos modernos que devem muito à inspiração de Platão e ao entusiasmo pelas atividades superiores da mente que derivaram do estudo de suas obras”. – Edição de 1911, Vol. 12, pp. 161, 162.

 

Não há dicotomia alguma de corpo e alma no AT. O israelita encarava as coisas concretamente, em sua totalidade, e assim considerava os homens como pessoas e não como compostos. O termo nepeš, embora traduzido por nossa palavra ‘alma’, jamais significa alma como distinta do corpo ou da pessoa individual. Outras palavras no AT, tais como espírito, carne e coração, também significam a pessoa humana e diferem apenas como vários aspectos do mesmo ser... No Novo Testamento. O termo ψυχή é a palavra do NT correspondente a nepeš. Ela pode significar o princípio da vida, a própria vida ou o ser vivo. Por meio da influência helenística, diferente de nepeš, ela foi oposta ao corpo e considerada imortal... Em resumo, a nepeš hebraica geralmente está associada com o sinal concreto da vida no indivíduo, o ‘eu’ que sente, deseja, calça, etc. O fim dela é o Seol. A contraparte grega, ψυχή, inclui muitos dos significados de nepeš; mas adicionou ao conceito ‘eu’ a imortalidade da filosofia e da revelação posteriores”. – Edição de 1967, Vol. 13, pp. 449, 450.

 

Mesmo caso dos anteriores. Citações completamente fora do contexto autoral da obra. A primeira é apenas para insinuar que a crença de que existe uma alma que sobrevive à morte do corpo entrou na igreja devido à influência da filosofia grega, quando nem de longe este é o caso, conforme você pode constatar lendo o texto “A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?”. Conforme verá, a influência grega se deu em outros pormenores. O mesmo se aplica à segunda citação. Continuar a alma viva depois da morte não significa que ela é imortal em sentido platônico. Ao ler o texto indicado você entenderá o que estou dizendo.

 

Outro fator que passou ao largo da leitura que o autor do MB fez da Enciclopédia Católica é que quando ela disse que novos conceitos foram incorporados na definição de alma, isso não se restringiu somente à influência da filosofia grega. Também aconteceram “revelações posteriores”. E isto ocorreu no Novo Testamento. Por isso a mesma enciclopédia diz que quando Jesus aconselhou os seus seguidores a não temerem aqueles que só podem matar o corpo, mas nada podem fazer contra a alma, isto “significa uma vida que existe separadamente do corpo”. Logo, para os cristãos, a parte sobrevivente passa a ser chamada abertamente de acordo com o que ela verdadeiramente é. Ou seja, um ser vivo (alma), não importando em que condições ele esteja depois da morte. Esta é a evolução a que me referi na obra nº 13. Por isso quem morre pode ser levado imediatamente ao paraíso ou então para as chamas do Hades. – Lucas 16:19-31; 23:43.

 

16) Theologisches Begriffslexikon zum Neuen Testament:

 

O corpo é a esfera concreta da existência, através da qual se leva a efeito o relacionamento do homem com Deus... A compreensão que Paulo tem da ressurreição reflete a antropologia judaica. A vida humana é inconcebível sem o corpo. Assim, exclui-se qualquer divisão do homem em alma e corpo segundo as linhas da antropologia gr[ega]... Talvez seja, no entanto, o próprio silêncio do NT a respeito dos detalhes do além e do estado temporário que excitou a curiosidade dos pseudo-piedosos e levou à dissatisfação com o colocar em Cristo somente a sua esperança. A ideia de que as declarações bíblicas precisam ser aumentadas pela imaginação humana indica uma falta de fé. Um fator contribuinte neste ponto é a substituição da doutrina neotestamentária da ressurreição dos mortos (1 Cor cap. 15) pela doutrina gr[ega] da imortalidade da alma... As especulações na igreja a respeito do paraíso, e os conceitos da piedade popular, também se ligam ao fato da doutrina da imortalidade da alma ter entrado para tomar o lugar da escatologia neotestamentária, com a sua esperança da ressurreição dos mortos e da nova criação (Ap caps. 21-22), de tal maneira que a alma recebe o julgamento depois da morte, e chega ao paraíso, que é considerado como parte do outro mundo, enquanto os pecadores vão para o inferno... O NT não faz referência direta à ‘ressurreição do corpo’ ou à ‘ressurreição da carne’ mas, sim, somente à ‘ressurreição dos mortos’ ou à ‘ressurreição dentre os mortos’. ‘Os sujeitos da ressurreição são pessoas inteiras, que são transformadas externa e internamente naquilo que pode ser chamado uma aceleração do processo de cristificação’.” – pp. 442, 1024, 1586, 2060 e 2100.

 

Outro caso que não considera o real significado da afirmação de que o conceito sobre a alma na filosofia grega não é bíblico. Nada tem a ver com a extinção completa de quem morre. Por isso essa mesma obra afirmou que os mortos no Hades são espíritos que lá ficam de maneira provisória, até a ressurreição do corpo.

 

17) Christian Doctrine (pp. 378-381, 384, 392-394):

 

Trecho 1

 

“Esta doutrina [imortalidade da alma] não foi ensinada pelos próprios escritores bíblicos, mas ela era comum na religião grega e nas religiões orientais do mundo antigo em que a igreja cristã nasceu. Alguns dos primeiros teólogos cristãos foram influenciados por ela, leram a Bíblia à luz dela e introduziram-na no pensamento da igreja... Segundo esta doutrina meu corpo morrerá, mas eu mesmo não morrerei. Meu corpo é só a concha em torno de meu verdadeiro eu. Não sou eu; é só a residência física terrena em que eu moro temporariamente, ou a prisão terrestre física na qual estou preso por um tempo. Meu verdadeiro eu é a minha alma, minha parte espiritual que é como Deus e, portanto, compartilha a imortalidade de Deus (não passível de morrer). O que acontece na morte, então, é que minha alma imortal escapa do meu corpo mortal. Meu corpo morre, mas eu mesmo continuo vivo e retorno ao reino espiritual de onde vim e ao qual eu realmente pertenço. . . . Se seguirmos a Reforma Protestante buscando fundar nossa fé ‘nas Escrituras apenas’, devemos rejeitar esta esperança tradicional para o futuro baseada na crença na imortalidade da alma... é inaceitável do ponto de vista bíblico”.

 

Ok, nenhum problema na explicação acima. A imortalidade da alma de acordo com a Bíblia não é aquela que foi ensinada pelos gregos. O único ponto seguramente em comum entre os dois sistemas de crença é que após a morte do corpo físico a essência espiritual do homem sobrevive e permanece consciente em outro lugar até a ressurreição do corpo. Alguns não querem chamar essa parte que não morre de “alma” por mero preciosismo, como é o caso do autor aqui em análise. Mas ele reconhece que a Bíblia não ensina o aniquilacionismo materialista, conforme veremos mais adiante. Os comentaristas que evitam chamar a consciência que sobrevive à morte de “alma” normalmente fazem isso para ficar mais de acordo com a mentalidade dos hebreus antigos, segundo a qual a alma estava quase que invariavelmente atrelada à existência física do ser humano. Mas, conforme explicado anteriormente, isso é mera questão de enfoque. Uma realidade não anula a outra. A perspectiva bíblica é dual.

 

Trecho 2

 

“... Segundo as Escrituras, a alma não é a parte íntima divina (e, portanto, imortal) de nós, que vem de Deus e retorna a Deus; ela é simplesmente o ‘fôlego de vida’ dado por Deus que faz de nós criaturas vivas... É verdade, então, que quando morremos a alma ‘parte’ e ‘se foi’. Mas isso não significa que nossa parte imortal divina partiu para viver em algum outro lugar. Significa que a vida nos deixou, que nossas vidas chegaram ao fim, que estamos agora ‘mortos e enterrados’. Em outras palavras, segundo as Escrituras minha alma é tão humana, criatural, finita – e mortal – quanto meu corpo; ela é simplesmente a vida do meu corpo... essa doutrina [da imortalidade da alma] nega a terrível realidade da morte... a morte é real, total e terrível... tanto a vida corporal como a espiritual são desejadas e abençoadas por Deus... nossa esperança para o futuro... [é] a renovação da existência humana total como almas corporificadas e corpos dotados de alma. Assim foi com Jesus: O Novo Testamento não nos diz que a alma dele deixou seu corpo e ‘voltou para casa’ para estar com Deus... Se pensarmos sobre a vida neste mundo ou no mundo vindouro, o desprezo pela nossa própria vida corporal (ou de qualquer outra pessoa) é antibíblica e anticristã. A esperança bíblico-cristã para o futuro é a esperança para os seres humanos que são corpo e alma em sua unidade inseparável”. - colchetes acrescentados.

 

Considerando-se a alma como sendo única e exclusivamente o ser humano de carne e osso, certamente a morte do corpo significa a morte da alma-homem. Porém a alma-alma continua em existência. É esta que deixa o corpo por ocasião da morte. Alguns comentaristas, devido ao referido preciosismo, querem transformar em sentido figurado o que é claramente literal. O conceito da partida da alma-alma para outro domínio é o que tornou viável o Apocalipse dizer que as almas dos cristãos que foram mortos já estavam no céu antes mesmo da ressurreição do corpo físico, e pelo mesmo motivo Jesus disse que os assassinos desses cristãos só matavam o corpo e nada podiam fazer contra a alma. Há também outras imprecisões menos importantes no trecho acima: (1) embora etimologicamente alma (nefesh) tenha a ver com fôlego, a nefesh hebraica é a combinação do “fôlego” (espírito) com o corpo; (2) o conceito grego de imortalidade da alma não nega a realidade da morte física, o que seria impossível, mas apenas a menospreza, pois para os gregos a existência realmente importante era a da alma-alma e não a da alma-homem. Sim, os gregos às vezes também usavam a palavra “alma” com o sentido de ser humano, e diziam que essa alma morre. Para mais detalhes veja o apêndice B.

 

Trecho 3

 

Chegamos aqui ao próprio coração da esperança cristã para o futuro... devemos rejeitar a esperança na imortalidade da alma... e recria seres humanos inteiros. Quando os cristãos confessam sua esperança para o futuro, dizem que acreditam na ‘ressurreição do corpo.’... Nos escritos do Antigo Testamento...Todo aquele que morre vai para o mesmo lugar, o Seol, ‘a terra da sombra e da escuridão profunda’ (Jó 10:21), uma região onde todos os mortos têm uma espécie de existência sombria completamente cortada de Deus e esquecida por Deus... Perto do fim do período do Antigo Testamento, a esperança de Israel para o futuro mudou quando o povo foi levado para o exílio... Surgiu uma esperança ‘apocalíptica’ de uma grande batalha cósmica entre Deus e todas as forças demoníacas do mal no final da história... Naquele tempo, todos os mortos serão ressuscitados para a ‘vida eterna’ ou para ‘vergonha e desprezo eterno’ (Daniel 12:2) para receber a recompensa ou a punição que não receberam nesta vida...”.

 

Isso mesmo! A imortalidade da alma de acordo com o ponto de vista grego é rejeitada pelos cristãos, e na ressurreição o que será recriado é o corpo físico e não a alma que espera no Seol pelo milagre de sua restauração à realidade terrestre. Como também está muito claro no trecho acima, a Bíblia Hebraica não afirma que quem morre deixa de existir, mas apenas que a existência que se segue é triste e sombria, em uma região que não é a sepultura onde o corpo é enterrado. E se não é, significa que os seres enfraquecidos que experimentam uma existência parcialmente consciente no Seol não são os corpos depositados em cemitérios. Não há como escapar dessa lógica!

 

Trecho 4

 

“Dissemos que a esperança para a ressurreição do corpo é a alternativa cristã à esperança da imortalidade da alma.... A ideia da ressurreição dos mortos não se originou com Jesus ou com a igreja primitiva. Ela originou-se na escatologia apocalíptica do judaísmo tardio...Visto que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, podemos estar certos de que Deus fará o mesmo por todos. Como é que se faz essa conexão entre o que aconteceu com Jesus e o que acontecerá a todos nós em 1 Cor. 15:12-22 e Rom. 8:11? Mais uma vez vemos que a esperança cristã para o futuro se baseia no que já aconteceu no passado... para os escritores bíblicos ‘corpo’ ou ‘carne’ é sinônimo de ‘ser humano’. Ressurreição do corpo significa ressurreição de uma pessoa... é impossível pensar em um ser humano sem um corpo... A ressurreição de pessoas significa necessariamente a ressurreição de seus corpos... Paulo disse que teremos [depois da ressurreição] ‘corpos espirituais’ perfeitos (1 Cor. 15:42-44). Nós não podemos e não precisamos tentar conceber exatamente o que isso pode significar. Mas, se seguimos a regra de que a nossa melhor pista para o que vai acontecer conosco é o que aconteceu com Jesus, podemos dizer isso de nosso corpo ressuscitado. 1 João 3:2 diz que não sabemos o que seremos, mas sabemos que seremos ‘como ele’... Ele era a mesma pessoa de uma maneira diferente”.

 

Essa esperança apocalíptica que tem a ressurreição física qual subproduto é aquela que vários comentaristas dizem que surgiu por influência dos persas. Sobre o que significa o ressuscitado vir a ter um corpo espiritual dentro do contexto de uma ressurreição física, o que ocorrerá é que ele terá um corpo físico e espiritual ao mesmo tempo, corpo que se manifestará em cada uma das duas naturezas conforme a necessidade (releia a explicação da Enciclopédia Americana). É claro que ninguém faz ideia como isso será possível, pois será um milagre de Deus.

 

O que aconteceu com Jesus, incluindo sua preexistência no céu, permite tomar uma distância maior desse assunto e contemplar o quadro bíblico de uma maneira mais completa. Esse vislumbre mais amplo demonstra o quão incoerente é o materialismo “cristão”, biblicamente falando. Jesus antes de vir para a Terra certamente tinha um corpo espiritual, pois era um espírito que vivia no céu. (Isto em si já é uma “semente” para especular sobre a preexistência da alma, para nos fazermos semelhantes a Cristo em todos os sentidos...). Na concepção materialista como seria possível transferir esse espírito para a Terra e transformá-lo em um embrião no útero de Maria? O que se pode imaginar é um processo semelhante à “ressurreição” materialista, que consiste em uma transferência de informações para uma réplica de um corpo em outro momento do tempo ou em outro lugar do espaço. Mas o problema é que espíritos não morrem. Deus, numa atitude inédita, certamente não mataria seu Filho e se livraria do corpo espiritual dele só para recriar uma cópia de suas lembranças na Terra em um corpo físico. Mas se Ele fizesse isso o retorno de Cristo para o céu seria de natureza igualmente sue generis, num procedimento sucessivo de cópia e recópia, no qual Jesus teria que morrer duas vezes, a primeira na fase Filho-espírito e a segunda quando era Filho-homem. É claro que a primeira morte poderia ser evitada, bastando apenas que Deus replicasse Jesus na Terra sem ter que erradicar o seu Filho original da existência no céu. E hoje Deus estaria na companhia de dois Filhos ao invés de um só. Um de corpo espírito-carnal e outro com o corpo feito só de espírito.

 

Mas não é necessário ficar racionalizando a vida com esse enfoque físico que é digno de ficção científica. O que deve ter acontecido é que aquele espírito que seria chamado de Jesus na Terra permaneceu em existência contínua e Deus simplesmente o transferiu para o corpo que estava sendo gerado no ventre de sua mãe terrena. E quando esse corpo parou de funcionar na cruz, uns 34 anos depois, esse mesmo espírito deixou aquele corpo e foi para o Hades, carregando consigo uma marca que antes não tinha, a da humanidade. Por isso a ressurreição do seu corpo físico se fazia necessária. Não era porque Jesus tivesse passado à inexistência e inconsciência absoluta. Em nenhum momento o espírito consciente de Jesus deixou de existir. A prova é tanta que Jesus prometeu o Paraíso para o mesmo dia de sua morte ao ladrão arrependido (conforme comentado por John McKenzie). O Paraíso de Deus não necessita de corpos terrenos. Esta é razão porque Paulo considerou a possibilidade que sua experiência extática que o levou para lá tenha se dado “fora do corpo”. – Lucas 23:43; 2 Coríntios 12:4.

 

Por que os aniquilacionistas materialistas são incapazes de compreender o que foi explicado do parágrafo acima? Porque a opinião deles sobre a existência é completamente incompatível com o cenário global das Escrituras Sagradas, que apresenta os seres vivos sob dois enfoques distintos, porém harmônicos.

 

Trecho 5

 

“... Em Lucas 23:42, Jesus diz ao ladrão moribundo: ‘Hoje estarás comigo no Paraíso’. Em Filipenses 1:3, Paulo expressa seu desejo de ’partir e estar com Cristo’. Por outro lado, Paulo nos diz que há algo como um sono de espera de todos os mortos até que todos eles sejam levantados ao mesmo tempo no que mais tarde foi chamado de ‘ressurreição geral’ no fim da história... A tradição protestante clássica solucionou este problema, combinando as doutrinas da imortalidade da alma e da ressurreição do corpo. Quando morremos, Deus determina a cada um de nós o nosso destino eterno. Nossas almas vão imediatamente para o céu ou inferno, enquanto que nossos corpos permanecem na sepultura. No último dia, nossos corpos são criados e reunidos com nossas almas para um juízo final e destinação para o céu ou inferno... Esta explicação pode ser criticada por várias razões: (1) Sua separação do corpo e da alma, ainda que temporariamente, é antibíblica. (2) O julgamento final parece supérfluo se imediatamente após sua morte já foi determinado o lugar permanente das almas dos justos e dos ímpios. Para que fazer tudo de novo?

 

O trecho acima é um ótimo exemplo do que acontece quando um cristão, mesmo que não seja aniquilacionista, resolve declarar “guerra” à “famigerada” doutrina grega da imortalidade da alma. As inconsistências de algumas explicações são inevitáveis. E o autor do MB ainda destaca em negrito tais peculiaridades como se fossem determinantes a favor do que defende. Primeiro, a separação temporária da alma do corpo nada tem de antibíblica (Releia as explicações do Theological Dictionary of the New Testament e do Studies In Dogmatics, apenas para mencionar duas fontes que trataram disso). Jesus disse que o corpo morre, mas alma permanece (Mat. 10:28), a Bíblia diz que na morte a alma abandona o corpo (Gênesis 35:18), que essa mesma alma vai para o Seol e lá fica, mesmo depois que o corpo desaparece completamente (Salmos 16:10) e Paulo afirmou que provavelmente saiu do corpo quando foi para o terceiro céu, o paraíso de Deus. Esses e outros textos, conforme está mais detalhado na seção 5, transmitem a ideia de uma existência autônoma fora do corpo humano, que está sintetizada nas palavras a seguir de Paulo:

 

“Sabemos que, se for destruída a temporária habitação terrena em que vivemos [ou seja, o corpo], temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no céu, não construída por mãos humanas... Portanto, temos sempre confiança e sabemos que, enquanto estamos no corpo, estamos longe do Senhor”. – 2 Coríntios 5:1-8, colchetes acrescentados.

 

A diferença da esperança cristã para a antiga expectativa dos hebreus é que a alma do cristão pode ir imediatamente para a presença de Deus depois da morte, ao passo que na visão hebraica primitiva ela ia para o Seol e era transformada em uma “sombra” pálida e sem alegria, desprovida de um corpo digno que proporcionasse satisfação em sua existência. Mas, infelizmente, há pessoas, e não apenas aniquilacionistas, que têm essa mania de desfigurar o quadro bíblico sobre esse assunto e apresentar entendimentos alternativos ou reinterpretações que jamais foram concebidas pelos cristãos primitivos, conforme nos lembrou Prince John Loewenstein em sua crítica a teólogos progressistas que atribuem pouca importância à imagética do mundo espiritual apresentada na Bíblia. Por exemplo, no caso da “alma” que deixou o corpo de Raquel durante sua morte, não seria uma alma imaterial, ainda que a Bíblia diga que essa mesma alma vá para o Seol, mas simplesmente a vida do corpo material de Raquel. A vida humana não deixa corpo algum, apenas deixa de existir. O que implica em um entendimento figurado, caso se aceite essa explicação. O que implica em um entendimento figurado, caso se aceite essa explicação. Os que a defendem temem a leitura literal de Gênesis 35:18 porque acham que seria uma promiscuidade com a crença dos gregos antigos, e por isso não admitem a possibilidade de que a alma que deixou o corpo de Raquel é aquela mesma que vai para o Seol aguardar a ressurreição do corpo. Preferem achar que em alguns momentos a palavra “alma” deixa de ter o sentido de alma vivente (corpo + fôlego de vida) e a passa a significar apenas vida. Se há então mais de um significado da palavra “alma”, por que não admitir logo que ela pode apresentar o sentido de uma parte espiritual e consciente que deixa o corpo do homem? Isto se faz especialmente adequado se os textos supracitados do Novo Testamento forem considerados. Mas não. Os que agora se envergonham daquilo que foi defendido nos primeiros tempos preferem entabular novas interpretações estranhas ao antigo pensamento judaico-cristão. O que vem a seguir demonstra esse fato lamentável.

 

Trecho 6

 

“A explicação tradicional confunde as categorias de tempo e eternidade. Após a morte, uma pessoa está além de nossas categorias criaturísticas de espaço e tempo. Nossas distinções entre presente e futuro e o tempo entre eles (assim como nossas categorias de para cima e para baixo) não são mais aplicáveis. A Bíblia reconhece isso quando diz que ‘com o Senhor um dia é como mil anos’ (2 Pedro 3:8). Eventos que, do nosso ponto de vista, estão amplamente separados no tempo, podem acontecer simultaneamente do ponto de vista do ‘Agora do Deus eterno’, que inclui o passado, o presente e o futuro de uma só vez. (4) Embora a explicação tradicional combine duas expressões da esperança do Novo Testamento para o futuro, o Novo Testamento em si não procura reconciliá-las ou combiná-las, mas se contenta em deixá-las em sua contraditória aparência e deixa sem resposta nossas perguntas sobre exatamente quando e como tudo acontecerá. Não deveríamos fazer o mesmo?

 

Uma vez assisti a um debate na TV entre dois pastores evangélicos, um tradicional e outro que defende o ponto de vista descrito acima, que foi concebido apenas para dar uma explicação alternativa às declarações bíblicas de vida imediata após a morte, a exemplo do que foi prometido ao ladrão arrependido na cruz. O pastor que apresentou essa novidade passou sérios apuros, pois o outro simplesmente recorria aos textos bíblicos que desmontam essa teoria, que foi apresentada com o neologismo “kairosfera” (mas Shirley Guthrie não chega a utilizá-lo, apenas apresenta a ideia). Até lembra um pouco as peripécias interpretativas do teólogo Oscar Cullmann, que é muito citado por aniquilacionistas de plantão. O referido debate pode ser visto no link abaixo:

 

Vejam Só - Sono ou consciência após a morte?

 

Segundo essa especulação da kairosfera, a morte resulta no rompimento do tempo e espaço (qualquer relação com as ideias da Física relativista que só surgiram em nosso tempo pode não ser apenas coincidência...). O que implica dizer que do ponto de vista de Deus os mortos já reviveram, inclusive os que ainda estão aqui na Terra, pois o reino espiritual não está sujeito à nossa noção de tempo. Ou seja, se você for uma pessoa fiel a Deus, a sua versão glorificada já está no céu e o que você está vivendo agora já é passado para o “você” da kairosfera, esse mundo onde o tempo funciona de forma estranha. A meu ver, isso transfere para as pessoas parte da onisciência de Deus, o Ser Supremo que se quiser pode agora mesmo conversar com aquele Abraão cuidando de ovelhas na Ur dos caldeus e ao mesmo tempo dizer “olá” para o Abraão que está na kairosfera. E veja que Shirley Guthrie ao que parece se convenceu que a Bíblia reconhece essa realidade alternativa simplesmente porque o apóstolo Pedro disse que para Deus mil anos é como se fosse um só dia. Você consegue entender tudo o que foi acima explicado somente por esse texto de Pedro? Ou acha que Pedro estava simplesmente contrastando a brevidade da existência humana com a eternidade de Deus? A segunda opção é mais viável, pois Pedro estava falando a respeito do “dia do Senhor” que ainda não tinha vindo e ele explicou que o motivo da aparente falta de pressa de Deus é porque milhares de anos para nós são apenas alguns dias para Ele. Na verdade, não é nem a milionésima parte de um segundo, pois Ele é o rei da eternidade.

 

Mas, enfim, uma única passagem bíblica é suficiente para demonstrar que essa explicação da kairosfera não tem fundamento de acordo com a concepção do Judaísmo e Cristianismo antigos. Trata-se da parábola do rico e Lázaro, que mostra uma inter-relação em tempo real de três mundos do universo judaico: o Seio de Abraão, a Terra e o Hades. Para os judeus, o “seio de Abraão” é o paraíso para onde vão as almas dos bons no estado intermediário, entre a morte e a ressurreição do corpo. O que implica em outra inconsistência no comentário de Guthrie, pois essa visão já existia antes de Cristo e não foi a “solução” encontrada pela Igreja, que teria combinado elementos bíblicos com filosofia grega... Há também dois entendimentos sobre o “seio de Abraão”, (1) o que ele seria uma região separada do Hades, ou (2) que era, na verdade, o céu, ainda que não fosse o céu dos céus, o paraíso de Deus. Pois bem, nessa parábola quando o rico vai para o Hades, de alguma maneira ele entra em contato com o próprio Abraão que está no paraíso junto com Lázaro, e pede para que eles avisem os seus familiares lá na Terra sobre o sofrimento que ele, o rico, está passando no Hades, a fim de que eles não tenham o mesmo destino. Obviamente por melhorarem o próprio comportamento no mundo. Logo, não há nenhuma ideia de kairosfera para os que saem do orbe terrestre e adentra nos mundos invisíveis, pois na parábola as coisas se sucedem separadamente e ao mesmo tempo. Além do mais, dentro desse “kairosferismo”, a preocupação do rico não faria o menor sentido, pois se seus parentes fossem dignos eles já estariam com Abraão, e se não fossem o rico já os veria no próprio Hades.

 

Se a teoria da kairosfera fosse verdadeira, quando Paulo foi arrebatado misteriosamente para o terceiro céu será que ele não correria o risco de se deparar consigo mesmo já glorificado? Afinal, ele esteve momentaneamente no lugar onde supostamente não se aplicam as nossas noções de tempo e espaço.

 

Como se nota, essa proposta de um universo à parte do tempo e do espaço, embora possa parecer atraente em sentido metafísico, apresenta problemas de difícil solução quando analisada do ponto de vista puramente bíblico e de acordo com a crença que o antigo povo de Deus nutria. Há vários outros detalhes que podem ser trazidos à tona contra a teoria kairosférica. Abaixo outros exemplos:

 

1) Quando Samuel veio do mundo dos mortos ao encontro de Saul ele dialogou sobre eventos ainda em curso na nação de Israel. – 1 Samuel 28:4-24.

 

2) Da mesma maneira, quando Moisés e Elias apareceram para Jesus, na visão da transfiguração, eles conversaram com Jesus a respeito de sua morte e subsequente retorno ao céu, acontecimentos que ainda estavam para acontecer. – Marcos 9:2-5; Lucas 9:28-36.

 

3) Quando o anjo Gabriel foi enviado certa vez para auxiliar o profeta Daniel, ele se atrasou 21 dias e justificou a demora dizendo que se engalfinhou com príncipe angélico da Pérsia, e só se viu livre dele quando o príncipe de Israel, Miguel, veio ajudá-lo e enfrentou o príncipe da Pérsia. – Daniel 10:12-14.

 

Nenhuma dessas histórias dá a entender que no mundo espiritual o tempo não corre sempre para frente e em paralelo com o mundo terreno. Não que não possa haver alguma diferença no fluxo de tempo, a exemplo de alguns instantes lá serem equivalentes a horas aqui, quando as duas realidades são conectadas. De acordo com a teoria da relatividade de Einstein, anomalias desse tipo ocorrem até mesmo no universo físico se corpos imprimirem velocidades próximas à da luz. Mas daí a dizer que há uma disruptura total no curso dos acontecimentos entre a Terra e o céu, de modo que passado e presente se confundem, já é outra coisa completamente diferente. E pior ainda é querer usar esse raciocínio especulativo para explicar afirmações bíblicas de vida imediata depois da morte.

 

Naturalmente, essas minhas observações que evidenciam a incoerência do kairosferismo não serão aceitas ou entendidas por aniquilacionistas materialistas, pois eles negam as realidades espirituais esboçadas na Bíblia, relacionadas ao “Seio de Abraão” e ao Hades. Mas para quem está em sintonia com o pensamento bíblico, conforme expressado nos tempos antigos, verá sentido em minhas palavras. De qualquer maneira, quem abraça a teoria da kairosfera não necessariamente a usa para defender o aniquilacionismo ou que a Bíblia Hebraica não tem o ensino de que uma parte invisível do homem desce para o Seol por ocasião da morte. O debate do vídeo mencionado anteriormente demonstra isso.

 

O kairosferismo até poderia ser aceitável e todo o antigo conhecimento sobre a vida além da morte ser reformulado. Especialmente porque, na prática, essa proposta significa que depois da morte a vida eterna é imediata*, ainda que na cronosfera seja um evento futuro. No entanto, só seria possível recepcionar esse novo entendimento se Deus revelasse a factualidade dele, pois dentro das páginas da Bíblia ou da literatura antiga extrabíblica é bastante difícil chegar a tal conclusão, por que não dizer impossível. E mesmo que esse novo entendimento fosse apresentado pelos meios espirituais competentes, seria bastante difícil convencer o público-alvo, já que a maioria dos cristãos baniu completamente de suas mentes a possibilidade de novas revelações divinas que não sejam as que estão encerradas no Novo Testamento. De qualquer maneira, essa transferência do “homem inteiro” para o céu só aconteceria para os crentes após a ressurreição de Jesus Cristo, o primogênito dentre os mortos. De modo que, para os que morreram antes desse período, continuaria sendo necessário que a alma fosse para o Hades e ali aguardasse. – Colossenses 1:18; João 1:18; 3:13; Atos 2:34.

 

* Note que até mesmo na visão aniquilacionista algo semelhante ocorreria, uma vez que não há passagem de tempo para quem deixa de existir e o “ressuscitado” acharia que tinha acabado de morrer quando abrisse os olhos para a sua nova vida.

 

Por fim, ao contrário do que supôs Guthrie, não há “aparente contradição” na perspectiva bíblica apresentada de vida após a morte, ora descrita como futura, ora como imediata, pois são duas realidades distintas, porém relacionadas. Nenhum cristão deve se encabular em compreender esse assunto mediante a dualidade corpo-alma (a bíblica, não a grega), pois ela está bem delineada no Novo Testamento, conforme explicado na seção 6. Admitir isso não é abrir a porta da mente cristã para a filosofia grega ou para o gnosticismo. Cada conceito está no seu devido lugar e não se confundem entre si. Além do mais, como será visto na seção 5, essa dualidade moderada da existência humana está esboçada no próprio Antigo Testamento, ainda que não muito explicitamente.

 

18) The Religious Ideas of the Old Testament:

 

Para o hebreu, a alma não é uma abstração esotérica e mística; é a respiração... A palavra hebraica para essa alma-respiração é nephesh, e a melhor tradução dela é com frequência simplesmente ‘vida’. Quando o profeta Elias orou pela restauração da vida do filho da viúva de Sarefá, ‘a nephesh do menino voltou para dentro dele, e ele viveu’. A ideia é claramente a da respiração animando os órgãos físicos do corpo, quase tão materialisticamente concebida como quando pensamos no vapor que põe um motor em movimento... A ideia da natureza humana implica uma unidade, não um dualismo. Não há contraste entre o corpo e a alma, como os termos instintivamente sugerem para nós. As sombras dos mortos no Seol, como veremos, não são chamadas de ‘almas’ ou ‘espíritos’ no Antigo Testamento... Um exemplo instrutivo dessa necromancia é oferecido pela visita bem conhecida de Saul à bruxa de Endor... Assim, supõe-se que os mortos continuam existindo de uma maneira ou de outra, mesmo no pensamento primitivo de Israel. Mas isso é uma existência que não tem atração alguma para o israelita, e cai fora da esfera da própria religião deles. Não é sua alma que sobrevive em absoluto; os mortos são chamados de ‘sombras’ (refaim), não de ‘almas’, no Antigo Testamento. O lugar (subterrâneo) de sua permanência é chamado Seol, e em muitos aspectos particulares é como o Hades grego... [Enoque e Elias] são casos excepcionais, e simplesmente comprovam a regra para o homem comum, que nenhuma vida verdadeira o esperava além da morte. – pp. 79-83, 91-99, colchetes acrescentados.

 

Novamente, o teor dessas explicações atesta a continuidade consciente depois da morte, sendo completamente irrelevante se os israelitas chamavam ou não os que iam para o Seol de “almas” ou “espíritos”. Portanto, mais uma obra que não serve aos interesses do autor do MB, mas mesmo assim ele a cita e ignora o que realmente ela está dizendo no ponto que interessa nessa discussão.

 

Também notamos que, ao contrário da obra nº 13, esta daqui diz que a melhor tradução de nefesh é “vida” e não “pessoa”. E ela também diz que a saída da alma na morte é metafórica, embora não haja certeza disso e o entendimento natural seja o de uma saída literal da alma, como foi explicado no comentário à 13ª obra. De qualquer maneira, está muito claro em qualquer uma dessas referências que os mortos continuam conscientes no mundo deles, a ponto de tal lugar ser comparado ao Hades dos gregos.

 

19) Anthropologie des Alten Testaments

 

“É necessário examinar até que ponto, quando passou a usar a língua grega, a filosofia helênica deturpou e substituiu concepções semítico-bíblicas. Para isso, temos de esclarecer o uso veterotestamentário das palavras”. – p. 29.

 

“Certamente, [néfesh] não significa ‘alma’. N. deve ser vista aqui em conjunto com a figura total do ser humano e especialmente com sua respiração; por isso, o ser humano não tem n., mas é n., vive como n.– pp. 33, 34.

 

“Este emprego de n. em prescrições da lei para a garantia da vida corresponde a um uso em amplas áreas da língua. Quando alguém pede pela própria vida ou pela de outros, está pedindo pela n.: 2Rs 1.13; Est 7.3; 1 Rs 3.11; quando pede a morte, ele diz: ‘Tira de mim a minha n.!’ (Jn 4.3; cf. 1 Rs 19.4)... Nunca se atribui à n. a significação de um núcleo de existência indestrutível, em oposição à vida corporal, podendo existir também separado dela... falta também qualquer especulação sobre o destino da ‘alma’ para além do limite da morte”. – p. 48.

 

“No relato javista da criação (Gn 2.7), vemos o ser humano definido expressamente como נֶפֶשׁ חַיָּה [néfesh hayyä / alma vivente] mas sua simples formação do pó da terra não faz com que seja vivo. Ele só vem a sê-lo por Javé Deus soprar o fôlego da vida em seu nariz. Apenas a respiração produzida pelo criador faz dele uma n. viva, isto é, um ser vivo, uma pessoa viva, um indivíduo vivo. Portanto, o ser humano aqui é definido mais precisamente sob este aspecto. נֶפֶשׁ חַיָּה [néfesh hayyä / alma vivente] na estrutura dos enunciados de Gênesis 2.7 não introduz uma diferença específica em oposição a animais vivos; neste caso a definição posterior também do ser animal como נֶפֶשׁ חַיָּה [néfesh hayyä / alma vivente] em 2.19 dificilmente seria possível. Mas, recebendo de Deus o fôlego da vida, o ser humano como indivíduo vivo se distingue da נֶפֶשׁ מֵת [néfesh met / alma falecida] como de um corpo sem vida ou de um cadáver”. – p. 52.

 

Visto que essa obra também disse em outros lugares que o Seol é um amplo local subterrâneo nas profundezas abismais e que os seus habitantes são espíritos sombrios que falam uns com os outros, e que o próprio aparecimento do falecido profeta Samuel atesta essa realidade, qual é a relevância das ponderações acima? Francamente eu não vejo nenhuma. Não passam de uma análise lingüística da antiga maneira hebraica de pensar, que não possuía ainda o vocabulário que nós temos hoje em dia.

 

20) As Grandes Religiões, Abril Cultural:

 

“[Fílon de Alexandria é] considerado não só o primeiro teólogo... mas também o primeiro psicólogo da fé e, finalmente, o primeiro sistematizador da alegoria bíblica... Para explicar a Bíblia, Fílon utiliza o método alegórico. Em suas exposições do texto bíblico, procura um duplo significado: o literal ou evidente e o alegórico ou oculto. Para ele, o primeiro representaria o ‘corpo’ e o segundo a ‘alma’ das revelações divinas. Atrás das palavras, Fílon procura descobrir um significado mais profundo, espiritual, que é, para ele, o verdadeiro sentido da Escritura, a essência da revelação divina... Seu pensamento revela nítidas influências de diversas escolas gregas, especialmente a de Platão (428/7-348/7 a.C), com uma oposição entre o mundo sensível e o inteligível, entre a matéria e o espírito... Os seguidores do pensamento de Fílon não foram os rabinos, mas os teólogos do Cristianismo nascente. – Volume 1, pp. 78-80.

 

A citação desse livro não tem outro objetivo senão insinuar que o Cristianismo foi corrompido pela filosofia grega ainda em sua infância. Porém, conforme demonstrado em outros estudos isso não passa de um mito, ainda que seja verdade que houve alguma influência grega. Ter Fílon inspirado teólogos cristãos a exemplo de Orígenes não resulta em nenhum problema sério para a ortodoxia, e nem tampouco os transforma em vilões conforme alguns aniquilacionistas erroneamente supõem.

 

21) The Zondervan Encyclopedia of the Bible:

 

“A tradução de nepeš pelo termo ‘alma’ frequentemente tem sido mal compreendida como ensinando uma antropologia bipartida (alma e corpo: dicotomia) ou tripartida (corpo, alma e espírito: tricotomia). Igualmente enganadora é a interpretação que tão radicalmente separa a alma do corpo como no conceito grego da natureza humana... ‘Para o hebreu, o homem não era um ‘corpo’ e uma ‘alma’, mas antes um ‘corpo-alma’, uma unidade de poder vital’ (cp. BDT, s.v.)... O problema mais perplexo da antropologia e psicologia do AT é o relacionamento da alma com a morte e a vida depois da morte. Este problema se concentra não apenas na natureza da alma, mas no sentido e significado do termo nepeš. Gênesis 35.18 e 1 Reis 17.21,22 falam do nepeš como sendo a partida e/ou a volta [ou seja, a alma partindo e/ou voltando]. Todavia, as séries cruciais dos textos são aquelas nas quais os escritores do AT indicam um medo da morte e um medo da perda do eu ou da alma por meio da experiência da morte (Cp. Jó 33.18-30; SI 16.10; 30.3; 116.8; Is 38.15-17). O que é essencial para compreender a mente hebraica é o reconhecimento de que o homem é uma unidade: corpo-alma! A alma não é, pois, insensível à experiência da morte. A escatologia do AT contém elementos seminais de esperança que sugerem os ensinos mais positivos do NT, como pode ser observado na frase do AT ‘descansou com seus pais’ (1 Rs 2.10; 11.21), na atitude confiante de Davi em relação à morte de seu filho (2Sm 12.12-23) e a esperança de Jó pela ressurreição (Jó 19.20-29). É esta unidade essencial da alma-corpo que provê a singularidade do conceito bíblico da ressurreição do corpo como distinto da ideia grega da imortalidade da alma”. – pp. 232, 233.

 

Muito mais mal compreendidas têm sido as explicações a exemplo desta daí acima. Ter o autor do MB destacado em negrito o que eu marquei de vermelho é uma evidência disso... Mesmo esse trecho possuindo aparentemente informações que alimentam a ilusão aniquilacionista, se prestarmos atenção ele apresenta todas as dicas de que está ensinando exatamente o contrário do que poderão pensar os aniquilacionistas materialistas que se deparam com essa citação! Se não, vejamos.

 

Primeiramente, o próprio enfoque integralista dos antigos hebreus demonstra que eles acreditavam na existência de uma alma, embora normalmente unida ao corpo. Ou seja, o que eles chamavam de “alma vivente” é, na verdade, um ente duplicado, que a enciclopédia chamou de “corpo-alma.” (Alma vivente = corpo + alma). Ou seja, a “alma vivente” tem outra alma dentro dela, e é esta que deixa o corpo por ocasião da morte, pondo fim ao ser humano que é a própria “alma vivente”. Portanto, vemos aqui uma dicotomia implícita. Além disso, a enciclopédia indica que os hebreus se preocupavam com uma vida após a morte. Certamente nutriam algum temor do Além devido ao pensamento que tinham de que quando chegassem ao Seol experimentariam a tristeza dos que estão vivos lá, em suas formas decaídas e fantasmagóricas. O que demonstra que a “alma nº 2” não é insensível à morte da “alma nº 1”, isto é, a alma imaterial* em contraste com a outrora “alma vivente” material, que não existe mais.

 

* Que está morta apenas do ponto de vista terrestre, mas do ponto de vista do Seol está viva.

 

Os textos bíblicos aludidos pela enciclopédia remetem precisamente para tal cenário de continuidade da existência:

 

1) Quando um hebreu morria em outro país e seu corpo era enterrado, invariavelmente ele se ‘deitava com seus antepassados’ ou se ‘juntava a seu povo’. Mas como isso seria possível se o corpo dele ficava sozinho em um cemitério estrangeiro? Simplesmente porque não era seu corpo que se juntava aos seus antepassados, mas sua alma! (a “alma nº 2”). E mesmo que morresse em Israel ele não era enterrado em uma cova coletiva para se adequar à expectativa de se reunir com seus parentes. – Gênesis 15:15; Números 20:24, 28; Deuteronômio 32:48-50, 34:5, 6; 2 Reis 2:10, 8:24, 11:21.

 

2) A mesma ideia da parentela que se junta novamente depois da morte está indicada nas palavras de Davi, quando um de seus filhos morreu: “Seus conselheiros lhe perguntaram: ‘Por que ages assim? Enquanto a criança estava viva, jejuaste e choraste; mas, agora que a criança está morta, te levantas e comes!’ Ele respondeu: ‘Enquanto a criança ainda estava viva, jejuei e chorei. Eu pensava: Quem sabe? Talvez o Senhor tenha misericórdia de mim e deixe a criança viver. Mas agora que ela morreu, por que deveria jejuar? Poderia eu trazê-la de volta à vida? Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim’.” (2 Samuel 12:12-23). Dificilmente o que Davi pensou foi que um dia seria enterrado junto do corpo da criança recém-nascida que tinha acabado de falecer, fruto de seu adultério com Bate-Seba.

 

3) Sentimento de continuidade depois da morte também expressou Jó por mais de uma vez. Disse que se Deus o enviasse para o Seol, lá ficaria escondido aguardando com expectativa a chamada de Deus (Jó 14:13-15). Ele sabia que quando isso finalmente acontecesse o corpo da outrora “alma vivente” já não existiria mais, alma que tanto afligiu a alma “nº 2” (Jó 14:1, 2, 22). Não foi sem propósito então que ele disse o seguinte: “E, depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro! Como anseia no meu peito o coração!” – Jó 19:26, 27.

 

Logo, aí estão eles! Alguns dos ‘elementos seminais de esperança [de vida após a morte] que sugerem os ensinos mais positivos do Novo Testamento’, a exemplo de Mateus 10:28 e 2 Coríntios 5:8, 9.

 

No entanto, talvez seja pedir muito que o autor do MB, ou qualquer outro aniquilacionista que tenha se apaixonado pelo materialismo “cristão”, entenda da maneira que eu expliquei acima o trecho supracitado da Enciclopédia Bíblica de Zondervan, ainda que seja exatamente isso o que ela ensina. Compreender tal ensino é demais para os aniquilacionistas. Nem desenhando eles percebem. Se não virem declarações rígidas e taxativas não se convencem. E mesmo diante destas às vezes ainda dão um jeito de entender de outra maneira, como é o caso do que fazem com Mateus 10:28 ou dos textos que mencionam as “sombras” que vivem taciturnamente no Seol. Felizmente, porém, a referida enciclopédia possui vários outros trechos que atestam que ela é totalmente contra o aniquilacionismo materialista. Veja a seguir o que há no final da mesma página citada pelo autor do MB:

 

c. Escatologia e a alma: É impossível isolar a discussão sobre a psyche da compreensão do NT do estado intermediário e do estado final de todos os cristãos, que demandam uma ressurreição do corpo e uma reunião do corpo e da alma. A natureza do estado intermediário é sugerida na declaração de Jesus em Mateus 10.28, porém mais específica é 2 Coríntios 5.1-10, onde Paulo descreve o conflito espiritual dos cristãos sobre a possibilidade de permanecer ‘vestido’, porém separado de Cristo, ou estar espiritualmente ‘nu’, mas permanecer na presença de Cristo. Tanto Cristo, quanto Paulo, afirmam que a alma, o ego, pode existir, e de fato existe, independentemente do corpo, embora não de uma maneira normal. O estado intermediário é, no entanto, uma condição anormal no relacionamento da alma com o corpo. Conseqüentemente, o que o cristão deseja é a ressurreição do corpo e a transformação deste na Segunda Vinda de Cristo”. – The Zondervan Encyclopedia of the Bible, Volume 5: Revised Full-Color Edition, p. 587; citado da versão em português da Enciclopédia da Bíblia, Cultura Cristã, São Paulo, SP, Brasil, 2008, Vol. 1, pp. 233, 234, verbete “Alma”.

 

A palavra “ego” que aparece no destaque acima é a tradução do inglês self, que se refere à pessoa em si, o “eu”. É nesse contexto que o cristão podia pensar: “Estarei com Cristo depois que eu deixar este corpo”.

 

22) Calvinism and Scholasticism in Vermigli's Doctrine of Man and Grace:

 

“A erudição bíblica do século vinte concorda amplamente que os judeus da antiguidade tinham pouca noção explícita de uma vida após a morte pessoal até bem tarde no período do Antigo Testamento. A imortalidade da alma era um conceito filosófico tipicamente grego, bem alheio ao pensamento dos antigos povos semitas. Só o último estrato do Antigo Testamento afirma até mesmo a ressurreição do corpo, um conceito mais próprio dos semitas. Como Calvino, Martyr [Peter Martyr Vermigli] tomou a si uma tarefa hercúlea ao tentar defender a imortalidade da alma com um punhado de textos vagos do Novo Testamento (por exemplo, Lucas 23:43) contra os defensores do sono da alma, que tinham uma abundante fonte de contradições da imortalidade obtida dos primitivos estratos do Antigo Testamento.” – pp. 99, 100.

 

Primeiramente, como já foi comentado, só em o autor acima dizer que os antigos hebreus tinham pouca noção de uma existência contínua depois da morte implica exatamente no fato de que eles tinham alguma noção, e não o contrário. E o conceito grego de imortalidade da alma realmente não fazia parte da crença deles. Fato já conhecido e irrelevante, pois isso não foi impedimento para que eles acreditassem que continuariam existindo no distante Seol, ainda que em formas enfraquecidas (“sombras”).

 

De qualquer modo, esse trecho está apenas relatando o embate de Martyr Vermigli com pessoas que defendiam o sono permanente da alma até a ressurreição, os chamados psicopaniquista, indivíduos que nem sempre eram aniquilacionistas (veja o item “c” da seção 7). Sendo que, conforme visto na seção 2, essa obra também menciona que a outra frente que Martyr combatia, os aniquilacionistas, cometia um erro doutrinário ao supor que a alma morre junto com o corpo.

 

23) Jewish Ideas & Concepts:

 

“O termo nefesh pode denotar a essência de qualquer criatura viva e pode até ser equiparado com o sangue vital. Significa o ‘indivíduo’, o ‘ego’, a ‘pessoa’ e, consequentemente, às vezes o corpo (Êxodo 21:23)... o homem não é uma dicotomia de corpo e alma (um conceito característico do Orfismo e do Platonismo), e certamente não uma tricotomia de elementos. Seu ser é um unitário multifacetado – sendo nefesh hayyah, ‘uma pessoa vivente.’ (Gênesis 2:7)”. – pp. 99-102.

 

Essa explicação está essencialmente correta, quando se leva em consideração o que os filósofos platonistas ensinavam. Os antigos hebreus não tinham tais noções típicas do pensamento grego. Entretanto, eles acreditavam sim que os mortos permanecem de maneira semiconsciente no Seol, um local que não fica em nosso mundo, mesmo que não chamassem os seus habitantes de “almas” e nem o desejassem, pois tratava-se de uma região triste e indesejável. E este sentimento negativo era nutrido por vários povos semitas, e não apenas pelos hebreus. O livro acima citado menciona todas essas informações, conforme vimos na segunda seção.

 

24) The Concise Jewish Encyclopedia:

 

Imortalidade da alma. A Bíblia não declara uma doutrina da imortalidade da alma, nem isto surge claramente na primitiva literatura rabínica.” – p. 257.

 

Mais uma vez, o acima é verdadeiro, pois tem como foco o ensino da filosofia grega, segundo o qual a alma é indestrutível, nunca teve princípio e tem as esferas superiores qual destino. Nada disso é ensinado na Bíblia. No entanto, ela afirma que os mortos vão para um distante lugar abaixo da Terra chamado Seol, conforme foi informado por essa mesmíssima enciclopédia judaica (pp. 487, 788).

 

25) Genesis – Volume I:

 

“... ‘imortalidade’ da alma. Esta não é uma ideia hebraica, e sim uma ideia grega. Em hebraico, a ‘alma’ não é uma parte do homem, e sim a pessoa viva completa, consistindo, como este versículo deixa claro, de seu corpo mais o fôlego que lhe dá vida... Não se deve permitir que a simplicidade deste quadro de Deus formando o ‘homem’ como um oleiro nos deixe cegos quanto ao seu significado essencial. Isto significa que nós e todos os seres humanos derivamos nossas vidas diretamente dele. Sem o fôlego que ele coloca em nós, estamos mortos e nossos corpos se dissolvem no pó de onde vieram”. – pp. 103, 104.

 

Como foi visto na seção 2, o escritor da obra acima deixou claro que é cristão e verdadeiro o conceito de que a pessoa continua viva depois da morte, porém os primeiros hebreus não tinham noção disso. Ainda deu a entender que deve ter sido uma surpresa para Abraão acordar no paraíso depois que morreu. No entanto, é claro que essa continuidade da existência, antes mesmo da ressurreição geral dos mortos, não é mérito de nenhum de nós, pois não temos uma alma indestrutível e dona se si própria conforme os gregos concebiam. A vida é sempre uma concessão de Deus, mesmo aquela deprimente experimentada no Seol e que não pode ser chamada de verdadeira vida. Este é o cenário hebraico sobre a morte. Nada tem a ver com o aniquilacionismo.

 

26) The Parables of the Kingdom, Grace and Judgment:

 

“O maior obstáculo para encararmos o julgamento de Jesus como o grande sacramento da vindicação talvez seja a nossa infeliz preocupação com o conceito da imortalidade da alma. A doutrina é uma peça de bagagem filosófica não hebraica com a qual estamos grudados desde que a igreja adentrou no vasto mundo do pensamento grego. Sozinha ao lado da ideia concomitante de ‘vida após a morte’ [imediata], ela não nos trouxe quase nada além de problemas: ambos os conceitos militam contra uma séria aceitação da ressurreição dos mortos que é a única base do julgamento”. – p. 71.

 

Quem não conhece o contexto da obra de Capon e se depara com tais palavras pode ter a nítida impressão de que ele era um convicto aniquilacionista. No entanto, conforme foi analisado na segunda seção, esse erudito jamais professou o materialismo “cristão” e acreditava que o homem continua vivo depois da morte, seja no céu ou no inferno, porém de maneira completa e não apenas uma alma à parte do corpo. Como isto seria possível, já foi visto na mesma seção. De modo que, até certo ponto, o autor do MB está desculpado por cair nessa “armadilha” não intencional de Robert Capon. Realmente esses teólogos “progressistas” têm sido uma “casca de banana” para aniquilacionistas desavisados ou não dispostos a examinar o assunto com mais profundidade e mente aberta.

 

De qualquer maneira, é preciso destacar que a birra dos referidos teólogos com aquilo que a ortodoxia cristã vem apresentando há séculos sobre a alma tem como foco o conceito grego, que rigorosamente falando realmente tem muito pouco a ver com o ensinamento bíblico sobre a morte e a vida eterna. E não raro eles fazem referência a isso. Com Capon não foi diferente:

 

“Aparentemente, portanto, nem Deus nem nós mesmos fornecemos qualquer garantia final sobre o assunto da existência separada da alma. Certamente, não devemos desprezar a crença antiga e generalizada da raça [humana] de que a alma sobrevive à morte do corpo. Mas, para que fique registrado, deve-se notar que nos círculos cristãos essa capacidade de sobrevivência se baseava apenas na alma humana. Considerou-se que as almas animais e vegetais perecem quando a matéria que animaram perece. Foi realmente dito que a alma humana se mantém. Mas o raciocínio por trás dessa conclusão baseou-se principalmente na teoria de que, ao contrário de todas as outras almas, cada alma humana individual foi criada diretamente por Deus e infundida em um corpo fornecido por pais cooperativos. Isso, no entanto, é uma das noções mais minimamente escriturárias de todas. Deriva principalmente de religiões altamente espirituais e de outro mundo que estabelecem um dualismo antagônico entre matéria e espírito: a alma, como espiritual, é boa. O corpo, como matéria, é o mal. O objetivo da vida humana é livrar-se do velho e desagradável casulo físico em que a bela borboleta da alma está presa, de modo que, sem restrições, ela pode assumir sua verdadeira natureza e voar para Deus”. – The Romance of the Word: One Man's Love Affair with Theology: Three Books, Eerdmans, 1995, p. 306.

 

Caso você, leitor, venha a ler este trabalho completamente e todas as referências a que ele remete, em especial a seção 5 e o apêndice A, notará que a situação, na realidade, não é tão simples e uniforme quanto Capon e outros gostariam que fosse. A crença na sobrevivência após a morte não é de jeito nenhum exclusividade de religiões espiritualistas, pois também está presente nas páginas da Bíblia, mesmo sem a típica linguagem grega (mas nem sempre).

 

Conforme já observado, a exegese bíblica foi pouco explorada por Capon e ele mesmo admitiu isso, na parte onde afirmou que não era universalista. O estilo literário que ele escolheu não tinha por objetivo discorrer sobre pontos que minam aspectos importantes do discurso monista ou da teologia existencialista e social para a qual tendem os seus defensores. As razões prováveis que explicam essa tendência deles estão comentadas na seção 7.

 

27) Harper’s Bible Dictionary:

 

“Para um hebreu, ‘alma’ indicava a unidade de uma pessoa humana; os hebreus eram corpos vivos, eles não tinham corpos. Este campo semântico hebraico é violado na Sabedoria de Salomão [o livro apócrifo] pela introdução explícita de ideias gregas sobre a alma. Um dualismo da alma e do corpo está presente: ‘o corpo corruptível torna pesada a alma’ (9:15). Este corpo corruptível é oposto por uma alma imortal (3:1-3). Tal dualismo poderia significar que a alma é superior ao corpo. No NT, ‘alma’ retém o seu campo semântico hebraico básico. Alma refere-se à vida de alguém”. – pp. 982, 983.

 

E mesmo assim, de acordo com o ensinamento cristão do Novo Testamento, o ser humano tem uma alma que permanece viva depois da morte, conforme indicado pelo próprio Harper’s Dictionary, que também informou que a visão hebraica é que os espíritos dos mortos vão para o mundo subterrâneo do Seol, não obstante o que foi dito na citação acima.

 

28) The Eerdmans Bible Dictionary:

 

“Realmente, a salvação da ‘alma imortal’ tem sido às vezes um lugar-comum na pregação, mas isso é fundamentalmente antibíblico. A antropologia bíblica não é dualista, e sim monista: o ser humano consiste na totalidade integrada de corpo e alma, e a Bíblia jamais contempla a existência desencarnada da alma em gozo.” – p. 518.

 

“ALMA. A tradução usual do Heb. nepeš e Gk. psychḗ (embora a maioria das traduções mantenham considerável liberdade em suas versões destes termos). Assim como outros termos, tais como ‘corpo’, ‘coração’ e ‘espírito’, ‘alma’ não designa uma parte de um ser humano, e sim a pessoa inteira considerada de um aspecto particular de seu funcionamento. Como tal, ela representa primariamente a força vital do corpo (Gênesis 2:7) ou a vida interior da pessoa, abrangendo desejos e emoções”. – p. 964.

 

Caso semelhante à obra anterior. A explicação semântica sobre o hebraico nefesh (alma) não anula o entendimento que o povo de Deus sempre teve que a pessoa continua viva depois da morte, ainda que numa situação rebaixada, no caso da concepção hebraica. Por isso, esse mesmo dicionário também disse que Jesus ensinou sobre o estado intermediário, que os mártires cristãos estão no céu, que o falecido profeta Samuel apareceu para Saul, que o Seol é um lugar distante e profundo habitado por espíritos sombrios (dos mortos) e que há regiões infernais nas quais os anjos rebeldes foram confinados.

 

29) New Dictionary of Theology:

 

“Gen. 2:7 faz referência a Deus formando Adão ‘do pó da terra’, e soprando ‘em suas narinas o fôlego da vida’, para que o homem se tornasse um ‘ser vivente’. A palavra ‘ser’ traduz a palavra hebraica nep̄eš que, embora seja muitas vezes traduzida pela palavra inglesa ‘alma’, não deve ser interpretada no sentido sugerido pelo pensamento helenístico (veja Platonismo; Alma, Origem da). Ela deve, em vez disso, ser entendida no seu contexto próprio no âmbito da AT como indicativa de homens e mulheres como seres ou pessoas vivas em relação a Deus e a outras pessoas. A LXX traduz esta palavra hebraica nep̄eš pela palavra grega psychē, o que explica o hábito de interpretar este conceito do AT à luz do uso grego de psychē. Porém, é certamente mais apropriado entender o uso de psychē (tanto na LXX como no NT), em função do uso de nep̄eš no AT. Segundo Gen. 2, qualquer concepção da alma como uma parte ou divisão separada (e separável) de nosso ser parece ser inválida. Da mesma forma, o debate popular sobre se a natureza humana é um ser bipartido ou tripartido parece ser de uma irrelevância muito mal fundamentada e inútil. A pessoa humana é uma ‘alma’ em virtude de ser um ‘corpo’ que se tornou vivo pelo ‘sopro’ (ou ‘Espírito’) de Deus”. – pp. 28, 29.

 

Novamente, explicação correta sob determinado enfoque, porém irrelevante para o que interessa aqui. Isto porque os autores dessa obra sabem perfeitamente que não existe aniquilacionismo. Por isso disseram também que o Novo Testamento afirma que a alma de Jesus desceu para o Hades depois da morte e que durante o estado intermediário os descrentes passam por angústias nesse mesmo lugar.

 

30) The True Image – The Origin and Destiny of Man in Christ:

 

“O que pode ser deduzido da revelação bíblica?... Foi por sua rebelião contra seu Criador que ele passou de um relacionamento positivo para um negativo e trouxe a maldição sobre si mesmo. Sua morte, que é a conta dessa maldição, é também a evidência de que o homem não é inerentemente imortal. Afirmar que só a alma humana é inatamente imortal é manter uma posição que não é aprovada em parte alguma no ensino das Escrituras, pois, no âmbito bíblico, a natureza humana é sempre vista como integralmente composta tanto do espiritual quanto do corporal. Se não fosse assim, toda a doutrina da encarnação e da morte e ressurreição do Filho seria despojada de significado e realidade. O homem é essencialmente uma entidade corpóreo-espiritual. A advertência de Deus no princípio, a respeito da árvore proibida: ‘No dia em que dela comerás, morrerás’, foi dirigida ao homem como uma criatura corporal e espiritual – se comesse dela, como tal ele morreria. Não há qualquer sugestão de que uma parte dele era imortal e, portanto, que sua morte só seria em parte. Concordemente, a imortalidade com a qual o cristão é assegurado, não é inerente nele mesmo ou em sua alma, mas é concedida por Deus e é a imortalidade da pessoa inteira na plenitude de sua humanidade, tanto corporal quanto espiritual. – p. 400.

 

Aqui já é aquela outra abordagem relacionada à doutrina grega, que não é ensinada na Bíblia. A obra não está dizendo que não existe uma alma que sobrevive à morte. O que ela está explicando é que a alma que sobrevive não tem as características preconizadas pelos filósofos gregos. Por isso esse mesmo livro contém a seguinte afirmação:

 

“Temos argumentado que a sobrevivência da pessoa, ou da alma, no estado intermediário entre a morte e a ressurreição, não implica necessariamente na sua sobrevivência eterna”.

 

Ou seja, a alma fica viva depois da morte do corpo, porém Deus poderá um dia erradicá-la da existência (Mateus 10:28). Embora este entendimento difira da crença predominante da antiga igreja de que toda alma ficará viva para sempre, quer o destino dela seja o céu ou a Geena (inferno), e que por isso o autor dessa obra poderia até ser classificado como aniquilacionista por defender tal ponto de vista, assim como fizeram com Arnóbio de Sica nos tempos antigos, o ponto importante aqui é que o referido autor está defendendo a sobrevivência continuada da alma depois da morte.

 

31) Word Biblical Commentary – Ecclesiastes:

 

“A nota de morte continua. O processo aqui descrito é o inverso de Gen 2:7. O fim da vida é a dissolução (não aniquilação, os israelitas nunca especularam sobre como o ‘eu’ estava no Seol, veja Ecle. 9:10). Os seres humanos retornam ao pó (Gen. 3:19) de onde vieram, enquanto o fôlego da vida dado por Deus retorna ao seu possuidor original. Este é um quadro de dissolução, não de imortalidade, como se houvesse um reditus animae ad Deum, ‘o retorno da alma a Deus’. Não há discussão alguma sobre ‘alma’ aqui, e sim sobre fôlego de vida, uma categoria totalmente diferente de pensamento. Portanto, não há razão para negar a autoria deste versículo a Coheleth [o autor do Eclesiastes]. K. Galling, A. Lauha e outros argumentaram que ele deve pertencer a um glosador [comentarista] porque contradiz o versículo 3:21, onde Coheleth nega a afirmação de que o רוּחַ rûah humano sobe em contraposição ao רוּחַ rûahi de animais. Mas, o contexto de 3:21 é polêmico. Alguns afirmam que há uma diferença entre o fôlego de vida dos seres humanos e o dos animais; a pergunta de Coheleth (‘quem sabe?’) nega qualquer diferença qualitativa. Mas ele certamente compartilha com o resto do AT que Deus é o dono e doador da vida, isto é, o fôlego de vida (Sal. 104:29-30, Jó 33:4; 34:15, veja também Sir 40:11b, Texto hebraico).” – p. 120, sobre Eclesiastes 12:7.

 

Como foi visto na seção 2, o autor do livro acima não sustenta o aniquilacionismo. Ele apenas expõe o assunto do ponto de vista dos que escreveram Eclesiastes, que é uma peça literária peculiar, típica dos povos semíticos, que ressalta e amplia o pessimismo que hebreus, babilônios e outros tinham sobre a morte. Embora o autor do MB não tenha feito uma análise mais detalhada do livro, conforme está apresentado na referida seção, o próprio trecho acima que ele selecionou já dá um indicativo do que estou dizendo aqui (veja o destaque em azul).

 

32) A Theology of the New Testament:

 

O conceito hebraico do homem é muito diferente do conceito grego. Não há qualquer vestígio de dualismo. A palavra hebraica para corpo ocorre apenas quatorze vezes no Antigo Testamento e jamais está em contraste com a alma (nephesh). Com mais frequência, a palavra para carne (basar) é usada para designar o corpo (23 vezes). Esta palavra carrega principalmente um significado físico... Jamais se visualiza vida incorpórea para a nephesh. A morte afligia a nephesh (Num. 23:10) bem como o corpo... nem nephesh nem ruach são concebidos como uma parte do homem capaz de sobreviver à morte do basar. Ambos designam o homem como um todo visto de diferentes perspectivas”. – pp. 499-501.

 

Visto com a lente do platonismo tudo o que está dito acima é essencialmente correto. Mesmo assim as mesmas pessoas que nutriam tais conceitos “materialistas” também acreditavam que seus espíritos iriam para outro mundo chamado Seol, porém chamavam esses espíritos de “sombras”. Esta é a razão porque essa mesma obra diz que “a existência humana não termina com a morte” e que ‘Jesus afirmou claramente que o espírito do malfeitor arrependido na cruz estaria no Paraíso naquele mesmo dia’. Sim, a alma pode ser mandada tanto para o céu quanto para qualquer outro lugar que Deus determine.

 

33) Enciclopédia Mirador:

 

“No neoplatonismo, a alma é por natureza imortal, mesmo que tenha sido criada, isto é, não tenha tido preexistência desde a eternidade. Essa concepção dualista, característica do pensamento grego desde Homero, quando não se cogitava, ainda, de nenhuma distinção metafísica ou teológica, contrasta com a doutrina ensinada pelos profetas hebreus, como W. Robinson sintetizou: ‘a personalidade humana era um corpo animado e não uma alma encarnada.’ A influência do platonismo sobre o pensamento cristão dos primeiros séculos, foi, porém, muito forte, e predominou sobre a influência hebraica, prevalecendo na teologia cristã ao longo dos tempos. A patrística foi quase totalmente dominada pela síntese platônica que, afinal, se tornou parte integrante da doutrina e prática, pregação e liturgia, bem como da hinologia cristãs… O pensamento bíblico não oferece nenhuma base para uma concepção tricotômica ou dicotômica do homem. Na Bíblia, a alma não corresponde a uma parte do ser humano, mas ao homem em sua manifestação de ser vivo... nas Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento, o homem é concebido como uma unidade de tal natureza que, dependendo do ponto de vista pelo qual é ele considerado, tanto pode ser chamado soma (corpo), como psyche (alma) ou sarx (carne) ou pneuma (espírito), sendo que nenhum desses termos se refere jamais a uma só parte do homem, mas a este como um todo. – Volume 2, p. 404, verbete “Alma”.

 

“No judaísmo antigo é incerta a condição dos mortos no sheol (lugar obscuro, caverna situada por debaixo dos oceanos, fechada por portas |Jó 10,21; 26,5; 38|). Primitivamente, pensava-se que os mortos permaneciam para sempre separados de Deus, incapazes de louvá-lo. Mais tarde, admite-se que Deus pode libertar do sheol os justos; a morte seria finalmente vencida. Nos últimos livros do Antigo Testamento esboça-se a doutrina do juízo final e da ressurreição dos mortos. Uma vasta literatura apocalíptica se desenvolve a partir do século I a.C. Os livros de Enoc, o quarto livro de Esdras, a Assunção de Moisés apresentam alguma teoria apocalíptica no meio de um emaranhado de elucubrações fantásticas que influenciaram a primitiva literatura cristã e o islamismo”. – Volume 8, p. 4012, verbete “Escatologia”.

 

“... a expectativa não se irá restringir apenas à ressurreição de Davi (Ez 34, 23, 31), mas abrangerá todas as almas (Ez 37,1-14). Há, no entanto, certa reserva nos livros do Antigo Testamento, pelo menos até o aparecimento do movimento apocalíptico, quando as ideias de ressurreição se tornam exuberantes. Fala-se num juízo final com a pressuposição de que haveriam de voltar à vida tanto os bons como os ímpios. Foi nesse clima espiritual que surgiu o cristianismo. – Volume 18, pp. 9824, 9825, verbete “Ressurreição”.

 

Novamente, mais explicações semânticas e históricas que estão corretas sob determinado ângulo, mas que são completamente irrelevantes para repelir a crença de que existe uma alma que sobrevive à morte. Por isso essa mesma enciclopédia também disse que o Seol, para onde vão os mortos, é um lugar escuro abaixo dos próprios oceanos. Ou seja, não se refere a uma sepultura com um cadáver, e sim um mundo distante. Além disso, a Mirador também nos informa que o Cristianismo ampliou esse entendimento por afirmar claramente que a alma não morre e que haverá uma ressurreição corporal no juízo final e que depois disso uns irão para a vida eterna e outros para a condenação.

 

34) New Testament Theology:

 

“Depois de sua conversão, Paulo aceitou o relato da Igreja primitiva sobre o que havia acontecido com Jesus no Domingo de Páscoa e rapidamente incorporou isso à estrutura de sua teologia. Ele acreditava que quando Cristo deixou o túmulo, o corpo físico dele foi transformado em um corpo espiritual ou glorioso (Filipenses 3:21), assim como uma semente plantada no solo morre e recebe um corpo novo (1 Cor 15:36-38). Assim também o cristão deve passar por uma transformação futura. Em 1 Coríntios, isto é vislumbrado como ocorrendo de repente, ‘num momento, num abrir e fechar de olhos’ (1 Cor. 15:52). Um quadro ligeiramente diferente do processo surge na segunda carta, onde Paulo assegura aos seus leitores que a vida cristã é uma transfiguração constante na semelhança de Cristo. Esta metamorfose prossegue através de uma renovação diária da natureza interior, ainda que a aparência exterior esteja em declínio (2 Cor. 4:16). Alguns intérpretes modernos ficariam mais felizes se, nesse momento, Paulo tivesse afirmado que a casca externa é liberada e deixa o eu interior desimpedido da fraqueza dela. Mas o judeu não acreditava que os seres humanos consistem de uma alma imortal sepultada por algum tempo num corpo mortal. O que acontecia com o corpo acontecia com a pessoa. Se existe a vida eterna, então este humilde corpo de humilhação deve ser mudado como foi o de Cristo”. – p. 267.

 

Outra vez uma explicação correta, ao balancear a visão hebraica com a grega, porém irrelevante, pois essa obra informa também que “tanto os judeus quanto os cristãos têm uma crença bem estabelecida na vida após a morte”, e que por isso os fiéis estarão vivos com Cristo depois da morte. O livro também enfatizou que não devemos superestimar o antigo pessimismo hebraico sobre a morte, pois naquele tempo eles ainda não sabiam o que nós sabemos hoje.

 

35) What Do Jews Believe? – The Spiritual Foundations of Judaism:

 

“Na Torá não há qualquer ideia de corpo e alma como dois aspectos distintos e diferentes de um ser humano. Um homem ou uma mulher viva é visto como um ser orgânico unificado, descrito em hebraico como nefesh. Nefesh refere-se à vida humana em geral e ao caráter humano em particular... O ser humano é um ser monista ou unificado consistindo de uma natureza integrada. Não há qualquer noção na Bíblia de algum dualismo ou dupla natureza – tal como corpo e alma – no ser humano. A Bíblia não contém qualquer menção de uma alma separada”. – pp. 53, 54.

 

Mesmo caso de outros aqui analisados. O enfoque hebraico sobre a alma não anula a crença que se tinha antigamente da continuidade da existência.  Por isso esse mesmo livro disse que o Seol fica nas profundezas da Terra e nele os espíritos dos mortos compartilham a infelicidade do lugar.

 

36) New Bible Dictionary:

 

“Uma instância específica do repúdio hebraico ao dualismo é a doutrina bíblica do homem. O pensamento grego e, em conseqüência, muitos sábios judeus e cristãos helenizantes, consideravam o corpo como uma prisão da alma: sōma sēma ‘o corpo é um túmulo’. O objetivo do sábio era conseguir a libertação de tudo o que é corporal e, dessa forma, libertar a alma. Mas, para a Bíblia o homem não é uma alma em um corpo, e sim uma unidade corpo/alma; tanto é que, mesmo na ressurreição, embora a carne e o sangue não possam herdar o reino de Deus, ainda teremos corpos (1 Cor. 15:35 em diante)”. – p. 284.

 

“Os gregos encaravam o corpo como um empecilho para a verdadeira vida e ansiavam pelo tempo em que a alma se libertaria de seus entraves. Eles tinham um conceito de vida após a morte em termos da imortalidade da alma.” – p. 1010.

 

E mesmo assim, conforme essa obra também observa, usualmente se considera que a nefesh (alma) é uma parte que se separa do corpo no momento da morte e que no Novo Testamento essa parte é chamada tanto de “alma” quanto de “espírito”, diferindo assim do que é visto na parte hebraica da Bíblia, que normalmente não equipara essas duas palavras. E a obra diz mais, que o Novo Testamento endossa o ensino do sofrimento eterno para os pecadores impenitentes e aqueles que não acreditam nisso se baseiam em premissas muito frágeis, que resultam de um exame deficiente dos textos bíblicos envolvidos.

 

37) “Christianity and The Survival of Creation”:

 

“O teste crucial provavelmente é Gênesis 2:7, que dá o processo pelo qual Adão foi criado... A fórmula dada em Gênesis 2:7 não é homem = corpo + alma; a fórmula lá é alma = pó + fôlego. Segundo este versículo, Deus não fez um corpo e colocou uma alma dentro ele, como uma carta dentro dum envelope. Ele formou o homem do pó; daí, por soprar seu fôlego nele, Ele fez o pó viver. O pó, formado como homem e feito viver, não incorporou uma alma, ele tornou-se uma alma. ‘Alma’ aqui refere-se a uma criatura completa. A humanidade é, assim, apresentada a nós, em Adão, não como uma criatura de duas partes distintas temporariamente coladas juntas, e sim como um mistério único”. – p. 253.

 

Ainda que tais explicações possam ser usadas para justificar o aniquilacionismo, não está claro se o autor delas realmente está defendendo tal ponto de vista, devido a outras coisas que ele disse e que estão destacadas na seção 2. Por exemplo, embora ele rechace o dualismo grego, ele disse que devemos nos considerar almas vivas e imortais. Obviamente, alma no sentido monista, sempre completa e não etérea. Por assumir tal visão o ser humano estaria mais apto a valorizar o mundo onde vive e contribuir para a preservação da natureza. Em suma, o enfoque do livro é ecológico e não teológico.

 

38) The Death of Death – Resurrection and Immortality in Jewish Thought:

 

“Por grande parte dos últimos dois milênios, o mundo ocidental, incluindo os judeus, tem caracterizado a morte como a separação entre a alma e o corpo. Este conceito deriva-se originalmente da filosofia grega, certamente de Platão e possivelmente da religião órfica de meados do sexto século [A.C.]... Por mais que este conceito de separação entre a alma e o corpo tenha se tornado parte da concepção do Judaísmo sobre a vida após a morte, ele não é, de modo algum, o conceito bíblico. A antropologia bíblica nada sabe deste perfil dualista da pessoa humana... A Bíblia, em contraste, retrata cada ser humano como uma entidade única, revestida em carne moldada do solo, que é animada ou vivificada por uma centelha ou impulso vital, chamado variadamente de ruah, nefesh, neshamah ou nishmat hayyim... A morte é entendida como o ‘sair’ do ruah, ou o semelhante ‘sair’ da nefesh (como em Gênesis 35:18), ou como Deus ‘tirar’ a nefesh (como em 1 Reis 19:4) ou o neshamah (como em Jó 34:14). É precisamente essa noção de que algo ‘sai’ do corpo na morte que permitiu à tradição posterior identificar esse ‘algo’ com a alma de Platão. Porém, no contexto bíblico, o que deixa a pessoa não é uma entidade distinta, e sim aquela centelha vivificante que inicialmente tinha dado vida à carne moldada do solo, em primeiro lugar. A chave para a compreensão de todos estes trechos é o relato da criação da pessoa humana em Gênesis 2:7... Identificar esse fôlego de vida com o que mais tarde seria chamado de ‘alma’ seria atribuir-lhe uma identidade distinta que incluiria a autoconsciência. Mas, simplesmente não existe nada disso nos textos bíblicos. Aqui, a referência é mais a uma centelha impessoal que, por fim, simplesmente se dissipa... a ideia de ressurreição evoluiu dentro de Israel como um desenvolvimento completamente natural de conceitos profundamente enraizados na religião bíblica desde o princípio. – pp. 75-77, 83, 84, 96, 97.

 

Visto que esse livro também afirmou que “as pessoas não se extinguem totalmente na morte” e que ‘existe uma dimensão extra que continua’ existindo, e o autor até usou um episódio bíblico para exemplificar isso, como devemos compreender os trechos acima? Se não for encontrado um meio termo para balancear tudo o que foi dito, o livro estará expondo um ponto de vista contraditório. Mesmo não sendo tão fácil enxergar nesse caso, a resposta do problema está no enfoque que o autor deu à semântica das palavras hebraicas em contraste com a filosofia grega, que é como comparar a água com o vinho. Embora um pouco de vinho seja benéfico (1 Timóteo 5:23), é claro que o mais importante é a água (João 4:14) [Analogia]. Ou seja, no que tange à linguagem do Antigo Testamento o hebreu não usava as palavras “almas”, “espíritos” e outras de feição metafísica do mesmo modo que os gregos.  Mesmo assim os hebreus acreditavam que algo sobrevivia, porém se referiam a isso de outras maneiras. Por exemplo, já vimos que eles chamavam os espíritos no Seol de “sombras”.

 

Conforme vimos na seção 2, o autor desse livro responsabiliza a ‘incoerência interna’ da Bíblia hebraica por esse labirinto que é “preciso” percorrer para alguém chegar ao entendimento compartilhado por judeus e cristãos de que existe uma alma que sobrevive à morte, mesmo que não seja aquela nefesh do Antigo Testamento.

 

39) The Encyclopaedia of Judaism:

 

“Uma segunda doutrina da vida após a morte entra no Judaísmo não na própria Bíblia, mas no período intertestamental, isto é, do século I AC ao século I DC. Esta doutrina ensina que todo ser humano é um composto de duas entidades, um corpo material e uma alma não-material; que a alma é preexistente ao corpo e abandona o corpo na morte; que, embora o corpo se desintegre no túmulo, a alma, por sua própria natureza, é indestrutível; e que ela continua a existir por toda a eternidade. Nem sequer uma sugestão desse conceito dualista do ser humano aparece na Bíblia.” – Volume 1, pp. 200, 201.

 

“Ainda que estejamos cônscios do amplo e bem comum uso bíblico do termo ‘alma’, deve ficar claro para nós que as Escrituras não apresentam sequer uma teologia rudimentarmente desenvolvida da alma. A narrativa da criação é clara no sentido de que toda a vida se origina de Deus. Ainda assim, as Escrituras Hebraicas não oferecem qualquer compreensão específica da origem das almas individuais, de quando e como elas se agregam a organismos específicos, ou de sua existência potencial, à parte do corpo, após a morte. A razão para isso é que, conforme observamos no início, a Bíblia Hebraica não apresenta uma teoria da alma desenvolvida muito além do simples conceito de uma força associada com a respiração, portanto, uma força vital.” – Volume 3, p. 1343.

 

Por tratar-se de outra obra judaica escrita por quem acredita na imortalidade da alma, porém não abre mão da antiga visão hebraica sobre o homem, o livro apresenta as mesmas contradições aparentes que vimos na obra anterior. A diferença nesta é que é mais fácil concluir que ela não está ensinando o aniquilacionismo, pois ela disse em outro trecho que depois que o corpo morre “a alma sobrevive em uma ‘sala de espera neutra’, a bíblica ‘bolsa da vida’”. Por isso, os mortos continuam existindo no Seol e de maneira consciente. Para confirmar isso, o autor até menciona o caso do falecido profeta Samuel que voltou do mundo dos mortos para dar seu último parecer ao infiel rei Saul.

 

40) Baker Encyclopedia of Psychology and Counseling:

 

“A erudição moderna tem ressaltado o fato de que os conceitos hebraico e grego de alma não eram sinônimos. Embora a visão de mundo hebraica distinguisse a alma do corpo (como base material da vida), não havia qualquer questão sobre duas entidades separadas, independentes. Uma pessoa não tinha um corpo, mas era um corpo animado, uma unidade de vida que se manifestava em forma carnal – um organismo psicofísico (Buttrick, 1962). Embora os conceitos gregos da alma variassem amplamente, de acordo com a era específica e a escola filosófica, o pensamento grego frequentemente apresentava um conceito da alma como uma entidade separada do corpo. Até décadas recentes, a teologia cristã da alma tem refletido mais o pensamento grego (compartimentalizado) do que as ideias hebraicas (unificadoras).” – p. 1148.

 

Como vimos na segunda seção, o objetivo desse livro é discorrer sobre psicologia e não teologia. E não há elementos suficientes para dizer que o discurso monista que ele apresenta está realmente alinhado com o aniquilacionismo. Seria preciso ler a obra inteira para talvez determinar isso com segurança.

 

41) Eerdmans Dictionary of the Bible:

 

“Longe de se referir simplesmente a um aspecto de uma pessoa, ‘alma’ refere-se à pessoa integral. Assim, um cadáver é referido como uma ‘alma morta’, embora a palavra seja geralmente traduzida como ‘corpo morto’ (Lev. 21:11; Num. 6:6.). ‘Alma’ também pode se referir à própria vida de uma pessoa (1 Reis 19:4; Eze. 32:10). Com frequência ‘alma’ refere-se, por extensão, à pessoa integral”. –  p. 1245.

 

Ao contrário da obra anterior, o entendimento “imortalista” dos autores desse dicionário bíblico está exposto de forma total e reluzente, não obstante o breve discurso monista acima. Para constatar isso, basta ler os trechos que eu destaquei na seção 2.

 

42) Christ and the Future in New Testament History:

 

“O conceito platônico de que a pessoa essencial (alma/espírito) sobrevive à morte física tem sérias implicações para a cristologia de Lucas e para sua teologia da salvação na história. Para a cristologia isso encontra seu resultado lógico, por exemplo, em uma exegese gnóstica de Luc. 23:46: O homem terreno morreu, ‘mas o próprio [Jesus], entregando o espírito nas mãos do Pai, ascendeu ao Bom’. Para a escatologia isso representa uma platonização da esperança cristã, uma redenção do tempo e da matéria... Suponho que um dualismo antropológico entrou no pensamento da igreja patrística, principalmente com a grandiosa síntese do cristianismo e da filosofia grega feita por Clemente e Orígenes. Isto eclipsou a esperança cristã primitiva do retorno de Cristo e da ressurreição dos mortos. Mas não caracterizava o cristianismo do Novo Testamento, e só pode ser encontrado em Lucas se lermos os textos com lentes baseadas em Atenas, como fizeram aqueles pais cristãos... O hiato no seu ser individual entre a sua morte e a sua ressurreição no último dia desta era é, na sua consciência, um tique do relógio. Para eles, o grande e glorioso dia da Parousia de Cristo é só um momento no futuro. O ‘estado intermediário’ é só algo que os vivos experimentam com relação aos mortos, e não algo que os mortos experimentam em relação aos vivos ou a Cristo... Embora tenham muitas raízes e acessórios tradicionais, essas teologias têm, penso eu, deturpado seriamente a escatologia da Paulo da salvação na história. É porque Paulo considera o corpo como a pessoa e a pessoa como o corpo físico que ele insiste na ressurreição do corpo”. – pp. 127, 177, 178.

 

Esta é uma das poucas obras citadas pelo autor do MB que realmente advogam o aniquilacionismo, porém ela está repleta de problemas facilmente identificáveis. Caso não tenha lido ainda, considere as minhas observações sobre ela na seção 2.

 

43) Tyndale Bible Dictionary:

 

Não existe no AT qualquer sugestão da transmigração da alma como uma entidade imaterial, imortal. O homem é uma unidade de corpo e alma — termos que não descrevem tanto duas entidades separadas em uma pessoa, quanto descrevem uma pessoa a partir de diferentes pontos de vista. Assim, na descrição da criação do homem em Gênesis 2:7, a frase ‘uma alma vivente’ (KJV) é mais bem traduzida como ‘um ser vivente’.” – p. 1216.

 

Não há nenhum problema nessa explicação, se nos focarmos na antiga semântica hebraica e o contraste dela com o entendimento grego. Mas nada disso é empecilho para a crença na continuidade da existência depois da morte, conforme esse mesmo dicionário explica em outros verbetes.

 

44) Care for the Soul – Exploring the Intersection of Psychology & Theology:

 

“Surgiu um amplo consenso entre os eruditos bíblicos e teológicos de que o dualismo corpo-alma é uma ideia platônica, helenística que não é encontrada em parte alguma na Bíblia. A Bíblia, de capa a capa, promove o que eles chamam de ‘conceito hebraico da pessoa integral.’ G. C. Berkouwer escreve que o conceito bíblico é sempre holístico, que na Bíblia nunca se atribui à alma qualquer significado religioso especial. Werner Jaeger escreve que o dualismo corpo-alma é uma ideia bizarra que foi lida na Bíblia por pais da igreja mal orientados tais como Agostinho. Rudolf Bultmann escreve que Paulo usa a palavra sōma (corpo) para se referir à pessoa como um todo, o ser, de modo que não há uma alma e um corpo, mas o corpo é a coisa toda. Esta interpretação da antropologia paulina foi um tema em grande parte da erudição paulina posterior.” – pp. 107, 108.

 

A citação acima faz parte do capítulo do livro intitulado “O Conceito do Eu - em Defesa da Palavra Alma”, escrito por Jeffrey H. Boyd. Conforme visto na segunda seção, ao contrário do que o trecho pode deixar transparecer, o autor não estava defendendo tais opiniões. Ele apenas as mencionou e explicou em seguida porque acha que elas não têm fundamento. É tanto que no final do excerto ele diz que tudo isso não passa de uma interpretação que surgiu depois da época do apóstolo Paulo.

 

Provavelmente o autor do MB não notou que esse texto não está ensinando o monismo materialista sobre a alma. É fácil deduzir isto porque o trecho citado pelo “bereano” aparece em outros lugares da Internet exatamente como está acima, a exemplo da Wikipédia ou sites que defendem o mortalismo ou o ateísmo (se quiser conferir, quando estiver dentro de uma página, busque pelo título em inglês da obra com a ferramenta de localizar no navegador). Várias das citações apresentadas pelo autor do MB foram conseguidas dessa mesma maneira. Ele não foi diretamente nas obras ler o que elas dizem. Apenas coletou o que outras pessoas com opiniões similares à dele publicaram.

 

45) Encyclopædia Britannica:

 

Conforme foi visto na segunda seção, esta enciclopédia informa que na época dos antigos hebreus não havia o conceito de que a morte significa a extinção completa de quem morreu, pois todos os povos daquela época tinham a crença de que algo sobrevivia à morte. Foi somente no tempo do grego Epicuro que a ideia de aniquilação ganhou algum destaque. De modo que tal cenário antigo deve ser levado em consideração ao ler as demais informações da Enciclopédia Britânica sobre esse assunto.

 

“Os hebreus primitivos evidentemente tinham um conceito da alma, mas não a separavam do corpo, embora escritores judaicos posteriores tenham desenvolvido adicionalmente a ideia da alma. As referências do Antigo Testamento à alma estão relacionadas com o conceito de respiração e não estabelecem qualquer distinção entre a alma etérea e o corpo físico. Os conceitos cristãos de uma dicotomia corpo-alma originaram-se com os gregos da antiguidade e foram introduzidos na teologia cristã em uma data precoce por S. Gregório de Nyssa e por S. Agostinho... Assim como houve diferentes conceitos da relação entre a alma e o corpo, houve muitas ideias sobre quando a alma entra em existência e quando e se ela morre. As crenças dos gregos da antiguidade eram variadas e evoluíram ao longo do tempo. Pitágoras sustentava que a alma era de origem divina e existia antes e depois da morte. Platão e Sócrates também aceitaram a imortalidade da alma, enquanto Aristóteles considerava que apenas uma parte da alma, os noûs, ou o intelecto, tinham essa qualidade. Epicuro acreditava que tanto o corpo como a alma terminavam com a morte. Os primeiros filósofos cristãos adotaram o conceito grego da imortalidade da alma e o pensamento da alma como sendo criada por Deus e infundida no corpo no momento da concepção. – Edição digital, 2005, verbete “Alma”.

 

Quem não está bem familiarizado com esse tema poderá concluir ao ler a explicação acima que o conceito de uma alma que sobrevive à morte entrou no Cristianismo devido à filosofia grega, e somente no século IV. No entanto, não é isso o que a Britânica está realmente informando. O momento histórico a que ela se refere é quando autores cristãos aproveitaram elementos da filosofia grega e os incorporaram na teologia. Não se trata da simples crença de que a alma continua viva depois da morte. Tem muito mais coisa envolvida. E isso, de fato, só aconteceu depois do século III.

 

Todos os registros cristãos desde a escrita do Novo Testamento apresentam a realidade da vida imediata depois da morte. Obviamente, no caso bíblico os aniquilacionistas fazem de tudo para reinterpretar as passagens bíblicas que mencionam essa esperança e negar o que elas estão dizendo. E nas demais, as extrabíblicas, geralmente optam pela saída mais fácil de dizer que elas foram corrompidas pelo platonismo, com apenas algumas exceções. Afinal, é preciso construir um pano de fundo adequado para que a suposta corrupção pareça realista e tenha ocorrido de maneira gradual. Não haver evidências do aniquilacionismo fora no Novo Testamento é a morte dessa teoria. Infelizmente, porém (para os aniquilacionistas), mesmo as obras mais antigas, algumas contemporâneas dos apóstolos e escritas por seguidores deles, apresentam a mesma ideia de sobrevivência imediata após a morte. Mas sem linguagem da filosofia grega. Conforme venho sugerindo em outras partes deste trabalho, basta ler os dois textos abaixo para constatar isso:

 

O que ensinaram os escritores cristãos do segundo século?

 

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

 

“O registro arqueológico sugere que cada um dos vários elementos raciais que foram assimilados para formar a nação judaica trouxe para a nova comunidade os seus próprios costumes tribais, frequentemente baseados em crenças em uma vida após a morte... No Seol, os bons e os ímpios compartilhavam um destino comum, tanto quanto no mundo inferior babilônico. O lugar não evocava imagens de uma vida após a morte, pois nada acontecia ali. Ele era literalmente inconcebível, e era isso o que o tornava assustador: a morte era absolutamente definitiva, ainda que um tanto mal definida... O conceito de uma ressurreição dos mortos teve uma evolução mais concreta. Parece ter se originado durante o período helenístico do Judaísmo (século IV AC – século II DC). Isaías anunciou que os ‘mortos viverão, os seus corpos se levantarão’... O próprio Seol veio a ser departamentalizado. Segundo o Primeiro Livro de Enoque, uma obra não-canônica que se acredita ter sido escrita entre o século II AC e o século II DC, o Seol era composto de três divisões, às quais os mortos seriam designados de acordo com seus méritos morais. O verdadeiro Ge Hinnom (‘Vale de Hinom’), onde se disse que os israelitas primitivos sacrificaram seus filhos a Moloque (e no qual gerações bíblicas posteriores incineravam o lixo municipal de Jerusalém), foi transmutado na noção de Geena, um vasto campo projetado para torturar os ímpios pelo fogo. Isto foi um claro precursor das coisas que viriam – as versões cristã e islâmica do inferno. – Edição digital, 2005, verbete “Morte”.

 

Provavelmente o motivo do autor do MB ter citado o trecho acima é para explicar o inconveniente de haver ideias de vida após a morte no próprio Velho Testamento, a parte da Bíblia que, segundo toda essa gente que odeia o “imortalismo”, não teria tal conceito e estaria fundada apenas em conceitos monistas, integralistas e toda essa conversa que eles divulgam. A culpa do antigo cenário hebraico não ser bem assim seria a herança israelita de tempos mais primitivos, onde as referidas tribos tinham o conceito de vida no Além. Mas veja só que coisa. Em uma época tão adiantada quanto a que viveu o rei Saul, ele próprio resolveu procurar uma necromante para receber notícias do falecido profeta Samuel. Será então que Deus teria colocado no trono alguém que ainda tinha o conceito “tribal” de que existe uma alma espiritual e imorredoura no homem?

 

E tem mais. De acordo com o pensamento do autor do MB, o materialismo “cristão” é a crença mais refinada e correta sobre o que acontece na morte nessa evolução antropológica do antigo povo de Deus. Entretanto, à medida que o tempo passou, em vez do “imortalismo” ter sido abandonado ele foi ampliado, a ponto de Jesus incluir em seu ensino elementos tais como o sofrimento na Geena ardente e pessoas depois da morte serem levadas pelos anjos para o céu ou jogadas no inferno. E isso até o último dia de sua vida qual ser humano, pois na cruz ele prometeu o paraíso para o mesmo dia ao condenado que demonstrou uma fé de última hora (Lucas 23:43). Será mesmo que é tão difícil de perceber que existe algo errado com a teoria aniquilacionista, não importando por qual ângulo ela seja analisada?

 

“A concepção de morte na maioria das religiões está intimamente relacionada com a visão particular sobre a constituição da natureza humana... A partir dessa avaliação, seguia-se que a morte é o rompimento fatal da existência pessoal. Embora se julgasse que algum elemento constituinte da pessoa viva sobrevivesse a esta desintegração, isso não era considerado como a conservação do eu ou personalidade essencial. As consequências dessa avaliação da natureza humana podem ser vistas nas escatologias de muitas religiões. Os mesopotâmios, hebreus e gregos, por exemplo, pensavam que após a morte só um espectro sombrio descia para o reino dos mortos, onde existia miseravelmente no pó e na escuridão. Essa concepção do homem, por sua vez, significava que, onde a possibilidade de uma vida após a morte efetiva era prevista, como na antiga religião egípcia, judaísmo, zoroastrismo, cristianismo e islamismo, a ideia de uma reconstituição ou ressurreição do corpo também estava envolvida; pois isso era considerado essencial para restaurar o complexo psicofísico da personalidade. – Edição digital, 2005, verbete “Rituais Fúnebres”.

 

Este é o verbete onde a Britânica informa que nos tempos antigos não havia conceitos religiosos de extinção total depois da morte. Só por saber disso o autor do MB jamais deveria ter trazido para a sua coletânea de citações inadequadas o referido verbete. E nem precisa destrinchar o que foi apresentado, pois o próprio trecho contradiz o objetivo pretendido. Ou será que o autor do MB não entendeu nesse trecho que o indivíduo que vai para o Seol é um ser consciente, mesmo não sendo a “personalidade essencial” e que o mundo onde ficará é caótico e estranho? E o morador desse lugar não é a personalidade essencial justamente porque não é mais uma pessoa humana. Não respira, não tem sangue e nem faz mais nada do que fazia antes. Em outras palavras, é um espírito na escuridão! É tanto que a enciclopédia também apresenta nesse rol exemplificativo os mesopotâmios e os gregos. Será que só porque eles também acreditavam que os espíritos dos mortos não tinham a vitalidade humana eles não encaravam o mundo inferior tão real quanto o nosso? Veja abaixo dois exemplos sobre essa crença, um de Babilônia e outro da Grécia:

 

Ele [o deus Nergal] libertou Enkidu [do mundo subterrâneo] para falar [mais] uma vez com seus parentes e mostrou a Gilgamesh como descer a meio caminho do mundo dos mortos, [que fica] nas entranhas da terra. E a sombra de Enkidu levantou-se lentamente em direção dos vivos e de seus irmãos. Fraca e emocionada tentou abraçá-los, tentou falar, tentou e falhou ao tentar tudo, mas soluçou.

 

“Fale comigo, meu irmão”, sussurrou Gilgamesh. “Conte-me da morte e onde você está”.

 

“Não estou disposto para falar da morte”, respondeu Enkidu numa vagarosa resposta. “Mas se você desejar sentar um pouco, eu descreverei o lugar onde estou”.

 

Épico de GilgameshTabuleta XII, linha 80 em diante, colchetes acrescentados.

 

Alcançaram o prado coberto de asfódelos, onde se achavam reunidas as almas, imagens dos mortos. A alma de Aquiles Peleio em primeiro lugar encontraram, mais a de Pátroclo, e assim a do grande e impecável Antíloco, bem como a sombra de Ajaz, o maior, em beleza e estatura... Enquanto estavam reunidas à volta da sombra de Aquiles, aproximou-se-lhes a alma do filho de Atreu, Agamémnone, cheia de dor, pelas almas cercadas de quantos haviam no alto palácio do Egisto morrido e cumprido o destino.

 

Encontro de Aquiles e seus amigos no Hades, Odisseia, de Homero, capítulo XXIV.

 

Certamente o autor da epopeia babilônica não pretendeu dizer que Gilgamesh estava delirando e falando sozinho, ou que os espíritos dos mortos não eram reais, mesmo não tendo mais uma constituição humana e carnal como tinham antes. O mesmo ocorre no caso da obra de Homero. Ainda que a história seja ficção, ela reflete a crença na existência literal de espíritos dos mortos no mundo subterrâneo, também chamados de “sombras” ou “almas” (no caso dos gregos).

 

“A crença na ressurreição do corpo é geralmente associada com o cristianismo, por causa da doutrina da ressurreição de Cristo, mas também está associada ao judaísmo posterior... O antigo pensamento religioso do Oriente Médio forneceu um pano de fundo para a crença na ressurreição de um ser divino (por exemplo, o deus babilônico da vegetação Tamuz), mas a crença na ressurreição pessoal de seres humanos era desconhecida. No pensamento religioso greco-romano havia uma crença na imortalidade da alma, mas não na ressurreição do corpo. A ressurreição simbólica, ou renascimento do espírito, ocorreu nas religiões de mistério helenístico, como a religião da deusa Ísis, mas a ressurreição corpórea pós-morte não era reconhecida. – Edição digital, 2005, verbete “Ressurreição”.

 

O trecho acima nada diz de importante para o cerne do que está sendo discutido aqui. Além disso, ainda levanta uma nova questão. O autor do MB acha que a pessoa “ressuscitada” receberá um corpo espiritual semelhante aos anjos. No entanto, a ressurreição bíblica é física, assim como foi a de Jesus Cristo. Porém o corpo ressurreto será melhor e terá dupla natureza, pois também estará apto para viver no céu, transformando-se em espírito quando for para lá. Exatamente como aconteceu com Jesus. Mas, enfim, essa é outra história...

 

46) Grande Enciclopédia Barsa:

 

“A noção de alma como ‘sopro’, princípio ativo do corpo, acha-se em quase todos os povos e culturas... Definida como elemento vital e espiritual do ser humano, a alma foi sempre um dos problemas mais constantes da maior parte das religiões e filosofias de todos os tempos. Diversas manifestações religiosas encontraram nela seu interesse principal, como o animismo e o espiritismo, e também algumas correntes filosóficas, especialmente as originárias do platonismo, que defendia a imortalidade da alma e a metempsicose (transmigração das almas). O dualismo inerente à abordagem platônica é uma herança do orfismo e do pitagorismo: a alma pertence à esfera divina, ao mundo das idéias e das formas, confundindo-se com estas e sendo, por isso, eterna, imortal, indestrutível. ‘O corpo é a prisão da alma’... Para os profetas e pensadores hebreus, ‘a personalidade do homem era um corpo animado, não uma alma encarnada’, mas o platonismo chegou a exercer maior influência sobre os filósofos cristãos do que a tradição hebraica: a patrística foi quase totalmente dominada pela síntese platônica, que, com o tempo, se tornou parte da doutrina, da prática, da liturgia e da hinologia cristã... a alma é a vida humana de um ponto de vista individual, referindo-se a um sujeito consciente e voluntário. Nessa perspectiva, o teólogo suíço Karl Barth é ao mesmo tempo aristotélico e bíblico, quando afirma: ‘O homem é a alma de seu corpo, a alma racional guiando o organismo vegetativo e animal que está a seu serviço. Mas é um só e o mesmo ser, não dois domínios separados; trata-se sempre de um todo, do homem.’ Outro teólogo protestante, Rudolf Kittel, acentua igualmente a unidade da natureza humana. Essa é também a direção da teologia católica mais recente, quer em seu novo catecismo, quer na orientação divulgada pelo concílio ecumênico Vaticano II”. – Volume 1, pp. 266, 267.

 

Mesma combinação de argumentos já vista em outras obras: o monismo hebraico em contraste com os conceitos da filosofia grega relacionados à alma, bem como o aproveitamento de alguns elementos gregos por teólogos cristãos do século III em diante, conforme já vimos. No entanto, nenhuma dessas coisas contribuiu para a crença que os cristãos sempre tiveram de sobrevivência imediata após a morte. Por isso essa mesma enciclopédia diz que o Novo Testamento ensina sobre a punição dos ímpios na Geena (depois da morte), e que ele dá alguns indicativos de que a alma do cristão vai para o céu, embora este seja um ponto pouco evidenciado no Novo Testamento.

 

47) The Modern Theologians – An Introduction to Christian Theology Since 1918:

 

“Embora a ideia de uma alma imortal seja uma crença estabelecida para a maioria dos cristãos, ela não pode ser apoiada por textos bíblicos. Além disso, as imagens bíblicas da individualidade são corroboradas pela doutrina budista do não-eu. Em outras palavras, a doutrina budista do não-eu revela o significado da individualidade nos textos bíblicos — significados que são perdidos quando os textos bíblicos são lidos através das lentes de conceitos filosóficos gregos sobre a alma. – p. 693.

 

Como foi dito na seção 2, esta é outra obra que realmente pode ser usada para apoiar o intento dos aniquilacionistas. No entanto, ela apresenta pelo menos dois detalhes que diferem da crença deles. Por exemplo, a cópia completa de quem morreu é feita imediatamente depois da morte, de modo que a “pessoa” continua sempre em existência. Portanto, a “ressurreição” é particular e ocorre à medida que as pessoas vão morrendo.

 

48) Old Testament Theology:

 

“O que é a morte? A morte é o fim da vida. Ela não tem qualquer natureza positiva; é simplesmente a ausência de algo. Quando as pessoas morrem, elas não deixam de existir. Podemos vê-las em seu leito de morte depois que sua vida se foi, mas elas deixaram de ter vida... Ainda mais óbvio, ela significa um fim de minha própria atividade. Significa um fim da consciência. ‘Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto! Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles. Para eles o amor, o ódio e a inveja há muito desapareceram; nunca mais terão parte em nada do que acontece debaixo do sol.’ (Ecle. 9:4-6)... Nos dias de Qohelet [o autor do Eclesiastes], talvez houve pessoas que especularam que os seres humanos desfrutariam de uma vida melhor após a morte, o que não seria o caso dos animais. Qohelet assinala que não há qualquer evidência disso”. – pp. 639, 640, 644.

 

Como foi visto na obra nº 31, o livro de Eclesiastes enfatiza a natureza negativa da morte que os antigos povos semitas nutriam. O autor do livro acima está apenas reproduzindo a visão deprimente dos escritores desse livro bíblico. Isto não significa que a Bíblia ensina o aniquilacionismo. Por isso o autor disse que, juntamente com o céu, o Seol é uma das extremidades do universo, lugar que Eclesiastes reconhece a existência. E se os mortos vão para esse local distante, significa que não são seus corpos que são levados para lá, pois estes ficam nos cemitérios. Por isso essa obra nº 48 afirmou que o falecido profeta Samuel voltou temporariamente do Seol em seu encontro com Saul. Além do mais, a morte não exerce mais pleno domínio sobre os fiéis, pois Deus transmitiu vida a eles e não os deixa no mundo inferior.

 

49) Ancient Near Eastern…Introducing the Conceptual World of the Hebrew Bible:

 

“Até mesmo os teólogos modernos discutem se a pessoa humana é mais bem compreendida por tricotomia (corpo / alma / espírito), dicotomia (corpo / alma-espírito) ou unidade. O mundo antigo compartilhava de nossa preocupação pela compreensão da pessoa humana, mas encarava a pessoa de maneira bem diferente da nossa... A terminologia hebraica não corresponde à terminologia egípcia ou mesopotâmica em nada mais do que corresponde à dos idiomas modernos... Alguns, porém, argumentaram que o termo hebraico nephesh é equivalente ao acadiano eṭemmu. Os conceitos israelitas de basar (‘carne’), nephesh (frequentemente traduzido como ‘alma’ ou ‘eu’) e ruah (normalmente traduzido como ‘espírito’) não coincidem claramente nem como o modelo mesopotâmico nem com o egípcio.... O termo hebraico nephesh, apesar de sua tradução tradicional ‘alma’, jamais se refere ao que continua a existir após a morte, embora a nephesh parta quando se morre (Gen. 35:18). Sobre isso, H. W. Wolff observa que ‘o ser humano não tem [nephesh], mas é [nephesh], vive como [nephesh].’ Deus também é caracterizado por nephesh (por exemplo, Isaías 1:14). Embora tenha sido concedido a Adão quando Deus soprou nele (Gên. 2:7), isso não é um ‘parte’ do divino, mas apenas encontra a sua fonte lá... Os dados comparativos... não nos dão qualquer compreensão maior da antropologia metafísica israelita”. – pp. 210-214.

 

Por nem sempre haver uma correspondência etimológica entre as palavras hebraicas e babilônicas, o autor do MB concluiu erroneamente que não há equivalência entre conceitos religiosos referentes à morte. Porém, conforme foi visto na seção 2, o autor da obra acima informou que as crenças desses dois povos sobre o que acontece na morte eram semelhantes em alguns aspectos. Ambos achavam que os espíritos dos mortos (“sombras”) eram levados para o mundo subterrâneo. Veja o trecho da Epopeia de Gilgamesh, citado no comentário desta seção à obra nº 45.

 

50) Encyclopaedia Judaica – Second Edition:

 

“Embora os rabinos talmúdicos alegassem que há muitas alusões ao assunto na Bíblia (Sanh. 90b-91a), a primeira formulação bíblica explícita da doutrina da ressurreição dos mortos ocorre no livro de Daniel”. – Vol. 1, p. 441.

 

A ressurreição deve ser distinguida da crença em algum tipo de existência pessoal em outro reino após a morte (veja Vida Após a Morte) ou na imortalidade da alma. Uma doutrina importante da escatologia judaica juntamente com a do Messias, a crença na ressurreição é firmemente atestada desde o período dos Macabeus, ordenada como um artigo de fé na Míxena (Sanh 10:1) e incluída como a segunda bênção da Amidá e como o último dos 13 princípios da fé de Maimônides”. – Vol. 17, pp. 240, 241.

 

“Ao contrário dos deuses da Mesopotâmia e Canaã, por exemplo, Apsu, Tiamat, Baal e Mot, que, embora não pudessem sofrer uma morte natural, estavam sujeitos a uma violenta, o Deus de Israel é o Deus vivente (Ose. 2:1 Sal. 18:47). Seu senhorio se estende do céu até o Seol (Sal. 139:8, Jó 26:6); Ele mata e dá vida (1 Sam. 2:6, 1 Reis 17:17-22, 2 Reis 4:18-37); e Ele pode livrar seus fiéis do Seol (Sal. 16:10)... Na Bíblia, diz-se que duas pessoas deixaram este mundo de uma maneira especial: Enoque ‘foi tomado por Deus’ (Gên. 5:24) e Elias ‘foi levado ao céu em um redemoinho’ (2 Reis 2; compare com Sal. 49:16). O significado exato destas tradições não é claro... Contudo, em Daniel 12:2 a ressurreição para a vida eterna para alguns é inequivocamente predita. Foi só no período pós-bíblico que uma crença clara e firme na imortalidade da alma tomou o controle (por exemplo, Sab[edoria, um livro apócrifo] 3) e tornou-se um dos pilares da fé judaica e cristã.” – Vol. 19, pág. 35.

 

Conforme citado na seção 2, esta obra disse que havia na antiga nação de Israel claramente uma crença de sobrevivência depois da morte, porém numa forma etérea e sombria no Seol. Ou seja, não acreditavam na aniquilação total e isto não atrapalha em nada o ensino da ressurreição. Pelo contrário, o reforça, pois a pessoa continuar existindo, ainda que numa forma rebaixada, é a contrapartida necessária para trazê-la de volta à Terra em um corpo físico. Por exemplo, certamente um dos motivos porque os saduceus não acreditavam na ressurreição era porque eles duvidavam da existência dos espíritos dos mortos no Seol. – Atos 23:8.

 

51) A Hebrew and English Lexicon Without Points:

 

“Como um S[ubstantivo] tem sido suposto que נפש [nephesh] significa a parte espiritual do homem, ou o que comumente chamamos de sua alma: devo confessar por mim mesmo que não consigo encontrar qualquer trecho [bíblico] onde ele tenha indubitavelmente esse significado. Gen. 35:18. 1 Reis 17:21, 22 e Sal. 16:10, pareceriam os mais adequados a esta significação. Mas não poderia נפש [nephesh] nestes três trechos ser mais adequadamente traduzido por fôlego, e no último como uma estrutura respiratória ou animal?– 6ª Edição, 1811, pp. 459, 460 (p. 436 na edição de 1823).

 

Se eu fosse responder ao autor essa pergunta que ele fez no final da citação, eu diria convictamente “não”, pois é muito mais natural aceitar a literalidade desse versículo bíblico (vide meu comentário nesta seção à obra nº 13). De qualquer modo, esse erudito não foi taxativo nessa pergunta e a fez apenas como uma possibilidade. O que é coerente com o fato dele também ter dito que o Seol não é uma sepultura, mas sim o lugar invisível e distante que se aproxima do conceito grego de Hades, e que para lá vão as pessoas que morreram.

 

Novamente, a mesma lógica. Se o mundo dos mortos fica em outra parte diferente e não neste mundo, mas mesmo assim quem morre vai para lá, então significa que é algo invisível ou imaterial que faz essa viagem. Ou seja, parte para essa região desconhecida. Exatamente o que Gênesis 35:18 diz sobre a néfesh no momento da morte do corpo, referente ao deslocamento dela para outro lugar. Por que todo esse temor em admitir que neste caso a néfesh assume outra acepção diferente da usual? Se tal palavra tem vários significados na Bíblia, a exemplo de sangue ou pessoa, por que não teria também o sentido de alma espiritual? Até porque isso está implícito quando néfesh se refere ao “ego” ou o “eu” que diz: “Não deixarás a minha alma no Seol” / “Não me deixarás no Seol” (Salmo 16:10). Ou seja, não a deixará no lugar invisível, inacessível e distante, conforme a definição de Seol do dicionário acima.

 

Para saber o que foi citado de outras obras utilizadas pelo autor do MB consulte a seção 8.

 

5. TEXTOS BÍBLICOS COM A IDEIA IMPLÍCITA DA ALMA INVISÍVEL DO HOMEM

 

- Nesta seção as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo (1986), menos nos textos com outra indicação.

 

- Os colchetes em todas as citações, inclusive as bíblicas, foram acrescentados.

 

O que vimos nas seções precedentes é um exemplo apoteótico de como alguém pode destruir a própria tese que defende. Isto porque as obras utilizadas não servem para apoiar o materialismo “cristão”, significando aqui a crença na inexistência completa depois da morte e na possibilidade de um dia Deus criar uma réplica perfeita de quem já morreu e fazê-la viver com as lembranças do falecido.

 

De qualquer maneira, não importaria muito se todas essas referências bibliográficas contradissessem o autor do MB se a própria Bíblia não fizesse o mesmo. Por isso, o objetivo agora é verificar biblicamente alguns pontos já mencionados, antes de retomar as citações. Ainda que elas já sejam em si uma prova de que não há suporte bíblico para o aniquilacionismo, é interessante fazermos nossa própria verificação. Se um dia o “bereano” se convencer que sua tentativa de buscar apoio de muitos autores foi realmente um desastre, não restará outra opção senão se apegar à opinião de que o importante é que o aniquilacionismo tem algum fundamento bíblico, por mínimo que seja. Mas será este o caso? Não mesmo! Veja nos subtópicos a seguir.

 

a) A alma imaterial

 

Analisando-se o assunto apenas pela leitura direta das Escrituras Sagradas não é tão difícil constatar que acontece a mesma implosão dos argumentos aniquilacionistas apresentados pelo autor do MB. A começar pelo uso inflexível que ele faz da palavra “alma”, à qual atribui apenas dois significados: pessoa e vida. Embora ele tenha se contradito um pouco neste ponto, pois em seus primeiros textos ele dizia que alma significa somente “pessoa”. Ele teve que ampliar o significado para conseguir explicar os vários textos onde tal termo ocorre, seja em hebraico (nefesh) ou em grego (psykhé). Entretanto, a gama de acepções dessas duas palavras é maior do que a teimosia do “bereano” reconhece. Para começar, leia os textos a seguir:

 

“Toda alma que comer qualquer sangue, esta alma terá de ser decepada do seu povo”. – Levítico 7:17.

 

“Não deveis comer o sangue de qualquer tipo de carne, porque a alma de todo tipo de carne é seu sangue”. – Levítico 17:14.

 

“Apenas toma a firme resolução de não comer o sangue, porque o sangue é a alma e não deves comer a alma junto com a carne”. – Deuteronômio 12:23.

 

“Almejei-te com a minha alma durante a noite; sim, com o meu espírito dentro de mim estou à procura de ti”. – Isaías 26:9.

 

“O homem, nascido de mulher, é de vida curta e está empanturrado de agitação. Como a flor, ele brota e é cortado, e foge como a sombra.... Apenas a sua própria carne, enquanto estiver nele, continuará a sentir dores, e a sua própria alma, enquanto estiver nele, continuará a prantear”. – Jó 14:1, 2, 22.

 

“Então ele disse: ‘Por favor, fica de pé sobre mim e entrega-me definitivamente à morte, pois se apoderou de mim a cãibra, porque toda a minha alma está ainda em mim’. De modo que fiquei de pé sobre ele e o entreguei definitivamente à morte”. – 2 Samuel 1:9, 10.

 

“E o resultado foi que, enquanto a sua alma partia (porque estava morrendo), ela chamou-o pelo nome de Ben-Oni; mas o seu pai chamou-o de Benjamim”. – Gênesis 35:18; veja também 1 Reis 17:21-24.

 

Nota-se na leitura dos textos acima que três “almas” distintas são mencionadas, quais sejam:

 

Alma 1: o homem (conf. Gen. 2:7), no caso aqui o israelita que foi proibido de comer sangue.

 

Alma 2: o sangue que existe dentro da carne, em especial a consumida pelo homem.

 

Alma 3: a invisível que fica no homem em sua vida breve, mas que depois da morte sai do corpo e vai para outro lugar, permanecendo em existência. Daqui a pouco veremos mais detalhes sobre ela.

 

As três almas estão interligadas e a vida da “alma 1” (o homem) depende simultaneamente da atuação das outras duas. Isto pode ser representado pela fórmula abaixo:

 

Homem = alma 2 (sangue) x alma 3 (espiritual)

 

Atribuindo-se na segunda parte da equação “1” para presença atuante e “0” para ausência definitiva, temos os seguintes resultados:

 

a) Se no corpo circula o sangue e a alma invisível está atuando no corpo, o homem está vivo:

 

Homem = 1 (sangue) x 1 (espiritual) = 1

 

b) Se o corpo perde todo o sangue, o homem morre:

 

Homem = 0 (sangue) x 1 (espiritual) = 0

 

c) Se a alma imaterial sai definitivamente do corpo, o homem também falece:

 

Homem = 1 (sangue) x 0 (espiritual) = 0

 

Portanto, a ausência da “alma 1” ou da “alma 2” faz a “alma vivente” chamada “homem” deixar de existir. Naturalmente, na situação “b”, quando ocorre o colapso do sistema circulatório, a “alma 3” em seguida também deixa o corpo permanentemente, e o que sobra é apenas um cadáver.

 

A terceira situação acima (“c”) é bem exemplificada no caso daquelas pessoas que têm morte cerebral. Embora o corpo continue funcionando, com o sangue circulando normalmente dentro da carne, a presença no corpo da “alma 2” não é suficiente para que a pessoa continue vivendo, pois a “alma 3” já não está mais presente ou atuando no corpo. O que nos traz agora ao segundo ponto importante, que está ligado apenas à “alma 3”, que é a alma que interessa aqui. Quando ela sai do corpo depois da morte, para onde ela vai?

 

b) A localização do Seol e sua relação com a alma invisível

 

A resposta a essa questão é um golpe fatal nas pretensões exegéticas de críticos a exemplo do autor do MB. E o motivo principal disto é o conceito correto de Seol, o mundo dos mortos, que equivale ao Hades dos gregos. Conforme diversas das obras citadas nas seções anteriores disseram, Seol é o nome que os hebreus davam a uma região que julgavam estar nas profundezas da Terra, para onde as pessoas desciam depois da morte. Essa distante localização do Seol foi mencionada em vários textos bíblicos, a exemplo desses a seguir:

 

“Eu te farei descer com os que estão na cova, ao povo de outrora, e te farei habitar a terra das profundezas”. – Ezequiel 26:20.

 

(Você conhece alguma cova de cemitério que dentro dela esteja todo um “povo de outrora”? Se existisse certamente seria uma cova bem grande...)

 

“Você já foi até as nascentes do mar, ou já passeou pelas obscuras profundezas do abismo? As portas da morte lhe foram mostradas? Você viu as portas das densas trevas?”. – Jó 38:16, 17, NVI.

 

(O Seol era tido como tão profundo que era retratado abaixo dos próprios oceanos: “Os mortos tremem de medo nas águas debaixo da terra”. – Jó 26:5, NTLH).

 

“E Jeová prosseguiu falando mais a Acaz, dizendo: ‘Pede para ti um sinal da parte de Jeová, teu Deus, fazendo-o tão profundo como o Seol ou fazendo-o tão alto como as regiões superiores’.”. – Isaías 7:10, 11.

 

“Acaso podes descobrir as coisas profundas de Deus, ou podes descobrir o próprio limite do Todo-poderoso? [A sabedoria dele] é mais alta do que o céu. Que podes tu conseguir? É mais profunda do que o Seol”. – Jó 11:7, 8.

 

(Se o Seol fosse uma mera sepultura, a comparação acima não faria sentido, pois alguns palmos debaixo do chão não representariam a imensidão da sabedoria de Deus).

 

O Seol é um lugar tão fisicamente inalcançável que só Deus sabe o que ocorre exatamente por lá:

 

“O SENHOR sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos”. – Provérbios 15:11, NTLH.

 

Ao externar sua esperança de não ser deixado no Seol depois de sua morte, o salmista disse:

 

“Porque não deixarás a minha alma no Seol. Não permitirás que aquele que te é leal veja a cova”. – Salmos 16:10.

 

O que está de acordo com outros Salmos, a exemplo destes:

 

“De novo me farás reviver. Das profundezas da terra, de novo me levantarás”. – Salmo 71:20, PER.

 

“Porque a tua benevolência é grande para comigo e livraste a minha alma do Seol, do seu lugar mais baixo”. – Salmo 86:13.

 

Observação: no caso do segundo Salmo acima há um detalhe diferente, o salmista não estava se referindo à sua situação futura depois da morte, mas ao fato de naquele momento ter sido poupado dela. O que é irrelevante aqui, pois um dia ele acabou morrendo e indo mesmo para o Seol. Além do que ele também fez referência à profundidade do mundo dos mortos.

 

Uma das “soluções” encontradas pelos aniquilacionistas para contradizer a essência do que a Bíblia informa sobre o Seol é simbolizar os textos que o mencionam. Acham que eles são uma figura de linguagem para se referir à morte. De fato, em alguns momentos isso acontece e até obras de referência mencionam tal uso figurado. É o caso, por exemplo, quando o salmista agradece a Deus por ter sido livrado do Seol. É óbvio que ele está dizendo que se sentiu grato por não ter morrido (Salmo 86:13; compare com Provérbios 23:13 e 19:18). Porém esta é apenas uma aplicação do termo que não pode ser usada em outras situações, conforme foi exemplificado anteriormente. O que aconteceu com Corá e sua família após a fuga do Egito liderada por Moisés atesta que a profundidade mencionada na Bíblia sobre o Seol é realmente em sentido espacial e não algum tipo de simbolismo:

 

“E sucedeu que, assim que acabara de falar todas estas palavras, começou a partir-se o solo debaixo deles. E a terra passou a abrir a sua boca e a tragar tanto a eles como os da sua casa, e todo o gênero humano que pertencia a Corá, e todos os bens. Assim, tanto eles como todos os que lhes pertenciam desceram vivos ao Seol e a terra foi cobri-los, de modo que pereceram do meio da congregação”. – Números 16:28-34.

 

Perceba que o relato afirma que o Seol fica nas partes profundas do subsolo para onde o rebelde Corá e seus seguidores se precipitaram quando o chão se abriu, em um caso raro de pessoas que “foram” para o Seol sem passar antes pelo cemitério. Nem os pertences deles escaparam. Esse evento demonstra que na visão hebraica o Seol, além de profundo, é um amplo local de natureza coletiva. Naturalmente, em algum momento dessa “jornada” rumo às profundezas da Terra todos eles morreram e suas almas foram para o Seol pelo meio convencional da morte. As palavras relativas ao Seol dos que presenciaram a cena foram apenas um reflexo da crença que tinham sobre a localização física do mundo dos mortos. É claro que não teria como as referidas pessoas que foram tragadas pela terra irem para o Seol por tal fenda que se abriu sob seus pés. Porém esse acontecimento serve para ilustrar onde fica o Seol de acordo com a concepção israelita.

 

Ora, se o Seol era tido como uma parte inacessível nos compartimentos subterrâneos da Terra, e mesmo assim é dito que os mortos estão lá, então significa que não é o corpo físico que vai para tal região, pois ele é deixado muitos quilômetros acima, na superfície. Sendo assim o que vai para o Seol é algo imaterial, invisível ou espiritual. Portanto, a alma que o salmista diz que ficaria no Seol tem precisamente essa natureza não física! O que contradiz o argumento de alguns de que a alma que “abandona” o corpo depois da morte é simplesmente a vida, ainda que “alma”, às vezes, realmente apareça com tal acepção (ex.: Mt.16:25). A situação da morte cerebral, mencionada antes, também rechaça tal conclusão, pois o corpo continua vivo, porém a pessoa é considerada morta. De modo que as versões que traduzem “alma” por “vida” em Gênesis 35:18, sobre a morte de Raquel, não transmitem a ideia correta do texto, pois em tais Bíblias seria preciso entender o versículo de maneira figurada, já que a vida não sai do corpo, apenas deixa de existir. Talvez para evitar esse problema, muitas traduções omitiram completamente a palavra “alma” nesse texto e no lugar dela colocaram alguma frase que denota morte iminente. É o caso da Bíblia Vozes:

 

“Estando prestes a morrer, já agonizante, ela deu-lhe o nome de Benoni, mas o pai o chamou Benjamim”.

 

O que faz lembrar que outro fator sobre o qual é preciso estar atento é que não é necessário haver no texto a palavra “alma” para que o conceito dela esteja presente no argumento. Quando o salmista disse que Deus o traria das profundezas da Terra para o fazer viver novamente, qual ser humano, ele não usou tal palavra (Salmo 71:20). O mesmo ocorre em outros textos bíblicos, a exemplo de Jó:

 

“Quem dera que me escondesses no Seol, que me mantivesses secreto até que a tua ira recuasse, que me fixasses um limite de tempo e te lembrasses de mim! Morrendo o varão vigoroso, pode ele viver novamente? Esperarei todos os dias do meu trabalho compulsório, até vir a minha substituição. Tu chamarás e eu mesmo te responderei”. – Jó 14:13-15.

 

O “me” e o “eu” do texto acima é precisamente essa alma que não seria deixada no Seol, ainda que não seja a “alma vivente” de corpo físico que antes vivia na Terra. Isso combina com o fato de algumas traduções da Bíblia omitirem a palavra “alma” em diversos textos, deixando a leitura de acordo com a linguagem moderna, como é o caso de um dos salmos supracitados:

 

“Porque não me abandonarás na morada dos mortos, nem deixarás teu fiel ver o fosso”. – Salmo 16:10, BEV.

 

Veja que o “me” da versão acima entrou no lugar da expressão original “minha alma”. Logo, são usos equivalentes dentro da maneira hebraica de pensar. O que nos remete à esperança cristã de vida imediata depois da morte, expressa da seguinte maneira:

 

“É justo despertar-vos com as minhas admoestações, enquanto [eu] estou nesta tenda* terrena, sabendo que em breve hei de despojar-me dela. . . Assim farei tudo para que, depois da minha partida, vos lembreis sempre delas”. – 2 Pedro 1:13-15, BJ.

 

“Sinto-me num dilema: meu desejo é partir e [eu] ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa”. – Filipenses 1:21-23, BJ.

 

O “eu” dos versículos acima pode ser compreendido por “minha alma”. Ou seja: ‘enquanto minha alma estiver nesta tenda’ e ‘o desejo da minha alma é partir e estar com Cristo’. Sendo assim, vemos presente em tais versículos a mesma noção de uma alma que está no corpo, mas que se ausenta dele depois da morte. É por isso que a Zondervan Encyclopedia (citação nº 21) disse o seguinte:

 

“É impossível isolar a discussão sobre a psyche da compreensão do NT do estado intermediário e do estado final de todos os cristãos, que demandam uma ressurreição do corpo e uma reunião do corpo e da alma. A natureza do estado intermediário é sugerida na declaração de Jesus em Mateus 10.28, porém mais específica é 2 Coríntios 5.1-10, onde Paulo descreve o conflito espiritual dos cristãos sobre a possibilidade de permanecer ‘vestido’, porém separado de Cristo, ou estar espiritualmente ‘nu’, mas permanecer na presença de Cristo. Tanto Cristo, quanto Paulo, afirmam que a alma, o ego [o “eu”, self, em inglês], pode existir, e de fato existe, independentemente do corpo, embora não de uma maneira normal”.

 

* “Tenda”, ou “tabernáculo”, refere-se ao corpo físico, o que denota um estado temporário semelhante à cena comum que havia no mundo antigo de um residente forasteiro desfazendo sua barraca a fim de se mudar para outro lugar. Isso está de acordo com a palavra “partida” também usada por Pedro, que é a tradução do grego exodon, que significa “êxodo”. Ou seja, o apóstolo se referia a uma mudança de domicílio, tal como o Êxodo dos antigos hebreus, porém sem o corpo carnal (“tenda”), que seria deixado na Terra. A mesma palavra grega foi utilizada no episódio da transfiguração para se referir à partida de Cristo depois de sua morte e ressurreição.

 

Conforme visto em obras cristãs do século 2 em diante, os cristãos antigos mantiveram tal esperança de vida imediata depois da morte. Abaixo dois exemplos:

 

“[Os falecidos Inácio, Rufo e Zózimo] já estão no lugar que lhes é devido, junto ao Senhor”. – Carta aos Filipenses, Policarpo de Esmirna (69-155 d.C.).

 

“Estamos convencidos de que quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida”. – Um Apelo aos Cristãos, Atenágoras de Atenas (133-190 d.C.).

 

Tanto Policarpo, que foi discípulo do apóstolo João, quanto Atenágoras disseram que a ressurreição para a vida eterna consistirá em juntar novamente a alma com o corpo (veja na seção 6). Sendo assim, aquele texto de Mateus que os aniquilacionistas menosprezam ou propõem interpretações mirabolantes realmente está dizendo aquilo que ele diz:

 

“Irmão entregará irmão à morte... não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:21, 28a.

 

Essa alma mencionada em Mateus é a “alma 3” da análise feita anteriormente, a alma que deixa o corpo depois que ele morre. E note que é justamente assim que o livro de Apocalipse descreve os cristãos que foram mortos por pessoas ímpias. Veja:

 

“Quando abriu o quinto selo, vi sob o altar as almas dos que haviam sido assassinados por causa da palavra de Deus e do testemunho que haviam dado. Gritavam com voz potente: Senhor santo e veraz, quando julgarás os habitantes da terra e vingarás nosso sangue?”. – Apocalipse 6:9, 10, PER.

 

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4.

 

O autor do MB apresentou um excelente exemplo da complicação que é acreditar em uma existência imediata após a morte, porém se recusando a chamar de “alma” a parte do homem que continua viva. Trata-se do livro “A Teologia do Apóstolo Paulo” (citação nº 59), de Herman Ridderbos, que está comentado na seção 8. Lá você poderá constatar como Ridderbos se complica sem necessidade ao abordar o mesmíssimo texto de 2 Coríntios 5:1-10 explicado pela Zondervan Encyclopedia. Pior ainda faz o nosso autor “bereano”, pois além de não entender os textos bíblicos em questão, ainda faz uso inadequado de tais obras.

 

c) Mais textos que deixam subentendida a existência contínua

 

Veja a seguir outros textos que deixam implícita a existência consciente depois da morte, porém sem mencionar a “alma”:

 

“Mas, temos boa coragem e bem nos agradamos antes de ficar ausentes do corpo e de fazer o nosso lar com o Senhor”. – 2 Coríntios 5:8, 9.

 

“Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também os que morreram em Jesus, Deus há de levá-los em sua companhia”. – 1 Tessalonicenses 4:14, BJ.

 

(Veja uma consideração sobre o texto acima no meu comentário à citação nº 63).

 

“Mas agora [Abraão, Isaque, Jacó e outros] desejam uma pátria melhor, isto é, a celeste. Por isso Deus não se dedigna de chamar-se o Deus deles, porque lhes preparou uma cidade”. – Hebreus 11:16, AN.

 

(Estar o verbo no tempo presente indica que os personagens mencionados acima estão vivos, conforme diz o texto a seguir de Lucas. Embora seja exatamente assim que esteja no original, algumas Bíblias trazem o verbo no pretérito. Saiba o motivo disso lendo o capítulo 3 do meu livro “Sobre o Aniquilacionismo e a Imortalidade da Alma”).

 

“Pois quando [Moisés] descreve como Deus lhe apareceu na sarça ardente, ele fala de Deus como ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’. Ele não é Deus de mortos, mas de vivos, pois para ele todos vivem”. – Lucas 20: 37, 38, NBV.

 

(O que está de acordo com outra afirmação de Jesus: “Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais”. – João 11:26, TEB).

 

“Assim disse Jeová: ‘Ouve-se uma voz em Ramá, lamentação e choro amargo; Raquel chorando por seus filhos. Negou-se a ser consolada por causa dos seus filhos, porque eles já não existem.’ Assim disse Jeová [a Raquel]: ‘Retém a tua voz do choro e teus olhos das lágrimas, pois há uma recompensa pela tua atividade’, é a pronunciação de Jeová, ‘e certamente retornarão da terra do inimigo’. ‘E existe esperança para o teu futuro’, é a pronunciação de Jeová”. – Jeremias 31:15-17.

 

(O texto acima se refere ao cativeiro dos judeus, que causou sofrimento e morte aos descendentes de Raquel, que já estava morta há séculos).

 

“Disse-me, porém, o SENHOR: Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, meu coração não se inclinaria para este povo; lança-os de diante de mim, e saiam”. – Jeremias 15:1, ARA.

 

(Moisés e Samuel já tinham morrido há muito tempo quando as palavras acima foram escritas).

 

“E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, verei a Deus. Eu o verei com os meus próprios olhos; eu mesmo, e não outro!”. – Jó 19:26, 27, NVI.

 

(Devido a uma inconsistência no hebraico original, algumas Bíblias apresentam esse texto de Jó com sentidos diferentes do que foi apresentado acima. Ainda que esta versão seja a que está mais de acordo com o cenário bíblico, naturalmente, para evitar que mais um texto da Bíblia fique contra o aniquilacionismo, o autor do MB rejeitou essa versão em sua crítica, e optou por outra considerada possível. Para mais detalhes sobre esse versículo veja a nota da página 130 do meu outro livro, mencionado anteriormente).

 

Se dobre todo joelho dos no céu, e dos na terra, e dos debaixo do chão, e toda língua reconheça abertamente que Jesus Cristo é Senhor”. – Filipenses 2:10, 11.

 

Felizes os mortos que morrem em união com o Senhor”. – Apocalipse 14:13.

 

(Como se nota, os mortos podem não apenas demonstrar reverência pela autoridade de Jesus, mas também estarem felizes se estiverem em união com ele. A expressão “debaixo do chão” é uma referência direta ao Seol, conforme explicou Stewart Salmond, um dos eruditos citados pelo autor do MB. Realmente não faria sentido supor que um cadáver se ajoelharia e usaria sua língua para dizer alguma coisa, no caso dos que ainda têm algum aspecto físico, pois muitos já viraram pó).

 

“Jesus respondeu [ao malfeitor arrependido na cruz]: Eu afirmo a você que isto é verdade: hoje você estará comigo no paraíso”. – Lucas 23:43, NTLH.

 

(Para uma consideração a respeito da pontuação correta do texto acima de Lucas, leia o apêndice A7 do meu outro livro supramencionado).

 

d) A existência após a morte sob outros enfoques

 

Há outros textos que descrevem a existência depois da morte com a palavra “espírito”, que era usada na época apostólica de forma intercambiável com “alma”, como se fossem sinônimos:

 

“Tivemos como educadores nossos pais terrenos e lucramos disso um bom proveito, com mais razão não havemos de nos sujeitar ao pai dos espíritos e receber dele a vida?.... Mas vós vos aproximastes da montanha de Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste, e das miríades de anjos em reunião festiva, e da assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos nos céus, e de Deus, o juiz de todos e dos espíritos dos justos que chegaram à perfeição”. – Hebreus 12:9, 22, 23, TEB.

 

“Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé, quando Deus, em sua longanimidade, contemporizava com eles, enquanto Noé construía a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito, foram salvas por meio da água”. – 1 Pedro 3:18, 19, BJ.

 

“Estas pessoas prestarão contas àquele que está pronto para julgar os viventes e os mortos. Com este objetivo se declararam as boas novas também aos mortos, para que fossem julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivessem quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus”. – 1 Pedro 4:5, 6.

 

E ainda há os textos que retratam atividade consciente no Seol:

 

“Sob a terra, as sombras tremem, as águas e seus habitantes; o Xeol patenteia-se diante dele, e sem véu está o Abadon” – Jó 26:5,6, MD.

 

(Uma nota de rodapé da Bíblia acima diz sobre as sombras: “Trata-se dos mortos do Xeol”).

 

“O homem que se desvia do caminho da prudência, na assembleia das sombras repousará [Ou: “assembleia das almas”, conforme PER]”. – Provérbios 21:16, BJ.

 

“Nas profundezas, o Xeol se agita por causa de ti, para vir ao teu encontro; para receber-te despertou os mortos, todos os potentados da terra, fez erguerem-se dos seus tronos [no Xeol] todos os reis das nações”. – Isaías 14:9-11, 14, 15, BJ, texto sobre a morte do rei de Babilônia.

 

“Por que não passei a morrer desde a madre? Por que não saí do próprio ventre, expirando então?.... Pois agora eu já estaria deitado para ter sossego; então dormiria; estaria descansando com reis e conselheiros da terra, os que constroem para si lugares desolados, ou com príncipes que têm ouro, os que enchem as suas casas de prata”. – Jó 3:11, 13-15.

 

Despertai e cantai, vós os que habitais o pó, porque teu orvalho será orvalho luminoso, e a terra dará à luz sombras”. – Isaías 26:19, BJ.

 

“Os principais homens dos poderosos falarão do meio do Seol até mesmo a ele, com os seus ajudantes... E não se deitarão com os poderosos, caindo dentre os incircuncisos, que desceram ao Seol com as suas armas de guerra? ”. – Ezequiel 32:21, 22, 27, texto sobre a morte do rei do Egito e outros.

 

(Descansar também é uma atividade. O Seol, na visão hebraica, é uma terra escura e por isso seus habitantes são sonolentos, porém podem despertar quando bem querem. As descrições bíblicas também sugerem que, além dos que estão lá possuírem a aparência de seus anteriores corpos físicos, também estão com eles cópias dos objetos que antes utilizavam. Seria então uma reprodução sombria do cenário terrestre).

 

“O rico também morreu, e foi sepultado. No Seol, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu Abraão de longe, e Lázaro no seu seio [de Abraão]. Ele clamou e disse: ‘.... estou em angústia nestas chamas’.”. – Lucas 16:19-23, HNV.

 

e) Os dois eventos marcantes que atestam a continuidade depois da morte

 

Por fim, os dois relatos bíblicos que descrevem o encontro de seres humanos com pessoas que já morreram atestam que os mortos estão vivos em outro lugar, em especial os do povo de Deus, que são poupados das aflições do Seol. O mais emblemático deles sem dúvida é o episódio da transfiguração. Perceba a tamanha naturalidade dos apóstolos quando se depararam com Jesus conversando com Elias e Moisés numa cena reluzente e extraordinária:

 

“Jesus tomou a Pedro, e a Tiago, e a João, e os levou a sós a um alto monte.... Apareceu-lhes também Elias com Moisés, e estes estavam conversando com Jesus. E, como resposta, Pedro disse a Jesus: ‘Rabi, é excelente que estejamos aqui; armemos, pois, três tendas, uma para ti, e uma para Moisés, e uma para Elias’.”. – Marcos 9:2-5.

 

O relato paralelo de Lucas informa que o assunto sobre o qual conversavam era a morte de Jesus e seu retorno para o céu (Lucas 9:31). Por tratar-se de uma visão, provavelmente Moisés e Elias não estavam realmente ali, em sentido físico, por isso Jesus deu a entender que não fazia sentido a oferta dos apóstolos para que os dois passassem a noite em tendas. Uma visão pode ser a projeção em um local de imagens de pessoas ou objetos que estão, na verdade, em outro lugar. Temos em nossa casa um exemplo, ainda que não de natureza espiritual. A televisão. Através dela é possível ver pessoas que estão, por exemplo, do outro lado do mundo. E as televisões com recursos de teleconferência permitem não só que vejamos pessoas que estão em outra localidade distante, mas também que conversemos com elas. É claro que a visão da transfiguração deve ter sido algo muito mais realista. Mais perfeita que um holograma desses que vemos em filmes de ficção científica. Por isso os apóstolos não duvidaram da realidade tangível da cena. – Compare com Atos 10:1-8; 12:6-11; 16:9, 10; 18:9.

 

Mas, independentemente da técnica divina que proporcionou esse encontro, está muito evidente que em nenhum momento os apóstolos duvidaram que ali realmente estivessem Moisés e Elias. Será que um aniquilacionista teria essa mesma reação caso se deparasse com pessoas falecidas em roupas cintilantes querendo conversar sobre algum assunto? Certamente que não. Provavelmente acharia que o Diabo estava a lhe pregar uma peça, e sairia correndo desesperado.

 

O outro episódio que demonstra que os personagens bíblicos jamais acreditaram que a morte resulta na inexistência de quem morreu, mas sim que os mortos ficam apenas confinados em outro lugar inacessível, mas ainda conscientes, é o encontro do falecido profeta Samuel com o rei Saul, que é descrito na Bíblia da seguinte maneira:

 

“A mulher perguntou: ‘A quem devo evocar?’ Ele respondeu: ‘Evoca-me Samuel’. A mulher viu Samuel e deu um grande grito.... O rei lhe disse: ‘Não tenhas medo. Que é que viste?’ A mulher respondeu a Saul: ‘Eu vi um deus que subia da terra’. Disse-lhe então: ‘Que aparência tem ele?’ Ela respondeu: ‘É um velho que vem subindo. Está envolto num manto’. Saul reconheceu então que era Samuel. Inclinou-se com a face por terra e se prostrou. Samuel disse a Saul: ‘Por que me perturbaste, fazendo-me subir?”. – 1 Samuel 28:11-15, TEB.

 

Veja mais detalhes sobre o relato acima no apêndice C.

 

f) A possibilidade de sair do próprio do corpo e voltar

 

Uma situação excepcional é a alma sair temporariamente do próprio corpo e se fazer presente em outro lugar. A Bíblia dá a entender essa possibilidade, em referência a uma experiência pela qual passou o apóstolo Paulo, ao ser “arrebatado” para o terceiro céu, o paraíso de Deus. Mais uma vez Paulo... Justamente o apóstolo que em suas cartas mencionou por mais de uma vez o ausentar-se do corpo para ir estar com Cristo. Isto com certeza não é coincidência. Diz o relato:

 

“Conheço um homem em união com Cristo, o qual, há quatorze anos — quer no corpo, não sei, quer fora do corpo, não sei; Deus sabe — foi arrebatado como tal até o terceiro céu. Sim, conheço a tal homem — quer no corpo, quer à parte do corpo, não sei, Deus sabe — que foi arrebatado para o paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não são lícitas ao homem falar”. – 2 Coríntios 12:2-4.

 

Se tal subida para o terceiro céu se deu fora do corpo físico de Paulo, que é o mais provável, obviamente foi sua parte espiritual que se desprendeu e foi para a realidade celeste. Se o apóstolo mencionou essa possibilidade é porque ele realmente acreditava nela, embora não fosse algo comum de acontecer. Além de tratar-se de uma informação incidental, não há na Bíblia nenhum esclarecimento sobre como esse fenômeno ocorre. Mas é razoável concluir que ele é uma realidade espiritual como tantas outras sobre as quais temos apenas uma vaga ideia. Algumas das visões que diversos profetas tiveram podem também ter acontecido dessa mesma maneira, a exemplo das que o apóstolo João teve ao escrever o livro de Apocalipse. Por exemplo, sobre uma dessas visões ele disse:

 

“Imediatamente, fui arrebatado em espírito; no céu havia um trono, e nesse trono estava sentado um Ser. E quem estava sentado assemelhava-se pelo aspecto a uma pedra de jaspe e de sardônica. Um halo, semelhante à esmeralda, nimbava o trono”. – Apocalipse 4:2,3; AM.

 

Algumas versões bíblicas dão a entender que o “espírito” mencionado acima é o Espírito Santo, o que significaria que João foi arrebatado ao céu pelo poder do Espírito (o que também é verdade). No entanto, entender que João estava se referindo ao próprio espírito é bastante natural. Neste caso, “espírito” toma emprestado o sentido de “alma”. Como já foi dito, na época do Novo Testamento era muito comum intercambiar essas duas palavras ao se referir à vida fora do corpo, como se elas significassem a mesma coisa. Embora a Bíblia faça distinção entre os dois termos, ela não explica exatamente porque eles são diferentes. Mas uma coisa é certa, ambos significam algo invisível dentro da natureza humana. (Leia mais sobre isso na seção 6).

 

Atualmente, experiências fora do corpo são bastante relatadas por quem estuda assuntos espiritualistas ou alega ter a capacidade de sair do corpo. Eles chamam esse fenômeno por vários nomes, a exemplo de “desdobramento” ou “viagem astral”. Segundo dizem, quando a alma se descola do corpo aparece um cordão energético, chamado “fio de prata”, que sai da testa do corpo e fica permanentemente ligado à nuca da alma. Se isto for mesmo verdade, explicaria então porque a alma pode se ausentar temporariamente do corpo e mesmo assim a pessoa humana continuar viva. A conexão entre o físico e o espiritual seria assim mantida quando a alma sai do corpo. Além disso, eles também dizem que todos nós saímos do corpo durante o sono, porém não nos recordamos disso, sendo que tais experiências podem se misturar com os próprios sonhos. Isto faz lembrar o que o profeta Daniel vivenciou enquanto dormia:

 

“No primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia, o próprio Daniel teve um sonho e visões da sua cabeça, sobre a sua cama. Naquele tempo ele anotou o próprio sonho. Fez o relato completo dos assuntos... ‘Eu estava observando até que se colocaram uns tronos e o Antigo de Dias se assentou. Sua vestimenta era branca como a neve e o cabelo de sua cabeça era como pura lã. Seu trono era chamas de fogo... Mil vezes mil lhe ministravam e dez mil vezes dez mil ficavam de pé logo diante dele. Assentou-se o Tribunal e abriram-se livros... Continuei observando nas visões da noite e eis que aconteceu que chegou com as nuvens dos céus alguém semelhante a um filho de homem; e ele obteve acesso ao Antigo de Dias, e fizeram-no chegar perto perante Este. E foi-lhe dado domínio, e dignidade, e um reino, para que todos os povos, grupos nacionais e línguas o servissem. Seu domínio é um domínio de duração indefinida, que não passará, e seu reino é um que não será arruinado”. – Daniel 1:1,9,11.

 

Alguém poderá dizer que essas coisas são exclusivas de videntes e profetas da Antiguidade (1 Sam. 9:9), porém dois textos de Jó parecem indicar que, afinal, tais fenômenos espirituais não acontecem apenas com um grupo seleto de pessoas, e muito menos restritos a uma distante época do passado:

 

“Em meio a sonhos perturbadores da noite, quando cai sono profundo sobre os homens, temor e tremor se apoderaram de mim e fizeram estremecer todos os meus ossos. Um espírito roçou o meu rosto, e os pêlos do meu corpo se arrepiaram. Ele parou, mas não pude identificá-lo. Um vulto se pôs diante dos meus olhos, e ouvi uma voz suave, que dizia: ‘Poderá algum mortal ser mais justo que Deus? Poderá algum homem ser mais puro que o seu Criador?’.”. – Jó 4:13-17, NTLH.

 

“Porque Deus fala uma vez e duas vezes — embora não se repare nisso — num sonho, numa visão da noite, quando profundo sono cai sobre os homens durante os cochilos sobre a cama”. – Jó 33:14,15.

 

Isto combina perfeitamente com o que Daniel passou, ainda que de maneira mais intensa e claramente profética, para fins de registro na Bíblia.

 

De qualquer maneira, quer tais eventos possam acontecer naturalmente ou apenas desencadeados pela atuação divina, ter a Bíblia os mencionado demonstra que a pessoa humana não está reduzida apenas a aspectos materiais e que existe uma parte espiritual que pode se conectar com outros mundos ou situações extrafísicas. O que vem apenas a reforçar que nossa natureza não é apenas material, mas também espiritual. Além disso, demonstra que a Bíblia não é um livro árido nesse tipo de assunto, conforme deseja o preconceito de algumas pessoas, especialmente os que abraçaram o materialismo “cristão”. – Compare com 1 Samuel 19:18-24.

 

g) Definitivamente a Bíblia não ensina o aniquilacionismo

 

Pelo que foi visto até aqui, está mais do que claro que a Bíblia não ensina o aniquilacionismo e é um ledo engano do autor do MB pensar o contrário. A Palavra de Deus indica que o homem possui uma alma que sobrevive à morte, pois essa ideia está implícita em diversos textos, a exemplo dos que foram aqui citados. É claro que o autor do MB lança mão de determinados argumentos “bíblicos” que podem até convencer os que desconhecem informações do tipo das apresentadas neste meu texto. No entanto, na maioria das vezes tais raciocínios não passam de distorções de alguns textos bíblicos ou de leituras que desconsideram o “contexto exegético” deles. Veja quais são alguns desses entendimentos errôneos na seção 5 do meu artigo “O que a Bíblia realmente ensina sobre a morte”.

 

Uma informação errada que foi recentemente apresentada está na citação nº 60, que traz a opinião de que um cadáver em uma sepultura pode ser chamado de “alma” porque ainda tem os traços característicos de uma pessoa, mas quando ele se decompõe a alma finalmente deixa de existir. Ao que parece esta foi uma tentativa do autor do MB de explicar porque a Bíblia diz que a alma fica no Seol depois da morte. Ou seja, é um ajuste na “exegese” que ele vinha apresentando de que o fim da vida é forçosamente o fim da alma. Com essa nova “explicação” essa lacuna foi preenchida... Veja a que ponto chega alguém que não quer aceitar determinadas passagens bíblicas da maneira que deveria. Justamente um suposto defensor das afirmações “positivas” da Bíblia. Leiamos novamente o quão positiva foi a esperança de ressurreição dos salmistas, e em que contexto espacial:

 

“Não deixarás a minha alma no Seol”. – Salmos 16:10.

 

Das profundezas da terra, de novo me levantarás”. – Salmo 71:20, PER.

 

O que está de acordo com aquilo que Jesus disse:

 

“Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do enorme peixe, assim estará também o Filho do homem três dias e três noites no coração da terra”. – Mateus 12:40.

 

A enciclopédia bíblica das Testemunhas de Jeová informou que “no coração da terra” significa “no centro da terra”, ou seja, nas profundezas dela (Estudo Perspicaz das Escrituras, vol. 1, p. 556). Corpo algum de quem quer que seja jamais desceu para essa região e depois foi trazido de volta à superfície. Mas a alma de Jesus Cristo sim, que não só retornou, mas foi glorificada na ressurreição e em seguida ascendeu ao mais alto dos céus:

 

“(Que significa ‘subiu’, senão que desceu às profundezas da terra?) Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima dos céus para plenificar o universo”. – Efésios 4:10, PER.

 

Conforme visto na Enciclopédia Americana (citação nº 14) e na Enciclopédia do Judaísmo (citação nº 39), o céu e o Seol são os limites do universo hebreu, e Cristo foi o único que se fez presente em todo ele (Céu-Terra-Seol). – Compare com Eclesiástico 24:1-10 e Filipenses 2:10, 11.

 

O texto do Salmo 16:10 foi aplicado profeticamente à ressurreição de Jesus Cristo, porém o corpo de Jesus sequer foi enterrado (Atos 2:22-28). Ficou depositado em uma câmara mortuária chamada de sepulcro, que poderia estar acima do nível do solo ou um pouco abaixo. De uma forma ou de outra, o corpo dele não esteve na profundidade que a Bíblia informa que o Seol está. Isto não é possível nem mesmo em um sepultamento convencional, onde o morto é deixado debaixo da areia.

 

Portanto, não importa se o corpo de quem morre desaparece completamente ou venha a ser até mesmo incinerado, como acontece nas cremações. A alma do falecido descerá invariavelmente para o Seol / Hades, caso Deus não a leve para o céu. A esperança de ressurreição apresentada nos Salmos não está limitada nem ao tempo de decomposição da matéria, nem ao espaço referente a uma mera sepultura, que de profunda não tem nada, quando comparada ao mundo dos mortos.

 

Em complemento ao exame bíblico desta seção, também seria importante considerar como as informações que foram aqui apresentadas interagiram com outras em voga na época da igreja primitiva. Uma delas é a questão do dualismo alma-corpo, que frequentemente é objeto de críticas por parte daqueles que alegam não haver nenhuma substância espiritual no ser humano. A seção seguinte abordará esse ponto.

 

6. O REFLEXO DO DUALISMO CORPO-ALMA NA COMUNIDADE CRISTÃ PRIMITIVA

 

- Nesta seção as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo (1986), exceto nos textos com outra indicação.

 

De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, dualismo refere-se a “qualquer sistema, doutrina ou teoria que admite a existência de dois princípios necessários, mas opostos”. Essa definição se adequa perfeitamente ao dualismo platônico corpo-alma, pois o mesmo diz que o homem precisa da alma e do corpo para viver, porém a alma se opõe ao corpo em natureza e desejo, e quer livrar-se dele o quanto antes (mais detalhes no apêndice A). Será que esse ponto de vista, ou algo parecido, está presente no Novo Testamento em relação à natureza formativa do homem?

 

a) A distinção cristã entre alma e corpo

 

Antes de responder a pergunta anterior, é apropriado relembrar alguns textos bíblicos que demonstram que corpo e alma são realmente elementos distintos. Embora isto seja admitido implicitamente em muitos dos textos que foram vistos na seção 5, em referência à alma “nº 3”, existem determinadas passagens bíblicas que são mais específicas, a quase totalidade delas no Novo Testamento. O controverso texto (para os aniquilacionistas) de Mateus 10:28 é um ótimo ponto de partida para essa análise, pois ele diz:

 

“O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrado, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:27, 28.

 

Trazendo o que Jesus falou para a prática, quando ele disse que os homens podiam matar apenas o corpo, obviamente esse “corpo” é a pessoa viva que os assassinos julgariam ter matado, e que em seguida seria enterrado. Mas se em tal ato assassino a alma também não morria, então significa que ela é outra coisa distinta do corpo, que permanece viva de maneira permanente a menos que o próprio Deus ponha fim a ela, pois ele é o único com o poder necessário para isso. Portanto, em sentido restrito a alma é imortal. Esta ideia já estava implicitamente presente em toda história do povo hebreu, porém ao chegar à época do Novo Testamento se tornou mais explícita e definida, conforme demonstram os textos judaicos e cristãos abaixo:

 

“A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá. Aos olhos dos insensatos pareceram mortos; sua partida foi tida como uma desgraça, sua viagem para longe de nós como um aniquilamento, mas eles estão em paz. Aos olhos humanos pareciam cumprir uma pena, mas sua esperança estava cheia de imortalidade”. – Sabedoria 3:1-4, BJ, c. 50 a.C. [ou séc. I, conf. outra estimativa].

 

“Pois sei que logo terei de deixar este corpo mortal, como o nosso Senhor Jesus Cristo me disse claramente. Portanto, farei tudo o que puder para que, depois da minha morte, vocês lembrem sempre dessas coisas.”. – 2 Pedro 1:13-15, NTLH, c. 64 d.C.

 

“Tão logo ele a convenceu através deste juramento que não havia motivo para temor, ele pediu que ela fizesse subir a alma de Samuel... a alma de Samuel perguntou a ele o motivo de tê-lo perturbado e o feito subir. . .”. – Antiguidades Judaicas 6:327, de Flávio Josefo, c. 94 d.C.

 

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4, c. 96 d.C.

 

“A alma invisível é guardada pelo corpo visível... A alma imortal vive em uma tenda mortal, e os cristãos vivem quais residentes forasteiros em um mundo corruptível, buscando alcançar uma morada incorruptível nos céus”. – Matetes a Diogneto, cap. 6, c. 125 d.C.

 

(O escritor acima disse que foi discípulo dos apóstolos. Nota-se que ele compara o corpo a uma tenda, indicando assim que a vida no corpo mortal é provisória e que ela se transfere para outro lugar depois da morte).

 

“E que nossa alma sobrevive [à morte] eu já mostrei a você pelo fato de que a alma de Samuel foi chamada pela bruxa, conforme Saul solicitou”. – Justino, o Mártir, em Diálogo com Trifão, cap. 105, c. 153 d.C., colchetes acrescentados.

 

(Os relatos de Josefo e Justino são sobre o aparecimento do falecido profeta Samuel ao rei Saul).

 

“Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo”. – Policarpo de Esmirna, discípulo do apóstolo João, c. 155 d.C.

 

“A alma humana consiste em muitas partes, e não é simples; ela é composta, de modo a se manifestar através do corpo; pois nem ela poderia aparecer por si mesma sem o corpo, nem a carne ressuscitar sem a alma... O laço da carne é a alma. Onde a alma fica é a carne. Tal é a natureza da constituição do homem”. – Discurso aos Gregos, cap. 15, de Taciano, c. 160 d.C.

 

“Finalmente, também não é possível dizer alguma injustiça em relação ao próprio homem que ressuscita. Este, de fato, é constituído de alma e corpo, e não sofre injustiça nem na alma, nem no corpo. . . . esperamos também firmemente a permanência na incorrupção... quem nô-la garante de modo absolutamente infalível no desígnio de nosso Criador, segundo o qual fez o homem de alma imortal e de corpo, dotou-o de inteligência e lei ingênita para a sua salvação e para a guarda dos preceitos que ele lhe dera, convenientes com uma vida moderada e razoável”. – A Ressurreição dos Mortos, caps. 10 e 13, Atenágoras de Atenas, c. 180 d.C., tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin..

 

“Porém, embora [o corpo] seja dissolvido no tempo determinado, por causa da desobediência primitiva, ele é colocado, por assim dizer, no cadinho da terra, para ser reformado novamente. Não como este corpo corruptível, mas puro, e não mais sujeito a decadência, de modo que a cada corpo sua própria alma será restaurada”. – Fragmento 12 de Irineu de Lyon, discípulo de Policarpo, c. 185 d.C.

 

Portanto, vemos que todos esses escritores concordaram com a realidade apresentada por Jesus de que a morte significa o fim do corpo, mas não da alma. Além disso, há outros textos que também fazem distinção entre alma e corpo:

 

“Parai de estar ansiosos pelas vossas almas, quanto a que haveis de comer ou quanto a que haveis de beber, ou pelos vossos corpos, quanto a que haveis de vestir. Não significa a alma mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?” – Mateus 6:25.

 

“A terra de certo homem rico produziu bem... De modo que ele disse: ‘Farei o seguinte: Derrubarei os meus celeiros e construirei maiores, e ali ajuntarei todos os meus cereais e todas as minhas coisas boas; e direi à minha alma: “Alma, tens muitas coisas boas acumuladas para muitos anos; folga, come, bebe, regala-te.” ’ Mas Deus disse-lhe: ‘Desarrazoado, esta noite te reclamarão a tua alma. Quem terá então as coisas que armazenaste?’.”. – Lucas 12:13-21.

 

(A alma se compraz dos prazeres da vida através do corpo, sem ele os mesmos não podem ser aproveitados).

 

“Amado, oro para que em todas as coisas estejas prosperando e tenhas boa saúde, assim como a tua alma está prosperando”. – 3 João 2.

 

(Naturalmente, os votos de saúde desejados ao interlocutor referem-se ao corpo, que foi então comparado à prosperidade da alma).

 

“Até mesmo a minha carne residirá em esperança; porque não deixarás a minha alma no Hades”. – Atos 2:27.

 

(Carne é uma referência ao corpo que fica na sepultura, ao passo que a alma vai para o Hades. Esta é uma citação direta do Salmo 16:10, visto na seção 5).

 

“Um moço chamado Êutico, que estava sentado na janela, adormecendo profundamente enquanto Paulo prolongava mais o seu discurso, vencido pelo sono caiu do terceiro andar abaixo, e foi levantado morto. Descendo Paulo, debruçou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não façais alvoroço; pois a sua alma está nele. Então subiu, partiu o pão e comeu, e falou-lhes largamente até o romper do dia; e assim se retirou”. – Atos 20:9-11, SBB.

 

(Conforme mencionado por Jesus em Mateus 10:28, a perda da vida é a morte do corpo, então quando Paulo disse que a alma de Êutico ainda estava nele, obviamente ele quis dizer “ainda está no corpo dele”).

 

De modo que está muito claro que o Novo Testamento realmente ensina que o homem é formado de alma e de corpo. Por isso os cristãos antigos seguiram essa linha de pensamento, como pode ser visto adicionalmente nos exemplos abaixo:

 

“Quem, então, é o homem que é tão fraco para evitar roubar, ou para evitar mentir, ou para evitar atos de devassidão, ou para evitar o ódio e a decepção? Mas não! Todas estas coisas estão sob o controle da mente do homem; e não dependem da força do corpo, mas da vontade da alma. Pois mesmo que um homem seja pobre, enfermo e velho, e incapacitado em seus membros, ele pode evitar fazer todas essas coisas”. – O livro das leis de vários países, de Bardesanes, c. 200 d.C.

 

“[Para Basilides] a salvação pertence somente à alma, pois o corpo é por natureza sujeito à corrupção”. – Contra as Heresias, Livro I, 24:5, de Irineu de Lyon, c. 180 d.C., colchetes acrescentados.

 

“O amor dos irmãos em Trôade vos saúda... Que o Senhor Jesus Cristo os honre, em quem eles esperam, em carne e alma, e fé, e amor, e concórdia! Despeço-me em Cristo Jesus, nossa esperança comum”. – Carta aos Filadelfianos, cap. 11, Inácio de Antioquia, c. 110 d.C.

 

(Inácio foi discípulo de Paulo e de Pedro. Ele também pode ter sido discípulo de João, juntamente com Policarpo, de quem era amigo).

 

“Os jovens também sejam irrepreensíveis em todas as coisas... que sejam apartados das concupiscências que há no mundo, porque ‘toda concupiscência guerreia contra o espírito’; e ‘nem os fornicadores, nem os efeminados, nem os que abusam de si mesmos com a humanidade, herdarão o reino de Deus’, nem aqueles que fazem as coisas inconsistentes e impróprias”. – Epístola aos Filipenses, cap. 5, Policarpo de Esmirna, c. 110 d.C.

 

“E olhemos firmemente para o Pai e Criador do universo, e nos unamos a Seus poderosos e extraordinariamente grandes dons e benefícios de paz. Contemplemo-lo com nosso entendimento e olhemos com os olhos de nossa alma para a Sua vontade longânime. Vamos refletir o quão livre da ira Ele é para com toda a Sua criação”. – Carta aos Coríntios, cap. 19, Clemente de Roma, c. 96 d.C.

 

Nota-se que Clemente faz referência não aos olhos físicos do corpo, mas a olhos espirituais, que podem contemplar as maravilhas de Deus de outra maneira. O que demonstra que existe uma alma imaterial dentro do corpo, que foi chamado por Inácio de “carne” (compare Romanos 6:6 com o 8:3, e veja adicionalmente Gálatas 5:24). Já Policarpo menciona a concupiscência, que é a satisfação exagerada de desejos sexuais, ou seja, atitudes próprias do corpo que se opõem ao espírito. O “espírito” aqui funciona como sinônimo de “alma”. O motivo disto será explicado mais adiante. E com respeito à informação dada por Irineu, ele acreditava que o homem é formado por corpo e alma, por isso mencionou os dois separadamente. Entretanto, a opinião de Basilides era uma heresia, visto que ele achava que a salvação é somente para a alma, quando sabemos que na ressurreição a salvação será para ambos, tanto a alma quanto o corpo. Por fim, Bardesanes diz que as ações do corpo são comandadas pela alma, ou pelo menos deveriam, indicando assim que corpo e alma são partes distintas do homem.

 

Curiosidade

 

“Portanto, se alguém de vós tiver falta de sabedoria, persista ele em pedi-la a Deus, pois ele dá generosamente a todos, e sem censurar; e ser-lhe-á dada. Mas, persista ele em pedir com fé, em nada duvidando, pois quem duvida é semelhante a uma onda do mar, impelida pelo vento e agitada. De fato, não suponha tal homem que há de receber algo de Jeová; ele é homem indeciso, instável em todos os seus caminhos”. – Tiago 1:5-8.

 

A palavra “indeciso” é a tradução de dípsykhos, que significa “de duas almas” em grego, uma crítica ante ao fato de que o homem tem apenas uma alma, e não duas. Quem é indeciso é como se tivesse dupla personalidade, ou duas almas.

 

Em textos traduzidos do grego há diversas palavras que carregam consigo a palavra “alma”, porém isso não aparece para o leitor, como é o caso da palavra “magnanimidade”, que significa literalmente “grandeza de alma” (megalopsykhía). O mesmo ocorre com a palavra émpsykha, normalmente traduzida por “ser vivo”, mas que significa literalmente “com a alma nele” ou “almado”.

 

b) O conflito entre o corpo e a alma

 

Mas o que dizer da oposição entre alma e corpo? Certamente ela também existe, conforme vemos nos textos bíblicos a seguir:

 

“Amados, exorto-vos como a forasteiros e residentes temporários a que vos abstenhais dos desejos carnais, que são os que travam um combate contra a alma”. – 1 Pedro 2:11.

 

(Nota-se que as palavras acima de Pedro seguem a mesma linha de raciocínio vista carta de Policarpo aos Filipenses. “Desejos carnais” é uma referência à carne, ou corpo. Ver apêndice E).

 

“Quando quero fazer o que é direito, está presente em mim aquilo que é mau. Eu realmente me deleito na lei de Deus segundo o homem que sou no íntimo, mas observo em meus membros outra lei guerreando contra a lei da minha mente e levando-me cativo à lei do pecado que está nos meus membros”. – Romanos 7:21-25.

 

“Pois, nós sabemos que, se a nossa casa terrestre, esta tenda, se dissolver, havemos de ter um edifício da parte de Deus, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. Pois gememos deveras nesta casa de moradia, desejando seriamente revestir-nos da nossa, provinda do céu, para que, revestindo-nos dela realmente, não sejamos achados nus. De fato, nós, os que estamos nesta tenda, gememos, acabrunhados; porque queremos, não despir-nos dela, mas revestir-nos da outra, para que aquilo que é mortal seja tragado pela vida”. – 2 Coríntios 5:1-5.

 

(Nos dois últimos textos supracitados, o “eu”, “nós” e “homem que sou no íntimo” referem-se à própria alma, conforme foi explicado na seção 5).

 

Aqui começam a surgir as diferenças em relação ao dualismo grego. Embora haja oposição entre a alma e o corpo, isto só acontece devido à pecaminosidade existente no corpo. Lembre-se também que na vida eterna, depois do julgamento final, o corpo do cristão será aperfeiçoado e transformado em um corpo glorioso. Mas enquanto isso não acontece o corpo está em luta constante contra a alma. Vemos na carta de Pedro que é o corpo que briga com a alma. Mesmo assim a alma não odeia o corpo. Deste modo, é o corpo que odeia a alma. Esta é uma diferença sutil, porém fundamental, pois o sentido do “ódio” é invertido quando comparamos com o dualismo platônico. Para os gregos é a alma que odeia o corpo, conforme está explicado no apêndice A. Logo, embora saibamos que nosso corpo nem sempre segue o que nossa mente deseja e com isso nos causa sofrimento, mesmo assim cuidamos bem dele e o amamos. Odiar o corpo não é um sentimento cristão, como está implícito nas palavras seguintes de Paulo:

 

“Nenhum homem jamais odiou a sua própria carne; mas ele a alimenta e acalenta, assim como também o Cristo faz com a congregação”. – Efésio 5:29.

 

Mas alguém poderá contestar essa visão lembrando que Paulo também disse que ‘surrava o corpo dele e o conduzia como escravo’ (1 Coríntios 9:27). Isto certamente é apenas uma metáfora para se referir à autodisciplina, pois, afinal, é preciso que a alma (o “eu”) assuma as rédeas da vida e não se entregue a todo e qualquer tipo de desejo errado para o qual o corpo a conduz. Paulo não estava pregando a autoflagelação e o rigor excessivo contra o corpo, pois senão ele estaria se contradizendo. O que ele disse em referência a determinado sistema religioso reforça tal visão equilibrada:

 

“Estas mesmas coisas [leis religiosas desnecessárias], deveras, têm aparência de sabedoria numa forma de adoração imposta a si próprio e em humildade [fingida], no tratamento severo do corpo; mas, não são de valor algum em combater a satisfação da carne”. – Colossenses 2:20-23, colchetes acrescentados.

 

Leia no apêndice E outros textos bíblicos que demonstram que no Novo Testamento “corpo” é sinônimo de “carne”, de modo que essas duas palavras podem ser utilizadas para se referir à parte física do homem que está em conflito com a espiritual.

 

Neste ponto já estamos aptos para responder a pergunta feita no início: o Novo Testamento ensina o dualismo corpo-alma? Incontestavelmente a resposta é sim! Porém não é o mesmo dualismo grego. É um dualismo moderado que leva em consideração o contexto geral da Bíblia, que diz que o homem é uma unidade formada por alma, corpo e espírito, e que os três só se separam devido à morte que surgiu por causa do pecado. Se o homem não tivesse se rebelado contra a ordem divina, jamais haveria a separação dos elementos constituintes do ser humano. (Veja uma abordagem detalhada sobre a rebelião no Éden lendo o texto “Onde ficava o Jardim do Éden?”). O que nos faz lembrar um último detalhe a ser ponderado: o espírito.

 

c) O enfoque tricotômico e a sinonímia entre as palavras “alma” e “espírito”

 

No dualismo onde a natureza carnal se opõe à natureza espiritual, na Bíblia esta última se desdobra em duas, a saber, alma e espírito. De modo que o homem não seria formado apenas por corpo e alma, mas por corpo, espírito e alma. Há duas passagens bíblicas que fazem alusão a essa formação tricotômica:

 

“Que em todo respeito sejam preservados sãos o espírito, e a alma, e o corpo de vós [irmãos], dum modo inculpe, na presença de nosso Senhor Jesus Cristo”. – 1 Tessalonicenses 2:10.

 

“A palavra de Deus é viva e exerce poder, e é mais afiada do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, e das juntas e da sua medula, e é capaz de discernir os pensamentos e as intenções do coração”. – Hebreus 4:11, 12.

 

‘Juntas e medula’ é uma referência ao corpo. Várias explicações costumam ser dadas por teólogos para explicar o motivo de espírito ser algo diferente de alma, embora ambos tenham natureza espiritual. No entanto, visto que em toda a Bíblia há uma gama muito ampla de aplicações que são feitas desses termos, é difícil chegar a uma conclusão definitiva da diferença entre eles.

 

Se considerarmos apenas Gênesis 2:7 poder-se-á concluir que alma é apenas o ser humano com um corpo que é dotado de respiração (“espírito”). Se lermos outros textos que mencionam a morte ou a esperança de ressurreição, veremos que a alma é algo que desce para o Seol e o espírito alguma coisa que vai para o céu, retornando a Deus, o seu originador. Embora ainda se perceba em alguns desses versículos uma ligação com a descrição de Gênesis, vemos que os contornos desses termos já não são os mesmos do início da Bíblia. E ao chegar à época do Novo Testamento tais descrições ganham sentidos ainda mais inovadores, como é o caso de almas serem retratas em Apocalipse como estando no céu, embora o destino delas fosse antes o Hades ou Seol. Se a literatura judaica que antecedeu à escrita do Novo Testamento for considerada, aí é que vemos uma completa sinonímia no uso dos termos “alma” e “espírito”. O livro apócrifo de Enoque é um exemplo clássico:

 

“Naqueles dias os anjos descerão aos lugares de esconderijo, e reunirão em um lugar todos os que tem ajudado no crime.... Ai de vós, pecadores; pois com as palavras de vossas bocas, e com a obra de vossas mãos, tendes agido impiamente; na chama de um fogo ardente sereis queimados.... Quando suas almas descerem ao receptáculo dos mortos [o Seol], suas más obras se tornarão seu grande tormento.... e em chama que queimará até o grande julgamento”. – 1 Enoque 21:5; 99:1, 7; 103:4, 5, tradução de Elson C. Ferreira, de 2003, colchetes acrescentados.

 

“Então Rafael, um dos santos anjos que estava comigo, respondeu e disse: ‘Estes são os lugares deleitosos onde os espíritos, as almas dos mortos, serão reunidos.... Então inquiri de Rafael, o anjo que estava comigo, e disse: ‘Que espírito é aquele, cuja voz alcança o céu, e acusa?’ Ele respondeu, dizendo: ‘Este é o espírito de Abel o qual foi morto por Caim’. ”. – 1 Enoque 22:1-9.

 

Como se vê, os escritores naquele tempo não se preocuparam mais com o rigor antes visto na Bíblia Hebraica, no uso das palavras “alma” e “espírito”. O Novo Testamento seguiu parcialmente a mesma linha da literatura intertestamentária, conforme algumas das obras citadas pelo autor do MB disseram e também como a consideração da seção 5 demonstrou. Certamente um dos motivos porque “alma” e “espírito” passaram a ser sinônimos um do outro é porque ambos possuem natureza espiritual. O escritor cristão Taciano disse algo que toca nessa confluência:

 

“Reconhecemos duas variedades de espírito, uma das quais é chamada de alma, mas a outra é maior que a alma, uma imagem e semelhança de Deus: ambas existiam nos primeiros homens, que em certo sentido poderiam ser materiais, e em outro superior à matéria”. – Discurso aos Gregos, cap. 12, de Taciano.

 

Logo em seguida, no capítulo 13, Taciano diz que a origem do espírito é de cima, ao passo que a alma é de baixo. O que parece ser uma referência ao modelo criativo hebraico, cuja protodescrição está em Gênesis 2:7. Combinando a informação bíblica com o que disse Taciano, é possível chegar à conclusão que a alma é um ente imaterial criado em associação com algo de natureza celeste, que em seguida é posto dentro de um corpo, passando a se manifestar em sentido físico, ou seja, uma alma que passa a viver na Terra (“alma vivente”). Quando o pecado entrou no mundo, o corpo perdeu a perspectiva de existir continuamente, e com a morte dele a alma retorna para a realidade invisível.

 

Mas, enfim. O importante é saber que o homem é uma unidade formada por corpo, alma e espírito, seja lá quais forem as diferenças destes dois últimos, e que depois da ressurreição dos mortos esses três elementos jamais serão separados novamente uns dos outros. Não é nenhum absurdo, conforme querem os aniquilacionistas, dizer que o homem possui três partes constitutivas. E para simplificar o nosso discurso, não há problema em dizer que o homem é uma unidade formada por corpo e alma. O espírito está subentendido nessa divisão dicotômica, que é meramente didática e combina com o dualismo apresentado no Novo Testamento. Essas terminologias também não contradizem a unidade humana, e muito menos uma parte do homem continuar viva ao passo que seu corpo é provisoriamente descartado. A título de comparação, o corpo é formado de várias partes e mesmo assim é um só corpo. Se alguém perde, por exemplo, os membros inferiores é possível continuar vivendo, porém de uma maneira limitada. Algo semelhante acontece na morte, pois a existência continuada da alma possui limitações que só serão sanadas depois da ressurreição dos mortos.

 

d) Tentativas de contradizer o ensino cristão sobre a alma e o corpo

 

É claro que os aniquilacionistas, ao menos os que se arriscam em estudar um pouco mais este assunto, tentarão a todo custo dar outro entendimento aos textos bíblicos aqui citados, uma vez que é muito claro o dualismo que eles apresentam. O autor do MB reproduziu no site dele um texto que é bem representativo do materialismo “cristão” contra o dualismo bíblico. O texto já começa dando o veredicto sobre se o referido dualismo está presente ou não no Novo Testamento:

 

“De modo que a questão é: Até que ponto o sentido dualístico dessas importantes palavras gregas [alma, espírito, corpo e coração] se refletiu nos escritos do Novo Testamento? Surpreendentemente, conforme veremos neste capítulo, o sentido e o uso dualístico desses termos estão ausentes no Novo Testamento. Mesmo aquelas passagens que parecem ser dualísticas ao contrastarem a carne e o espírito, num exame mais atento revelam um entendimento holístico da natureza humana. A carne e o espírito não são colocados como duas partes distintas e opostas da natureza humana, e sim como dois diferentes tipos de estilo de vida: o centralizado no homem versus o centralizado em Deus”. – Imortalidade ou Ressurreição?, de Samuele Bacchiocchi, colchetes acrescentados.

 

Bem mais surpreendente é uma declaração como esta acima destacada. Se você leu o que foi apresentado até aqui, o que acha? Embora a alma e o corpo realmente conduzam a dois estilos de vida diferentes, isto só é assim porque também existem dois elementos diferentes envolvidos e que agem de maneira oposta ou antagônica. Se não fosse assim não haveria luta nem conflito, e seria apenas uma questão de escolha racional entre duas opções.

 

De qualquer maneira, o materialismo defendido pelos aniquilacionistas é a grande mola propulsora que empurra o andamento do referido texto de Samuele Bacchiocchi. Na prática, o argumento dele significa que não existe nada de verdadeiramente espiritual na constituição do homem, e que “alma” e “espírito” são meras figuras de linguagem para descrever comportamentos ou se referir a aspectos da vida humana. Afinal, se a pessoa é apenas uma máquina biológica em funcionamento, quando ela deixar de funcionar não existe nada dela que se transfira para outro lugar. É o fim total e imediato.

 

De modo que, na visão materialista, nenhum espírito de Jesus saiu realmente da cruz para o Pai, e muito menos sua alma foi deixada no Hades (o “coração da terra”) para ser retirada de lá “três” dias depois. A Bíblia seria então um mero romance com recursos estilísticos peculiares, a exemplo de chamar os mortos no Seol de “sombras”, que se percebem e são percebidas, de ameaçar os ímpios com os sofrimentos eternos da Geena ardente, ou dizer que as almas de cristãos assassinados estão no céu, ao lado do trono de Deus. Ter Jesus dito aos mártires em potencial exatamente isso, e com precisão dicotômica e cirúrgica, de que os homens matariam apenas os seus corpos e não suas almas, é algo de somenos importância, pois o cenário obrigatoriamente deve estar ‘ausente de dualismo’...

 

Mas o que realmente ocorre é que o texto Bacchiocchi contradiz o que os cristãos sempre acreditaram, conforme atesta indubitavelmente a historiografia cristã. Ele lança mão de interpretações particulares com esse intuito. A mais mirabolante delas é, sem dúvida, a que ele apresentou sobre Mateus 10:28, a respeito da preservação da alma depois da morte:

 

“Na discussão precedente vimos que Cristo ampliou o sentido da alma-psychê para denotar não somente a vida física, mas também a vida eterna ganha por aqueles que estão dispostos a assumir um compromisso sacrificial com ele. Se este texto for lido à luz do sentido ampliado dado por Cristo à alma, o significado da declaração será: ‘Não temais aqueles que podem trazer vossa existência terrena (corpo-soma) ao fim, mas não podem eliminar vossa vida eterna em Deus; e sim temais o Deus que é capaz de destruir vosso ser integral eternamente’.”

 

Neste caso, o que Jesus realmente queria dizer foi:

 

“Não temais os que matam a vida de vocês agora, mas não podem matar a vida eterna que um dia vocês vão receber. Antes temam Aquele que pode destruir tanto a vida atual quanto a vida eterna na Geena”.

 

Sugiro que leia esse texto de Mateus diretamente na Bíblia, inclusive os versículos circundantes, e teste sua capacidade cognitiva, para saber se você entenderá o que está acima. Se não entender, de duas uma. Ou o adventista Bacchiocchi tinha uma mente iluminada por Deus para descobrir que Jesus disse uma coisa, mas estava pensando em outra, ou então esse entendimento alternativo não têm absolutamente nada a ver com a realidade.

 

Eu apostaria na segunda hipótese. Até porque a primeira ocasiona problemas insolúveis, a exemplo de como conciliar com o fato de que a Geena eterna para a qual tanto a alma quanto o corpo podem ser mandados era acreditada como sendo bem real, tanto por Jesus quanto pelos discípulos. Pelo menos é isso o que os livros canônicos mostram. Ninguém antigamente achava que tal Geena era apenas um simbolismo. Mas na releitura acima este entendimento figurado é obrigatório, pois é a única maneira de entender como “a vida atual” e a “vida eterna futura” podem ser lançadas ambas dentro da “Geena”, ainda que o eventual condenado não tenha em nenhum momento a posse das duas coisas ao mesmo tempo, pois elas são mutuamente excludentes.

 

O outro problema é que a Bíblia diz que os injustos serão ressuscitados para receberem o castigo do “fogo eterno” (Geena). Portanto, um evento futuro. No entanto, na visão aniquilacionista quando morre uma pessoa completamente má e que voluntariamente rejeitou a Deus, ela já está simbolicamente na Geena. Ou seja, ficará na inexistência para sempre. Deste modo ela recebe o julgamento por antecipação e jamais será ressuscitada, contradizendo assim os textos que dizem que haverá uma ressurreição tanto de justos quanto de injustos:

 

“Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna”. – Daniel 12:2, AM.

 

“Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados”. – João 5:28,29, NVI.

 

“Eu tenho esperança para com Deus, esperança que estes mesmos homens também alimentam, de que há de haver uma ressurreição tanto de justos como de injustos”. – Atos 24:15.

 

“Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos.... E estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna”. – Mateus 25:41, 46, NVI.

 

Tais advertências combinam com outra que foi dada pelo apóstolo Paulo:

 

“Haverá furor e ira, tribulação e aflição sobre a alma de cada homem que fizer o que é prejudicial, primeiro do judeu, e também do grego; mas glória, e honra, e paz para todo aquele que fizer o que é bom, primeiro para o judeu, e também para o grego. Pois, com Deus não há parcialidade”. – Romanos 2:8-11.

 

Alguns, a exemplo das Testemunhas “de” Jeová, tentam contornar esse problema por dizer que os ímpios que serão ressuscitados são os que nunca tiveram oportunidade de conhecer a Deus, deste modo terão a chance de obter a vida eterna. Mas isso também entra em conflito com a Bíblia, pois além dela não dar essa explicação, ela diz claramente nos textos acima que os injustos serão ressuscitados com o objetivo de serem condenados e não para terem uma oportunidade de salvação. O que demonstra que eles estão vivos em algum lugar, pois se a punição eterna fosse a inexistência e eles já não existissem, não faria sentido ressuscitá-los só para serem informados que seriam aniquilados novamente. Bastava que os deixassem do jeito que já estariam. Mas se eles forem que nem presos em uma cela (Hades), aguardando julgamento pelas grandes maldades que praticaram, as profecias supracitadas passam a ter mais sentido.

 

Alguém também poderá argumentar que se os iníquos já estão nas chamas do Hades também não faria sentido ressuscitá-los só para serem mandados de volta para o sofrimento. Mas o fato é que a Bíblia indica que será assim, independentemente dos motivos. De qualquer maneira, há o seguinte detalhe: aparentemente a punição que haverá depois do julgamento será pior que a anterior, pois Jesus disse que não será apenas a alma que será lançada na Geena, mas também o corpo (ressuscitado). Ou seja, as angústias serão impingidas ao “homem inteiro”, e não apenas à sua alma. Conforme disse a obra nº 1, citada pelo autor do MB, “o tormento que aguarda os perdidos terá elementos de sofrimento adaptados ao aspecto material, bem como à parte espiritual de nossa natureza”.

 

Também é importante mencionar que não existe um único escrito patrístico (obras cristãs do século 2 em diante) que apresente a interpretação de Bacchiocchi. Pelo contrário, conforme exemplificado anteriormente, sempre que esse tema vem à tona, os cristãos antigos dizem que a alma é distinta do corpo, que ela sobrevive à morte e que na ressurreição a alma é juntada novamente ao corpo. Havia apenas alguma divergência sobre se a alma pode ser chamada de imortal ou não. O motivo não é porque eles tivessem alguma dúvida de que a alma continua existindo, mas porque sabiam que essa continuidade não é o que os gregos chamavam de imortalidade da alma, conforme pode ser visto melhor no apêndice A. O escritor Taciano, o mesmo que disse que a alma tem natureza espiritual, resumiu a diferença entre a crença cristã e a grega da seguinte maneira:

 

“A alma não é em si mesma imortal, ó gregos, mas mortal. No entanto, é possível que ela não morra. Se, de fato, não conhece a verdade ela morre e se dissolve com o corpo, mas ressurge finalmente no fim do mundo com o corpo, recebendo a morte por castigo na imortalidade. Mas, novamente, se ela adquire o conhecimento de Deus, ela não morre, embora por algum tempo seja dissolvida... a alma não preserva o espírito, mas é preservada por ele... mas a alma ignorante é escuridão. Por isso, se continua solitária, vai para baixo em direção à matéria e morre com a carne; mas, se entra em união com o Espírito Divino, já não está desamparada, mas ascende às regiões para onde o Espírito a guia: porque a morada do espírito está acima, mas a origem da alma é de baixo”. – Discurso aos Gregos, cap. 13, de Taciano.

 

Nota-se implicitamente nas palavras de Taciano alusão ao conceito hebraico de morte, que dizia que o sepultamento do corpo é acompanhado da descida da pessoa para o Seol, porém na forma de uma “sombra” que continuaria sua existência na escuridão do mundo subterrâneo. Esta é a morte da alma de acordo com as antigas nações semíticas, inclusive a Assíria, onde Taciano nasceu. Em contraste com tal cenário, os cristãos, que receberam o penhor do Espírito, nutriram a expectativa de irem imediatamente para a presença de Cristo depois da morte, nas regiões celestiais. O que Taciano explicou acima parece ser uma descrição precisa dessas duas situações distintas e opostas, além de ter aludido aos ímpios que também serão ressuscitados para fins de julgamento eterno.

 

Justino, o mestre cristão de Taciano, também não achava correto que a alma fosse chamada de imortal, embora acreditasse que ela não morre, como deixou claro ao reconhecer a veracidade do episódio de Endor. Ao dar sua opinião sobre a ideia de imortalidade, Justino levou em consideração que para os gregos ser a alma imortal significa que ela não teve começo nem terá fim (o que está entre aspas simples é a fala do “homem velho”, com quem Justino estava falando):

 

“Há outros que, tendo suposto que a alma é imortal e imaterial, acreditam que, embora tenham cometido o mal, não sofrerão castigo (pois o que é imaterial é insensível), e que a alma, em conseqüência de sua imortalidade, não precisa de nada de Deus. . . . ‘[A alma] nem deveria ser chamada de imortal; pois, se é imortal, é claramente não gerada’. De acordo com os assim chamados platonistas ela é imortal e não gerada. ‘Então as almas não são imortais?’ Não, desde que o mundo apareceu a nós para sermos gerados”. – Diálogo com Trifão, Caps. 1 e 5, Justino de Roma, colchetes acrescentados.

 

Além de ter dito que a alma de Samuel voltou da morte para falar com Saul, Justino também comentou o texto de Mateus 10:28.* Veja o que ele escreveu:

 

“E [Jesus] disse mais: ‘Não temais aqueles que vos matam e depois disso nada mais podem fazer; temei antes aquele que, depois da morte, pode lançar alma e corpo no inferno’. Deve-se saber que o inferno [Geena] é o lugar onde serão castigados os que tiverem vivido iniquamente e não acreditaram que acontecerão essas coisas ensinadas por Deus, através de Cristo”. – Primeira Apologia 19:7, Justino de Roma, c. 150 d.C., colchetes acrescentados.

 

* Justino misturou a fraseologia de Mateus 10:28 com o texto paralelo do evangelista Lucas: “Além disso, eu vos digo, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e depois disso não podem fazer mais nada. Mas, eu vos indicarei quem é para temer: Temei aquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena” (Lucas 12:4, 5). Alguns aniquilacionistas, a exemplo do próprio autor do MB, gostam da versão de Lucas porque ela não menciona o corpo e a alma, como se fosse um ponto a favor do aniquilacionismo. Na verdade, pode ser bem o contrário disso. Segundo dizem, Lucas fez sua versão do Evangelho pensando especialmente nas pessoas das nações (não judeus), que poderiam conhecer o ensino de Platão sobre a alma. Tanto Lucas quanto Justino deliberadamente omitiram a afirmação “não podem matar a alma”, que aparece em Mateus 10:28. Talvez eles tenham feito isso porque não queriam que os leitores gregos achassem que o Cristianismo concorda com o ensino platônico sobre a imortalidade da alma.

 

Já Irineu de Lyon, o “neto” do apóstolo João, explicou que a existência contínua da alma depois da morte não é o tipo de imortalidade usufruída por Deus:

 

“O Senhor ensinou com grande plenitude que as almas não só continuam a existir, não passando de corpo em corpo, mas que conservam a mesma forma que o corpo tinha... na narrativa registrada a respeito do homem rico e de Lázaro que encontrou repouso no seio de Abraão... o rico conheceu Lázaro depois da morte, e Abraão da mesma maneira, e que cada uma dessas pessoas continuou em sua própria posição... Por estas coisas, então, é claramente declarado que as almas continuam a existir e que não passam de corpo a corpo, que possuem a forma de um homem, para que possam ser reconhecidos e retêm na memória as coisas deste mundo... Mas... só Deus, que é Senhor de todos, é sem princípio e sem fim, sendo verdadeiramente e para sempre o mesmo, e sempre permanecendo o mesmo Ser imutável... [As outras coisas] perduram e prolongam sua existência em uma longa série de épocas, de acordo com a vontade de Deus, seu Criador... então também qualquer um que pense assim a respeito das almas e dos espíritos e, de fato, respeitando todas as coisas criadas, não se desviará de maneira alguma, uma vez que todas as coisas que foram feitas tiveram um começo quando foram formadas, mas perduraram enquanto Deus quisesse que elas tivessem uma existência e uma continuidade... Mas como o corpo animal certamente não é a alma, mas tem comunhão com a alma, conforme Deus se agrada; assim a própria alma não é a vida, mas participa daquela vida que Deus lhe concedeu. Portanto, também a palavra profética declara do primeiro homem formado: ‘Ele se tornou alma vivente’ [Gênesis 2:7], ensinando-nos que pela participação da vida a alma se tornou viva; de modo que a alma, e a vida que possui, devem ser entendidas como sendo existências separadas. Quando Deus, portanto, concede vida e duração perpétua, acontece que mesmo as almas que não existiam anteriormente deveriam doravante perdurar para sempre, uma vez que Deus quer que elas existam e continuem existindo. Pois a vontade de Deus deve governar e governar em todas as coisas, enquanto todas as outras coisas que dão lugar a Ele, estão sujeitas e devotadas ao Seu serviço. Até agora, deixei-me falar sobre a criação e a duração contínua da alma”. – Contra as Heresias, Livro II, 34:1-4, Irineu de Lyon, discípulo de Policarpo, que por sua vez foi discípulo do apóstolo João, c. 180 d.C., colchetes acrescentados.

 

De modo que está muito claro que as afirmações dos cristãos antigos destroem a hipótese da “alma ampliada” com o significado de vida eterna futura. Outro exemplo, para concluir, é o cristão que foi na juventude aluno do apóstolo João, o cristão Policarpo. Ele disse que a ressurreição consistirá na “vida eterna da alma e do corpo”. Certamente ele não quis dizer “vida eterna da ‘vida eterna futura’ e do corpo”...

 

Portanto, não há como fugir da realidade que o Novo Testamento apresenta sobre a natureza físico-espiritual do homem. Tal concepção se irradiou desde o século 1 em diante. E isso nada tem a ver com influência do dualismo grego, mesmo havendo o ponto em comum de que tanto cristãos quanto platônicos acreditavam que a alma continua viva depois da morte, além do que os cristãos se valeram depois de pontos aproveitáveis da filosofia grega, a exemplo da linguagem, que já estava um pouco presente no Novo Testamento.

 

Antes de retomar a consideração sobre as referências citadas pelo autor do MB, é preciso que você saiba que ainda existem outros fatores que impedem os autores de obras sérias de referência advogarem o aniquilacionismo, principalmente aqueles que não aderiram a esse movimento contemporâneo que faz a teologia flertar com o materialismo e as ciências naturais. Embora a desculpa predominante seja a “platofobia” e uma suposta aderência total ao pensamento hebraico, os verdadeiros motivos se escondem abaixo da superfície aparente do discurso, quer seus promotores se apercebam disso ou não. A seção seguinte poderá ser útil para descortinar essa realidade oculta.

 

7. MATERIALISMO “CRISTÃO”, IMORTALIDADE CONDICIONAL E “SONO” DA ALMA

 

[Materialismo é o] dogma muito perigoso segundo o qual alguns filósofos, indignos de tal nome, pretendem que tudo é matéria, negando a imortalidade da alma.

 

Dictionnaire de Trévoux, publicado em 1752 (Larousse, 2004).

 

Um dos argumentos ‘ad hominem’ ao qual [os imortalistas] apelam é classificar os que rejeitam o conceito da ‘sobrevivência da alma após a morte’ como ‘materialistas’. Embora esta também seja uma acusação grave, não há aqui a intenção de analisar as razões que levariam alguém a fazê-la. Até porque isto nem é necessário... quem responderá por uma acusação falsa é a pessoa que a fez, não aqueles contra quem ela é dirigida.

 

Autor do site “Mentes Bereanas”.

 

Os que advogam o aniquilacionismo ou o materialismo “cristão” normalmente não gostam de tais classificações e preferem dizer que defendem a “imortalidade condicional” ou o “sono da alma”. A razão é que as palavras “aniquilacionistas” e “materialistas” possuem uma conotação muito negativa. Embora seja exatamente isso o que eles são, sentem-se ofendidos de serem chamados assim e protestam contra os que insistem em fazê-lo. Para entender bem os motivos dessa reclamação, e ponderar sobre se ela poderia ser acatada, é importante conhecer primeiro o conceito de materialismo e sua evolução histórica, além de analisar alguns pontos relacionados. O objetivo desta seção é fazer justamente isso.

 

- Os negritos e colchetes nas citações são meus, exceto se houver outra indicação.

 

a) Materialismo – uma crença rara na Antiguidade

 

O dicionário citado no início é uma obra jesuíta do século XVIII publicada em um momento que o materialismo estava ganhando força, mas ainda encontrava muita resistência por parte da intelectualidade, realidade que se inverteu na época atual. Sobre essa radical mudança de postura filosófica, diz o seguinte estudo:

 

“A grande preocupação dos materialistas do século XVIII foi a de estabelecer a unidade material do mundo e por isso combater, sem tréguas, o dualismo corpo-alma do pensamento cristão... os filósofos levaram tão longe quanto possível a negação dos valores religiosos tradicionais e a afirmação das virtualidades humanas: graças à ciência, os homens seriam capazes de obter, acerca deles mesmos e do mundo, suficiente conhecimento para criarem condições de vida mais feliz. No conjunto, os materialistas franceses do século XVIII rejeitaram tanto o deísmo como o panteísmo. São ateus. E, na história das idéias, a sua originalidade repousa, em grande parte, no ateísmo militante”. – O Materialismo Radical de Holbach e a Química Moderna, de Robson Jorge de Araújo, dissertação de mestrado, 2006, UFMG, pp. 41, 42.

 

Mas o que se entende por materialismo? Embora esta palavra seja corriqueiramente associada ao apego exagerado ao dinheiro e aos bens materiais, aqui o significado é outro. Trata-se do entendimento segundo o qual toda realidade que existe no universo é apenas material, e o que se costuma chamar de “alma” no ser humano nada mais é do que a consciência gerada pela organização dessa matéria no cérebro. Deste modo, a morte resultaria no fim tanto do corpo quanto da alma. Isto é o que se chama mais especificamente de monismo material. Conforme visto na citação nº 45 (Enciclopédia Britânica), essa concepção praticamente não existia no mundo antigo, pois todos os povos tinham crenças de vida após a morte, variando apenas nos detalhes como tal fenômeno de sobrevivência aconteceria.

 

Quando se admite a possibilidade de combinar algum tipo de conceito religioso com o materialismo, ele é mais comumente chamado de naturalismo. Por exemplo, ainda que os naturalistas geralmente optem pelo ateísmo* ou o gnosticismo, nada impede que alguns deles creiam também no panteísmo (Deus é a natureza) ou no teísmo (se Deus existe e criou tudo, ele não interfere em sua criação e nem está presente nela). Um ateu naturalista pode até mesmo acreditar que o homem possui uma alma que se separa do corpo após a morte, ainda que tal ponto de vista não seja comum entre os ateus. E outro enfoque mais recente do materialismo é chamá-lo de fisicalismo, pois, além de matéria sólida, o universo é composto de partículas, ondas e campos de várias naturezas. As obras a seguir resumem a história toda da seguinte maneira:

 

“No materialismo, concebe-se que a matéria é desprovida de alma ou de uma racionalidade intrínseca. Além disso, não haveria uma finalidade ou propósito na natureza. Isso resulta numa valorização da causação eficiente, e na concepção de mundo conhecida como ‘mecanicismo’. Dois grandes problemas do materialismo, desde sua origem entre os atomistas gregos, têm sido explicar a perfeição da vida e explicar a alma”. – O Dogmatismo Científico de Tradição Materialista, de Osvaldo Pessoa Jr., publicado em Estudos de História e Filosofia das Ciências, 2006, de Cibelle Celestino Silva (org.), Livraria da Física Editora, p. 44 (4 do pdf).

 

“Acolhendo a afirmação de Hegel, segundo a qual ‘os cristãos desperdiçam no céu a energia destinada à terra’, Feuerbach e principalmente Marx combateram a crença na vida após a morte, sob o pretexto de que aliena o compromisso terreno. À ideia de uma sobrevivência pessoal em Deus, se substitui uma ideia de sobrevivência na espécie e na sociedade do futuro”. – A resposta cristã ao secularismo, de Raniero Cantalamessa, 2010, Sermões da Casa Pontifícia.

 

“Uma condição necessária para respaldar o naturalismo é a admissão sem reservas de um conjunto de premissas fundamentais. A primeira dessas premissas é que a única realidade que existe na natureza é a matéria. Desse ponto de vista, existir nada mais é do que fazer parte da caixa selada. Ou seja, existir é poder ser observado empiricamente, investigado, estudado e sistematizado pelos métodos científicos utilizados nas ciências naturais. Se houver algo fora da caixa, não é natureza e, por isso, não pode ser considerado uma realidade existente”. – Além da matéria: alguns contrapontos cristãos ao naturalismo, Revista Teologia Brasileira, 2014, versão on line.

 

* O ateísmo tem sido classificado em três tipos: (1) prático, quando se refere apenas a atitudes, (2) teórico negativo, quando Deus é excluído para explicar a existência do universo e (3) teórico positivo, quando nega completamente a existência de Deus e de qualquer realidade que não seja a física. – Grande Enciclopédia Barsa, Editorial Planeta, edição digital, 2002, verbete “Ateísmo”.

 

Os primeiros registros do materialismo na Antiguidade dos quais se têm notícia são de poucos séculos antes de Cristo, que foram apresentados em duas vertentes, sendo a segunda provavelmente influenciada pela primeira:

 

1) Materialismo indiano (século VI a.C.): conhecido por nomes a exemplo de lokayta e carvaka, foi combatido pelo budismo e especula-se que chegou à Índia através de sumérios que migraram para lá, antes da invasão indo-europeia no século XV a.C.

 

2) Atomismo greco-romano (séculos V-I a.C.): criado por Leucipo e desenvolvido por Demócrito, transformou-se em uma escola filosófica sob os auspícios de Epicuro e foi difundido no mundo romano por Lucrécio.

 

No caso do materialismo indiano, houve uma tendência a se combater rituais religiosos fúnebres, pois ele seguia a lógica de que nada existiria depois da morte. Ele também valorizava os prazeres físicos e sensuais, sentimento ecoado na máxima dos epicureus: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”. Mas os seguidores de Epicuro diziam que a busca pelos prazeres devia ser moderada. O materialismo deles consistia em achar que a alma é uma entidade física formada por átomos que se desintegra quando o indivíduo morre. Por isso eles incentivavam as pessoas que não temessem a morte, pois se a alma é apenas algo material os mortos não têm nenhuma sensação e estão na completa inexistência.

 

A partir do século XVII o materialismo ganhou feições religiosas devido a determinadas pessoas que queriam se valer de alguns de seus argumentos, porém sem abrir mão da crença em Deus e dos valores metafísicos da religião a que pertenciam. A denominação técnica que foi utilizada para se referir a essa nova abordagem é “filosofia mecânica”. Seus defensores eram basicamente filósofos religiosos que se dedicavam a algum ramo científico. Posteriormente o Iluminismo alterou o curso desse materialismo “cristão”, e o aspecto religioso foi gradualmente abandonado pelos autores naturalistas, como foi o caso de Thomas Hobbes, que em seu livro Leviatã disse: “O que não é material não é real”. Estava assim pavimentado o caminho para o que viria em seguida: o darwinismo e o marxismo, cuja simbiose excluiu Aquele que ainda persistia no cenário científico: o Criador (conforme vimos na seção 1). Mas antes disso a Igreja Católica estimulou o desenvolvimento da filosofia mecânica, considerando a matéria em movimento como resultado da ação primeira de Deus e não apenas de mecanismos dela própria.

 

Sobrepujando o deísmo, que ainda considerava a existência de um Deus Criador, porém completamente ausente de sua criação, o ateísmo voltou a triunfar no enfoque materialista dos cientistas. Um dos primeiros estudiosos modernos que abraçou completamente o ateísmo foi o médico Julien de la Méttrie, que em sua obra “O Homem Máquina” (1748) disse que o pensamento nada mais é do que uma consequência da organização dos mecanismos físicos do corpo. Outro ateu materialista que ficou bastante conhecido foi o barão Paul von Holbach (1723-1789). Outros expoentes que seguiram mais ou menos na mesma linha foram Denis Diderot, John Toland, David Hartley e Joseph Priestley.

 

Mas foi somente a partir de 1830 que o materialismo ateu começou a se firmar nas ciências naturais, a fim de expurgar de seus proponentes a noção de Deus. E isto aconteceu inicialmente devido à escola alemã e suas universidades dedicadas à fisiologia, que contribuíram para o declínio do idealismo de Kant. (Não deve ser coincidência, então, que vem justamente da Alemanha algumas das principais obras teológicas que destoam de pontos espirituais ensinados há séculos na ortodoxia cristã). E ainda houve uma força prévia neste sentido que acabou por se somar a esse conjunto de movimentos em prol da negação daquilo que é espiritual dentro da matéria: a Reforma Protestante, protagonizada coincidentemente por um alemão, Martinho Lutero. Isto porque, quando cristãos passaram a ler a Bíblia sem a orientação da Igreja, inevitavelmente alguns entendimentos errôneos surgiram, dentre eles a novidade do aniquilacionismo materialista de verve religiosa. Por isso praticamente todos os nomes que abraçaram a “imortalidade condicional” e que são lembrados pelos aniquilacionistas são da época da Reforma em diante. Logo, embora não fosse a intenção de Lutero, a combinação dos acontecimentos resultantes do seu reformismo confluiu para o surgimento desse novo materialismo “cristão”.

 

A situação se agravou ainda mais a partir do vácuo deixado pela filosofia mecânica, quando ela foi praticamente abandonada e substituída pelo “materialismo dialético” (e ateu) preconizado por Karl Marx, que se tornou a visão padrão da ciência contemporânea em conexão com o fisicalismo. Sobre esse período diz a Enciclopédia Barsa:

 

“A partir de meados do século XIX, o ateísmo se tornou mais explícito e militante. O alemão Ludwig Feuerbach subverteu a dialética hegeliana, concedendo primazia à sensação frente à razão. Paralelamente, inverteu a relação Deus-homem. Não foi Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança; foi o homem que projetou suas melhores qualidades sobre a tela do conceito de Deus. Em suas teses sobre Feuerbach, Marx criticou o fato de que a filosofia se tivesse limitado a interpretar o mundo, em vez de tratar de modificá-lo. O estudo da história levou Marx à conclusão de que as estruturas sociais vão sendo construídas como muros protetores para evitar a mudança das relações de produção: a religião é o ópio, o consolo adormecedor do povo. Nietzsche, sob uma postura mais existencialista, não proclamou a inexistência de Deus, mas sua morte nas mãos dos homens, o que provocaria uma mudança de valores que prepararia a chegada do super-homem”. – Grande Enciclopédia Barsa, Editorial Planeta, edição digital, 2002, verbete “Ateísmo”.

 

Esse fortalecimento do ateísmo no século XIX veio em boa hora para o materialismo alemão, pois ele já estava sofrendo um declínio devido às investidas dos positivistas e adeptos de Kant. Mas com a leitura que Marx fez do evolucionismo de Charles Darwin e sua intensa divulgação impressa, o destino da ciência não foi outro senão o materialismo ateu. Sendo assim, os novos aniquilacionistas passaram a ser os únicos que se apegam ao materialismo religioso, no que diz respeito à não existência da alma no corpo e a consequente rejeição do conceito de continuidade depois da morte.

 

Por fim, é necessário ressaltar que existe uma abordagem chamada de “materialismo cristão” que nada tem a ver com a opinião de que o homem não possui uma alma que sobrevive à morte do corpo. Essa outra conceituação é a que foi proposta por Josemaría Escrivã, fundador da Opus Dei, que visa exaltar a união do divino com o humano, do físico com o espiritual, a fim de combater o errado sentimento de que as bênçãos e ações de Deus se restringem apenas a realidades invisíveis e celestes. Tal enfoque de Escrivã não é o que eu venho chamando aqui de “materialismo ‘cristão’ ”. O materialismo a que me refiro é apenas o conceito de que a morte do corpo resulta na extinção completa da pessoa, não havendo, portanto, uma alma espiritual, conforme pensam os ateus e também os novos aniquilacionistas,* porém com a diferença que para estes últimos Deus um dia poderá criar uma cópia perfeita da pessoa que deixou de existir, crença que será comentada no item seguinte.

 

* Conforme eu mencionei na primeira seção, a ortodoxia considera que aniquilacionistas são aqueles que negam que as almas dos maus serão atormentadas para sempre depois do Juízo Final, e creem que, ao invés disso, elas serão aniquiladas e erradicadas da existência. Os primeiros cristãos que defenderam tal ponto de vista não eram materialistas, pois acreditavam que depois da morte a alma continua viva no Hades, aguardando o julgamento futuro. Deste modo, para fazer uma distinção entre esse antigo conceito de aniquilacionismo e o atual, que prega a extinção total depois da morte, eu chamei os seus defensores de “novos aniquilacionistas”.

 

b) As implicações indesejáveis do materialismo “cristão”

 

Existem alguns fatores que podem ser alegados pelos novos aniquilacionistas a fim de credenciar o seu materialismo religioso. Primeiramente eles acreditam em Deus e que Ele criou tudo o que existe no universo. Deste modo, quando usam as informações das ciências naturais para explicar realidades físicas, eles não se submetem ao ateísmo de muitos cientistas, segundo os quais a vida é obra do acaso. Também não aceitam o darwinismo. Além disso, estão convictos da existência de um lugar celestial onde criaturas espirituais vivem. Ainda que tais posicionamentos sejam pontos positivos, eles não equacionam alguns problemas sérios da crença aniquilacionista. Veja a seguir os principais deles.

 

Analisando-se o materialismo sob o aspecto somente cie