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O QUE ENSINARAM OS ESCRITORES CRISTÃOS DO SEGUNDO SÉCULO?

 

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SUMÁRIO

 

– Logo após este sumário há um índice com links de acesso específico às informações (por subtópicos, autores e obras)

 

1. Sobre os Escritores Citados e Suas Obras

 

Introdução

 

Pais apostólicos

 

Pais apologistas e outros

 

2. Os Ensinos de Cada Escritor Conforme os Temas Indicados

 

O que determinou a escolha dos assuntos nesta coletânea

 

a) A distinção entre corpo e alma

 

b) A natureza da alma

 

c) Visões, vida fora do corpo físico, expectativas sobre a morte, ressurreição e recompensa dos justos

 

d) A punição dos ímpios

 

e) Relatos, conselhos e advertências contra as heresias ou falsas crenças

 

Bibliografia

 

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ÍNDICE

 

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1. Sobre os Escritores Citados e Suas Obras

 

Introdução

 

a) Pais apostólicos: 1. Autor da Didaqué (c. 98 d.C.)      2. Clemente de Roma (c. 30-100 d.C.)        3. Inácio de Antioquia (c. 30-107 d.C.)      4. Barnabé (c. 130 d.C.)      5. Matetes (c. 130 d.C.)   6. Pápias de Hierápolis (c. 70-155 d.C.)      7. Policarpo (c. 65-155 d.C.)      8. Hermas (c. 160 d.C.)

 

b) Pais apologistas e outros: 1. Aristides de Atenas (c. ?-140 d.C.)      2. Justino de Roma, o Mártir (c. 100-165 d.C.)      3. Taciano, o Assírio (c. 110-172 d.C.)      4. Dionísio de Corinto (c. 170 d.C.)     5. Melitão de Sardes (c. ?-177 d.C.)      6. Cláudio Apolinário de Hierápolis (c. 177 d.C.)        7. Atenágoras de Atenas (c. ?-180 d.C.)      8. Autor da “Paixão dos mártires silitanos” (180 d.C.)       9. Teófilo de Antioquia (c. 115-181 d.C.)      10. Um antimontanista (c. 193 d.C.)     11. Polícrates de Éfeso (c. 130-196 d.C.)      12. Irineu de Lyon (c. 120-202 d.C.).

 

2. Os Ensinos de Cada Escritor Conforme os Temas Indicados

 

O que determinou a escolha dos assuntos nesta coletânea

 

a) A distinção entre corpo e alma

 

– Podendo “carne” ser usada com acepção de “corpo” e “espírito” com sentido de “alma”, em sinonímia.

 

1) Clemente de Roma

2) Inácio de Antioquia

3) Aristides de Atenas

4) Barnabé

5) Matetes

6) Justino de Roma, o Mártir

7) Melitão de Sardes

8) Atenágoras de Atenas

9) Teófilo de Antioquia

10) Irineu de Lyon

 

b) A natureza da alma

 

1) Matetes

2) Justino de Roma, o Mártir

3) Taciano, o assírio

4) Melitão de Sardes

5) Teófilo de Antioquia

6) Irineu de Lyon

 

c) Visões, vida fora do corpo físico, expectativas sobre a morte, ressurreição e recompensa dos justos

 

1) Clemente de Roma

2) Inácio de Antioquia

3) Matetes

4) Pápias de Hierápolis

5) Policarpo de Esmirna

6) Hermas

7) Justino de Roma, o Mártir

8) Melitão de Sardes

9) Atenágoras de Atenas

10) A paixão dos mártires silitanos

11) Teófilo de Antioquia

12) Irineu de Lyon

 

d) A punição dos ímpios

 

1) Didaqué

2) Inácio de Antioquia

3) Barnabé

4) Matetes

5) Policarpo de Esmirna

6) Hermas

7) Justino de Roma, o Mártir

8) Taciano, o assírio

9) Atenágoras de Atenas

10) Teófilo de Antioquia

11) Dionísio de Corinto

 

e) Relatos, conselhos e advertências contra as heresias ou falsas crenças

 

1) Didaqué

2) Inácio de Antioquia

3) Aristides de Atenas

4) Barnabé

5) Matetes

6) Pápias de Hierápolis

7) Policarpo de Esmirna

8) Hermas

9) Justino de Roma, o Mártir

10) Taciano, o assírio

11) Atenágoras de Atenas

12) Teófilo de Antioquia

13) Um antimontanista

14) Polícrates de Éfeso

15) Irineu de Lyon

 

Bibliografia recomendada

 

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1. Sobre os escritores listados e suas obras

 

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Filhinhos meus, isto vos escrevo para que não pequeis... Filhinhos, eu vos escrevo, porque vossos pecados vos foram perdoados pelo seu nome [o de Jesus].

1 João 2:1, 12, Ave Maria.

 

De acordo com a tradição cristã, o apóstolo João foi o mais longevo dos apóstolos e teria vivido até o final do primeiro século. A data que normalmente se atribui à sua primeira carta é o ano 98 d.C. Devido à idade avançada e linguagem paternal com a qual se dirigia aos seus destinatários ele certamente poderia ser considerado um “pai” para a igreja primitiva. Só nessa primeira carta ele usa a palavra “filhinhos” sete vezes. Cristãos que lhe eram contemporâneos, ou que surgiram um pouco depois, quando assumiram a tarefa de incentivar as comunidades cristãs por meio de cartas também demonstraram uma atitude compassiva com seus interlocutores, procurando incentivá-los.

 

Coincidência ou não, algum tempo mais tarde convencionou-se chamar os homens que sucederam aos apóstolos e seguiram seus passos de “pais apostólicos”. Alguns destes foram instruídos diretamente por João, Filipe, Paulo de Tarso e outros. E havia os que não tiveram essa oportunidade mas eram discípulos dos que foram ensinados pessoalmente pelos apóstolos. Foram esses homens os responsáveis por darem seguimento ao trabalho iniciado pelos seguidores diretos de Jesus Cristo.

 

Com o avanço do segundo século, os que estavam à frente das igrejas espalhadas pelo mundo se depararam com uma situação que já havia começado nos últimos anos de vida do apóstolo João, porém estava ganhando novas proporções: o avanço do gnosticismo e o surgimento das primeiras heresias, cujos defensores diziam ser cristãos. Por isso o foco das cartas mudou de simples incentivo para o combate contra falsos ensinos e a defesa das doutrinas básicas ensinadas pelos apóstolos. Os que se dedicaram a essa nova abordagem vieram a ser chamados de “pais apologistas” e “pais polemistas”, sendo que estes últimos se destacaram mais a partir do século III. Seus escritos foram muito necessários, pois os que aderiam a determinados conceitos errôneos, principalmente os gnósticos, eram muito ativos em disseminar suas ideias, dentre elas a desvalorização do corpo e a descrença em sua ressurreição. Mas o caráter de encorajamento não foi abandonado, pois o segundo século foi um período de muito sofrimento para os cristãos, devido à máquina de perseguição do Império Romano.

 

As obras de alguns pais da Igreja do segundo século, a exemplo de Máximo de Jerusalém, Miltiades e Quadrato de Atenas*, não sobreviveram até os dias de hoje. No entanto, Eusébio de Cesareia menciona tais homens em seu importante trabalho “História Eclesiástica”, escrito no início do século IV. Sobre eles, foi dito o seguinte:

 

“Numerosos memoriais do fiel zelo dos antigos homens eclesiásticos daquela época ainda são preservados por muitos. Destacamos particularmente os escritos de Heráclito sobre o Apóstolo e os de Máximo sobre a questão tão discutida entre os hereges, a Origem do Mal e sobre a Criação da Matéria. Também os de Cândido no Hexamerão, e os de Apião sobre o mesmo assunto. Assim como os de Sexto sobre a Ressurreição, e outro tratado de Arabiano, e escritos de uma multidão de outros, em relação a quem, por não termos os dados, é impossível declarar em nosso trabalho quando eles viveram, ou dar qualquer relato de sua história”. – História da Igreja, Livro V, cap. 27, Eusébio de Cesareia.

 

Em alguns casos, Eusébio citou trechos desse material perdido, pois ainda estava disponível naquele tempo. Isso foi de fundamental importância para a preservação de ao menos uma parte do que tais autores disseram e também para se saber alguma informação a respeito deles.

 

* Por outro lado, conforme será visto sobre a carta de Matetes a Diogneto, existe uma forte possibilidade de Quadrato ser o autor dessa epístola, que se identificou apenas como discípulo dos apóstolos. Discípulo em grego é mathetes, por isso convencionou-se chamá-lo assim.

 

Todos esses “pais”, os apostólicos, os apologistas e os polemistas, hoje em dia são costumeiramente chamados de Pais da Igreja. (No decorrer dos séculos todos os sacerdotes católicos passaram a ser chamados de “pais”, ou padres, em espanhol). E as obras que eles escreveram recebem a denominação de Literatura Patrística. Uma historiografia cristã séria não pode existir sem considerar o que tais homens ensinaram, em especial os do segundo século, devido a grande proximidade com o tempo dos apóstolos. Sendo assim, é aceitável concluir que aquilo que disseram representa em grandíssima medida o que os primeiros discípulos de Jesus acreditavam, mas que, por algum motivo, não tiveram a oportunidade de explicar com mais detalhes.

 

Por exemplo, ainda que não seja nenhuma surpresa, pois a Bíblia é muito clara quanto a isso, é esclarecedor constatar que os referidos pais da igreja entendiam Mateus 10:28 exatamente da mesma maneira que a maioria dos cristãos de hoje, demolindo assim a teoria aniquilacionista. De fato, ela sequer existiu naquela época dentre as heresias “cristãs” emergentes! Por isso não há apologias contra tal conceito materialista, embora ele não fosse novidade e ocasionalmente era mencionado, em referência aos epicureus. O primeiro registro que há sobre isso no seio da comunidade cristã é do século IV, a respeito de alguns cristãos árabes que se viram propensos a acreditar no materialismo, porém depois que Orígenes foi enviado para ajudá-los eles abandonaram imediatamente essa ideia, devido às explicações que ouviram.

 

Por fim, ainda há uma quarta classificação chamada de “pais teólogos científicos”, que se refere aos escritores após o Concílio de Niceia (325 d.C.). Eles são de um período até então inédito para os cristãos, o da liberdade religiosa. Visto que não havia mais perseguições, eles inauguraram a última fase do Cristianismo antigo, que se caracterizou por uma intensa produção literária e foi responsável pelas principais sistematizações teológicas da Igreja Católica. Visto que a coletânea da seção 2 se concentra apenas nos autores do segundo século, nenhum teólogo científico está citado lá. Decidiu-se também por não incluir Clemente de Alexandria na lista, embora ele normalmente figure entre os pais da igreja do segundo século. A razão é porque a data estimada de sua morte é o ano 217 d.C. e considerou-se que esses 17 anos dentro do século III é um tempo significativo, o que faria Clemente pertencer aos dois séculos.

 

a) Pais apostólicos

 

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1) Autor da Didaqué (c. 98 d.C.)

 

A Didaqué, também conhecida por “Instrução dos Doze Apóstolos”, ou “Doutrina dos Doze Apóstolos”, é uma das obras mais antigas da literatura cristã fora do Novo Testamento. Estima-se que ela foi escrita entre os anos 90 e 100 d.C., com alguns acréscimos feitos até o ano 150. Era destinada especialmente aos pagãos recém convertidos. É considerada o primeiro catecismo cristão, estando dividida em basicamente três partes:

 

1) “Os Dois Caminhos”: o caminho da vida e o caminho da morte

 

2) O ritual do batismo, o jejum e a sagrada comunhão (Eucaristia)

 

3) O ministério e o ensino doutrinário.

 

Não obstante o nome pelo qual ficou conhecida, ela não foi escrita pelos apóstolos, mas por um cristão (ou cristãos) que provavelmente ouviu de alguns deles a maior parte dos preceitos apresentados nesse catecismo.

 

Porções da Didaqué foram inseridas ou aproveitadas em outros manuscritos antigos, a exemplo dos “Dois Caminhos”, assunto que aparece em Barnabé, Hermas, Irineu, Clemente de Alexandria e Orígenes. Houve também um aproveitamento similar em duas obras antigas atribuídas à ordenança apostólica: a Didascalia Apostolorum e as Constituições Apostólicas. Há também quem veja traços da Didaqué nos escritos de Justino, Taciano, Teófilo de Antioquia, Cipriano e Lactâncio.

 

2) Clemente de Roma (30-100 d.C.)

 

Ao que tudo indica Clemente era romano e gentio, tendo ministrado a Paulo e outros na cidade de Filipos, por volta do ano 57 d.C. Conhecia a língua grega e citava a Septuaginta, embora suas citações às vezes difiram das que estão no Textus Receptus. Ele não assinou a carta e nem disse a quem foi dirigida. Mas os estudiosos acreditam que foi uma escrita oficial da igreja de Roma para a igreja de Corinto. E sabe-se que seu autor foi mesmo Clemente porque os antigos registros catalográficos da Igreja do Oriente dão essa informação. Além disso, Eusébio de Cesareia também afirma em sua “História Eclesiástica” que o autor da carta era amigo do apóstolo Paulo. Devido a essa amizade Clemente é mencionado nominalmente em uma das cartas de Paulo:

 

“Sim, e peço a você, leal companheiro de jugo, que as ajude; pois lutaram ao meu lado na causa do evangelho, com Clemente e meus demais cooperadores. Os seus nomes estão no livro da vida”. – Filipenses 4:3.

 

O mais provável é que Clemente tenha escrito a sua carta após os martírios de Pedro e Paulo, quando já estava em Roma, tendo assumido então o “posto” natural de representante dos apóstolos.* Essa nova função de Clemente foi adequada porque os irmãos procuravam receber conselhos e encorajamento, devido às muitas perseguições e assassinatos promovidos pelo império romano. Considera-se que esse cenário é o que proporcionou as diversas congregações espalhadas voltarem sua atenção para Roma, embora o apóstolo João ainda estivesse vivo, porém exilado no Oriente. Era mais fácil recorrer aos sucessores dos apóstolos que estavam em Roma do que ao próprio João, o discípulo amado do Senhor. Mas Clemente não se vangloriou dessa responsabilidade, pois o estilo de sua carta é bastante humilde e com referências aos escritos apostólicos.

 

* Clemente é considerado pela Igreja como sendo o quarto bispo de Roma, cargo que depois passou a ser chamado de “Papa”. Já Eusébio de Cesareia diz que ele foi o terceiro (História Eclesiástica, Livro III, 4:10). E se outros escritores antigos forem consultados, Clemente figura como quarto ou até quinto nessa linha sucessória do papado. Ou seja, não há um consenso quanto a isso. A propósito, Clemente é um dos Papas que não foram enterrados na Basílica de São Pedro, conforme revela uma inscrição que se encontra lá, talvez devido às circuntânscias de sua morte (ver mais adiante).

 

Das obras de Clemente, sobreviveu até nós apenas a sua primeira carta. De acordo com os especialistas, a segunda carta que é atribuída a ele foi, na verdade, escrita por outra pessoa daquele tempo. Talvez pelo Papa Sotero, no século II, conforme pensam alguns críticos. Por sua antiguidade, ela até que poderia figurar nas obras patrísticas apresentadas na coletânea da seção 2. Porém optou-se por deixá-la de fora. Mas pode-se destacar dela o seguinte trecho:

 

“Depois de mortos os cordeiros não têm motivo algum para temer os lobos. E sendo assim, não temam aqueles que matam e nada mais podem fazer contra vocês. Temam antes aquele que, depois que vocês estiverem mortos, tem o poder tanto sobre a alma quanto sobre o corpo, para lançá-los no fogo do inferno”. – Segunda Carta de Clemente (pseudo), cap. 5.

 

Trecho que é uma clara alusão às conhecidas palavras de Jesus:

 

“Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno [Geena]”. – Mateus 10:28, colchetes acrescentados.

 

Com respeito à data da primeira carta de Clemente, há duas possibilidades: ano 68 d.C. ou ano 97 d.C. A dúvida repousa no fato de não se saber ao certo se a perseguição a que ele faz referência é a que aconteceu sob o imperador Nero, ou a que ocorreu depois a mando de Domiciano. Talvez por uma questão de conservadorismo, os comentaristas têm preferência pela data mais tardia.

 

Por fim, existe uma tradição católica que apresenta algumas informações a respeito de Clemente, em especial as relacionadas ao seu martírio sob o governo de Trajano, que estão relatadas no livro “Legenda Áurea”, de Jacopo de Varazze, um religioso dominicano do século 13. Segundo essa obra, Clemente foi exilado em um campo de trabalhos forçados e lá pregou durante três anos, fazendo muitos discípulos. Nesse ínterim, abdicou do cargo de bispo em favor de Evaristo, pois achava que a igreja em Roma não podia ficar sem uma liderança. Trajano, quando soube do ministério de Clemente e que os conversos no campo estavam dispostos a darem a própria vida pelo Cristo, mandou jogar Clemente ao mar com uma âncora amarrada no pescoço e assim ele teria sofrido o seu martírio.

 

Ainda que não se saiba até que ponto essas informações são verídicas, pois o objetivo de Varazze era apenas inspirar os leitores com diversos exemplos de vida e martírio dos santos, por ele ter sido um historiador sério, muito provavelmente ele se valeu de algumas referências históricas para compor sua narrativa, algumas das quais podem não estar mais disponíveis atualmente. Sua obra poderia então ser classificada como ficção baseada em fatos reais. A menção de personagens e acontecimentos conhecidos por fontes certificadas é uma evidência disso. Por exemplo, em 199 d.C. Tertuliano relatou que Clemente tinha sido ordenado bispo pelo apóstolo Pedro. E Júlio Africano (160-240 d.C.) fixou a data da morte de Clemente no segundo ano do imperador Trajano. Além do mais, de uma maneira geral, a história relatada sobre Clemente está bem consoante ao sofrimento a que os cristãos estavam expostos durante o século II.

 

O enredo convincente da Legenda Áurea parece ter sido um dos motivos de seu grande sucesso na Idade Média, e durante um tempo foi tão popular quanto a Bíblia. De qualquer modo, devido ao estilo predominantemente “romântico” e ficcional, não faltaram críticas condenando a historicidade da obra. De maneira que outro sacerdote católico, numa tentativa de sanar esse problema, se aventurou em escrever um trabalho semelhante, porém sem sucesso. Sobre isso, em referência a Varazze, diz a Enciclopédia Católica: “Bernardo Guidonis (1331), também dominicano, fez uma vã tentativa de suplantá-lo por um trabalho mais confiável de mesmo caráter, que ele intitulou ‘Speculum Sanctorum’.” Por acaso, Bernardo foi o responsável pela Inquisição católica na França. Justamente por isso, Humberto Eco o transformou em um personagem no romance “O Nome da Rosa”, que é ambientado na Itália.

 

Mas voltando a Clemente, sua morte por afogamento na versão de Varazze é um tanto emblemática, pois ele já tinha tido experiências tristes relacionadas ao mar. De acordo com o relato, quando jovem ele perdeu a mãe e os irmãos em um naufrágio, quando eles se dirigiam para Atenas. Seu pai zarpou para saber do paradeiro de sua mulher e dos demais filhos, mas também não voltou e Clemente passou 20 anos sem notícias de sua família, período que dedicou ao estudo da filosofia. Na verdade, segundo esses relatos, todos escaparam do naufrágio e ficaram apenas separados durante anos. Até que, em uma combinação incrível de acontecimentos, eles se reencontraram com a ajuda do próprio apóstolo Pedro, que foi um dos mestres de Clemente juntamente com Barnabé. Curiosamente, o registro de Varazze sobre a conversão de Clemente ao Cristianismo teve como ponto de partida justamente as dúvidas que ele tinha a respeito da imortalidade da alma:

 

“Durante vinte anos, Clemente ficou privado de pai, mãe e irmãos, e sem ter qualquer informação sobre eles. Dedicou-se ao estudo das letras e tornou-se um grande filósofo. Desejava especialmente saber como poderia provar a imortalidade da alma. Para isso freqüentava as escolas dos filósofos, e quando encontrava uma prova de que era imortal ficava alegre, mas quando concluía que era mortal retirava-se triste. Enfim Barnabé chegou a Roma para pregar a fé em Cristo... [As] palavras [de Barnabé] marcaram muito o coração do filósofo Clemente que, instruído por Barnabé, recebeu a fé em Cristo e, algum tempo depois, foi para a Judéia encontrar Pedro. Este lhe explicou a fé em Cristo e mostrou com argumentos evidentes a imortalidade da alma”. – Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze, 2003, Companhia das Letras, pp. 949, 950, livro originalmente compilado entre os anos de 1252 e 1265, tradução da versão em latim por Hilário Franco Júnior, colchetes acrescentados.

 

O livro também relata que foi na iminência de seu martírio em Roma que Pedro fez de Clemente um bispo, porém depois da morte do apóstolo, ele abdicou do cargo em favor de Lino e depois de Cleto. Só depois disso é que Clemente assumiu a função de bispo de Roma, que viria a abdicar novamente devido à sua prisão e exílio.

 

3) Inácio de Antioquia (c. 30-107 d.C.)

 

Inácio, também chamado Teóforo, e Policarpo de Esmirna eram amigos e quando jovens foram discípulos do apóstolo João. Inácio escreveu várias cartas, inclusive uma para seu companheiro de discipulado. Um comentário apresentado por Philip Schaff sobre as cartas de Inácio destaca os seguintes pontos encontrados nelas:

 

1. Encontre tempo para orar sem cessar.

 

2. Toda ferida não é curada com o mesmo remédio.

 

3. Os tempos buscam você, tal como os timoneiros buscam o refúgio.

 

4. A coroa da imortalidade.

 

5. Fique como uma bigorna batida.

 

6. É a parte de um bom atleta ser machucado e prevalecer.

 

7. Considere os tempos: procure Aquele que está acima do tempo.

 

8. Não despreze os servos e as servas.

 

9. Deixe sua mordomia definir o seu trabalho.

 

10. Um cristão não é seu próprio mestre, mas espera em Deus.

 

Inácio foi o primeiro escritor patrístico a usar a denominação “Igreja Católica” para se referir às igrejas cristãs, quando escreveu para os cristãos de Esmirna.

 

Mais da metade das obras atribuídas a Inácio são consideradas espúrias e foram escritas por outras pessoas, em séculos posteriores. São muitas as evidências que corroboram esse fato. De modo que as cartas se dividem nessas duas categorias:

 

a) Autênticas – (1) Aos Efésios, (2) Aos Magnésios, (3) Aos Tralianos, (4) Aos Romanos, (5) Aos Filadelfianos, (6) Aos Esmirneanos, (7) À Policarpo. E o Martírio de Inácio também é uma obra considerada legítima.

 

b) Espúrias – (1) Aos Tarcianos, (2) Aos Antioquianos, (3) Ao Herói (um diácono de Antioquia), (4) Aos Filipenses, (5) Epístola de Maria, a prosélita, a Inácio, (6) Epístola a Maria em Neápolis, (7) Primeira Epístola de São João, (8) Segunda Epístola de São João, (9) Epístola de Inácio à Virgem Maria e a resposta da Virgem Abençoada.

 

As cartas autênticas são as que foram reconhecidas por Eusébio de Cesareia em sua “História Eclesiástica” e estão todas escritas em grego. Já as espúrias algumas delas estão em latim, embora a maioria esteja também em grego. Na coletânea da seção 3 não foram citadas passagens das cartas espúrias.

 

E ainda há outro detalhe que diz respeito apenas às cartas autênticas: existem duas recensões, uma curta e outra um pouco mais longa. Os especialistas, a exemplo de Usher e Cotelerius, chegaram à conclusão que a versão curta representa mais genuinamente a obra de Inácio. O único erudito que se postou a favor da recensão longa foi William Whiston, alegando que ela possui valor superior, isto porque ela apresenta fraseologias que favorecem o Arianismo, conceito ao qual Whiston aderiu, mas que fora considerado uma heresia no século IV. Sobre isso, note um trecho do capítulo 1 da carta de Inácio aos Efésios de acordo com cada uma das duas edições:

 

“Sendo os seguidores de Deus, e achegando-se pelo sangue de Deus, vocês cumpriram perfeitamente a obra que estava sendo feita para vocês”. – Versão curta.

 

“Sendo os seguidores do amor de Deus para com o homem, e achegando-se pelo sangue de Cristo, vocês cumpriram perfeitamente a obra que estava sendo feita para vocês”. – Versão longa.

 

Adicionalmente, em meados do século 19, foram descobertas as versões em siríaco de algumas cartas de Inácio, o que veio a fomentar a discussão sobre se esse terceiro grupo de manuscritos estaria mais próximo dos textos originais (lembre-se que nem mesmo as cartas do Novo Testamento são originais, mas cópias de séculos posteriores). Quando a versão siríaca foi publicada sob incentivo do Museu Britânico, alegou-se que ela seria mais fidedigna. No entanto, a tendência geral foi continuar favorecendo a versão curta. O que deve ter sido uma decisão acertada, pois a versão siríaca parece conter erros de tradução em relação ao texto original em grego. Além do mais, somente três cartas foram publicadas (a Policarpo, aos Efésios e aos Romanos). Veja a seguir o mesmo trecho supracitado de acordo com o texto siríaco:

 

“Por direito e justa vontade, e também pela fé e amor de Jesus Cristo, nosso Salvador, vocês são imitadores de Deus, e são fervorosos no sangue de Deus, e rapidamente concluíram uma obra que é agradável para vocês”. – Epístola aos Efésios, Inácio de Antioquia.

 

As citações apresentadas na seção 2 são da versão curta, pois ela é a utilizada pelo New Advent, o site de onde foram tiradas as passagens citadas.

 

Considerando esse cenário controverso das versões inacianas, onde não se tem certeza qual delas representa melhor o que escreveu esse pai da igreja, o referido comentário na obra de Schaff resume o fim de Inácio de Antioquia da seguinte maneira:

 

“Supondo que as cartas de Inácio e o relato do seu martírio sejam autênticos, aprendemos deles que Inácio se apresentou voluntariamente para Trajano em Antioquia, sede de seu bispado, quando esse príncipe estava em sua primeira expedição contra os partos e os armênios (107 d.C.). E, por se professar um cristão, foi condenado aos animais selvagens. Depois de uma longa e perigosa viagem, chegou a Esmirna, na qual Policarpo era bispo, e daí escreveu suas quatro epístolas aos efésios, aos magnésios, aos tralianos e aos romanos. De Esmirna, chegou a Trôade e ficou alguns dias ali, onde escreveu aos Filadelfianos, aos Esmirnianos e a Policarpo. Ele então veio para Neápolis, e passou por toda a Macedônia. Encontrando um navio em Dirráquio [capital] de Epirus, navegou para a Itália, cruzando o Adriático, e foi trazido a Roma, onde pereceu no dia 20 de dezembro 107, ou, como alguns pensam, os que negam uma expedição dupla de Trajano contra os partos, no mesmo dia do ano 116”. – Ante-Nicene Fathers, The Apostolic Fathers, Justin Martyr, Irenaeus (1885), Vol. I, de Philip Schaff (editor), introdução de Alexander Roberts, James Donaldson e A. Cleveland Coxe, pp. 132-137, colchetes acrescentados.

 

4) Barnabé (c. 130 d.C.)

 

Barnabé é o autor de uma carta que foi muito considerada pelos antigos cristãos. Na verdade, ela é anônima e não se sabe quem a escreveu. O motivo de hoje o seu autor ser chamado de Barnabé é porque houve um tempo em que acharam que ele fosse o Barnabé mencionado no Novo Testamento, amigo do apóstolo Paulo. (Gal. 2:1; 1 Cor. 9:6; Col. 4:10). Dentre os que pensavam isso estavam Clemente de Alexandria e Orígenes. Já Eusébio afirmou que era uma carta espúria. O que veio a ser confirmado pela crítica posterior, que é unânime em dizer que se trata de outra pessoa. Segundo dizem, um judeu de Alexandria na época dos imperadores Trajano e Adriano, entre os anos 98 e 138 d.C. De modo que a carta data de algum ano desse intervalo. Hilgenfeld propôs que ela pode ter sido escrita ainda no final do primeiro século. Isso é possível, pois ela faz alusão à destruição de Jerusalém, em 70 d.C.

 

Um dos motivos de terem atribuído a autoria da carta ao personagem bíblico é porque ela guarda semelhanças com a carta aos hebreus, cuja autoria alguns concluíram ser de Barnabé, e não de Paulo. De fato, atribui-se a autoria de Hebreus ao apóstolo Paulo apenas por tradição, pois a mesma não foi assinada e o autor preferiu o anonimato.

 

A carta de Barnabé está repleta de alegorias, recurso que também foi utilizado por Paulo em suas cartas, embora de maneira mais limitada (Gal. 4:24; 2 Cor. 12:16). Ela também mistura o cenário judaico com o gentio, como se o autor ora se apresentasse como judeu, ora como gentio. Esse estilo também é visto em Paulo, conforme revela a comparação dos capítulos 4 e 11 de Romanos. Essa intercambialidade era natural porque a igreja primitiva era mista, composta por pessoas das nações e israelitas. E o missivista tinha que se adaptar aos dois tipos de destinatários.

 

Conforme observou o comentário de Roberts & Donaldson, até a descoberta do Códice Sinaítico por Tischendorf, os primeiros quatro capítulos e meio da carta de Barnabé só eram conhecidos em sua versão latina. Tal achado tornou possível analisar a carta inteira em grego. De pronto foram constatadas muitas variantes entre as duas versões, denunciando assim corrupções no texto. A edição adotada na obra coordenada por Schaff é a de Hilgenfeld, sendo ela a que está reproduzida no site New Advent, de onde foram tiradas as citações apresentadas na seção 2.

 

5) Matetes (c. 130 d.C.)

 

A carta de Matetes a Diogneto é considerada um dos documentos cristãos mais antigos que existem fora do Novo Testamento e provavelmente a primeira apologia cristã que se tem notícia. Neste caso, ela teria sido escrita no início do segundo século. Visto que o autor não se identificou e disse apenas que era um “discípulo dos apóstolos”, costumeiramente ele é chamado de Matetes, que é “discípulo” em grego. Quando a carta foi descoberta ela estava erroneamente catalogada como uma obra de Justino. Escrita em um grego elegante e refinado, considera-se que o autor devia ser alguém que dominava mais o idioma da Grécia.

 

Algumas conjecturas foram feitas na tentativa de identificar quem foi esse escritor. Clemente de Roma, Policarpo de Esmirna, Melito de Sardes e Inácio de Antioquia são alguns dos candidatos que já foram apresentados. Entretanto, o nome realmente promissor é Quadrato de Atenas por uma série bem conectada de argumentos, que foram apresentados na década de 40 por Paul Andriessen. Ser Quadrato o autor da epístola a Diogneto explicaria o motivo do grego que se vê nela ser superior ao comumente visto nos escritos cristãos mais antigos. Além disso, de acordo com Eusébio de Cesareia, Quadrato foi um dos primeiros apologistas cristãos, no início do século II, perfil também atribuído ao escritor da carta a Diogneto. E as coincidências não param por aí.

 

Eusébio também relata que Quadrato escreveu uma carta apologética para Adriano, o imperador de Roma. Essa carta foi considerada perdida até o dia que se aventou a possibilidade dela ser a carta de Matetes a Diogneto, pois antes de tornar-se imperador Adriano foi arconte de Atenas, a autoridade máxima da cidade. Não é por acaso, então, que “diogneto” era também um título honorífico dos príncipes e autoridades locais, inclusive os arcontes, que eram também enaltecidos por sua grande cultura. E visto que Matetes exalta bastante as qualidades ímpares do seu destinatário nota-se que ele devia ser uma pessoa de nobre estirpe e poder. Certa vez, o imperador Marco Aurélio também se referiu a Adriano pelo título “Diogneto”. De modo que as evidências confluem para que Matetes tenha sido realmente o apologista Quadrato. De acordo com Eusébio, Aristides de Atenas também escreveu uma carta para Adriano, porém sua apologia não se perdeu e está atualmente disponível. – História da Igreja, Eusébio de Cesareia, cap. 3; Padres Apologistas (2014), Ed. Paulus, pp. 9, 10.

 

E ainda há outra característica da epístola a Diogneto que reforça a conclusão que ela é mesmo a apologia perdida de Quadrato. A carta possui duas interrupções abruptas no encadeamento dos argumentos apresentados. A primeira está depois do capítulo 5 e a outra depois do capítulo 10. De início considerou-se que isso poderia ser evidência de acréscimos posteriores, as chamadas interpolações. No entanto, o mais provável é que o manuscrito está incompleto, e outra informação dada por Eusébio reforça tal possibilidade. Por sorte, Eusébio citou um breve trecho da apologia de Quadrato, e quando Andriessen o comparou com a carta de Matetes constatou que os estilos são semelhantes e o fragmento de Quadrato se encaixa perfeitamente em uma das lacunas existentes na carta a Diogneto, pois está dentro do assunto tratado por Matetes.

 

Visto que Adriano foi arconte no ano 112 e tornou-se imperador em 117, reinando até 138 d.C., sendo Quadrato o autor da carta a Diogneto, descobre-se então a época de sua escrita. Como se nota, uma data muito próxima da era apostólica, especialmente se a carta foi escrita enquanto Adriano era somente o governante de Atenas. Deste modo, o que Matetes diz em determinado momento de sua apologia não seria nenhum exagero da parte dele:

 

“Eu não falo de coisas estranhas para mim, nem atinjo algo inconsistente sem a razão certa; mas tendo sido discípulo dos apóstolos, eu me tornei um mestre dos gentios”. – Carta de Matetes a Diogneto, cap. 11.

 

Embora os eruditos sejam relutantes em concluir que ele foi realmente um discípulo direto dos apóstolos, na verdade não existe razão nenhuma para achar que Matetes estava mentindo ou supervalorizando sua ascendência discipular. De qualquer maneira, mesmo que ele não tenha sido um catecúmeno dos apóstolos, devido à época em que viveu provavelmente ele foi instruído por pessoas que conheceram os apóstolos pessoalmente. Coincidentemente, Quadrato diz no referido fragmento preservado que pessoas que vivenciaram as experiências da época apostólica ainda estavam vivas na época dele.

 

Por fim, Eusébio também diz que muitos irmãos de sua época possuíam cópias da carta de Quadrato a Adriano. Seria, portanto, muito estranho que todas essas cópias não continuassem sendo recopiadas para que ao menos algumas delas sobrevivessem até o dia de hoje. No caso da carta de Matetes eram três o número de cópias que estavam disponíveis desde que ela foi redescoberta no século 16, porém uma delas foi destruída em um incêndio no acervo onde estava.

 

Se quiser saber mais detalhes sobre o conteúdo desse documento cristão único que é a carta a Diogneto, leia o capítulo 21 do meu livro “Sobre o Aniquilacionismo e a Imortalidade da Alma”, páginas 249 a 273.

 

6) Pápias de Hierápolis (70 - 155 d.C.)

 

Pápias é outro pai da igreja que desfrutou da associação com o apóstolo João e “outros que viram o Senhor”, sendo instruído por tais pessoas. Também foi amigo de Policarpo. Era bispo da cidade de Hierápolis, na Frígia, e possivelmente morreu na mesma época do martírio de seu amigo. Infelizmente, não restou quase nada dos trabalhos que escreveu. Apenas alguns fragmentos de sua obra sobreviveram até nós. Considera-se que seus escritos podem ter sido redigidos entre os anos 115 e 140.

 

Uma característica de Pápias é que ele defendia o conceito milenarista, ou seja, mil anos de paz na Terra sob o governo de Cristo, que a transformaria em um paraíso semelhante ao Éden. Alguns criticam Pápias nesse ponto porque ele exagera as coisas que seriam vistas em tal época, a ponto de dizer que cada uva colhida das videiras produzira mil litros de vinho. A não ser, é claro, que ele tivesse em mente que no reinado milenar haveria milagres incomuns, a exemplo de quando Jesus, sem usar uva nenhuma, produziu cântaros dessa bebida só a partir de água potável. De qualquer modo, é importante lembrar que Pápias disse que tal suposto exagero foram palavras do próprio Jesus, nas quais Judas Iscariotes não acreditou, por achar que era algo extraordinário demais. Ao perguntar como uma videira produziria dessa maneira, Judas teria ouvido a seguinte resposta do Senhor: “Os que estiverem lá saberão”.

 

Segundo antigos testemunhos, Pápias teria escrito um trabalho em cinco volumes com uma coletânea dos dizeres de Jesus Cristo, no qual apresentava adicionalmente algumas informações históricas. Eusébio se refere a Pápias como sendo um homem muito culto e bastante familiarizado com as Escrituras Sagradas. Dois de seus fragmentos citados na seção 2 são versões da tradução feita do texto em latim disponível no Reliquiae Sacrae, vol. I, de Martin Joseph Routh, por estar mais bem preservado que a versão grega.

 

Por fim, de acordo com as mesmas fontes primitivas, Pápias também foi martirizado na metade do segundo século, provavelmente em Roma ou Pérgamo.

 

7) Policarpo (65-155 d.C.)

 

Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia eram amigos e foram discípulos do apóstolo João. Policarpo era mais jovem e o que escreveu tem sido apresentado como prefácio das cartas de Inácio. O erudito e cronologista James Usher supôs que Policarpo seja o “anjo de Esmirna” mencionado em Apocalipse, para quem Jesus disse: “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida”. Policarpo foi o mestre de Irineu de Lyon, que disse sobre seu instrutor:

 

“De modo que eu posso até mesmo descrever o lugar onde o bendito Policarpo se sentava e discursava - sua saída também, e sua vinda em seu modo geral de vida e aparência pessoal, juntamente com os discursos que ele entregou ao povo; Também como ele falava de sua familiar relação com João, e com o resto dos que tinham visto o Senhor”. – Fragmento 2, Irineu de Lyon.

 

Irineu também conta sobre outros episódios da vida de Policarpo, a exemplo da repreensão ao herege Marcião (Adv. Hær., III, 3:4) e da visita que fez a Roma a fim de discutir com Aniceto, o bispo local (“papa”), a questão sobre em que data a Páscoa cristã deveria ser celebrada (veja mais detalhes aqui). Eusébio de Cesareia também menciona Policarpo em sua obra, dizendo que ele foi instruído diretamente pelos apóstolos, além de atestar a autenticidade da carta que enviou aos filipenses (Euseb., Hist. Ec., IV, 14:1-10), sobre a qual Roberts & Donaldson disseram:

 

“A Epístola aos Filipenses é a mais interessante como denotando o estado daquela igreja amada, a primogênita das igrejas europeias, e tão grandemente querida por São Paulo. Ela abunda em sabedoria prática, e é rica em Escritura e alusões às Escrituras. Ela reflete o espírito de São João, tanto em seu cordeiro como em suas aquilinas características: ele é tão amoroso quanto o discípulo amado quando fala de Cristo e de sua igreja, mas ‘o filho do trovão’ é ecoado em suas repreensões de corrupções ameaçadoras da fé e da moral. Nada pode ser mais claro do que sua visão das doutrinas da graça. Mas ele escreve como o discípulo de São João, embora em perfeita harmonia com o hino de São Paulo, como elogio do amor cristão”. – Ante-Nicene Fathers, The Apostolic Fathers, Justin Martyr, Irenaeus (1885), Vol. I, de Philip Schaff (editor), introdução de Alexander Roberts, James Donaldson e A. Cleveland Coxe, pp. 89, 90.

 

De acordo com o documento sobre seu martírio, Policarpo foi assassinado em um sábado, às 2 h da tarde, do dia 23 de fevereiro, quando Quadrato era procônsul da Ásia. Os anos possíveis para esse acontecimento são 155 e 166. A escolha vai depender de qual dos dois Quadratos que foram procônsules da Ásia o documento se refere. Os dados cronológicos fornecidos pelo retórico Aélio Aristides fizeram Waddington e Lightfoot chegarem à conclusão que o procônsul mencionado é o que atuou em 154-155 d.C. Já um estudo apresentado no Harnack's Chronologie, de posse dos mesmos dados, concluiu que 165-166 é a data provável. Mas esta, em geral, tem sido desconsiderada em favor do ano 155. Talvez porque o registro sobre a morte de Policarpo informa que ele morreu com 86 anos e se a data de sua morte fosse o ano 166, significaria que ele nasceu em 79 d.C., diminuindo assim o tempo de contato que ele teve com os apóstolos e, consequentemente, sua instrução pelo apóstolo João. Tendo nascido em 69 d.C. acrescentam-se 10 anos dentro do cenário apostólico. Além do mais, visto que a vida de Policarpo está bastante conectada à de Inácio, é natural supor que sua trajetória é um pouco mais antiga. – Enciclopédia Católica, sobre Policarpo, versão on line.

 

8) Hermas (c. 160 d.C.)

 

Por volta do ano 160 d.C., no reinado de Antonino Pio, um autor cristão escreveu uma obra que ficou conhecida por “o pastor de Hermas”, ou simplesmente “o Pastor”. A data é inferida do fragmento Muratoriano, bem como a informação de que Hermas pode ter sido irmão do bispo de Roma, o “papa” Pio. Alguns também consideram que sua escrita aconteceu num período anterior, durante o governo do imperador Adriano (117-138 d.C.).

 

Embora o livro tenha aspectos que muitos hoje estranhariam, quando o cânon do Novo Testamento estava sendo decidido pela igreja, considerou-se a possibilidade de incluir “o pastor de Hermas”. Porém a ideia não prosperou. Naquele tempo não foi sem debate que algumas obras entraram na coletânea oficial dos cristãos, como foi o caso da carta de Judas, que cita o livro apócrifo de Enoque, e do próprio livro de Apocalipse, último a ser aceito como inspirado por quase todas as igrejas antigas. Em geral, considera-se que o cânon foi fechado com Atanásio no ano 367 d.C., ainda que alguns teólogos orientais continuassem a questionar Apocalipse nos dois séculos seguintes.

 

O enfoque de Hermas é moral e não teológico. Mostra a conduta santa e casta que deveria ser cultivada pelos cristãos, tomando como ponto de partida a própria experiência do autor, que era um escravo liberto, conforme ele mesmo informa. Dizem que até o terceiro século “o pastor de Hermas” era leitura obrigatória para os recém convertidos. O trabalho é composto por cinco visões, doze mandamentos e dez parábolas (também chamadas de similitudes). Mesmo não sendo uma apologia, uma heresia que ficou conhecida por montanismo é combatida por Hermas em suas ilustrações, porém de maneira pacífica, como era típico nos pais apostólicos.

 

O montanismo era uma manifestação caracterizada por visões supostamente atribuídas ao Espírito Santo, nas quais os participantes entravam em transe de forma confusa e desorganizada. Um dos motivos porque talvez a igreja não o tenha combatido de maneira enérgica é porque ainda havia relatos de eventos carismáticos aparentemente genuínos, os quais foram relatados depois pelo historiador eclesiástico Eusébio de Cesareia. O conselho dado por João no final do primeiro século, de que ‘os espíritos deviam ser experimentados’ para saber se vinham de Deus, também deixava essa questão em aberto (1 João 4:1). No entanto, com o tempo chegou-se à conclusão que o montanismo era algum tipo de fenômeno demoníaco, que não diferia muito dos oráculos pagãos visto no mundo greco-romano. Segundo consta, alguns montanistas tocavam até harpas para tornar o ambiente propício para suas visões.

 

Existe também uma teoria que Hermas e Pio eram netos do Hermas mencionado no Novo Testamento, amigo do apóstolo Paulo (Romanos 16:14). Por isso, durante um tempo, considerou-se que esse personagem bíblico fosse o verdadeiro autor de “o pastor”. Orígenes era um dos que acreditavam nisso. De modo que os dois irmãos poderiam fazer parte de uma família que estaria apta a combater o montanismo, por ter recebido diretamente dos apóstolos as informações que determinariam o que podia ser encarado como uma genuína ação do Espírito de Deus, cuja manifestação milagrosa ocorreu pela primeira vez na festividade de Pentecostes.

 

Em tal contexto, foi somente natural que uma obra assim tão benquista entre os antigos tenha competido com outros livros para entrar no cânon cristão. Além de Orígenes, Irineu de Lyon e Clemente de Alexandria consideravam o “pastor de Hermas” um livro inspirado. Eusébio de Cesareia relata que em seu tempo houve um forte debate sobre isso, e a suposta inspiração de Hermas dividia as opiniões, embora no século II provavelmente quase todos concordariam que tal livro era mesmo inspirado, pois fazia parte da liturgia diária das igrejas, especialmente as de língua grega. O que é curioso, uma vez que a obra é produção de um romano. Isto se explica parcialmente pelo fato de que o montanismo se disseminou mais nas igrejas da Ásia Menor, onde a língua grega estava mais presente. O único nome de peso que se opôs à obra, classificando-a de apócrifa, foi Tertuliano.

 

Uma última opinião que há sobre o “pastor de Hermas” é que se trata de uma obra de ficção, uma espécie de “romance cristão” para ensinar princípios fundamentais. Neste caso, nem Hermas ou qualquer dos personagens mencionados teriam realmente existido. Levando-se em consideração a repercussão desse livro na Antiguidade, está bastante óbvio que naquele tempo pouca gente acharia isso, e essa tese combina mais com os tempos de hoje, cujo espírito crítico muitas vezes beira à própria falta de fé em eventos sobrenaturais ou que Deus pode inspirar escritores.

 

Por fim, um ponto positivo, no que tange ao criticismo acadêmico, é que o “pastor de Hermas” está disponível em diversos manuscritos, sem que haja diferença significativa entres eles, havendo desde a versão grega do Códice Sinaítico de Tischendorf até várias outras em latim, além de uma etíope. Isto por si só é um reflexo de quão importante esse livro foi no passado, resultando na sobrevivência de muitas cópias até os dias de hoje. A versão apresentada no site New Advent, que está indicada nas citações da seção 2, é a tradução de Hilgenfeld, que foi baseada no códice sinaítico, embora uma tradução publicada em português também tenha sido utilizada nos trechos citados.

 

b) Pais apologistas e outros

 

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1) Aristides de Atenas (? - c. 140 d.C.)

 

Aristides foi um filósofo ateniense que se converteu ao Cristianismo no início do segundo século, e devido à sua antiguidade ele poderia estar classificado como sendo um pai apostólico. Tanto ele quanto Quadrato enviaram uma apologia para o imperador de Roma, numa época em que os cristãos viram que era necessário esclarecer autoridades e governantes sobre o Cristianismo, a fim de diminuir as perseguições e difamações que eram então comuns.

 

Conforme já visto, a apologia de Quadrato foi dada como perdida, porém existe uma alta probabilidade dela ser a carta de Matetes a Diogneto. A apologia de Aristides também foi considerada desaparecida até o século 19, quando um fragmento armênio foi encontrado. Em seguida um texto completo em siríaco foi localizado na Biblioteca de Santa Catarina, ao sopé do monte Sinai. Além disso, uma versão resumida tinha sido preservada por João Damasceno na Índia e poucos sabiam disso. De modo que a carta de Aristides não tinha se perdido realmente. De acordo com Jerônimo, ela foi o que inspirou Justino a escrever suas apologias.

 

Ao contrário de Quadrato, se ele for mesmo Matetes, Aristides assinou a carta e fez questão de se identificar para o imperador como sendo um “filósofo de Atenas”. Talvez achasse que por usar tais credenciais chamaria a atenção do governante. Embora se saiba que filósofos cristãos depois de convertidos passassem a repudiar a maior parte da filosofia, não há nada de condenável nessa atitude de Aristides. Lembra até quando o apóstolo Paulo se identificou como sendo “fariseu, filho de fariseus”, provavelmente com o intuito de demonstrar à sua assistência que entendia muito bem do que estava falando, e também de tentar se sair da situação perigosa na qual estava envolvido. – Atos 23:6-10.

 

Existe uma dúvida sobre qual imperador recebeu a carta de Aristides, se Adriano ou seu sucessor Antonino Pio, pois o destinatário é chamado na versão siríaca de “Caesar Titus Hadrianus Antoninus”. Normalmente considera-se que foi Adriano durante sua estada na Grécia, entre 123 e 127 d.C., pois Eusébio o identifica especificamente, ao se referir às apologias de Quadrato e Aristides. No entanto, isso pode ter acontecido mais tarde, no ano 138 d.C., pois em seu último ano de governo Adriano nomeou Antonino Pio seu corregente, de modo que por algum tempo havia dois imperadores. O que talvez explique os dois nomes no destinatário da carta. – Enciclopédia Católica, verbete “Publius Ælius Hadrian”, versão on line.

 

Há comentaristas que também consideram a data mais tardia, porém por outro motivo. Acham que Eusébio pode ter se enganado quanto à identificação do imperador, quando deu a entender que Aristides enviou sua carta no mesmo momento que Quadrato enviou a dele (Euseb., Hist. Ecl. IV, 3:3). Mas se não foi assim significaria que as cartas foram endereçadas em anos mais distantes um do outro e para pessoas diferentes. Tal conclusão parece lógica. Por que dois apologistas enviariam duas cartas quase simultaneamente para o mesmo imperador? Além disso, se for considerado que Quadrato é o mesmo Matetes, há um nítido contraste entre os estilos das duas cartas, que parecem evidenciar os dois momentos distintos de envio. Quadrato não se identificou e chamou a si mesmo apenas de “discípulo” da nova religião, e também não destacou nada de sua formação intelectual. Se sua carta não surtiu o efeito esperado, o que parece que foi o caso, pois as perseguições continuaram, seria então apropriado que outro apologista tomasse a mesma iniciativa depois, desta feita assinando a carta e mostrando que não era uma pessoa qualquer. Por fim, se a apologia de Aristides realmente foi o que motivou Justino a escrever suas próprias apologias, isto pode ser uma evidência adicional de que Aristides escreveu sua carta em um ano mais próximo de Justino.

 

E com respeito ao conteúdo da carta, um detalhe é que a versão em siríaco possui traços característicos desse idioma, que é um dialeto aramaico. Por exemplo, a palavra Sheol é usada para se referir ao Hades:

 

“Novamente eles dizem que Afrodite é realmente uma deusa, e que às vezes ela habita com seus deuses, mas em outros momentos é vizinha dos homens. E que certa vez foi amante de Ares, e também de Adonis, que é Tamuz. Uma vez também Afrodite estava lamentando e chorando pela morte de Tamuz, e, de acordo com eles, ela desceu ao Seol para redimir Adonis de Perséfone, que é a filha do Seol (Hades). Se então Afrodite é uma deusa e foi incapaz de ajudar seu amante na sua morte, como ela vai achar possível ajudar os outros? E isso não pode ser concebido, que a natureza divina chegue ao ponto de chorar, lamentar e adulterar”. – Apologia de Aristides, cap. 11.

 

2) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

Nascido aproximadamente no ano 110 d.C., em Flávia Neápolis, uma cidade de Samaria, Justino era um gentio com boa formação educacional. Ele próprio relata que depois de adulto buscou em diversas escolas filosóficas a sabedoria que tanto procurava, incluindo as de Sócrates e Platão. Sua caminhada qual filósofo acabou por conduzi-lo a Cristo porque ele continuou insatisfeito com a filosofia, por isso resolveu experimentar o ensino cristão. Convenceu-se que havia encontrado a verdade e se converteu.

 

Reputa-se a Justino o início de uma nova era na história do Evangelho, quando os cristãos passaram a expor a fé de maneira sistemática para os descrentes e perseguidores. Justino inaugurou assim a literatura teológica, na qual atacava a filosofia grega com suas próprias armas e menosprezava as superstições tolas de seus defensores. Com isso, Justino pavimentou o caminho para o próprio martírio, pois, como não poderia deixar de ser, os pagãos se sentiram ofendidos no corpo e na alma.

 

Justino deve ter viajado para diversas regiões a fim de pregar o Cristianismo para as pessoas. Sabe-se que ele esteve em Éfeso e Roma. Tendo iniciado sua trajetória em busca da verdade no reinado de Antonino Pio foi executado no governo de Marco Aurélio, de acordo com Eusébio e outros historiadores. A obra Chronicon Paschale (258 Duc.) possibilita determinar o ano 165 d.C. como a data de seu martírio. E os detalhes sobre os eventos que culminaram em sua sentença podem ser vistos no Martírio de Justino.

 

Não se sabe a data aproximada dos seus escritos, porém considera-se que a primeira exposição elaborada por Justino foi o Diálogo com Trifão, no qual explica porque Jesus é o Cristo que o Antigo Testamento havia predito e quão errado é o comportamento dos judeus em relação ao Cristianismo. Depois ele escreveu a primeira e a segunda apologia. São essas as principais obras de Justino que sobreviveram até nós.

 

Há também outros trabalhos atribuídos a Justino sobre os quais não há muita certeza que são mesmo dele, quais sejam: (1) Discurso aos gregos, (2) Uma Exortação aos Gregos, (3) Sobre o Único Governo de Deus, (4) Sobre a Ressurreição, além de (5) outros fragmentos. Até o século 19 a carta a Diogneto estava dentre esses escritos supostamente de Justino, porém, conforme já visto, hoje se considera que foi um erro de catalogação e tal epístola deve ser a apologia perdida de Quadrato ao imperador Adriano.

 

Ainda há outros manuscritos que foram atribuídos a Justino, porém a crítica é unânime em dizer que não são dele, e que foram escritos após o ano 325 d.C., embora um deles, a obra “Uma Exposição da Verdadeira Fé”, tenha sido considerada por João Calvino e outros genuinamente de Justino.

 

3) Taciano, o Assírio (110-172 d.C.)

 

Taciano nasceu na Mesopotâmia e foi discípulo de Justino. Sempre demonstrou rigor excessivo no que tange ao comportamento cristão, sendo um asceta por natureza. Depois da morte de seu mestre abandonou a ortodoxia e aderiu ao gnosticismo, criando em seguida uma seita ascética chamada encratita. De modo que ele foi rebaixado de pai da igreja para um herege, mas não sem antes escrever o tratado apresentado na seção 2, o qual nem sempre é bem compreendido por leitores modernos. Talvez nem os de sua época entendessem totalmente, devido ao seu estilo um pouco confuso.

 

Taciano passou seus últimos dias em Antioquia e conseguiu um número considerável de discípulos para a sua seita. Morreu por volta do ano 170 d.C. e seus seguidores continuaram a fazer o que ele ensinara, demonstrando um modo de vida austero que visava sublimar as tendências naturais do corpo. O casamento, o consumo de vinho e a ingestão de carne eram proibidos. Por isso a seita era chamada de “encratita”, pois essa palavra significa “autocontrolada”, no sentido de seus adeptos serem “mestres de si mesmos”. Ou seja, com a autodisciplina necessária para cumprir todas essas restrições. Na celebração da Eucaristia os encratitas substituíam o vinho por água.

 

Das informações apresentadas por Jerônimo, sabe-se que Taciano escreveu um grande número de obras, porém, devido ao seu desvio doutrinário perto do final da vida, quase todas desapareceram, já que obviamente as igrejas não demonstrariam interesse em produzir cópias dos manuscritos de alguém que foi considerado um herege. O próprio Eusébio foi um que o censurou bastante. Atualmente, essa postura demonstrada pela igreja primitiva não costuma ser vista com bons olhos por aqueles que estudam Patrologia, visto que resultou na extinção de um valioso material que poderia esclarecer diversos pontos obscuros daquele tempo.

 

A crítica moderna à antiga política de contenção das heresias não se limita apenas ao material escrito que era devidamente destruído ou pouco divulgado. Ela ganha contornos mais sérios quando nos lembra que nem tudo ensinado pelos hereges foi realmente rejeitado pela Igreja, pois determinado preceito acabou ganhando depois um lugar de destaque, ainda que por razões diferentes: o celibato obrigatório para os padres. Em alusão a isso, diz o comentário de Roberts & Donaldson:

 

“Deve haver homens como São Paulo, que vivem no mundo, embora não sejam dele, e deve haver homens como o Batista, de quem o mundo dirá: ‘ele tem um demônio’... Isso deve sugerir, a toda mente reflexiva, uma gratidão mais profunda. Preservar o evangélico encratita, e restringir o ascetismo fanático, foi o espírito do cristianismo primitivo, como se vê na ética de Hermas. Mas a terrível malária do montanismo estava subindo agora como uma névoa dos pântanos e destinada a deixar sua impressão duradoura sobre o cristianismo ocidental; ‘Proibindo o casamento e ordenando a abstenção de carnes.’ Nosso autor, infelizmente, pôs o ovo que Tertuliano fez eclodir, e inventou termos que esse grande autor elevou ao seu mais alto poder, porque ele [Tertuliano] era mais discípulo de Taciano do que dos frígios... Depois de Tertuliano, todo o assunto do casamento se misturou com os sofismas que desde então se aderiram às igrejas latinas, introduzindo os resultados mais corrosivos nos órgãos vitais dos indivíduos e das nações... enquanto Roma não tinha lugar para Wycliffe e Huss, ou Jerônimo de Praga, ela fez uso, glorificou e canonizou muitos fanáticos cujos erros foram muito mais vergonhosos do que aqueles de Taciano e Tertuliano. Na verdade, ela teria utilizado e beatificado esses entusiastas, se eles tivessem surgido na Idade Média, para combinar suas loucuras com a mesma extravagância em perseguir os albigenses, ao mesmo tempo em que engrandeceria a ascendência papal”. – Ante-Nicene Fathers (1885), de Philip Schaff (editor), Vol. II, p. 118, colchetes acrescentados.

 

Tal crítica ao celibato necessário para a vida religiosa e às restrições alimentares autoimpostas faz lembrar a seguinte advertência do apóstolo Paulo, ele mesmo um celibatário por decisão pessoal:

 

“Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; Proibindo o casamento, e ordenando a abstinência dos alimentos que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças; Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças”. – 1 Timóteo 4:1-4.

 

Por fim, embora o Diatessarão, também conhecido por “Harmonia dos Quatro Evangelhos”, e alguns fragmentos sejam atribuídos a Taciano, a única obra seguramente dele disponível atualmente é o “Discurso aos Gregos”, escrito quando era discípulo de Justino em Roma. Conforme mencionado antes, as demais foram sumariamente banidas da comunidade cristã, talvez por apresentarem aspectos gnósticos que negavam a encarnação de Cristo e sua humanidade genuína.

 

4) Dionísio de Corinto (c. 170 d.C.)

 

Dionísio foi bispo da cidade de Corinto aproximadamente no ano 170. Eusébio de Cesareia informa que ele escreveu “sete cartas católicas às igrejas”, sendo elas:

 

1) Aos lacônios, onde ensinava a ortodoxia, além de recomendar a paz e a união.

 

2) Para os atenienses, a fim de despertar-lhes a fé e exortá-los a viver de acordo com o Evangelho, visto que não estavam longe da apostasia, além de lembrar-lhes o martírio recente de seu bispo, Públio, sob a perseguição de Marco Aurélio. Também mencionou que Dionísio, o Areopagita, foi o primeiro Bispo de Atenas.

 

3) Aos nicomedianos, combatendo a heresia do marcionismo.

 

4) Uma carta a Gortina e outros da diocese de Creta, onde elogiou o bispo Filipe por sua aversão à heresia.

 

5) À igreja de Amastris, no Ponto, onde recordou o exemplo de Baquilides e Elpisto. Nessa carta ele disse que o bispo de Amastris era Palma. Nela também discorreu sobre o casamento e a castidade, e recomendou um tratamento amoroso aos que caíram em pecado ou na heresia.

 

6) Escrevendo aos cnossenses, recomendou ao bispo deles, Pinito, que não colocasse muito pesadamente o jugo da castidade sobre os irmãos, mas que considerasse a fraqueza da maioria. O bispo de Cnossos respondeu a Dionísio em uma carta. Depois de uma introdução educada, disse que esperava que da próxima vez Dionísio mandasse carne forte para que o rebanho de sua igreja não crescesse somente no leite de bebês. Pinito era um bispo considerado severo. Foi mencionado por Eusébio como sendo um escritor eclesiástico, a quem elogiou pelo tom de sua carta.

 

7) Por último, a carta aos romanos. Esta foi a única que sobreviveu parcialmente na forma de alguns fragmentos. Nessa epístola Dionísio faz referência às ações beneficentes do bispo de Roma, o “papa”, para os irmãos da cidade de Corinto.

 

“Por isso, desde o princípio, o vosso costume é fazer o bem a todos os irmãos de muitas maneiras e enviando donativos a muitas igrejas de diferentes cidades, aliviando agora a miséria daqueles que pediram ajuda, auxiliando agora os irmãos nas minas pelas ajudas que vocês enviam. Os romanos seguindo o costume tradicional dos romanos, que seu bispo abençoado, Sotero, não só manteve, mas aumentou ainda mais, oferecendo aos irmãos a abundância que ele forneceu e confortando com palavras abençoadas a irmãos que vieram a ele, como se fosse um pai [falando] a seus filhos. . . . Hoje temos mantido o santo dia do Senhor, no qual lemos a sua carta [de Sotero], a qual sempre teremos para ler e sermos advertidos, como também a [carta] anterior escrita para nós por Clemente. . . . Vocês também, devido a esta instrução, misturaram os romanos com os coríntios, que são o plantio de Pedro e Paulo, porque ambos vieram à nossa Corinto e nos plantaram, e ensinaram da mesma forma. E igualmente indo para a Itália e ensinando lá, foram martirizados ao mesmo tempo”. – Fragmentos da carta de Dionísio aos romanos, colchetes acrescentados, c. 170 d.C.

 

Dionísio de Alexandria, do século III, também mencionou a generosidade costumeira dos cristãos de Roma, e Eusébio de Cesareia disse que a caridade ainda era uma característica dos romanos no início do século IV. E nota-se que o extrato acima confirma a tradição segundo a qual o apóstolo Pedro também esteve em Roma e lá foi martirizado, embora nenhum dos escritos do Novo Testamento mencione isso. O que deve ser uma mera casualidade que não afeta o fato histórico em si. Outro detalhe que se nota é que era costume ler cartas de bispos eminentes “no dia do Senhor”, ou seja, no domingo (Leia mais detalhes sobre isso neste link).

 

Também cabe ressaltar que Dionísio menciona em outro fragmento que escreveu cartas às igrejas por solicitação dos irmãos, que apreciavam essa forma de encorajamento, entretanto algumas delas tinham sido adulteradas por “apóstolos do diabo”. Esse trecho está citado na seção 2, na parte sobre a punição dos ímpios.


Por fim, Dionísio também escreveu uma carta particular para uma senhora chamada Crisófora, dando a ela conselhos espirituais.

 

5) Melitão de Sardes (? - c. 177 d.C.)

 

Conforme sugeriram Roberts & Donaldon, Melitão pode ter sido o sucessor imediato do “anjo” ou apóstolo da igreja de Sardes, ‘a quem o Grande Sumo Sacerdote abordou em uma das mensagens apocalípticas’. Houve quem achasse que ele era o próprio “anjo” da igreja mencionado no Apocalipse, mas visto que isso implicaria em um episcopado de 70 anos, já que ele viveu sob o governo dos Antoninos, é mais provável que ele tenha sido o sucessor de tal “anjo”.

 

Seguindo o costume inaugurado por Quadrato, Melitão também escreveu uma apologia para o imperador de Roma, no caso, Marco Aurélio Antonino, por volta do ano 170 d.C. Além disso se dedicou a textos que combatiam a heresia do montanismo. Nos fragmentos e referências que sobreviveram ele recebe outras três denominações: bispo de Itica, filósofo e eunuco. Provavelmente a última alcunha se devia à opção do celibato, e não porque ele fosse realmente um homem castrado.

 

Devido a esse histórico básico, Melitão é outro apologista que poderia ser classificado sem nenhum problema como sendo um “pai apostólico”, inclusive porque ele muito provavelmente conheceu Policarpo de Esmirna, o discípulo do apóstolo João, e também Inácio de Roma, da mesma maneira que Cláudio Apolinário e Polícrates de Éfeso. Isso faz deles homens muito próximos da era apostólica e indiretamente ligados a ela.

 

Eusébio de Cesareia indica que Melitão tinha o hábito de viajar a fim de interagir com diversas igrejas do Oriente. Há evidências de que ele conheceu Taciano e Teodóto. Talvez até mesmo Clemente de Alexandria tenha se encontrado com ele, conforme sugeriu Lightfoot.

 

Melitão sofreu martírio aproximadamente em 177 d.C., data que alguns comentaristas atribuem também à sua apologia a Marco Aurélio.

 

6) Cláudio Apolinário de Hierápolis (c. 170)

 

Cláudio Apolinário foi bispo de Hierápolis, na Frígia, uma cidade no vale de Menderes, na atual Turquia, um lugar hoje muito visitado por suas belezas naturais e monumentos. Segundo concluiu Joseph Barber Lightfoot, Apolinário conheceu Policarpo de Esmirna e foi influenciado por ele, além de provavelmente ter sido amigo de Melitão de Sardes e Polícrates de Éfeso, visto que todos eles faziam parte de um grupo de cristãos que defendiam a celebração da Páscoa cristã no mesmo dia da festividade judaica correspondente, em 14 de nisã.

 

Apolinário é mais conhecido por uma apologia que escreveu para o imperador Marco Aurélio Antonino (161-180 d.C.), onde apelou para uma experiência vivida pelo do próprio governante, quando estava em batalha contra os Quadi, uma tribo germânica dos Suevos nas proximidades do rio Danúbio, que fazia fronteira com os romanos. Segundo consta, as tropas de Marco Aurélio estavam exaustas e sedentas devido à falta de água nos acampamentos. Então, um grupo de soldados que se identificaram como cristãos orou a Deus pedindo alívio, e eis que algum tempo depois uma copiosa chuva acompanhada de fortes trovões caiu do céu, matando a sede dos soldados e dispersando os inimigos, que foram em seguida vencidos. Devido a esse acontecimento o imperador emitiu um decreto proibindo a perseguição de cristãos. E a legião onde estavam os que pediram a ajuda de Deus ficou conhecida como “Legião Trovejante”. A data aproximada da apologia de Cláudio é 177 d.C.

 

Apolinário também foi autor de outras obras: (1) Adversus Gentes e De Veritate, dois discursos contra os judeus, (2) cinco tratados contra os hereges, nos quais demonstrava que as heresias derivavam inteiramente de fontes pagãs, (3) duas exposições sobre a verdade, (4) alguns tratados contra os montanistas e, finalmente, (5) um texto sobre a Páscoa. Infelizmente, nenhum dos trabalhos de Apolinário sobreviveu até os dias de hoje, e o que se sabe de suas obras são apenas alguns fragmentos citados por Eusébio de Cesareia, a exemplo do trecho abaixo sobre a celebração da morte de Jesus:

 

“O décimo quarto dia, a verdadeira Páscoa do Senhor. O grande sacrifício, o Filho de Deus, em vez do cordeiro, que estava amarrado, que foi amarrado forte, e que foi julgado, embora sendo Juiz dos vivos e dos mortos, ele foi entregue nas mãos dos pecadores para ser crucificado, e foi traspassado no seu lado santo, que derramou do seu lado os dois elementos purificadores, a água e o sangue, palavra e espírito, e foi sepultado no dia da páscoa, sendo a pedra colocada sobre o túmulo”. – Fragmento de Cláudio Apolinário, c. 180 d.C., citado por Eusébio de Cesareia.

 

7) Atenágoras de Atenas (?-180 d.C.)

 

Embora duas obras completas de Atenágoras tenham chegado aos nossos dias, estranhamente ele não é mencionado nem por Eusébio nem por Jerônimo e existem apenas dois testemunhos antigos sobre ele. O primeiro está em um tratado sobre a ressurreição do corpo, de Metódio de Olimpo (250-311 d.C.), e o segundo em uma referência feita por Filipe de Sidetes, um historiador cristão da Panfília, em sua obra sobre a história da Igreja escrita no ano 430 d.C. De acordo com Filipe, Atenágoras era um filósofo que se converteu ao Cristianismo pela simples leitura das Escrituras Sagradas, talvez na cidade de Alexandria. Fora isso, nada mais se sabe da vida de Atenágoras, a não ser, é claro, o que pode ser inferido do que escreveu.

 

Os escritos de Atenágoras revelam que ele era um homem muito culto, que ensinava mediante métodos sistemáticos de um professor, visando a instrução e a demonstração. Primava pelo uso da lógica e da gramática bem aplicada. Não é à toa então que Roberts & Donaldson se referiram a ele como sendo “de longe, o mais elegante, e certamente, ao mesmo tempo, um dos mais capazes dos primeiros Apologistas cristãos”. Em suma, foi um mestre que provavelmente deixaria muito feliz o apóstolo que certa vez passeando pela Colina de Marte, em Atenas, pregou a gregos e estoicos que relutaram fortemente em acreditar na ressurreição dos mortos, sendo este justamente um dos temas abordados por Atenágoras. Os tempos eram outros e agora Cristo não contava apenas com alguns discípulos na metrópole grega, pois o Cristianismo era uma religião crescente, mesmo com tantas perseguições cruéis. E cada vez mais atenienses não só tinham fé na ressurreição como estavam dispostos a dar suas vidas pelo Filho de Deus, se fosse necessário. – Atos 17:15-34.

 

Embora Atenágoras tenha apresentado suas obras numa linguagem mais refinada e com critério metodológico, ainda não havia nele a linguagem teológica típica dos “pais teólogos científicos” que surgiriam depois. Mas certamente o que ele escreveu foi um prenúncio do que surgiria na terceira fase dos trabalhos expositivos dos cristãos antigos.

 

Das duas obras conhecidas de Atenágoras, provavelmente a que ele escreveu primeiro foi a apologia enviada aos imperadores Marco Aurélio (161-180 d.C.) e seu filho Lúcio Aurélio Cômodo (177-192), que foram corregentes de 177 até 180, quando Marco Aurélio morreu. Visto que Atenágoras endereça sua carta aos dois, então significa que ela foi escrita dentro desse intervalo, mais precisamente entre o início de 177 e os primeiros meses de 178, quando houve um grande período de paz que é aludido por Atenágoras em sua carta.

 

A obra seguinte é um tratado a respeito da ressurreição dos mortos, cuja data de escrita geralmente é tida como incerta. Mas J. Tixeront, no seu “Manual de Patrologia”, diz que pode ser uma produção do ano 178 ou 179 d.C. Ou seja, dentro do período de corregência dos Antoninos (177-180). É considerada a primeira exposição completa sobre o assunto na literatura cristã, apesar de praticamente não haver nela referências bíblicas, com apenas uma exceção (1 Coríntios 15:54). Isto se explica talvez pelo fato de que Atenágoras nomeou como público-alvo para o seu tratado os filósofos gregos que nada sabiam das Escrituras. Por isso apresentou o tema com a linguagem e conteúdo que seriam mais facilmente assimilados por seus destinatários.

 

Ainda com respeito ao primeiro texto, na verdade ele era mais que uma apologia, pois não visava apenas fazer uma defesa do Cristianismo. Por isso seu título é comumente traduzido por “Um apelo em favor dos cristãos”. A palavra “apelo” aqui tem o sentido de pleito ou petição, sendo uma versão livre do grego presbeía (πρεσβεία) ou do latim legatio, que significam “embaixada” ou “delegação”, composta por representantes experientes. De modo que numa tradução talvez mais acurada a apologia poderia ser chamada de “Uma embaixada para os cristãos”, ou seja, um espaço para diálogo com objetivo último de fazer cessar as perseguições injustas. Mesmo assim a carta esclarece que as três acusações normalmente dispensadas aos cristãos são falsas, a saber, o ateísmo (por não serem politeístas), a imoralidade e a antropofagia.

 

8) Autor da “Paixão dos mártires silitanos” (180 d.C.)

 

Os mártires silicitanos foram 12 cristãos executados na cidade de Cartago no dia 17 de julho de 180. Eles eram moradores de Sílio, uma localidade da Numídia, onde hoje fica a Argélia e parte da Tunísia, no norte da África. O procônsul romano responsável por essa região foi Vigélio Saturnino, e os cônsules foram Presen II e Condiano. O imperador era Cômodo. Marco Aurélio havia morrido poucos meses antes de quando aconteceu o martírio, cujo registro foi feito por um autor atualmente desconhecido, sendo hoje considerado o texto cristão mais antigo da África proconsular.

 

Já houve alguma disputa sobre esse documento, pois inconsistências surgiram no texto à medida que ele foi copiado e recopiado ao longo dos séculos em várias versões gregas e latinas. De modo que não se sabe em qual dessas duas línguas foi redigido o manuscrito original. Lembre-se que nenhum antigo texto cristão atualmente disponível para tradução é original, nem mesmo os do Novo Testamento, sendo todos cópias. Há quem ache que o documento foi a própria ata do processo de julgamento, onde alguém apenas acrescentou a última parte.

 

As variantes no texto deixaram em dúvida sobre em que ano aconteceu o martírio, pois os nomes dos cônsules ficaram ilegíveis na primeira linha. Por isso o historiador e cardeal italiano Cesare Barônio (ou Caesar Baronius) chegou a sugerir em seu Martyrologivm Romanvm o ano 202 d.C. No entanto, um estudo feito no século 19 por M. Leon Renier o levou à conclusão que os cônsules foram Presen II e Condiano. Isto foi confirmado por Usener, ao publicar em 1881 uma versão grega do nono século, pertencente ao acervo da Biblioteca Nacional de Paris. Uma segunda confirmação veio quando Armitage Robinson descobriu uma versão resumida do martírio, escrita em latim no século IX, a partir da qual deve ter sido feita a versão grega anteriormente descoberta, pois ambas concordam entre si. Essa versão “original” em latim pertence ao Museu Britânico.

 

9) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

Teófilo é da terceira geração depois dos apóstolos em Antioquia, na Síria, cidade onde foi determinado que os seguidores de Jesus seriam chamados de “cristãos”. Ele vem logo depois de Barnabé, o fiel amigo de Paulo, e Inácio de Antioquia. Ele faz parte de um grupo de homens que combateu tenazmente as heresias que alguns tentavam introduzir nas congregações cristãs. Por este motivo Eusébio de Cesareia o elogia por sua fidelidade pastoral em proteger as almas dos crentes, e destaca suas obras contra as heresias, especialmente a que escreveu contra o herege Marcião, manuscritos que acabaram desaparecendo e não chegaram até nós. Eusébio informa que as cartas de Teófilo faziam parte de um esforço conjunto dos sucessores dos apóstolos em conter as heresias que ameaçavam a integridade espiritual das igrejas:

 

“E como os hereges, não menos do que em outros tempos, eram como joio, destruindo a colheita pura do ensinamento apostólico, os pastores das igrejas por toda parte se apressaram a refreá-los como a animais selvagens do aprisco de Cristo, de um lado com admoestações e exortações aos irmãos, e de outro contendiam abertamente contra eles em discussões orais e refutações, e adicionalmente corrigiam suas opiniões com provas mais precisas mediante obras escritas”. – História Eclesiástica, Eusébio de Cesareia, Livro IV, cap. 24.

 

Outro trabalho pertencente a Teófilo é uma exposição sobre a origem da humanidade de acordo com a Bíblia e com a mitologia. Teófilo é também considerado o primeiro historiador cristão do Antigo Testamento e fundador da ciência sobre cronologia bíblica, razões pelas quais o arcebispo James Usher o homenageou na introdução de sua obra sobre cronologia judaico-cristã, escrita no século 17.

 

Na sua apologia para Autólico, seu amigo descrente, percebe-se o grande desprezo de Teófilo pelo paganismo, em especial a filosofia de Aristóteles e Platão. Por seguir uma linha de argumentação semelhante à de Justino e Irineu, ele poderia ser apresentado ao lado de Taciano como um convicto antagonista da sabedoria do mundo, e contentava-se apenas em ser conhecido pelo nome de cristão. Isto é de se admirar pelo fato de que ele nasceu pagão e foi educado nos moldes do conhecimento greco-romano. Mas no dia que ele resolveu fazer um estudo cuidadoso das Escrituras Sagradas não lhe restou dúvida que deveria se converter ao Cristianismo.

 

O progresso de Teófilo foi tanto que acabou por tornar-se o sexto bispo de Antioquia. Os seus antecessores foram Cornélio, Hero, Eros, Euódio e Inácio. Teófilo assumiu o bispado no 8º ano do reinado de Marco Aurélio, ou seja, em 168 d.C. A data de sua morte foi em 181 ou 188. Embora, conforme mencionado, ele tenha escrito diversos tratados contra as heresias, seu único trabalho que sobreviveu foi o texto dirigido a Autólico. Teófilo foi também o primeiro escritor cristão a usar a palavra “trindade” para se referir ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, mas ainda sem o sentido teológico da Trindade que foi definida no século IV.

 

Há quem apresente a teoria de que Autólico seria um personagem que Teófilo criou para representar o pagão típico, que sobrevalorizava a filosofia e ignorava completamente a superioridade das Escrituras. Visto que estudou com profundidade as duas vertentes de conhecimento, Teófilo poderia compor esse tratado de maneira adequada para os leitores pagãos. Sendo assim, ele se propôs a ajudá-los cordialmente a aceitar o Cristianismo em três cartas que depois foram reunidas em um único volume. Mas, em geral, os comentaristas indicam que o destinatário das cartas era uma pessoa real. Por exemplo, Tixeront diz que provavelmente Autólico “era um pagão erudito, que parece ter sido um magistrado”. Mas, seja qual for o estilo literário das cartas, o importante é que Teófilo se mostrou um claro defensor das Escrituras e não deixou se intimidar pela filosofia grega e a combateu naquilo que foi necessário.

 

10) Um antimontanista (c. 193 d.C.)

 

Apolinário de Hierápolis e Melito de Sardes não foram os únicos que escreveram contra o montanismo, a então famosa heresia frígia. Eusébio de Cesareia informa que apareceram outros escritores que se empenharam nessa tarefa. Dentre tais havia Miltiades, Apolônio, Serapião, Gaio e um determinado escritor anônimo. Deste último Eusébio cita trechos de seu tratado, que estão transcritos na seção 2. Visto que tais escritores foram contemporâneos e abordaram o mesmo movimento herético, certamente esse manuscrito de autoria desconhecida é da metade do segundo século, talvez por volta do ano 190 d.C.

 

A origem do montanismo se deu na Ásia Menor em meados do século II, na figura de um homem chamado Montano. No início o montanismo não causou grande repercussão, conforme vimos no comentário sobre Hermas. Estava restrito a pequenos vilarejos da província da Frígia, e não era visto em grandes cidades. No entanto, depois que começou a se espalhar e ficou evidente que havia algo errado com as supostas manifestações espirituais alegadas por seus proponentes, os pais da igreja voltaram sua atenção para tal problema. O referido antimontanista anônimo dá a entender que antes de assentar por escrito suas considerações ele primeiro contendeu verbalmente com alguns defensores da heresia.

 

De acordo com alguns relatos, antes de se tornar cristão Montano era um sacerdote de Cibele, a deusa frígia da fertilidade. Isto explica então porque ele e seus seguidores achavam que instrumentos musicais facilitavam o transe espiritual, pois os sacerdotes e sacerdotisas de Cibele tinham o hábito de tocar flautas e bater címbalos. Em seus encontros, Montano era ajudado por duas profetisas, Priscila e Maximila. Segundo dizem, as duas abandonaram seus maridos para se dedicarem integralmente ao delírio de seu mestre “carismático”. Outra peculiaridade é que eles oravam diretamente ao Espírito Santo, em primeira pessoa, costume que não havia entre os cristãos antigos.

 

Montano se considerava o instrumento do Espírito Santo “nos últimos dias de angústia”, uma referência às intensas perseguições ordenadas pelos imperadores Antoninos. Ele e suas profetisas diziam ser os reformadores da vida cristã e proclamavam iminente a era do Espírito Santo e o início do reinado de mil anos, que começaria na pequena aldeia de Pepuza, sobre a qual desceria a Nova Jerusalém. Tais profecias, obviamente infundadas, causaram comoção e alcançaram um nível que superou as expectativas de seus idealizadores, espalhando-se desde Roma até o norte da África. De acordo com Philip Schaff, isso jogou a igreja em grande tumulto e motivou os primeiros Sínodos que são mencionados depois da época dos apóstolos.

 

Felizmente, o esforço conjunto surtiu efeito e o montanismo perdeu força, assim como outras heresias que costumavam surgir naquele tempo. De qualquer maneira, falsidades religiosas geralmente são autodestrutivas porque seus próprios promotores contribuem para isso, conforme Jesus indicou certa vez:

 

“Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis”. – Mateus 7:15-20, Ave Maria.

 

Naturalmente isso vale para especulações proféticas atribuídas a Deus, pois ele próprio já tinha dado a seguinte advertência para os israelitas:

 

“Se um profeta presunçosamente falar em meu nome alguma palavra que eu não lhe mandei falar... esse profeta deverá morrer. Mas talvez você diga no seu coração: ‘Como saberemos que Jeová não falou essa palavra?’ Quando o profeta falar em nome de Jeová e o que ele disser não acontecer nem se cumprir, então Jeová não falou aquela palavra. O profeta a falou presunçosamente. Você não deve ficar com medo dele”. – Deuteronômio 18:20-22, Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada.

 

O conteúdo dos dois textos acima é mais do que suficiente para que o cristão evite erros a exemplo daquele cometido por Montano, e também por outros que hoje possuem o mesmo elemento motivador, ainda que não se apresentem em meio a transes e desvarios balbuciantes. A heresia montanista evoluiu e ganhou nova aparência ao longo dos séculos. Virou outra coisa, mas não menos condenável. Ultimamente trocou flautas por microfones, e címbalos pelo bater de palmas.

 

11) Polícrates de Éfeso (130-196 d.C.)

 

Polícrates foi um dos cristãos da Ásia Menor cuja família tinha tradição no episcopado. Sete de seus parentes tinham sido bispos antes dele. Porém ele é mais conhecido pela questão pascal. Ele foi um dos que disputaram com as igrejas do resto do mundo sobre o dia da celebração da Páscoa cristã. Para ele e seus associados, os cristãos deveriam seguir a data judaica de 14 de nisã, ao invés do domingo subsequente. Uma das alegações é que o apóstolo João tinha mantido tal dia. Roberts & Donaldon dizem que isso é de causar surpresa, pois o ressuscitado Jesus tinha aparecido para João justamente no “dia do Senhor” (domingo). Eles também sugerem que se o dia judaico foi mesmo mantido no oriente, foi apenas uma concessão apostólica, que permitia a observância do judaísmo naquilo que era tolerável e enquanto o templo ainda existia, ao passo que os bispos em Jerusalém estabeleciam o domingo pascoal como o momento mais indicado. Daí a existência em paralelo das duas datas para a celebração. Os referidos comentaristas dizem adicionalmente:

 

“Nosso autor pertencia a uma família na qual ele era o oitavo bispo cristão, e presidiu a igreja de Éfeso, na qual as tradições de São João ainda estavam frescas na mente dos homens na data de seu nascimento. Sem dúvida, ele conhecera Policarpo e Irineu também. Ele parece ter presidido um sínodo de bispos asiáticos (196 A.D.) que se reuniram para considerar este assunto da festa pascal. É certamente digno de nota que ninguém duvidou que fosse mantido por uma ordenança cristã e apostólica. Assim São Paulo argumenta de sua observância cristã, em sua repreensão dos coríntios. Eles estavam mantendo-a ‘sem fermento’ cerimonialmente, e insiste que o mais importante é a levedura espiritual. A santificação cristã do Pentecostes se conecta com o argumento pascal. O Sabbath cristão depende desses pontos”. – Ante-Nicene Fathers (1885), de Philip Schaff (editor), Vol. VIII, p. 2057.

 

O último trecho do comentário é uma referência ao descanso sabático, que algumas vezes se apresenta como motivo de discórdia, porque sempre houve cristãos que ficavam indevidamente ligados aos hábitos judaicos, impondo alguma limitação ao fato de Cristo ser o fim da lei mosaica. Isso resulta no pensamento de que o modo de vida cristão ainda deveria preservar algo dos antigos preceitos judaicos. O que é bem notório até mesmo em nossos tempos, pois ainda existem os que acham que o sábado deve ser guardado pelos cristãos. Logo, esse tipo de conflito continua existindo, ainda que fora do catolicismo.

 

Em seus argumentos, Polícrates alega que a observância quartodecimana não partiu somente do apóstolo e outros de seus associados, cujos corpos ainda descansavam lá na Ásia menor, mas também de vários bispos ainda vivos que avalizavam a sua carta. Houve quem visse em tal declaração algo suspeito, pois Polícrates assina sua carta sozinho, sem o aval inconteste das pessoas que ele menciona. Visto que esse documento tinha sido enviado para o “papa” Vítor, a fim de convencer os demais cristãos, era desejável que houvesse a assinatura de todos os bispos.

 

12) Irineu de Lyon (120-202 d.C.)

 

Nascido talvez em Esmirna ou então na Síria, Irineu foi o bispo da cidade francesa de Lyon e o moderador na controvérsia pascal mencionada no comentário anterior. (Seu bispado começou aproximadamente em 177 d.C.) Vítor, o bispo de Roma, quando estava prestes a excomungar todas as igrejas da Ásia Menor foi aconselhado por Irineu que não fizesse isso, pois também não era o desejo de outros bispos, mesmo sendo defensores da Páscoa no domingo. Alegou que disputa semelhante ocorrera entre o quartodecimano Policarpo e o “papa” Aniceto, e mesmo sem chegarem a um acordo mantiveram a paz e a união. Vítor foi sensível ao pedido e evitou o que poderia ter sido o primeiro cisma da história da Igreja.

 

É, portanto, uma feliz coincidência que o nome Irineu, do grego eirenaíos, signifique pacífico, pois esse pai da igreja atuou exatamente assim, qual pacificador. Ter sido discípulo de Policarpo certamente contribuiu para a visão conciliadora de Irineu. Ele conhecia bem os dois lados da questão. Mas sua intervenção não evitou que todas as igrejas aderissem ao costume do domingo de Páscoa, pois em 325, no Concílio de Niceia, foi decidido que o 14 de nisã não seria mais observado em nenhum lugar.

 

Mas quando o montanismo ganhou grandes proporções e alcançou lugares tão importantes quanto Roma, Irineu desembainhou a espada do espírito e começou a luta que os comentaristas descrevem como sendo “a grande obra de sua vida”, quando ‘estudou as doenças da mente humana feito um médico sábio’. Não só escreveu contra as heresias, incluindo também o gnosticismo, como também capacitou outros a fazerem o mesmo, a fim de que a igreja possuísse a estrutura necessária para resistir às investidas delas. Sobre isso complementaram Roberts & Donaldson:

 

“As obras que nos deixou são monumentos de sua fidelidade a Cristo e aos mandamentos de São Paulo, São Pedro e São Judas, cujas solenes advertências agora se revelaram profecias. Não admira que o grande apóstolo, ‘noite e dia com lágrimas’, tivesse prevenido as igrejas dos ‘lobos opressivos’ que deveriam fazer estragos no aprisco”. – Ante-Nicene Fathers, The Apostolic Fathers, Justin Martyr, Irenaeus (1885), Vol. I, de Philip Schaff (editor), p. 834.

 

Não é sem propósito, então, que Irineu é reconhecido por um trabalho dedicado inteiramente ao diagnóstico e combate das heresias. Um tradutor dessa obra a descreveu da seguinte maneira:

 

“No prosseguimento deste plano, o autor divide seu trabalho em cinco livros. O primeiro deles contém uma minuciosa descrição dos princípios das várias seitas heréticas, com breves observações ocasionais ilustrando o absurdo delas e confirmando a verdade a que se opuseram. Em seu segundo livro, Irineu procede a uma demolição mais completa dessas heresias que ele já tinha explicado, e argumenta bastante contra elas, com base principalmente na razão. Os três livros restantes expõem mais diretamente as verdadeiras doutrinas da revelação como estando em total antagonismo aos pontos de vista dos professores gnósticos. No curso deste argumento, diversas passagens das Escrituras são citadas e comentadas. Muitas declarações interessantes são feitas, com relação à regra da fé, e a muito importante luz é derramada sobre as doutrinas asseguradas pela Igreja do segundo século, bem como as práticas observadas”. – Ibid., pp. 836, 837.

 

O autor acima também observa que, não obstante às extravagâncias do gnosticismo, é graças à heresia gnóstica que Irineu escreveu a obra que o consagrou, possibilitando que hoje tivéssemos conhecimento de importantes informações da igreja primitiva. Se o cenário naquele tempo fosse de plena paz e concordância entre os que advogavam o Cristianismo, provavelmente haveria um grande desconhecimento sobre as crenças defendidas pelos sucessores dos apóstolos imediatamente após a saída deles de cena, dificultando assim um exame histórico dessa segunda fase da igreja de Cristo. É como dito no adágio popular, “há males que vêm para o bem”, se é que se pode dizer isso nesse caso.

 

Por fim, de acordo com Jerônimo e Gregório de Tours a morte de Irineu aconteceu por martírio. Entretanto essa informação tem sido contestada por comentaristas, visto que não é confirmada por autoridades mais antigas, a exemplo de Eusébio ou Tertuliano.

 

2. Os ensinos de cada escritor conforme os temas indicados

 

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Não é uma coisa fácil para uma alma, sob a influência do erro, ser persuadida da opinião contrária.

 

                                                                                                                                                                                        Irineu de Lyon, Fragmento 44.

 

Não se pretende com a coletânea de citações desta seção apresentar os mais diversos assuntos que foram tratados pelos pais da Igreja, mas apenas alguns relacionados aos dois objetivos a seguir:

 

1) Demonstrar que os cristãos antigos não eram aniquilacionistas ou materialistas. Ou seja, eles acreditavam que o homem possui uma alma que sobrevive de forma consciente à morte, e que no caso das almas dos cristãos elas podem ir para o céu, onde ficam aguardando a ressurreição do corpo.

 

2) Evidenciar que a crença na continuidade da existência após a morte faz parte de um conjunto de ensinamentos que foi transmitido de maneira uniforme e consistente para os cristãos do segundo século pelos do primeiro. O que desmonta a teoria dos aniquilacionistas de que os cristãos da era apostólica acreditavam que o corpo não possui uma alma espiritual, por isso a morte significaria a inexistência completa, e que os cristãos do século II em diante deixaram de acreditar nisso porque se apostataram e importaram a doutrina grega da imortalidade da alma para dentro do Cristianismo.

 

A confirmação desses dois pontos nas citações apresentadas mais adiante era algo previsível, pois o Novo Testamento está repleto de versículos que atestam a crença na continuidade da existência, estando em harmonia com determinadas passagens do Antigo Testamento que já apontavam na mesma direção, mas de maneira menos explícita. A seguir alguns exemplos:

 

“Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena”. – Mateus 10:28.

 

“Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro... E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio”. – Lucas 16:19-31.

 

“Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E já não sei o que escolher! Estou pressionado dos dois lados: desejo partir e estar com Cristo, o que é muito melhor; contudo, é mais necessário, por causa de vocês, que eu permaneça no corpo”. – Filipenses 1:21-24.

 

“É justo despertar-vos com as minhas admoestações, enquanto estou nesta tenda terrena [o corpo], sabendo que em breve hei de despojar-me dela. . . Assim farei tudo para que, depois da minha partida, vos lembreis sempre delas”. – 2 Pedro 1:13-15, Bíblia de Jerusalém, colchetes acrescentados.

 

Para ver outros textos, clique neste link: o que a Bíblia realmente ensina sobre a morte.

 

Os que defendem o materialismo “cristão”* imprimem muito esforço para tentar contradizer o que os textos acima dizem muito claramente. Além de forçarem uma reinterpretação deles, que nunca foi acreditada no passado, ainda se valem erroneamente de uma figura utilizada pelos escritores cristãos quando eles comparam a morte com o sono do corpo, pois quando se diz que uma pessoa falecida está “dormindo” não significa de maneira alguma que ela deixou de existir totalmente (como também é o caso do sono literal). Trata-se apenas de uma maneira para se referir à morte, que faz alusão ao fato de que o corpo humano parou de funcionar e ficou como que dormindo. No entanto, a alma permanece de maneira consciente, conforme demonstrado nos textos bíblicos supracitados. Naturalmente é razoável supor que haja mesmo um período de “sono” entre a morte e o despertar da alma no mundo para o qual ela é levada.

 

* Entenda-se por “materialismo cristão” a crença segundo a qual não existe uma alma no corpo, porém há um Deus capaz de criar no futuro uma réplica perfeita do corpo de quem morreu, fazê-lo funcionar e implantar em seu cérebro vazio as memórias do falecido, de modo que quando essa nova pessoa acordar achará que é aquele que outrora viveu. Esta concepção é uma mistura do materialismo dos ateus com uma ideia religiosa onde Deus foi incluído. Tal combinação é algo que nunca passou pela mente dos cristãos primitivos. Naquele tempo, o materialismo e o Cristianismo eram conceitos excludentes entre si. Ou se acreditava em um, ou em outro. Não nos dois ao mesmo tempo.

 

Na verdade, se todos os registros cristãos do segundo século e início do terceiro forem considerados, e não apenas os dos pais da Igreja, uma quantidade transbordante de evidências virá à tona indicando que todas as pessoas naquele tempo acreditavam na vida imediata após a morte, não havendo, portanto, nenhum vestígio de aniquilacionismo entre os cristãos primitivos. Por exemplo, um conhecido manuscrito sobre os atos de Paulo e de uma cristã chamada Tecla traz o seguinte relato:

 

“Após a exibição, Trifena a recebeu novamente, pois sua filha Falconila, que havia morrido, disse para ela em um sonho: ‘Mãe, deves colocar esta estranha Tecla em meu lugar, para que ela ore por mim, e eu possa ser transferida para o lugar dos justos’.”. – Atos de Paulo e Tecla, c. 160 d.C.

 

Quatro informações podem ser extraídas desse texto: (1) Foi dito que a falecida Falconila continuava viva em outro lugar, (2) que o local onde estava não era desejável, (3) que ela obteve permissão de relatar essas coisas para a sua mãe em um sonho, e, por fim, (4) que as orações de Tecla por Falconila poderiam ajudá-la a ser transferida para um lugar melhor. Tudo isso são crenças que causariam repulsa em qualquer um que hoje defende o aniquilacionismo materialista, porém era justamente em tais coisas que os cristãos antigos acreditavam!

 

Alguns podem alegar que Atos de Tecla e Paulo é uma obra apócrifa e não pode ser usada como autoridade, visto que os eventos relatados nela podem ser fictícios. Ainda que ninguém tenha certeza disso, tal objeção é irrelevante, pois mesmo que se trate de uma espécie de “romance cristão” ele foi escrito por pessoas da igreja e reflete fielmente as crenças que elas tinham. Logo, é perfeitamente válido citar esse texto aqui.

 

Do mesmo modo, lemos o seguinte na história de duas cristãs do segundo século chamadas Felicidade e Perpétua, desta feita em um documento credenciado:

 

“Depois de alguns dias, enquanto estávamos todos orando, de repente, no meio de nossa oração, veio-me uma palavra, e eu atribuí [ao meu falecido irmão] Dinócrates... Fiquei triste quando me lembrei de sua desgraça. E senti-me imediatamente digna de ser chamada para pedir [algo] em seu nome. E por ele comecei a fazer súplicas e a clamar com gemidos ao Senhor. Sem demora, naquela mesma noite, isso me foi mostrado em uma visão, vi Dinócrates saindo de um lugar sombrio, onde havia vários outros, e eles estavam ressequidos e muito sedentos, com rosto sujo e cor pálida, e vi a ferida em seu rosto que ele tinha quando morreu... Para ele eu fiz a minha oração, e entre ele e eu houve uma grande separação, então nenhum de nós poderia se aproximar um do outro... E fiquei agitada porque sabia que meu irmão estava sofrendo. Mas eu confiava que minha oração traria ajuda para seu sofrimento. E eu orava por ele todos os dias... Então, no dia em que nos acorrentaram, isso foi mostrado para mim, eu vi que aquele lugar, que antes estava na escuridão, se tornou agora brilhante. E Dinócrates, com um corpo limpo e bem vestido, estava se refrescando... Então eu entendi que ele foi removido do lugar de punição”. – O Martírio de Felicidade e Perpétua 2:3,4, c. 203 d.C., colchetes acrescentados.

 

Felicidade estava grávida e dois dias antes de sua morte deu à luz o seu filho, aos oito meses de gestação. O que foi interpretado como uma ação de Deus para apressar o parto, a fim de poupar o bebê. E Perpétua tinha um criança ainda de peito, de quem foi separada na prisão. A primeira mulher era uma escrava. A segunda uma de alta posição social. Ambas foram condenadas à morte por defenderem a fé cristã, juntamente com mais seis outros cristãos (na verdade, um deles se juntou voluntariamente ao grupo). Enquanto aguardava a execução, foi permitido a Perpétua escrever o diário acima citado, o qual, segundo dizem, foi concluído por Tertuliano de Cartago (160-220 d.C.). No diário foram mencionadas diversas visões que eles tiveram a respeito de serem levados imediatamente ao céu tão logo fossem martirizados. Com exceção de um dos apenados, que morreu no cárcere, foram todos mortos por feras selvagens e depois decapitados em um espetáculo público na cidade de Cartago, no que talvez seja o martírio mais comovente da história do Cristianismo.

 

Outro exemplo é o epitáfio de Abércio, um antigo bispo de Hierápolis, na Frígia:

 

“O irmão que o ler por acaso, ore por Abércio. E ninguém erga túmulo sobre o meu”. – Epitáfio da sepultura de Abércio, c. 205 d.C.

 

Se os cristãos primitivos acreditassem que a morte implica na inexistência completa, tais orações em favor dos mortos não fariam nenhum sentido. Mas, ao contrário disso, acreditavam que aqueles que morreram continuavam vivos e que as palavras de Tiago possuíam um alcance jamais concebido pelos aniquilacionistas, aquelas onde ele diz que “a oração de um justo é poderosa e eficaz” (Tiago 5:16). Sim, os cristãos sempre acreditaram que o vínculo entre os fiéis não é rompido nem mesmo pela morte, conforme se vê nas palavras que Inácio de Antioquia, um discípulo direto dos apóstolos, disse pouco antes de ser martirizado e ‘ir para o Pai’, conforme ele próprio afirmou:

 

“Deixem o meu espírito ser santificado pelo de vocês, não só agora, mas também quando eu alcançar a Deus”. – Carta aos Tralianos, Inácio de Antioquia, cap. 13.

 

Diante de todas as evidências a favor da existência da alma invisível e sua consequente sobrevivência à morte do corpo, é certamente uma grande imprudência forçar um novo entendimento dos versículos bíblicos supracitados e de outros. No entanto, o problema não fica só nisso. Os aniquilacionistas ainda são capazes de procurar nas obras patrísticas aqui citadas evidências de que alguns cristãos do segundo século ainda teriam mantido a crença materialista que supostamente haveria na época apostólica. Talvez façam isso porque se dão conta que é muito bizarro supor que na virada do primeiro para o segundo século um conceito tão importante simplesmente desapareceu e os cristãos passaram a crer em outra coisa totalmente diferente do que acreditavam antes. Não haver indícios do entendimento aniquilacionista no século II é um golpe fatal contra a teoria que os religiosos materialistas defendem.

 

Qualquer mudança de entendimento normalmente acontece de maneira gradual e ao longo de um tempo significativo. Não se tem notícia da extinção abrupta de uma crença religiosa que deu lugar a outra diametralmente oposta. Se algo tão sui generis assim tivesse acontecido com certeza haveria registros históricos. Isto se infere de determinados relatos que mencionam conflitos de opinião daquela época. Por exemplo, no capítulo 28 de seu livro V, Eusébio de Cesareia menciona, no que chamou de heresia, os que disseram que a verdade bíblica se manteve preservada só até a época do papa Vítor (?-199 d.C.), porém depois disso começou a se corromper. O contexto dessa suposição toca no debate ariano, pois os que a defendiam achavam que Jesus tinha sido promovido erroneamente à condição de Deus, deixando de ser somente o Filho. Essa questão foi amplamente discutida na querela fomentada por Ário de Alexandria.

 

E para completar esse processo de autoengano, obras teológicas também são citadas pelos aniquilacionistas com o intuito de demonstrar que os primeiros cristãos eram religiosos materialistas. O detalhe, porém, é que quase todas essas obras ensinam precisamente o contrário! Ou seja, que tais cristãos não eram aniquilacionistas e que realmente acreditavam na sobrevivência imediata após a morte. O que significa dizer que essas referências bibliográficas estão sendo utilizadas à margem da intenção de seus autores, com citação de trechos devidamente selecionados para tal fim, os quais fazem parte de uma consideração mais ampla ou são simplesmente peculiaridades autorais. Para uma consideração mais abrangente desse terceiro problema que acomete os aniquilacionistas, leia a consideração indicada abaixo:

 

Obras Eruditas sobre a Bíblia Apoiam o Aniquilacionismo? – Um Caso de Mau Uso Bibliográfico

 

Portanto, a falha dos que defendem o materialismo “cristão” se apresenta em três frentes “metodológicas” distintas:

 

1) Distorcer vários textos bíblicos, dando a eles entendimentos que nunca foram promovidos pelo Cristianismo primitivo.

 

2) Tentar mostrar que os primeiros Pais da Igreja apoiaram de alguma forma o aniquilacionismo. Para isso ignoram o verdadeiro sentido dos trechos mencionados e nunca citam as partes onde tais escritores explicam aberta e claramente a crença na existência da alma após a morte.

 

3) Citar de maneira errônea obras teológicas como se elas corroborassem a crença aniquilacionista, ao passo que, na verdade, geralmente elas são contra.

 

Obviamente esse erro triplo resulta em algumas incoerências. Por exemplo, determinado escritor adventista que busca nos pais da igreja evidências a favor do aniquilacionismo classificou Justino de Roma e Matetes como sendo aniquilacionistas (“condicionalistas”). Depois de ler nas citações a seguir o que tais cristãos realmente ensinaram verá que os pesquisadores que defendem o aniquilacionismo simplesmente não podem ser levados a sério. Pelo menos não nesse assunto aqui em pauta.

 

Finalmente, cabe uma ressalva a duas obras citadas na lista a seguir: “Os martírios” de Inácio e Policarpo. Visto que tais obras tratam da morte desses dois personagens, obviamente elas não foram escritas por eles, mas por pessoas que os conheceram pessoalmente. As datas de escrita estimadas para ambos os relatos são do século II, não muito tempo depois de quando aconteceram os respectivos martírios. No caso de Policarpo, o relato sobre sua morte foi escrito imediatamente depois de sua morte, em uma carta que a igreja de Esmirna enviou para os cristãos de Filomélia, que informava inclusive que ele morrera no dia 22 de fevereiro, às 2 horas da tarde. Já sobre o documento a respeito do martírio de Inácio, embora não se saiba sua data exata, considera-se que ele foi escrito por Filo, um diácono de Tarso, e Reus Agátopo, que acompanhou Inácio no dia de seu martírio em Roma, que se deu no dia 20 de dezembro de 107. Ambos são citados no capítulo 11 da carta de Inácio aos cristãos de Filadélfia.

 

Geralmente não é fácil determinar as datas dos manuscritos cristãos, porque eles não eram datados. E isso vale inclusive para as cartas que estão no Novo Testamento. A menos que exista algum registro catalográfico confiável, do tipo que havia em antigos mosteiros, a única maneira de tentar descobrir quando uma obra foi escrita é identificando nela informações que tenham relação com eventos históricos, cujas datas são conhecidas por outros meios. Quando os autores mencionam um governante ou um evento que afetou alguma comunidade cristã isso ajuda a determinar a data da escrita. Por exemplo, as perseguições que havia nos séculos II e III acabam por delimitar a época da composição de muitas cartas, pois a partir do ano 325 d.C. as perseguições acabaram e a partir daí elas não são mais mencionadas nos escritos patrísticos.

 

a) A distinção entre corpo e alma

 

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1) Clemente de Roma (30-100 d.C.)

 

“Em amor, o Senhor nos levou a si mesmo. Por causa do amor que Ele nos deu, Jesus Cristo nosso Senhor deu o Seu sangue por nós pela vontade de Deus; Sua carne pela nossa carne, e Sua alma pelas nossas almas”. – Carta ao Coríntios, Clemente de Roma, cap. 49.

 

“Que Deus, que vê todas as coisas e quem é o Regente de todos os espíritos e o Senhor de toda a carne - que escolheu nosso Senhor Jesus Cristo e a nós através dele para sermos um povo peculiar - concede a cada alma que invoca Seu glorioso e santo nome, fé, medo, paz, paciência, longanimidade, autocontrole, pureza e sobriedade, ao bem-agradável de Seu nome, por meio de nosso Sumo Sacerdote e Protetor, Jesus Cristo, Glória, majestade, poder e honra, agora e para sempre”. – Carta aos Coríntios, Clemente de Roma, cap. 64.

 

Há possibilidade de no texto acima “espíritos” se referirem aos habitantes celestiais e “carne” aos seres humanos.

 

2) Inácio de Antioquia (30-107 d.C.)

 

“Enquanto cuidamos de não imitar sua conduta, encontremos seus irmãos com toda a verdadeira bondade, e procuremos ser seguidores do Senhor (quem ainda mais injustamente tratado, mais destituído, mais condenado?), para que nenhuma planta do diabo possa ser encontrada em vocês, mas que vocês possam permanecer em toda a santidade e sobriedade em Jesus Cristo, ambas com respeito à carne e ao espírito”. – Carta aos Efésios, Inácio de Antioquia, cap. 10.

 

“Estude, portanto, para ser estabelecido nas doutrinas do Senhor e dos apóstolos, para que todas as coisas, tudo o que fizerem, possam prosperar na carne e no espírito, na fé e no amor, no Filho, e no Pai, e no Espírito, no início e no final. Com o seu bispo mais admirável, e a coroa espiritual bem compactada de seu presbitério, e os diáconos que estão de acordo com Deus. Sede sujeitos ao bispo, e uns aos outros, como Jesus Cristo ao Pai, segundo a carne, e os apóstolos a Cristo, e ao Pai, e ao Espírito, para que haja uma união tanto carnal como espiritual”. – Carta aos Magnésios, Inácio de Antioquia, cap. 13.

 

“Saúdo-vos de Esmirna, juntamente com as igrejas de Deus que estão comigo, que me refrescaram em todas as coisas, tanto na carne como no espírito. Meus laços, que eu levo comigo por amor de Jesus Cristo (orando para que eu possa alcançar a Deus), exorto-vos. Continuai em harmonia entre vós mesmos, e em oração uns com os outros.” – Carta aos Tralianos, Inácio de Antioquia, cap. 12.

 

“Pois eu sei que depois de Sua ressurreição Ele ainda era possuído de carne, e eu acredito que Ele é assim agora. Quando, por exemplo, Ele veio para os que estavam com Pedro, Ele lhes disse: ‘Segurem, manejam-Me, e vejam que eu não sou um espírito incorpóreo’. E imediatamente o tocaram e creram, convencidos tanto pela Sua carne como pelo seu espírito. Por esta causa também desprezaram a morte, e foram achados seus conquistadores. E depois de sua ressurreição, Ele comeu e bebeu com eles, como sendo possuído de carne, embora espiritualmente Ele estivesse unido ao Pai”. – Carta aos Esmirnianos, Inácio de Antioquia, cap. 3.

 

“O amor dos irmãos em Trôade vos saúda, de onde também vos escreve Burrus, a quem enviastes comigo, juntamente com os efésios, vossos irmãos, e que em todas as coisas me renovaram. E gostaria que todos o imitassem, como sendo um modelo de ministro de Deus. A graça o recompensará em todas as coisas. Saúdo o vosso bispo mais digno, o vosso venerável presbitério, os vossos diáconos, os meus servos e todos vós individualmente, bem como, em geral, em nome de Jesus Cristo e na sua carne e sangue, na sua paixão e ressurreição, tanto corporal quanto espiritual, em união com Deus e vós. Graça, misericórdia, paz e paciência, estejam com você para sempre!” – Carta aos Esmirnianos, Inácio de Antioquia, cap. 12.

 

“Tendo obtido boa prova de que sua mente está fixada em Deus como sobre uma rocha imutável, eu glorifico alto [o Seu nome], que eu fui considerado digno de ver sua face irrepreensível, a qual eu possa desfrutar em Deus! Eu lhe suplico, pela graça com que está vestido, que avance em seu caminho, e exorte a todos para que sejam salvos. Mantenha sua posição com todo o cuidado, tanto na carne quanto no espírito”. – Carta a Policarpo, Inácio de Antioquia, cap. 1.

 

“Se você ama os bons discípulos, não lhe agradecemos por isso, mas busque pela mansidão para subjugar o que for mais problemático. Todo ferimento não é curado com o mesmo gesso. Ou mitigar ataques violentos [da doença] por aplicações gentis. Seja em todas as coisas ‘sábio como uma serpente, e inofensivo como uma pomba.’ Para este propósito, você é composto de carne e de espírito, para que possa tratar com ternura os [males] que se apresentam visivelmente diante de você. E quanto aos que não são vistos, orai para que [Deus] os revele a você, para que não tenhais falta em nada, mas abunde em cada dom. Os tempos chamam você, assim como os timoneiros fazem pelos ventos, e como alguém atirado pela tempestade procura o refúgio, para que tanto você como os que estão sob seu cuidado possam alcançar a Deus. Seja sóbrio como atleta de Deus: o prêmio que está diante de você é a imortalidade e a vida eterna, da qual também você está persuadido. Em todas as coisas que minha alma esteja com você, e também as minhas juntas, que você amou”. – Carta a Policarpo, Inácio de Antioquia, cap. 2.

 

As “juntas” acima mencionadas é uma referência ao corpo físico, conforme Hebreus 4:12. Nota-se também que Inácio associa as coisas visíveis ao corpo (“carne”), em contraste com as que são invisíveis e ligadas à alma (“espírito”), com a qual Deus pode se comunicar para fazer revelações ao homem.

 

“Fuja das artes do mal, e ainda mais que isso discurse em público sobre elas. Fala às minhas irmãs, que elas amem ao Senhor, e se contentem com seus maridos tanto na carne como no espírito”. – Carta a Policarpo, Inácio de Antioquia, cap. 5.

 

3) Aristides de Atenas (c. 125 d.C.)

 

“E aqueles que acreditavam nos homens do passado, que alguns deles eram deuses, eles também estavam muito enganados. Pois como o senhor mesmo o admite, ó Rei, o homem é constituído pelos quatro elementos e de uma alma e de um espírito (e, portanto, ele é chamado de microcosmo), e sem nenhuma dessas partes ele não poderia consistir. Ele tem um princípio e um fim, e ele nasce e morre. Mas Deus, como eu disse, não tem nenhuma dessas coisas em sua natureza, mas é incriado e imperecível. E, portanto, não é possível que estabeleçamos o homem para ser da natureza de Deus – homem, a quem, às vezes, quando olha para a alegria, vem o problema, e quando olha para o riso vem a ele choro – que é irascível e cobiçoso e invejoso, com outros defeitos também. E ele é destruído de muitas maneiras pelos elementos e também pelos animais”. – Apologia de Aristides, cap. 7 (veja o comentário sobre essa obra).

 

Os “quatro elementos” é uma referência à matéria, ou seja, aquilo que é físico. É um conceito advindo da ideia grega de que tudo o que existe no universo foi criado a partir de quatro elementos fundamentais (terra, água, ar e fogo). De modo que o comentário de Aristides se refere ao corpo, à alma e ao espírito, que juntos formam o homem, conforme 1 Tessalonicenses 5:23.

 

4) Barnabé (c. 130 d.C.)

 

“Portanto, cabe a nós, que nos inquirimos muito sobre os acontecimentos que estão por vir, procurar diligentemente nas coisas que podem nos salvar. Vamos, pois, fugir totalmente de todas as obras da iniqüidade, para que não se apoderem de nós. E odiemos o erro do tempo presente, para que possamos pôr nosso amor no mundo vindouro: não entreguemos as rédeas soltas à nossa alma, para que ela tenha o poder de correr com os pecadores e os ímpios, para que não sejamos como eles. O último tropeço (ou fonte de perigo) se aproxima, sobre o qual está escrito, como Enoque diz: ‘Porque para este fim o Senhor abreviou os tempos e os dias, para que o Seu Amado se apressasse, a herança’.” – Epístola de Barnabé, cap. 4.

 

Os pecados praticados neste mundo são executados através do corpo. Quando Barnabé diz que a alma deve ter o controle das “rédeas” e que estas não devem ser entregues soltas, significa que a alma deve comandar o corpo, e não o contrário. Veja mais sobre isso na citação de Matetes sobre a natureza da alma, transcrita no item “b”.

 

“Os profetas, tendo obtido a graça Dele, profetizaram a seu respeito. E Ele (desde que lhe convinha aparecer em carne), para que abolisse a morte, e revelasse a ressurreição dentre os mortos, suportou [o que e como Ele fez], a fim de cumprir a promessa feita aos pais, e pela preparação de um novo povo para Si, poderia mostrar, enquanto habitou na terra, e quando criou a humanidade, que Ele também os julgará”. – Epístola de Barnabé, cap. 5.

 

5) Matetes (c. 130 d.C.)

 

“Para resumir tudo em uma palavra – assim como a alma está no corpo, os cristãos estão no mundo. A alma está dispersa através de todos os membros do corpo, e os cristãos estão espalhados por todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mesmo assim não é do corpo; e os cristãos moram no mundo, mesmo assim não são do mundo”. – Carta de Matetes a Diogneto, trecho incompleto (leia o restante no link indicado, ou clique aqui para ler uma tradução completa em português), capítulo 6.

 

Entenda-se o “não é do corpo” como significando “não tem natureza física”.

 

6) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

“Pois o que é o homem, senão o animal razoável composto de corpo e alma? A alma é por si só homem? Não, mas a alma do homem. O corpo seria chamado homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, portanto, nenhum deles é por si só homem, mas o que é constituído pelos dois juntos é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, Ele não chamou uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo. . . . Como, então, [Jesus] ressuscitou os mortos? Suas almas ou seus corpos? Manifestamente a ambos. . . . A ressurreição é a ressurreição da carne que morreu. Pois o espírito não morre. A alma está no corpo, e sem alma não pode viver. O corpo, quando a alma o abandona, [já] não é [um ser vivo]. Porque o corpo é a casa da alma, e a alma, a casa do espírito”. – Sobre a Ressurreição, Justino de Roma, caps. 8, 9 e 10, trechos selecionados (leia o restante na página indicada no link), colchetes acrescentados.

 

7) Melitão de Sardes (? - c. 177 d.C.)

 

“Pois não há necessidade, para as pessoas de inteligência, de tentar provar, a partir dos feitos de Cristo subseqüentes ao Seu batismo, que Sua alma e Seu corpo, Sua natureza humana como a nossa, eram reais e não fantasma da imaginação. Pois as ações feitas por Cristo após Seu batismo, e especialmente Seus milagres, deram indicação e segurança ao mundo da Deidade escondido em Sua carne. Pois, sendo ao mesmo tempo Deidade e homem perfeito, Ele nos deu indícios seguros de Suas duas naturezas: de Sua Deidade, pelos Seus milagres durante os três anos que se passaram após Seu batismo; de Sua humanidade, durante os trinta períodos semelhantes que precederam Seu batismo, em que, por causa de Seu estado inferior em relação à carne, Ele ocultava os sinais de Sua Deidade, embora Ele fosse o verdadeiro Deus que existia antes de todas as eras”. – Sobre a natureza de Cristo, Fragmento VII, Melitão de Sardes.

 

8) Atenágoras de Atenas (?-180 d.C.)

 

“Mas, quando nos entregamos à nossa propriedade, eles conspiram contra nossos próprios corpos e almas, derramando sobre nós acusações por atacado de crimes dos quais somos inocentes mesmo em pensamento, mas que pertencem a esses tagarelas ociosos e a toda a tribo daqueles que são como eles”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 1.

 

9) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

“Mas se você disser: ‘Mostre-me seu Deus’, eu responderia: ‘Mostre-me a si mesmo, e eu lhe mostrarei meu Deus’. Mostre, então, que os olhos de sua alma são capazes de ver, e os ouvidos de seu coração podem ouvir, [da mesma maneira] pois como aqueles que olham com os olhos do corpo percebem objetos terrenos e o que concerne a esta vida, e discriminam ao mesmo tempo entre coisas que diferem, sejam luz ou escuridão, brancas ou negras, deformadas ou belas, bem proporcionadas e simétricas ou desproporcionadas e desajeitadas, ou monstruosas ou mutiladas. E como de igual modo também, pelo sentido do ouvido, discriminamos sons agudos, profundos ou doces, assim também é válido para os olhos da alma e para os ouvidos do coração, para que por eles sejamos capazes de contemplar a Deus. Pois Deus é visto por aqueles que estão capacitados a vê-Lo quando têm os olhos de sua alma abertos: porque todos têm olhos. Mas em alguns eles estão espalhados, e não vêem a luz do sol. Ainda não seguem [um caminho], porque o cego não vê que a luz do sol não brilha. Mas deixe os cegos culparem a si mesmos e aos seus próprios olhos. Assim também você, ó homem, tem os olhos da sua alma espalhados pelos seus pecados e pelas más obras. Como um espelho polido, assim deve o homem ter sua alma pura. Quando há ferrugem no espelho, não é possível que o rosto de um homem seja visto no espelho. Assim também quando há pecado no homem, tal homem não pode contemplar a Deus. Portanto, mostre-me a si mesmo, se você não é um adúltero, nem um fornicador, ou um ladrão, ou um assaltante, ou um arrogante. Se você não corrompe rapazes. Se você não é insolente, ou caluniador, ou impulsivo, ou invejoso, ou orgulhoso, ou desdenhoso. Se você não é um arruaceiro, ou cobiçoso, ou desobediente aos pais. E se você não vende seus filhos. Pois, para aqueles que fazem estas coisas, Deus não é manifesto, a menos que primeiro tenham se purificado de toda impureza. Todas estas coisas, então, envolvem você na escuridão, como quando um defluxo* translúcido sobre os olhos impede a contemplação da luz do sol, assim também as iniqüidades, no homem, o envolvem nas trevas, para que você não possa ver a Deus”. – Para Autólico, Livro I, Teófilo de Antioquia, cap. 2, colchetes acrescentados.

 

* “Defluxo” era um termo usado nos tempos antigos para se referir às fases da lua.

 

“Mas alguém nos dirá: O homem foi feito pela natureza mortal? Certamente não. Ele era, então, imortal? Também não afirmamos isso. Mas dir-se-á: ‘Ele era, então, nada?’ Nem mesmo isso atinge a definição. Ele era por natureza nem mortal nem imortal. Pois, se Ele o tivesse feito imortal desde o princípio, Ele o teria feito Deus. Novamente, se Ele o tivesse feito mortal, Deus pareceria ser a causa de sua morte. Nem, então, imortal nem mortal Ele o fez, mas, como dissemos acima, capaz de ambos. De modo que, se ele se inclinasse às coisas da imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia como recompensa da imortalidade e se tornaria [um] deus. Mas se, por outro lado, ele se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, ele próprio deveria ser a causa da morte para si mesmo. Pois Deus fez o homem livre e com poder sobre si mesmo. Isso, então, que o homem trouxe sobre si mesmo por descuido e desobediência, este Deus agora lhe concede como um dom através de Sua própria filantropia e piedade, quando os homens lhe obedecem. Pois, como o homem, desobedecendo, atraiu a morte sobre si próprio, assim, obedecendo à vontade de Deus, aquele que deseja é capaz de adquirir para si a vida eterna. Porque Deus nos deu uma lei e mandamentos sagrados. E todo aquele que os guarda pode ser salvo, e, obtendo a ressurreição, pode herdar a incorrupção”. – Para Autólico, Livro II, Teófilo de Antioquia, cap. 27, colchetes acrescentados.

 

No Novo Testamento, o termo “corrupção” quando associado à morte se refere à decomposição do corpo físico em uma sepultura, efeito que não atinge a alma, pois ela desce para o Hades. Esse contraste está implícito nas palavras de Melitão de Sardes, que está citado numa seção mais adiante, que disse em seu tratado sobre a fé, em referência a Jesus, o seguinte: “Aquele que foi sepultado na terra. Aquele que ressuscitou do lugar dos mortos”. A profecia bíblica tinha previsto que Jesus não veria a corrupção e que sua alma seria resgatada do Hades: “Minha carne residirá em esperança; porque não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que aquele que te é leal veja a corrupção”. – Atos 2:23-28; Salmo 16:9,10.

 

A expressão “se tornaria um deus’, usada por Teófilo, é a tradução do grego γένηται θεός (ginomai theos), que também poderia ser vertida por “se tornaria divino” ou “se tornaria Deus”. Clemente de Alexandria também apresenta essa “deificação” do homem e usa a mesma expressão em uma de suas apologias (γένηται θεός, Protrepticus 1:14):

 

“Mas se você não acredita nos profetas, mas supôs que os homens e o fogo são um mito [referência ao fogo que apareceu com uma coluna de fumaça na saída dos hebreus do Egito], o próprio Senhor lhe falará, que ‘estando na forma de Deus, não considerou um roubo ser igual a Deus, mas humilhou-se a Si mesmo’ [Filipenses 2:6,7], Ele, o Deus misericordioso, se esforçando para salvar o homem. E agora a própria Palavra claramente fala a vocês, envergonhando a sua incredulidade. Sim, eu digo, a Palavra de Deus se fez homem, para que aprendais do homem como o homem pode tornar-se um deus. Não é então monstruoso, meus amigos, que enquanto Deus está incessantemente nos exortando à virtude, devamos desprezar Sua bondade e rejeitar a salvação?”. – Exortação aos Pagãos, cap. 1, de Clemente de Alexandria, c. 198 d.C., colchetes acrescentados.

 

Comentando sobre a teologia dos Pais da Igreja, em especial Teófilo e Taciano, o erudito Adolf Harnack mencionou esse conceito sobre o homem tornar-se um deus ao receber a imortalidade:

 

“O esquema dogmático dos apologistas pode, portanto, ser dividido em três partes componentes. Estes são: (A) Cristianismo visto como cosmologia monoteísta (Deus como o Pai do mundo); (B) o cristianismo como a moralidade e a justiça mais elevadas (Deus como o juiz que recompensa o bem e castiga a iniqüidade); (C) O Cristianismo considerado como redenção (Deus como o Bom que ajuda o homem e o resgata do poder dos demônios)... Seu claro sistema de moralidade está em firmar-se com sua cosmologia relativamente simples. Ao dar à razão e à liberdade do homem uma possessão inalienável, Deus o destinou para a incorruptibilidade (ἀθανασία, ἀφθαρσία), pela realização de que ele devia tornar-se um ser semelhante a Deus. Para o dom da imperecibilidade, Deus unia a condição de preservar o homem τὰ τῆς ἀθανασίας (‘as coisas da imortalidade’), ou seja, preservar o conhecimento de Deus e manter uma caminhada santa em imitação da perfeição divina. Essa demanda é tão natural quanto justa; Além disso, ninguém pode cumpri-la no lugar do homem, pois uma característica essencial da virtude é a sua ação livre e independente. O homem deve, portanto, determinar-se à virtude pelo conhecimento de que só assim é obediente ao Pai do mundo e capaz de contar com o dom da imortalidade”. – History of Dogma, vol. II, de Adolf Harnack, 1901, pp. 202-204.

 

10) Irineu de Lyon (120-202 d.C.)

 

“Agora, portanto, por meio do que já foi gerado há muito tempo, a Palavra tem atribuído uma interpretação. Estamos convencidos de que existem [por assim dizer] dois homens em cada um de nós. Um é confessadamente uma coisa escondida, enquanto o outro se destaca. Um é corpóreo, o outro espiritual, embora a geração de ambos possa ser comparada à dos gêmeos. Pois ambos são revelados ao mundo como um só, pois a alma não era anterior ao corpo em sua essência, nem, em relação à sua formação, o corpo precedeu a alma; mas ambos foram produzidos de uma só vez, e seu alimento consiste em pureza e doçura”. – Irineu de Lyon, Fragmento 49.

 

b) A natureza da alma

 

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1) Matetes (c. 130 d.C.)

 

A alma invisível é guardada pelo corpo visível, e os cristãos são conhecidos por realmente estarem no mundo, mas sua piedade permanece invisível. A carne odeia a alma, e guerreia contra ela, mas ela mesma não está sofrendo nenhuma injúria, porque está guardada de usufruir deleites; o mundo também odeia os cristãos, mas não é injuriado de volta, porque eles renunciam os deleites [mundanos]. A alma ama a carne que a odeia, e [ama também] os membros; da mesma maneira os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está aprisionada no corpo, mesmo assim preserva o corpo inteiro, e os cristãos estão confinados no mundo como que numa prisão, e mesmo assim eles preservam o mundo. A alma imortal vive em uma tenda mortal, e os cristãos vivem quais residentes forasteiros em [um mundo] corruptível, buscando alcançar uma morada incorruptível nos céus. A alma, até quando mal suprida com comida e bebida, se torna melhor; da mesma maneira, os cristãos mesmo sujeitos dia após dia a sofrimentos, crescem em número. Deus os tem encarregado desta posição ilustre, a qual era ilícito a eles abandonar”. – Carta de Matetes a Diogneto, capítulo 6, trecho incompleto (leia o restante no link, ou clique aqui para ler uma tradução completa em português), colchetes acrescentados.

 

Esse “ódio” que a carne tem pela alma foi indicado pelos apóstolos Pedro e Paulo, no Novo Testamento:

 

“Amados, exorto-vos como a forasteiros e residentes temporários a que vos abstenhais dos desejos carnais, que são os que travam um combate contra a alma”. – 1 Pedro 2:11, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

“Quando estávamos na carne, as paixões pecaminosas despertadas pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarmos para a morte... Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado... não faço o que quero... Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que faço, mas sim o pecado que em mim habita. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal... Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?”. – Romanos 7:5,14, 15, 21, 23, 24.

 

Quanto à imortalidade da alma, ela só é imortal quando comparada ao corpo, pois a alma é invisível e não está sujeita ao que atenta contra a vida do corpo, conforme Jesus disse:

 

“Não temais aos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer na geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28.

 

No entanto, a alma não é indestrutível e sem princípio (existindo desde a eternidade), conforme pensavam os gregos, pois Deus tem o poder para fazê-la perecer, lançando-a na Geena, lugar que se convencionou chamar de “inferno”. Além disso, é a carne que odeia a alma, o contrário do que diziam os gregos (que a alma odeia o corpo). A alma ama o corpo, até mesmo porque essa oposição corpo versus alma e o abandono do corpo são temporários, já que os dois serão juntados na ressurreição geral dos mortos, e ficarão para sempre juntos.

 

2) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

Diálogo (com o judeu Trifão):

 

O homem velho: Esses filósofos nada sabem sobre essas coisas, porque não podem dizer o que é uma alma.


Justino: Não parece assim.

 

O homem velho: Nem deveria ser chamada de imortal, pois se é imortal, é claramente não gerada.

 

Justino: De acordo com os assim chamados platonistas ela é imortal e não gerada.

 

O homem velho: Você diz que o mundo também é não gerado?

 

Justino: Alguns dizem isso. No entanto, não concordo com eles.

 

O homem velho: Você está certo, por que razão há um para supor que um corpo tão sólido, possuindo resistência, composto, mutável, decadente e renovado todos os dias, não surgiu de alguma causa? Mas se o mundo é gerado, as almas também são necessariamente geradas, e talvez em algum momento elas não existissem, pois foram feitas por causa de homens e outras criaturas vivas, se você disser que foram geradas inteiramente separadas, e não juntamente com seus respectivos corpos.

 

Justino: Isso parece estar correto.

 

O homem velho: Elas não são, então, imortais?

 

Justino: Não, desde que o mundo apareceu a nós para sermos gerados.

 

O homem velho: Mas eu não digo, de fato, que todas as almas morrem, porque seria verdadeiramente uma grande sorte para os maus. E o que sucede então? As almas dos piedosos permanecem em um lugar melhor, enquanto as dos injustos e maus estão em um pior, esperando o momento do julgamento. Assim, alguns que pareceram dignos de Deus nunca morrem, mas outros são punidos, desde que Deus queira que existam e sejam punidos.

 

Justino: O que você diz é, então, de uma natureza semelhante àquela que Platão em Timaeus insinua sobre o mundo, quando diz que está realmente sujeito à decadência, na medida em que foi criado, mas que não será dissolvido nem encontrará o destino da morte por causa da vontade de Deus? Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e geralmente de todas as coisas? Para aquelas coisas que existem depois de Deus, ou existirão em qualquer momento, estas terão a natureza da decadência, e são tais que podem ser apagadas e cessar de existir, pois só Deus é incorruptível e não criado, e, portanto, Ele é Deus, mas todas as outras coisas após ele são criadas e corruptíveis. Por isso as almas tanto morrem como são punidas, pois, se fossem não geradas, não pecariam, nem seriam cheias de loucura, nem seriam covardes, e novamente ferozes. Nem se converteriam voluntariamente em porcos, e serpentes, e cães, e não seria apenas para obrigá-las, se elas fossem não criadas. Pois o que é não gerado é semelhante a, igual e o mesmo do que é não gerado, e nem no poder nem na honra um deve ser preferido ao outro*, e, portanto, não há muitas coisas que são não geradas: porque se houvesse alguma diferença entre eles, você não iria descobrir a causa da diferença, embora você buscasse por isto. Mas depois de deixar a mente sempre a vaguear para o infinito, você, finalmente, cansado, tomaria a sua posição sobre o não gerado, e diria que esta é a Causa de todos. Será que tal coisa escapou à observação de Platão e Pitágoras, aqueles sábios, que foram como uma muralha e fortaleza da filosofia para nós?” – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 5.

 

* Provavelmente o que Justino está querendo dizer aqui é que não podem existir dois seres que jamais foram criados, pois teriam exata igualdade, não havendo, portanto, apenas um Deus, mas sim dois, ou tantos quantos existissem nessa condição “não gerada”, de eternidade a eternidade.

 

“Não me importa se Platão ou Pitágoras, ou, em suma, qualquer outro homem detiveram tais opiniões. Porque a verdade é assim, e você perceberia isso. A alma seguramente é ou tem vida. Se, então, é a vida, isso faria com que outra coisa, e não ela mesma, vivesse, mesmo que o movimento movesse algo mais que ela mesma. Agora, que a alma vive ninguém negaria. Mas se ela vive, ela não vive como sendo vida, mas como participante da vida. Mas o que participa de qualquer coisa, é diferente daquele de que participa. Ora, a alma participa da vida, porque Deus quer que ela viva. Assim, então, nem sequer participará [da vida] quando Deus não quiser que ela viva. Pois viver não é seu atributo, como é de Deus. Mas como o homem não vive para sempre, e a alma não está para sempre unida ao corpo, pois, sempre que esta harmonia deva ser quebrada a alma deixa o corpo, e o homem não existe mais. Mesmo assim, sempre que a alma deva cessar de existir, o espírito da vida é removido dela, e não há mais alma, mas ela volta para o lugar de onde foi tomada”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 6.

 

3) Taciano, o Assírio (110-172 d.C.)

 

“Reconhecemos duas variedades de espírito, uma das quais é chamada de alma, mas a outra é maior que a alma, uma imagem e semelhança de Deus: ambas existiam nos primeiros homens, que em certo sentido poderiam ser materiais, e em outro superior à matéria”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 12, citação abreviada (para conferir o restante, clique no link indicado).

 

A alma não é em si mesma imortal, ó gregos, mas mortal. No entanto, é possível que ela não morra. Se, de fato, não conhece a verdade ela morre e se dissolve com o corpo, mas ressurge finalmente no fim do mundo com o corpo, recebendo a morte por castigo na imortalidade. Mas, novamente, se ela adquire o conhecimento de Deus, ela não morre, embora por algum tempo seja dissolvida. Em si, é escuridão, e não há nada de luminoso nela. E este é o significado do ditado: ‘As trevas não compreendem a luz’. Pois a alma não preserva o espírito, mas é preservada por ele, e a luz compreende as trevas. O Logos, na verdade, é a luz de Deus, mas a alma ignorante é escuridão. Por isso, se continua solitária [sem o Logos ou o espírito], vai para baixo em direção à matéria e morre com a carne; mas, se entra em união com o Espírito Divino, já não está desamparada, mas ascende às regiões para onde o Espírito a guia: porque a morada do espírito está acima, mas a origem da alma é de baixo. Agora, no princípio, o espírito era um companheiro constante da alma, mas o espírito a abandonou porque não estava disposta a seguir. No entanto, conservando como se fosse uma centelha de seu poder, embora incapaz por causa da separação de discernir o perfeito, enquanto procurava por Deus, formou a si mesma em sua errância muitos deuses, seguindo os sofismas dos demônios. Mas o Espírito de Deus não está com todos, mas, tomando a sua morada com aqueles que vivem justamente, e intimamente combinando com a alma, por profecias anunciou coisas ocultas para outras almas. E as almas que são obedientes à sabedoria têm atraído para si o espírito cognato. Mas os desobedientes, rejeitando o ministro do Deus sofredor, mostraram-se combatentes contra Deus, ao invés de Seus adoradores”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 13, colchetes acrescentados.

 

“Mas, além disso, isso nos faz buscar o que uma vez tivemos, mas perdemos, unir a alma com o Espírito Santo e nos esforçar depois por essa união com Deus. A alma humana consiste em muitas partes, e não é simples; ela é composta, de modo a se manifestar através do corpo; pois nem ela poderia aparecer por si mesma sem o corpo, nem a carne ressuscitar sem a alma. O homem não é, como dizem os filósofos, apenas um animal racional, capaz de compreender e de conhecer, pois, de acordo com eles, até mesmo as criaturas irracionais parecem possuídas de compreensão e conhecimento. Mas somente o homem é a imagem e semelhança de Deus, e quero dizer pelo homem, não aquele que executa ações semelhantes às dos animais, mas alguém que avançou muito além da mera humanidade - para o próprio Deus. Esta questão discutimos mais minuciosamente no tratado sobre os animais. Mas o principal ponto a ser falado agora, é o que se pretende pela imagem e semelhança de Deus. O que não pode ser comparado não é outro senão o ser abstrato. Mas o que é comparado não é outro senão o que é semelhante. O Deus perfeito é sem carne, mas o homem é carne. O laço da carne é a alma. Onde a alma fica é a carne. Tal é a natureza da constituição do homem. E, se é como um templo, Deus tem prazer em habitar nele pelo espírito, Seu representante. Mas, se não for tal qual uma habitação, o homem supera as feras selvagens somente na língua articulada - em outros aspectos seu modo de vida é como o delas, como aquele que não é uma semelhança de Deus. Mas nenhum dos demônios possui carne. Sua estrutura é espiritual, como a do fogo ou do ar. E os demônios são facilmente vistos somente por aqueles que o Espírito de Deus habita e fortalece os corpos, não pelos outros [indivíduos] - quero dizer, aqueles que possuem só a alma [mas não o Espírito de Deus]. Porque o inferior não tem a capacidade de perceber o superior. Por isso a natureza dos demônios não tem lugar para arrependimento, porque eles são o reflexo da matéria e da maldade. Mas a matéria desejava exercer o domínio sobre a alma, e de acordo com seu livre arbítrio estes [os demônios?] deram leis de morte aos homens. Mas os homens, depois da perda da imortalidade, conquistaram a morte submetendo-se à morte na fé. E por arrependimento foi-lhes dado um chamado, de acordo com a palavra que diz: ‘Desde que eles foram feitos um pouco menor do que os anjos.’ E, para cada um que foi conquistado, é possível novamente conquistar, se ele rejeita a condição que traz a morte. E o que isso é pode ser facilmente visto por homens que anseiam pela imortalidade”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 15, colchetes acrescentados.

 

4) Melitão de Sardes (? - c. 177 d.C.)

 

“Por isso aconselho você a conhecer a si mesmo e a conhecer a Deus. Pois você compreende como há dentro de você o que é chamado de alma – por ela o olho vê, por ela o ouvido ouve, por ela a boca fala. E como ela faz uso de todo o corpo, e como, sempre que Ele [Deus] deseja remover a alma do corpo, ele [o corpo] cai e perece. Desse modo, que existe dentro de si mesmo e é invisível, compreenda como Deus também move tudo pelo seu poder, como o corpo [é movido pela alma]. E que, sempre que lhe agrada retirar Seu poder, todo o mundo também, juntamente com o corpo, cairá para se destruir e perecer”. – Discurso a Antonino César, Melitão de Sardes (ler uma informação sobre esse discurso no comentário sobre o autor), colchetes acrescentados.

 

“Por esta razão, o Pai enviou o Seu Filho do céu sem uma forma corporal, para que, quando Ele se revestisse de um corpo por meio do ventre da virgem, e nascesse homem, Ele pudesse salvar o homem e reunir aqueles membros Dele que a morte tinha dispersado quando ele dividiu o homem”. – Sobre a alma e o corpo (fragmento), Melitão de Sardes.

 

Não era intenção do Criador que o homem morresse e se dividisse na morte, indo o corpo para o solo e a alma para o Hades, o mundo dos mortos. No entanto, pela sentença divina devido ao pecado cometido, tal divisão passou a acontecer. Mas na ressurreição dos mortos todas as partes componentes do homem são reunidas novamente e ele se torna para sempre a unidade intencionada originalmente por Deus.

 

Em um possível desdobramento dessa mesma ideia de divisão, a Bíblia também diz que na morte o espírito do homem volta para Deus, de modo que, na verdade, a divisão seria tripla e não apenas dupla (corpo e alma). Talvez a inclusão do espírito nessa outra descrição tenha a ver com o que a Bíblia hebraica diz sobre os mortos, quando os chama de “sombras” indigentes no Seol, o mundo triste no subterrâneo da Terra. Nesse lugar os mortos possuem feições fantasmagóricas, estão enfraquecidos e têm suas faculdades cognitivas comprometidas. Descrever a situação deles dessa maneira era comum nas nações semitas, a exemplo dos hebreus e babilônios.* E visto que a palavra “espírito” também possui a acepção de mente ou pensamentos, não terem os mortos a mesma inteligência e percepções de quando eram seres humanos implicaria em dizer que eles não possuem mais o espírito que tinham antes. O espírito foi para as mãos de Deus e só será devolvido na ressurreição, quando os três estarão novamente juntos: o corpo, a alma e o espírito. – Salmo 146:4; Eclesiastes 12:7; Isaías 14:9-15; 1 Tessalonicenses 5:23.

 

* Para mais detalhes queira ler o capítulo 14 do meu livro “Sobre o Aniquilacionismo e a Imortalidade da Alma”.

 

5) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

“Pois, como a alma no homem não é vista, sendo invisível aos homens, mas percebida através do movimento do corpo, Deus não pode ser visto pelos olhos humanos, mas é visto e percebido por Sua providência e obras. Pois, da mesma maneira que qualquer pessoa, quando vê um navio no mar, armado e em vela, e se dirigindo para o porto, sem dúvida, deduzirá que há um timoneiro pelo qual ela está sendo guiada. Por isso devemos perceber que Deus é o governador de todo o universo, embora Ele não seja visível aos olhos da carne, já que Ele é incompreensível. Pois se um homem não pode olhar para o sol por causa do seu calor e poder excedentes, embora seja um corpo celeste muito pequeno, como um homem mortal não será muito mais incapaz de se defrontar com a glória de Deus, que é indescritível? Pois tal como a romã, com a casca que a contém, que tem dentro dela muitas células e compartimentos que são separados por tecidos, e também tem muitas sementes habitando nela, assim também toda a criação é contida pelo espírito de Deus, e o espírito que a contém é juntamente com a criação contida pela mão de Deus. Como, por conseguinte, a semente da romã, habitando dentro dela, não pode ver o que está fora da casca, [pois] ela mesma está dentro. Assim também o homem, que juntamente com toda a criação estão fechados pela mão de Deus, não pode ver a Deus. E mais uma vez [em outra comparação], acredita-se que exista um rei terreno, embora ele não seja visto por todos, porque ele é reconhecido por suas leis e ordenanças, e autoridades, e forças, e estátuas. E você não está disposto a admitir que Deus deva ser reconhecido por Suas obras e ações poderosas?”. – Para Autólico, Livro I, Teófilo de Antioquia, cap. 5, colchetes acrescentados.

 

“Deus, tendo assim completado no sexto dia os céus, e a terra, e o mar, e tudo o que neles há, descansou no sétimo dia de todas as Suas obras que Ele fez. Então a Sagrada Escritura faz um resumo com estas palavras: ‘Este é o livro da geração dos céus e da terra, quando foram criados, no dia em que o Senhor fez os céus e a terra, e toda coisa verde do campo, antes que fosse feita, e toda a erva do campo antes dela crescer, porque Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia um homem para cultivar a terra’. [Gênesis 2: 4-5] Por isso Ele nos esclarece que toda a terra era naquele tempo regada por uma fonte divina, e não tinha necessidade de que o homem a cultivasse. Mas a terra produziu todas as coisas espontaneamente pelo mandamento de Deus, para que o homem não se cansasse de cultivá-la. Mas para que a criação do homem pudesse ser esclarecida, de modo que não parecesse haver um problema insolúvel existente entre os homens, já que Deus havia dito: ‘Façamos o homem’, e uma vez que Sua criação ainda não estava claramente relacionada, a Escritura nos ensina, dizendo: ‘E uma fonte subiu da terra, e regou a face de toda a terra, e Deus fez o homem do pó da terra e soprou no seu rosto o sopro da vida, e o homem tornou-se uma alma vivente.’ Por isso também a alma é chamada de imortal pela maioria das pessoas. E depois da formação do homem, Deus escolheu para ele uma região entre os lugares do Oriente, excelente para a luz, brilhante com uma atmosfera muito brilhante, abundante das melhores plantas, e nela colocou o homem”. – Para Autólico, Livro II, Teófilo de Antioquia, cap. 19.

 

6) Irineu de Lyon (120-202 d.C.)

 

“A vontade e a energia de Deus é a causa efetiva e previsora de cada tempo, lugar e idade, e de toda natureza. A vontade é a razão da alma intelectual, que (a razão) está dentro de nós, na medida em que é a faculdade que lhe pertence, dotada de liberdade de ação. A vontade é a mente que deseja [algum objeto], e um apetite possuído de inteligência, anseio por aquela coisa que é desejada”. – Irineu de Lyon, Fragmento 5.

 

“Agora, portanto, por meio do que já foi gerado há muito tempo, a Palavra tem atribuído uma interpretação. Estamos convencidos de que existem [por assim dizer] dois homens em cada um de nós. Um é confessadamente uma coisa escondida, enquanto o outro se destaca. Um é corpóreo, o outro espiritual, embora a geração de ambos possa ser comparada à dos gêmeos. Pois ambos são revelados ao mundo como um só, pois a alma não era anterior ao corpo em sua essência, nem, em relação à sua formação, o corpo precedeu a alma; mas ambos foram produzidos de uma só vez, e seu alimento consiste em pureza e doçura”. – Irineu de Lyon, Fragmento 49.

 

c) Visões, vida fora do corpo físico, expectativas sobre a morte, ressurreição e recompensa dos justos

 

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1) Clemente de Roma (30-100 d.C.)

 

“Mas para não nos determos em exemplos antigos, vamos aos mais recentes heróis espirituais. Tomemos os exemplos nobres fornecidos em nossa própria geração. Por inveja e ciúme, as maiores e mais justas colunas [da igreja] foram perseguidas e mortas. Coloquemos diante dos nossos olhos os ilustres apóstolos. Pedro, por causa de inveja injusta, não suportou nem um nem dois, mas muitos labores, e quando, por fim, sofreu o martírio, partiu para o lugar de glória que lhe era devido. Por causa da inveja, Paulo também obteve a recompensa da perseverança, depois de ter sido sete vezes lançado em cativeiro, obrigado a fugir e apedrejado. Depois de pregar tanto no Oriente como no Ocidente, ganhou a ilustre reputação devido à sua fé, tendo ensinado a justiça ao mundo inteiro e chegado ao limite extremo do Ocidente e sofrido o martírio sob os magistrados. Assim foi removido do mundo, e entrou no lugar santo, tendo provado ser um exemplo impressionante de paciência”. – Carta aos Coríntios, Clemente de Roma, cap. 5.

 

Para ilustrar a ressurreição, no capítulo 26 de sua carta Clemente mencionou o mito da Fênix. Para ler um comentário sobre isso, veja a página 232 do meu livro “Obras Teológicas e de Referência Apoiam o Aniquilacionismo?”.

 

2) Inácio de Antioquia (30-107 d.C.)

 

“Pois, visto que vocês estão sujeitos ao bispo assim como estão a Jesus Cristo, vocês me parecem que não vivem segundo a maneira dos homens, mas de acordo com Jesus Cristo, que morreu por nós, por crerem em Sua morte, vocês podem escapar da morte”. – Carta aos Tralianos, Inácio de Antioquia, cap. 2.

 

Isso está de acordo com o que o próprio Jesus Cristo disse:

 

“Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?”. – João 11:25,26.

 

A seguir, mais trechos de Inácio:

 

“Escrevo às Igrejas, e impressiono-as todas, que morrerei voluntariamente por Deus, a menos que me impeçam. Peço-lhes que não mostrem uma boa vontade despropositada para comigo. Permitam-me tornar-me alimento para os animais selvagens, através de cuja instrumentalidade me será concedido alcançar a Deus. Eu sou o trigo de Deus, e me deixarei ser moído pelos dentes dos animais selvagens, para que eu possa ser achado o pão puro de Cristo. Seduzirei um pouco os animais selvagens, para que se tornem meu túmulo, e não possam deixar nada de meu corpo, para que, quando eu tiver adormecido [na morte], eu não possa ser nenhum problema para qualquer um. Então [depois da morte] eu serei verdadeiramente um discípulo de Cristo, quando o mundo não me verá tanto quanto o meu corpo. Rogai a Cristo por mim, para que por estes instrumentos eu seja achado um sacrifício [a Deus]. Eu não emito mandamentos para vocês, como Pedro e Paulo [faziam]. Eles eram apóstolos, eu sou apenas um condenado. Eles eram livres, enquanto eu sou, até agora, um servo. Mas quando eu sofrer, serei o homem liberto de Jesus, e ressuscitarei emancipado nele. E agora, sendo um prisioneiro, aprendo a não desejar nada mundano ou vaidoso”. – Carta aos Romanos, Inácio de Antioquia, cap. 4, colchetes acrescentados.

 

“Todos os prazeres do mundo, e todos os reinos desta terra, em nada me beneficiarão. É melhor para mim morrer em favor de Jesus Cristo do que reinar sobre todos os confins da terra. ‘Pois que aproveitará o homem, se ganhar o mundo inteiro, mas perder a própria alma?’ Procuro aquele que morreu por nós; Aquele que desejo, que ressuscitou por nós. Este é o ganho que está reservado para mim. Perdoem-me, irmãos: não me impeçam de viver, não desejem me manter em estado de morte, e enquanto eu desejo pertencer a Deus, não me entreguem ao mundo. Permitam-me obter luz pura: quando eu tiver ido para lá, serei realmente um homem de Deus. Permitam que eu seja um imitador da paixão do meu Deus. Se alguém o tem dentro de si mesmo, considere o que eu desejo, e deixe de ter simpatia comigo, sabendo o quanto estou restrito”. – Carta aos Romanos, Inácio de Antioquia, cap. 6.

 

“Pois, embora eu esteja vivo enquanto escrevo para vocês, estou ansioso por morrer. Meu amor foi crucificado, e não há fogo em mim desejando ser alimentado, mas há dentro de mim uma água que vive e fala, dizendo-me interiormente: Vem ao Pai. Não tenho prazer no alimento corruptível, nem nos prazeres desta vida. Eu desejo o pão de Deus, o pão celestial, o pão da vida, que é a carne de Jesus Cristo, o Filho de Deus, que se tornou depois da descendência de Davi e Abraão. E desejo a bebida de Deus, isto é, o Seu sangue, que é amor incorruptível e vida eterna”. – Carta aos Romanos, Inácio de Antioquia, cap. 7.

 

“O amor dos esmirnianos e dos efésios vos saúdam. Lembrem-se em suas orações da Igreja que está na Síria, da qual também eu não sou digno de receber meu sobrenome, sendo o último deles. Despeçam-se em Jesus Cristo, enquanto vocês continuam sujeitos ao bispo, como ao comando [de Deus], e de maneira semelhante ao presbitério. E, todos os homens, amem uns aos outros com um coração indiviso. Deixem o meu espírito ser santificado pelo de vocês, não só agora, mas também quando eu alcançar a Deus, pois ainda estou exposto ao perigo. Mas o Pai é fiel em Jesus Cristo para cumprir tanto a minha como as petições de vocês: em quem vocês poderão ser achados irrepreensíveis”. – Carta aos Tralianos, Inácio de Antioquia, cap. 13.

 

Conforme visto na seção 1, todas essas declarações que Inácio faz sobre a morte estão dentro do contexto de seu iminente martírio, pois sua execução já havia sido determinada pelo governo imperial. E sobre ela seus amigos relataram o seguinte:

 

“Ora, estas coisas aconteceram no décimo terceiro dia antes das Calendas de janeiro, isto é, no dia 20 de dezembro, Sura e Senecio sendo então os cônsules dos romanos pela segunda vez. Tendo sido testemunhas oculares dessas coisas, e passando a noite inteira em lágrimas dentro da casa, e tendo rogado ao Senhor, com joelhos dobrados e muita oração, que Ele nos daria, aos fracos, a plena segurança com respeito às coisas que foram feitas, aconteceu que [depois da morte de Inácio], ao cairmos num breve sono, alguns de nós vimos de repente o abençoado Inácio de pé ao nosso lado e abraçando-nos, enquanto outros o observavam orando por nós, e outros ainda o viam cair com suor, como se Ele tivesse acabado de sair do seu grande trabalho, e de pé pelo Senhor. Quando, pois, com grande alegria testemunhamos essas coisas e comparamos nossas diversas visões, cantamos louvores a Deus, que dá todas as coisas boas, e expressamos nosso senso de felicidade do santo [mártir]; E agora que demos a conhecer tanto o dia como o tempo [quando essas coisas aconteceram], reunindo-nos de acordo com o momento do seu martírio, fomos aptos a ter comunhão com o campeão e nobre mártir de Cristo, que pisou o diabo e aperfeiçoou o caminho que, por amor a Cristo, desejara em Cristo Jesus nosso Senhor, por quem, e com quem, seja glória e poder ao Pai, com o Espírito Santo, para sempre! Amém”. – O Martírio de Inácio, cap. 7, c. 120 d.C., colchetes acrescentados.

 

3) Matetes (c. 130 d.C.)

 

“Pois os cristãos não se distinguem dos outros homens, nem por país, nem por língua, nem pelos costumes que observam. Pois eles não habitam em cidades próprias, nem empregam uma forma peculiar de linguagem, nem conduzem uma vida marcada por qualquer singularidade. O curso de conduta que seguem não foi concebido por qualquer especulação ou deliberação de homens inquisidores. Nem eles, como alguns, proclamam-se os defensores de quaisquer doutrinas meramente humanas. Mas, habitando tanto as cidades gregas quanto as bárbaras, segundo o destino de cada um deles, e seguindo os costumes dos cidadãos em relação à roupa, à comida e ao resto de sua conduta comum, eles demonstram confessamente uma impressionante maneira de viver. Eles moram em seus próprios países, mas simplesmente como residentes temporários. Como cidadãos, eles compartilham de todas as coisas com os outros, e ainda suportam todas as coisas como se fossem estrangeiros. Toda terra estrangeira é para eles como sua terra natal, e toda terra de seu nascimento como uma terra de estranhos. Eles se casam, como todos os outros. Eles geram filhos, mas não destroem a sua prole. Eles têm uma mesa comum, mas não uma cama comum. Eles estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Eles passam os dias na terra, mas são cidadãos do céu. Eles obedecem às leis prescritas, e ao mesmo tempo superam as leis por suas vidas. Eles amam a todos os homens e são perseguidos por todos. Eles são desconhecidos e condenados. Eles são mortos e restaurados à vida. Eles são pobres, mas tornam muitos ricos. Eles estão em falta de todas as coisas, e ainda abundam de todas elas. Eles são desonrados, e, no entanto, em sua própria desonra são glorificados. Eles são mal falados, mas são justificados. São injuriados e abençoados; eles são insultados, e pagam o insulto com honra. Eles fazem o bem, mas são punidos como malfeitores. Quando castigados, regozijam-se como vivificados. Eles são atacados pelos judeus bem como pelos estrangeiros, e são perseguidos pelos gregos. Contudo aqueles que os odeiam são incapazes de atribuir qualquer razão para seu ódio”. – Carta de Matetes a Diogneto, cap. 20.

 

4) Pápias de Hierápolis (70 - 155 d.C.)

 

“Assim como os presbíteros dizem, então aqueles que são considerados dignos de uma morada no céu devem ir para lá, outros irão usufruir dos prazeres do Paraíso, e outros devem possuir o esplendor da cidade [provável referência à Nova Jerusalém, de Apocalipse 3:12]; porque em todos os lugares o Salvador será visto. . . . Mas que há esta distinção entre a habitação de quem produz cem vezes, e de quem produz sessenta vezes, e de quem produz trinta vezes; para os primeiros eles serão levados para os céus, a segunda classe irá habitar no Paraíso, e a última vai habitar a cidade; e que por esse motivo o Senhor disse: ‘Na casa de meu Pai há muitas moradas’, porque todas as coisas pertencem a Deus, que fornece a todos uma morada adequada. . . . Os presbíteros, os discípulos dos apóstolos, dizem que esta é a gradação e disposição para aqueles que estão salvos, e que eles avançam através de passos desta natureza; e que, além disso, eles ascendem, pelo Espírito ao Filho, e através do Filho para o Pai. E que, no devido tempo, o Filho cederá Sua obra ao Pai, como diz o apóstolo: ‘Pois deve reinar até que tenha posto todos os inimigos debaixo de seus pés.’ O último inimigo que será destruído é a morte. ‘Pois nos tempos do reino o justo que está sobre a terra se esquece de morrer.’ Mas quando Ele diz que todas as coisas são colocadas sob Ele, é manifesto que Ele é excluído, que colocou todas as coisas sob Ele. E quando todas as coisas forem subjugadas a Ele, então o Filho também estará sujeito Àquele que colocou todas as coisas sob Ele, para que Deus seja tudo em todos’.”. – Pápias de Hierápolis, Fragmentos 5, trecho abreviado (clique no link para vê-lo completo), colchetes acrescentados.

 

5) Policarpo de Esmirna (65-155 d.C.)

 

“ ‘Portanto, cingindo os vossos lombos’, ‘servindo ao Senhor com temor’ e verdade, como aqueles que abandonaram a vã e vazia conversa e erro da multidão e ‘creram naquele que ressuscitou dos mortos o nosso Senhor Jesus Cristo, e deu-Lhe glória’, e um trono à sua direita. A Ele estão sujeitas todas as coisas no céu e na terra. A ele todo espírito serve. Ele vem como o Juiz dos vivos e dos mortos. Seu sangue exigirá de Deus aqueles que não crêem Nele. Mas aquele que O ressuscitou dentre os mortos também nos ressuscitará, se fizermos a Sua vontade, e andarmos nos Seus mandamentos, e amarmos o que Ele amou, guardando-nos de toda injustiça, cobiça, amor ao dinheiro, maledicência, falso testemunho.” – Carta aos Filipenses, Policarpo de Esmirna, cap. 2, c. 110 d.C.

 

“Este é, então, o relato do bendito Policarpo, que, sendo o duodécimo martirizado em Esmirna (considerando também os de Filadélfia), ocupa um lugar próprio na memória de todos os homens, de tal modo que ele está em todas as partes pelos próprios pagãos. Ele não era apenas um mestre ilustre, mas também um mártir preeminente, cujo martírio todos desejam imitar, como tendo sido totalmente coerente com o Evangelho de Cristo. Pois, tendo pacientemente superado o injusto governador, e assim adquirido a coroa da imortalidade, agora, com os apóstolos e todos os justos [no céu], glorificam alegremente a Deus, o Pai, e abençoa nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador de nossas almas, o Governador de nossos corpos, e o Pastor da Igreja Católica em todo o mundo”. – O Martírio de Policarpo, cap. 19, c. 155 d.C.; Ver também História da Igreja, de Eusébio de Cesareia, Livro IV, cap. 15.

 

A denominação “Católica”, em referência à Igreja, vem da palavra grega katholikos (καθολικός), que já aparecia em cartas dos pais apostólicos, e significa literalmente “aquilo que é conforme o todo”, e pode ser entendida por “holística” ou “universal”. Inácio de Antioquia a usou para se referir à igreja como um todo em sua carta à congregação de Esmirna. Ele disse: “A comunidade se reúne onde estiver o Bispo e onde está Jesus Cristo está a Igreja Católica”. Justino, no Diálogo com Trifão, usou esse mesmo termo (katholikos) para se referir à ressurreição geral, ou universal, dos mortos. Devido ao surgimento de várias heresias no século 4, a expressão “fé católica” passou a ser usada para contrastar o ensino da Igreja com as crenças da fé herética, que “escolhe aquilo em que quer acreditar, selecionando o que mais lhe convém e rejeitando os demais conteúdos da fé” cristã. – Desde quando a Igreja começou a usar o nome de Católica?, artigo on line, de Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.

 

6) Hermas (c. 160 d.C.)

 

“Ele que me criou e me vendeu para uma certa Rhode em Roma. Muitos anos depois disso eu a reconheci, e comecei a amá-la como a uma irmã. Algum tempo depois, eu a vi banhar-se no rio Tibre, e dei-lhe a minha mão, e a tirei do rio. A visão de sua beleza me fez pensar comigo mesmo: ‘Eu seria um homem feliz se eu pudesse conseguir uma esposa tão bonita e virtuosa como ela é’. Este foi o único pensamento que passou na minha cabeça e nada mais... Pouco tempo depois disso, enquanto andava em meu caminho pelas aldeias e magnificando as criaturas de Deus, e pensando quão magníficas, e bonitas, e poderosas elas são, eu adormeci. E o Espírito me levou por um lugar sem estrada, pelo qual um homem não poderia viajar, pois estava situado no meio das rochas. Era robusto e impassível por causa da água. Tendo passado por este rio, cheguei a uma planície. Então me abaixei de joelhos e comecei a orar ao Senhor e a confessar os meus pecados. E enquanto eu orava, os céus se abriram, e eu vi a mulher que eu desejava, saudando-me do céu, e dizendo: ‘Salve, Hermas!’ E olhando para ela, eu disse: ‘Senhora, o que você está fazendo aqui?’ E ela respondeu-me: ‘Fui transportada para cá a fim de acusar, sobre teus pecados diante do Senhor’. ‘Senhora’, disse eu, ‘você será o objeto de minha acusação?’ – ‘Não’, disse ela. ‘Mas ouça as palavras que eu vou falar para você’.” – O pastor de Hermas, Livro I, visão 1, cap. 1; clique aqui para ver uma versão completa em português.

 

O trecho acima lembra a visão de Enoque e também um texto de Apocalipse:

 

“Então inquiri de Rafael, o anjo que estava comigo, e disse: ‘Que espírito é aquele, cuja voz alcança o céu, e acusa?’ Ele respondeu, dizendo: ‘Este é o espírito de Abel o qual foi morto por Caim’.”. – 1 Enoque 22:1-9, tradução de Elson C. Ferreira (2003).

 

“E quando abriu o quinto selo, vi por baixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa da obra de testemunho que costumavam ter. E gritaram com voz alta, dizendo: ‘Até quando, Soberano Senhor, santo e verdadeiro, abster-te-ás de julgar e vingar o nosso sangue dos que moram na terra?’.”. – Apocalipse 6:9,10, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

A seguir, outra citação de Hermas:

 

“Eu pedi: ‘Senhor, explica -me mais ainda.’ Ele respondeu: ‘O que procuras mais?’ Eu continuei: ‘Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?’ Ele respondeu: ‘Era preciso que saíssem da água , para receber a vida. Elas não podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar no Reino de Deus.’ Eu perguntei: ‘Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?’ Ele respondeu: ‘Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza. Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas.’ Eu respondi: ‘Sim, senhor’.” . – O pastor de Hermas, cap. 93 da edição indicada em português, ou Livro III, similitude 9, cap. 16, da versão em inglês.

 

Essa pregação dos apóstolos aos que morreram antes deles também é mencionada por Clemente de Alexandria (153-217 d.C.):

 

“Não mostram [as Escrituras] que o Senhor pregou o Evangelho aos que pereceram no dilúvio, ou melhor, aos que foram acorrentados e que estavam presos sob custódia? E está demonstrado também no segundo livro da Stromata que os apóstolos, seguindo o [exemplo] Senhor, pregaram o Evangelho aos que estavam no Hades. Pois era necessário, na minha opinião, expressa aqui e também lá, que os melhores dos discípulos fossem imitadores do Mestre”. – Stromateis, Clemente de Alexandria, cap. 6, colchetes acrescentados.

 

Os primeiros pais da igreja ensinaram que quando Jesus desceu ao Hades, depois de sua morte, ele pregou aos mortos que estavam presos lá e, além disso, levou consigo as almas dos justos quando retornou para o céu depois da ressurreição. Inácio de Antioquia parece ter aludido a esse mesmo cenário de pessoas que morreram sendo ensinadas por Jesus e em seguida salvas:

 

“Meus irmãos, estou grandemente engrandecido por amar vocês e, alegrando-se muitíssimo, procuro garantir a segurança de vocês. De fato, não eu, mas Jesus Cristo, por causa de quem estamos ligados, eu temo ainda mais, visto que ainda não sou perfeito. Mas a oração de vocês a Deus me tornará perfeito, para que eu alcance a parte que, por misericórdia, me foi concedida, enquanto fujo para o Evangelho, quanto à carne de Jesus e aos apóstolos quanto ao presbitério da Igreja. E também amemos os profetas, porque eles também proclamaram o Evangelho, e colocaram sua esperança Nele, e esperaram por Ele, em quem também crendo, foram salvos, mediante a união com Jesus Cristo, sendo homens santos, dignos de amor e admiração, tendo tido testemunho de Jesus Cristo, e sendo contados juntamente com [nós] no Evangelho da esperança comum”. – Carta aos Filadelfianos, Inácio de Antioquia, cap. 5; veja também o capítulo 9 da carta aos magnésios.

 

Esse entendimento está de acordo com os seguintes textos bíblicos:

 

“Por isso que foi dito: ‘Quando ele [Jesus] subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens’. (Que significa ‘ele subiu’, senão que também havia descido às profundezas da terra?....)”. – Efésios 4:8, 9, Nova Versão Internacional, colchetes acrescentados.

 

“Com efeito, também Cristo morreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, a fim de vos conduzir a Deus. Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão, a saber, aos que foram incrédulos outrora, nos dias de Noé, quando Deus, em sua longanimidade, contemporizava com eles, enquanto Noé construía a arca, na qual poucas pessoas, isto é, oito, foram salvas por meio da água”. – 1 Pedro 3:18, 19, Bíblia de Jerusalém.

 

“Estas pessoas prestarão contas àquele que está pronto para julgar os viventes e os mortos. De fato, com este objetivo se declararam as boas novas também aos mortos, para que fossem julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivessem quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus”. – 1 Pedro 4:5, 6, Tradução do Novo Mundo (1986).

 

Embora o que Pedro escreveu no capítulo 4 de sua carta seja uma sequência do que já vinha dizendo no capítulo 3, há quem ache que os dois trechos não estão tratando do mesmo assunto. Além disso, alguns concluem erroneamente que os espíritos mencionados no capítulo 3 são os anjos rebeldes que se relacionaram com mulheres antes do dilúvio (compare com Atos 23:9). De qualquer modo, os pais da igreja não tinham tal entendimento e realmente acreditavam que Jesus quando desceu ao Hades pregou aos mortos da época de Noé e depois levou os justos para o céu depois de sua ressurreição.

 

7) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

“Refletindo sobre o final de cada um dos reis precedentes, como eles morreram a morte comum a todos, se for considerado que [tais mortes] resultaram em insensibilidade [ou seja, inconsciência total], [isso] seria uma dádiva de Deus para todos os ímpios. Mas, uma vez que a sensação permanece para todos os que já viveram, e o castigo eterno está reservado (isto é, para os ímpios), vejam que é uma negligência não se convencer e acreditar que essas coisas são verdadeiras. Porque mesmo a necromancia e as adivinhações que você pratica por crianças imaculadas, e a evocação de almas humanas que partiram, e aqueles que são chamados entre os magos, enviadores de sonhos e espíritos assistentes (familiares), e tudo o que é feito por aqueles que são hábeis em tais assuntos – que estes persuadam você [a acreditar] que mesmo depois da morte as almas estão em um estado de sensação. E aqueles que são capturados e tomados pelos espíritos dos mortos, a quem todos chamam de loucos ou endemoninhados, e o que você reputa como oráculos, tanto de Anfíloco, Dodana, Pitonisa, e tantos outros que [segundo pensam] existem. E as opiniões dos vossos autores, Empédocles e Pitágoras, Platão e Sócrates, e o poço de Homero, e a descida de Ulisses para inspecionar estas coisas, e tudo o que foi dito de semelhante tipo. O mesmo favor que você concede a estas coisas, nos conceda também, e não menos, e sim mais firmemente do que eles acreditam em Deus. Já que esperamos receber novamente nossos próprios corpos, ainda que estejam mortos e lançados na terra, pois afirmamos que com Deus nada é impossível”. – A Primeira Apologia, Justino de Roma, cap. 18, colchetes acrescentados.

 

“E a Sibila e Histaspes disseram que deveria haver uma dissolução por Deus de coisas corruptíveis. E os filósofos chamados estóicos ensinam que até o próprio Deus será resolvido em fogo, e dizem que o mundo será formado de novo por esta revolução. Mas entendemos que Deus, o Criador de todas as coisas, é superior às coisas que devem ser mudadas. Se, por conseguinte, em alguns pontos [aparentemente] ensinamos as mesmas coisas que [ensinam] os poetas e filósofos que você honra, e em outros pontos são mais cheios e mais divinos em nosso ensino, e se nós sozinhos provamos o que afirmamos, por que somos injustamente odiados mais do que todos os outros? Pois, enquanto dizemos que todas as coisas foram produzidas e organizadas em um mundo por Deus, pareceremos proferir a doutrina de Platão. E enquanto dizemos que haverá uma queima de todos, pareceremos proferir a doutrina dos estóicos. E enquanto afirmamos que as almas dos ímpios, dotadas de sensação, mesmo após a morte, são punidas, e que aqueles do bem que estão sendo libertos da punição passam para uma existência abençoada, pareceremos dizer as mesmas coisas que os poetas e filósofos. E enquanto afirmamos que os homens não devem adorar as obras de suas mãos, dizemos as mesmas coisas que foram ditas pelo poeta cômico Menandro e outros escritores semelhantes, pois declararam que o operário é maior do que a obra”. – A Primeira Apologia, Justino de Roma, cap. 20, colchetes acrescentados.

 

“Agora entendemos que a expressão usada entre estas palavras: ‘De acordo com os dias da árvore [da vida] serão os dias do meu povo. As obras de sua labuta abundam’ prediz obscuramente mil anos, pois foi dito a Adão que no dia em que comesse da árvore morreria. Sabemos que não completou mil anos. Percebemos, além disso, que a expressão ‘O dia do Senhor é como mil anos’ está relacionada com este assunto. Além disso, havia um certo homem conosco, cujo nome era João, um dos apóstolos de Cristo, que profetizou, por uma revelação que lhe foi feita, que aqueles que creram em nosso Cristo morariam mil anos em Jerusalém, e que, em seguida, a [ressurreição] geral e, em resumo, a eterna ressurreição e julgamento de todos os homens também teriam lugar. Assim como nosso Senhor também disse: ‘Não se casarão nem serão dados em casamento, mas serão iguais aos anjos, filhos do Deus da ressurreição’. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 81, trecho incompleto (clique no link para vê-lo todo), colchetes acrescentados.

 

“E o que se segue do Salmo, ‘Mas Tu, Senhor, não me retires a tua ajuda, dê ouvidos para me ajudar. Livra a minha alma da espada, e o meu unigênito da mão do cão. Salva-me da boca do leão e minha humildade dos chifres dos unicórnios’ - era também informação e previsão dos acontecimentos que deveriam acontecer com Ele, pois eu já provei que Ele era o unigênito do Pai de todas as coisas, sendo gerado de maneira peculiar, a Palavra e o Poder por Ele, e depois tornado homem através da virgem, como aprendemos das memórias. Além disso, é semelhantemente predito que Ele morreria pela crucificação. A passagem ao dizer ‘livra minha alma da espada, e meu unigênito da mão do cão; salva-me da boca do leão, e a minha humildade dos chifres dos unicórnios’ é indicativo do sofrimento pelo qual Ele deveria morrer, isto é, pela crucificação. Para os ‘chifres dos unicórnios’, já lhes expliquei, são apenas a figura da cruz. E a oração de que a sua alma fosse salva da espada, da boca do leão e da mão do cão era uma oração para que ninguém tomasse posse de Sua alma, pois quando chegarmos ao fim da nossa vida [terrena], poderemos pedir o mesmo de Deus [ou seja, que proteja nossas almas, conforme o Salmo 7:2], aquele que é apto para impedir que qualquer vergonhoso anjo do mal leve nossas almas. E que nossa alma sobrevive [à morte] eu já mostrei a você pelo fato de que a alma de Samuel foi chamada pela bruxa, conforme Saul solicitou. E parece também que todas as almas de semelhantes homens justos e profetas estão [potencialmente] sujeitas ao domínio de tais poderes, conforme pode ser inferido de todos os fatos expostos no caso daquela bruxa. Então, Deus também nos ensina através do Seu Filho, por causa destas coisas que parece que eram feitas, a sempre nos esforçar sinceramente, e na morte orar para que nossas almas não caiam nas mãos de tais poderes, pois quando Cristo entregou Seu espírito na cruz Ele disse: ‘Pai, em tuas mãos encomendo o meu espírito’, como aprendi também nas memórias, pois Ele exortou Seus discípulos a superarem o modo fariseu de viver, com a advertência de que, se não o fizessem, poderiam ter certeza de que não poderiam ser salvos. E estas palavras estão registradas nas memórias: ‘Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus’.”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 105, colchetes acrescentados.

 

8) Melitão de Sardes (? - c. 177 d.C.)

 

“Nós reunimos extratos da Lei e dos Profetas relacionados com as coisas que foram declaradas a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, para que possamos provar ao seu amor que este Ser é razão perfeita, a Palavra de Deus. Aquele que foi gerado antes da luz. Aquele que é Criador juntamente com o Pai. Aquele que é o Formador do homem. Aquele que é tudo em todos. Aquele que entre os patriarcas é o Patriarca. Aquele que na lei é a lei, entre os sacerdotes, é o sacerdote-chefe. Entre os reis, o Governante. Entre os profetas, o Profeta. Entre os anjos, o Arcanjo. Na voz do pregador, a Palavra. Entre espíritos, o Espírito. No Pai, é o Filho. Em Deus, é Deus. Rei para todo o sempre. Pois este é o que foi o timoneiro de Noé. Aquele que era o guia de Abraão. Aquele que estava ligado com Isaque. Aquele que estava em exílio com Jacó. Aquele que foi vendido com José. Aquele que era o capitão do exército com Moisés. Aquele que foi o divisor da herança com Josué, filho de Nun. Aquele que em Davi e nos profetas anunciou os seus próprios sofrimentos. Aquele que colocou uma forma corporal na virgem. Aquele que nasceu em Belém. Aquele que estava envolto em panos na manjedoura. Aquele que foi visto pelos pastores. Aquele que foi glorificado pelos anjos. Aquele que era adorado pelos Magos. Aquele que foi apontado por João. Aquele que reuniu os apóstolos. Aquele que pregou o reino. Aquele que curou os coxos. Aquele que deu luz aos cegos. Aquele que ressuscitou os mortos. Aquele que apareceu no templo. Aquele que não foi acreditado entre o povo. Aquele que foi traído por Judas. Aquele que foi preso pelos sacerdotes. Aquele que foi condenado por Pilatos. Aquele que foi traspassado na carne. Aquele que foi pendurado no madeiro. Aquele que foi sepultado na terra. Aquele que ressuscitou do lugar dos mortos. Aquele que apareceu aos apóstolos. Aquele que foi levado ao céu. Aquele que está assentado à direita do Pai. Aquele que é o repouso dos que morreram. O recuperador daqueles que estão perdidos. A luz daqueles que estão nas trevas. O libertador daqueles que estão cativos. O guia daqueles que se extraviam. O asilo dos aflitos. O noivo da Igreja. A carruagem dos querubins. O capitão dos anjos. Deus que é de Deus. O Filho que é do Pai. Jesus Cristo, o Rei para sempre. Amém”. – Sobre a fé, Melitão de Sardes.

 

9) Atenágoras de Atenas (?-180 d.C.)

 

“Pois, se cremos que devemos viver somente a vida presente, então poderemos ser suspeitos de pecar, por sermos escravos da carne e do sangue, ou sobrecarregados pelo ganho ou desejo carnal. Mas como sabemos que Deus é testemunha do que pensamos e do que dizemos de noite e de dia, e que Ele, sendo ele próprio a luz, vê todas as coisas em nosso coração, estamos convencidos de que quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida melhor do que a presente, e celestial, não terrena (desde que permaneçamos perto de Deus e com Deus, livres de toda mudança ou sofrimento na alma, não como carne, ainda que tenhamos carne, mas como espíritos celestiais), ou se cairmos com os demais, uma vida pior e no fogo, porque Deus não nos fez como ovelhas ou animais de carga, uma mera força de trabalho, e para que sejamos perecíveis e aniquilados. Por estes motivos, não é provável que desejemos fazer o mal, ou entregar-nos ao grande juiz para sermos punidos”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 31, trecho incompleto (leia o restante clicando no link), colchetes acrescentados.

 

“Com efeito, o que não se quer não é desejado porque é injusto ou indigno. Por sua vez, a injustiça se considera ou em relação à própria pessoa que ressuscita ou em relação a outro fora dela. Mas é evidente que com a ressurreição não se causa prejuízo aos que estão fora do homem, nem a nada daquilo que se inscreve no rol dos seres. De fato, nem as naturezas inteligíveis podem receber algum prejuízo da ressurreição dos homens, pois esta, para existir, não supõe impedimento ou prejuízo ou injúria de qualquer tipo; também não pode receber prejuízo a natureza dos seres irracionais ou a dos inanimados, porque, depois da ressurreição, não mais existirão. Quanto ao que não existe, não há injustiça. Todavia, mesmo supondo que existissem para sempre, também não se cometeria injustiça com eles pelo fato de os corpos humanos serem renovados. Com efeito, se agora estas coisas estão submetidas à natureza dos homens que necessitam de seus serviços, e postas sob o jugo e toda servidão, não se comete contra elas nenhuma injustiça e também não se cometerá quando os homens, tornados incorruptíveis e já sem necessidade de servir-se das coisas, estão se verão livres de toda escravidão. Se elas tivessem voz, também não poderiam queixar-se ao Criador por terem sido rebaixadas mais do que o justo em relação ao homem e por não alcançarem também a ressurreição, pois aquele que é justo não pode atribuir o mesmo fim àqueles que possuem natureza distinta. Além disso tudo, onde não existe julgamento sobre o justo, também não cabe discussão sobre injustiça. Finalmente, também não é possível dizer alguma injustiça em relação ao próprio homem que ressuscita. Este, de fato, é constituído de alma e corpo, e não sofre injustiça nem na alma, nem no corpo. Com efeito, ninguém de bom senso dirá que sofre injustiça na alma. Caso contrário, sem perceber, desse modo também condenaria a presente vida. De fato, se agora, habitando em corpo corruptível e passível, não se lhe faz nenhuma injustiça, muito menos se lhe fará, convivendo com outro incorruptível e impassível. Contudo, também não se agrava em nada o corpo. Com efeito, se agora o corruptível acompanha o incorruptível e não é agravado, evidentemente também não o será quando, incorruptível, acompanhará o incorruptível. Também não se pode dizer que seja de algum modo obra indigna de Deus ressuscitar e novamente reunir um corpo desfeito. Se o menos, isto é, fazer um corpo corruptível e passível não foi indigno, com maior razão o mais não o será, isto é, formá-lo incorruptível e impassível”. – A Ressurreição dos Mortos, Atenágoras de Atenas, cap. 10, tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin.

 

“Confiando nessas coisas, não menos nas que já aconteceram, e considerando a nossa própria natureza, não só aceitamos com amor a vida de necessidades e corrupção, como convém ao tempo presente, mas esperamos também firmemente a permanência na incorrupção. E esta não a tomamos de modo vão, da fantasia dos homens, iludindo-nos com esperanças mentirosas, mas cremos em quem nô-la garante de modo absolutamente infalível no desígnio de nosso Criador, segundo o qual fez o homem de alma imortal e de corpo, dotou-o de inteligência e lei ingênita para a sua salvação e para a guarda dos preceitos que ele lhe dera, convenientes com uma vida moderada e razoável. Sabemos muito bem que ele jamais teria feito um animal assim, nem o teria adornado com tudo o que é necessário para a sua permanência, caso não fosse sua vontade que efetivamente permanecesse. Portanto, se o Criador de todo este universo fez o homem para participar da vida racional e, feito contemplador de sua magnificência e sabedoria que em tudo brilham, permanecer sempre nessa contemplação, segundo o seu desígnio e conforme a natureza que lhe coube como sorte, a causa da criação nos garante a permanência para sempre e a permanência garante a ressurreição, pois sem ela não seria possível ao homem permanecer para sempre”. – A Ressurreição dos Mortos, Atenágoras de Atenas, cap. 13, tradução de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin, trecho incompleto (clicar no link para ler o restante).

 

“E ninguém ache estranho que chamemos pelo nome de vida a continuação do ser que é interrompida pela morte e corrupção. Mas considere que esta palavra não tem apenas um significado, nem há apenas uma medida de continuidade, porque a natureza também das coisas que continuam não é uma só. Pois se cada uma das coisas que continuam tem sua continuidade de acordo com sua natureza peculiar, nem no caso de quem é incorruptível e imortal, encontraremos a continuidade como a nossa, porque as naturezas dos seres superiores não tomam o nível de tais que são inferiores. Nem nos homens é próprio procurar uma continuação invariável e imutável. Na medida em que os primeiros [os homens] são do primeiro criado imortal e continuam a existir sem fim pela simples vontade de seu Criador, e os homens, em relação à alma, têm de sua primeira origem uma continuidade imutável, mas em relação ao corpo obtêm imortalidade por meio da mudança. É o que se entende por doutrina da ressurreição. E, olhando para isto, ambos esperamos a dissolução do corpo, como a sequela de uma vida de carência e corrupção, e depois disso esperamos uma continuação com a imortalidade, não colocando a nossa morte em um nível com a morte dos animais irracionais, ou a continuação do homem com a continuação dos imortais, para que não devêssemos despreparar desta maneira a natureza e a vida humanas em um nível com coisas com as quais não é apropriado compará-las. Não deve, portanto, promover insatisfação, se alguma desigualdade parece existir em relação à duração dos homens. Não é porque [sabemos que] a separação da alma dos membros do corpo e a dissolução das suas partes não interrompem a continuidade da vida que devemos desanimar da ressurreição. Pois, embora o relaxamento dos sentidos e das forças físicas, que ocorrem naturalmente no sono, pareçam interromper a vida sensorial quando os homens dormem em intervalos iguais de tempo e, por assim dizer, voltam à vida, [eles] não se recusam a chamá-lo [o sono] de vida. E por esta razão, eu suponho, alguns chamam de sono o irmão da morte, não como derivando sua origem dos mesmos antepassados e pais, mas porque aqueles que estão mortos e aqueles que dormem estão sujeitos a estados semelhantes, no que diz respeito pelo menos a quietude e a ausência de todo o senso do presente ou do passado, ou melhor, da própria existência e da própria vida. Se, portanto, não nos recusamos a chamar pelo nome de vida a vida de homens cheios de tal desigualdade desde o nascimento até a dissolução, e interrompidos por todas aquelas coisas que já mencionamos, nem devemos desanimar da vida que sucede à dissolução [do corpo], conforme envolve a ressurreição, embora por um tempo seja interrompida pela separação da alma do corpo”. – Sobre a ressurreição dos mortos, Atenágoras de Atenas, cap. 16, colchetes acrescentados.

 

“Novamente nem é a felicidade da alma separada do corpo, pois não estamos perguntando sobre a vida ou a causa final de qualquer das partes de que o homem consiste, mas do ser que é composto por ambos, pois tal é cada homem que tem uma parte nesta existência presente, e deve haver algum fim apropriado proposto para esta vida. Mas se é o fim de ambas as partes juntas, e isso não pode ser descoberto nem enquanto eles ainda estão vivendo no estado atual de existência através das numerosas causas já mencionadas, nem quando a alma está em um estado de separação, porque não se pode dizer que o homem existe quando o corpo é dissolvido e, na verdade, totalmente disperso, embora a alma continue por si mesma - é absolutamente necessário que o fim do ser de um homem apareça em alguma reconstituição dos dois juntos e do mesmo ser vivo. E, como isso se segue necessariamente, deve haver uma ressurreição dos corpos mortos, mesmo que inteiramente dissolvidos, e os mesmos homens devem ser formados de novo, uma vez que a lei da natureza ordena o fim não de modo absoluto, nem como o fim de algum homem qualquer, mas dos mesmos homens que passaram pela vida anterior. Mas é impossível que os mesmos homens sejam reconstituídos a menos que os mesmos corpos sejam restaurados às mesmas almas. Mas que a mesma alma obtenha o mesmo corpo é impossível de qualquer outro modo, e é possível somente pela ressurreição, pois, se isso acontecer, um final digno da natureza dos homens também se segue. E não nos enganemos ao dizer que a causa final de uma vida inteligente e de um julgamento racional deve ser ocupada ininterruptamente com aqueles objetos aos quais a razão natural é principalmente e primariamente adaptada e a deleitar-se incessantemente na contemplação daquele que É, e de Seus decretos, apesar de a maioria dos homens, porque eles são afetados muito apaixonadamente e muito violentamente pelas coisas abaixo, passam pela vida sem atingir este objeto. Pois o grande número dos que falham do fim que lhes pertence não anula a sorte comum, uma vez que o exame se refere a indivíduos, e a recompensa ou punição de vidas mal ou bem utilizadas é proporcional ao mérito de cada um”. – Sobre a ressurreição dos mortos, Atenágoras de Atenas, cap. 25.

 

10) A paixão dos mártires silitanos (180 d.C.)

 

“Saturnino, o procônsul, leu o decreto da tabuinha:

 

‘Esperato, Nartzalo, Citino, Donata, Vestia, Secunda e os outros confessaram que viviam de acordo com o rito cristão, uma vez que lhes ofereceram voltar ao costume dos romanos, mas obstinadamente persistiram, é determinado que sejam postos à espada’.

 

Esperato disse:

 

‘Nós damos graças a Deus’.

 

Nartzalus disse:

 

Hoje somos mártires no céu, graças a Deus’.

 

Saturnino, o procônsul ordenou que fosse declarado pelo arauto:

 

‘Esperatus, Nartzalus, Citinus, Veturius, Félix, Aquilinus, Laetantius, Januaria, Generosa, Vestia, Donata e Secunda, eu ordenei para sejam executados’.

 

Todos eles disseram:

 

‘Graças a Deus’.

 

E assim todos juntos foram coroados de martírio, e reinarão com o Pai, e com o Filho, e com o Espírito Santo, para todo o sempre. Amém.

 

Autor desconhecido

11) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

“Este é o meu Deus, o Senhor de todos, que sozinho estendeu o céu e estabeleceu a largura da terra debaixo dele. Que agita os recessos profundos do mar, e faz rugir as suas ondas. Que governa seu poder, e acalma o tumulto de suas ondas. Que fundou a terra sobre as águas, e deu um espírito para alimentá-la, cujo fôlego dá luz a todos os a quem se Ele retirar o Seu fôlego toda a vontade falhará completamente. Através dele você fala, ó homem. Você respira o fôlego Dele, mesmo [sendo] Dele você não sabe. E esta é a sua condição, por causa da cegueira da sua alma, e da dureza do seu coração. Mas, se você quiser, você pode ser curado. Confie a si mesmo ao Médico, e Ele irá estruturar os olhos de sua alma e de seu coração. Quem é o Médico? Deus, que cura e torna vivo através da Sua palavra e sabedoria. Deus pela Sua própria palavra e sabedoria fez todas as coisas, porque ‘pela sua palavra foram os céus feitos, e todo o exército deles pelo sopro da sua boca’. O mais excelente é a Sua sabedoria. Pela Sua sabedoria Deus fundou a terra. E pelo conhecimento preparou os céus. E pelo entendimento foram quebradas as fontes do grande abismo, e as nuvens derramaram os seus orvalhos. Se vês estas coisas, ó homem, vivendo castamente, e santificamente, e justamente, você pode ver a Deus. Mas, antes de tudo, a fé e o temor de Deus governem em seu coração, e então você entenderá estas coisas. Quando você tiver se despojado do mortal e for revestido de incorrupção, então você verá a Deus dignamente. Porque Deus ressuscitará a tua carne [tornando-a] imortal com a sua alma. E então, tornando-se imortal, você verá o Imortal, se agora você acreditar Nele. E então você saberá que você falou injustamente contra ele”. – Para Autólico,Teófilo de Antioquia, Livro I, cap. 7, colchetes acrescentados.

 

“E Deus mostrou grande bondade ao homem nisto, que Ele não permitiu que ele permanecesse em pecado para sempre. Mas, por assim dizer, por uma espécie de banimento, o lançou para fora do Paraíso, para que, tendo pela punição expiado o pecado dentro de um tempo determinado, e tendo sido disciplinado, ele devia depois ser restaurado. Portanto, também, quando o homem foi formado neste mundo, está escrito misticamente em Gênesis, como se tivesse sido colocado duas vezes no Paraíso. De modo que foi cumprido [na primeira vez] quando ele foi colocado lá, e a segunda será cumprida após a ressurreição e o julgamento. Pois se assim como um vaso, ao ser modelado, tem alguma falha, ele é remodelado ou refeito, para que ele possa se tornar novo e inteiro, assim também acontece com o homem pela morte. De alguma forma, ele é quebrado, para que ele possa ressuscitar na ressurreição. Quero dizer imaculado, justo e imortal. E quanto ao chamado de Deus, dizendo: ‘Onde estás, Adão?’ Deus fez isso, não como se ignorasse isso [ou seja, que não sabia onde ele estava]. Mas, sendo longânimo, deu-lhe uma oportunidade de arrependimento e confissão”. – Para Autólico, Livro II, cap. 26, colchetes acrescentados”. – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro II, cap. 26, colchetes acrescentados.

 

12) Irineu de Lyon (120-202 d.C.)

 

“O negócio do cristão não é nada mais do que estar sempre se preparando para a morte”. – Irineu de Lyon, Fragmento 11.

 

“Portanto, formamos a crença de que [nossos] corpos também se levantam novamente. Pois, embora sejam corruptos, ainda assim eles não perecem. Porque a terra, recebendo os restos, os preserva, mesmo como a semente fértil misturada com a terra mais fértil. Novamente, como um grão descascado é semeado, e, germinando pelo comando de Deus, seu Criador, eleva-se novamente, vestido e glorioso, mas não antes de ter morrido e sofrido decomposição, e ter se misturado com a terra. Assim [se conclui disto que] nós não temos entretido uma crença vã na ressurreição do corpo. Porém, embora [o corpo] seja dissolvido no tempo determinado, por causa da desobediência primitiva, ele é colocado, por assim dizer, no cadinho da terra, para ser reformado novamente. Não como este corpo corruptível, mas puro, e não mais sujeito a decadência, de modo que a cada corpo sua própria alma será restaurada. E quando for vestido com isto, não experimentará tristeza, mas se regozijará, continuando permanentemente em um estado de pureza, tendo para seu companheiro um consorte justo, não insidioso, possuindo em todo o respeito as coisas que pertencem a ele, que as receberá com perfeita exatidão. Não receberão corpos diferentes do que haviam sido, nem livres do sofrimento ou doença, nem gloriosos, mas da maneira que saíram desta vida, em pecados ou em ações justas: e como eles foram, assim serão eles vestidos após retomarem a vida. E como eles estavam em incredulidade, devem deste modo ser fielmente julgados”. – Irineu de Lyon, Fragmento 12, colchetes acrescentados.

 

Aparentemente Irineu está dizendo no trecho acima que o corpo glorioso não é dado imediatamente após a ressurreição, mas somente após o Julgamento Final. Ou então toda a declaração feita nesse sentido se refere apenas aos injustos que serão ressuscitados. Irineu também faz a mesma analogia que vemos no apóstolo Paulo, ao comparar o corpo físico a uma roupa utilizada pela alma:

 

“Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna no céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos da nossa habitação celeste, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta tenda [o corpo], gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela vida”. – 2 Coríntios 5:2-4, colchetes acrescentados.

 

Nota-se no texto acima que Paulo descreve em outras palavras a sequência de duas etapas que ocorre na ressurreição:

 

1) A alma, quer esteja no Hades ou no céu, é trazida de volta e revestida do corpo físico da ressurreição.

 

2) Em seguida, depois do Julgamento Final, o corpo ressurrecto é vestido novamente com um novo corpo glorioso e celestial, adquirindo assim uma dupla natureza (terrestre e celeste), semelhantemente a Jesus, de modo a viver eternamente nessa forma gloriosa, apta para estar tanto no céu quanto na Terra.

 

Para concluir, mais algumas citações de Irineu:

 

“Este era um sinal de que as almas deveriam ser levadas para cima através da instrumentalidade da madeira [da cruz], sobre a qual Ele sofreu, que pode levar essas almas no alto para que sigam Sua ascensão. Este acontecimento era também uma indicação do fato de que, quando a santa alma de Cristo desceu [para o Hades], muitas almas subiram e foram vistas em seus corpos. [Mateus 27:52] Pois assim como a madeira, que é o corpo mais leve, foi submersa na água, mas o ferro, o mais pesado, flutuava, da mesma forma, quando a Palavra de Deus se tornou uma com a carne, por uma união física e hipostática, a [parte] pesada e terrestre, tendo sido tornada imortal, foi levada ao céu, pela Natureza divina, depois da ressurreição”. – Irineu de Lyon, Fragmento 28.

 

“Se o cadáver de Eliseu ressuscitou um homem morto, quanto mais Deus, quando tiver vivificado os cadáveres dos homens, os criará para julgar?” – Irineu de Lyon, Fragmento 35.

 

“Porque então, na verdade, haverá uma alegria comum consumada para todos os que crêem naquela vida, e em cada indivíduo será confirmado o mistério da Ressurreição e a esperança da incorrupção e o começo do reino eterno, quando Deus destruir a morte e o diabo. Pois aquela natureza humana e a carne que levantou-se novamente dentre os mortos não morrerá mais. Além disso, depois dela ter sido mudada para a incorrupção, é feita semelhante ao espírito, [pois] quando o céu foi aberto [depois da ressurreição de Jesus Cristo], [nosso Senhor] cheio de glória a ofereceu (a carne) ao Pai”. – Irineu de Lyon, Fragmento 50, colchetes acrescentados.

 

d) A punição dos ímpios

 

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1) Didaqué (c. 98 d.C.)

 

“Mas, muitas vezes, vós vos reunireis, procurando as coisas que são apropriadas para as vossas almas; porque todo o tempo da vossa fé não vos beneficiará se não fostes aperfeiçoados na última vez... Então a criação dos homens entrará no fogo do juízo, e muitos serão forçados a tropeçar e perecerão. Mas os que perseverarem na sua fé serão salvos da própria maldição”. – Didaqué, cap. 16.

 

2) Inácio de Antioquia (30-107 d.C.)

 

“Não errem, meus irmãos. Aqueles que corrompem famílias não herdarão o reino de Deus. Se, então, aqueles que fazem isso em relação à carne sofreram a morte, quanto mais será este o caso de alguém que corrompe pela má doutrina a fé de Deus, pela qual Jesus Cristo foi crucificado! O que se tornar contaminado [desta maneira], irá para o fogo eterno, assim como todo aquele que o ouvir”. – Carta aos Efésios, Inácio de Antioquia, cap. 16.

 

3) Barnabé (c. 130 d.C.)

 

“Mas o caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldição. Por isso é o caminho da morte eterna com punição, no qual estão as coisas que destroem a alma”. – Epístola de Barnabé, cap. 20.

 

4) Matetes (c. 130 d.C.)

 

“Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai. Deus, com efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem, enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino do céu, e o dará àqueles que o tiverem amado. Depois de conhecê-lo, tens idéia da alegria com que será preenchido? Como não amarás aquele que tanto te amou? Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá. A felicidade não está em oprimir o próximo, ou em querer estar por cima dos mais fracos, ou enriquecer-se e praticar violência contra os inferiores. Deste modo, ninguém pode imitar a Deus, pois tudo isto está longe de sua grandeza. Todavia, quem toma para si o peso do próximo, e naquilo que é superior procura beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus, é como Deus para os que receberam de sua mão, é imitador de Deus. Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus. Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás os que são castigados por não querer negar a Deus. Condenarás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte, e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentará até o fim aqueles que lhe forem entregues. Se conheceres este fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, com justiça, suportaram o fogo passageiro [isto é, os sofrimentos desta vida]”. – Carta de Matetes a Diogneto, capítulo 10, tradução de Luiz Fernando Karps Pasquotto, colchetes acrescentados.

 

5) Policarpo de Esmirna (65-155 d.C.)

 

“Todos os mártires, então, foram abençoados e enobrecidos pelo que ocorreu de acordo com a vontade de Deus. Porque ela nos torna os que professam maior piedade do que outros, para atribuir a Deus a autoridade sobre todas as coisas. E verdadeiramente, quem pode deixar de admirar a nobreza de espírito e paciência deles, com aquele amor para com o Senhor que eles exibiram? – que, quando estavam tão dilacerados de flagelos, que a moldura de seus corpos, até mesmo para o interior de veias e artérias, foi aberta, ainda suportaram pacientemente, enquanto aqueles mesmos que estavam de pé sentiam pena e os lamentavam. Mas eles alcançaram tal afinidade de magnanimidade, que nenhum deles deixou escapar um suspiro ou gemido, provando assim a todos que aqueles santos mártires de Cristo, no mesmo momento em que sofriam tais tormentos, estavam ausentes do corpo, ou melhor, que o Senhor então estava junto deles, e comungou com eles. E, olhando para a graça de Cristo, desprezaram todos os tormentos deste mundo, resgatando-se do castigo eterno por [um sofrimento de apenas] uma hora”. – O Martírio de Policarpo, cap. 2, c. 155 d.C., colchetes acrescentados.

 

6) Hermas (c. 160 d.C.)

 

“Todas as ovelhas que viste muito alegres e saltitantes são os que se separam definitivamente de Deus e se entregam às paixões deste mundo. Para eles não há mais penitência para a vida, porque, além de tudo, blasfemaram contra o nome do Senhor. Para eles, portanto, resta apenas a morte. Aquelas que viste, pastando no mesmo lugar sem saltitar, são os que se entregaram às volúpias e aos enganos, mas sem blasfemar contra o Senhor. Corromperam-se longe da verdade. Para eles, portanto existe esperança e penitência, a fim de que possam viver. Para eles, então, existe esperança de penitência, a fim de que possam viver. A corrupção conserva ainda alguma esperança de restauração, ao passo que a morte implica em perdição eterna”. – O pastor de Hermas, cap. 62, da edição indicada em português, ou Livro III, similitude 6, cap. 2, na versão em inglês, trecho selecionado (clique no link para ver o restante).

 

7) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

“Refletindo sobre o final de cada um dos reis precedentes, como eles morreram a morte comum a todos, se for considerado que [tais mortes] resultaram em insensibilidade [ou seja, em inconsciência total], [isso] seria uma dádiva de Deus para todos os ímpios. Mas, uma vez que a sensação permanece para todos os que já viveram, e o castigo eterno está reservado (isto é, para os ímpios), vejam que é uma negligência não se convencer e acreditar que essas coisas são verdadeiras”. – A Primeira Apologia, Justino de Roma, cap. 18, colchetes acrescentados.

 

As almas dos ímpios, dotadas de sensação, mesmo após a morte, são punidas, e que aqueles do bem que estão sendo libertos da punição passam para uma existência abençoada...” – A Primeira Apologia, cap. 20, colchetes acrescentados.

 

Diálogo (com o judeu Trifão):

 

Trifão: Dize-me, pois, que os que viveram segundo a lei dada por Moisés, vivem da mesma maneira com Jacó, Enoque e Noé, na ressurreição dos mortos, ou não?

 

Justino: Quando citei, senhor, as palavras ditas por Ezequiel, que ‘mesmo que Noé, Daniel e Jacó implorassem [pelos] filhos e filhas, não lhes seria concedido o pedido’, mas que cada um seja salvo por sua própria justiça, ou seja, eu disse também que aqueles que regulavam suas vidas pela lei de Moisés também seriam salvos. Pois o que na lei de Moisés é naturalmente bom, e piedoso, e justo, e foi prescrito para ser feito por aqueles que obedecem a ele, e o que foi designado para ser executado por causa da dureza dos corações do povo, foi igualmente registrado, e feito também por aqueles que estavam sob a lei. Visto que aqueles que fizeram o que é universalmente, naturalmente e eternamente bom são agradáveis a Deus, eles serão salvos por este Cristo na ressurreição igualmente com aqueles justos que estavam diante deles, isto é, Noé, Enoque e Jacó, e quem quer que seja, e os que conheceram este Cristo, Filho de Deus, que [quando] estava diante da estrela da manhã e da lua, se submeteu a encarnar, e nasceu desta virgem da família de Davi, para que, esta dispensação, a serpente que pecou desde o princípio, e os anjos como ele, possam ser destruídos, e que a morte possa ser desprezada, e para sempre sucumbir, na segunda vinda do próprio Cristo, naqueles que crêem nele e vivem aceitavelmente, e também quando alguns forem enviados para serem punidos incessantemente no julgamento e condenação do fogo. Ao invés disso outros existirão livres do sofrimento, da corrupção, da dor e da imortalidade [acompanhada de sofrimento]”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 45, colchetes acrescentados.

 

“E quando todos deram o consentimento, eu disse: ‘Gostaria agora de aduzir algumas passagens que eu não tinha relatado antes. Elas são registradas pelo servo fiel Moisés em parábola, e são as seguintes: ‘Alegrai-vos, ó céus, com Ele, e todos os anjos de Deus o adorem’. E acrescentei o que segue da passagem: ‘Regozijai-vos, ó nações, com o seu povo, e que todos os anjos de Deus se fortaleçam nele; porque o sangue dos seus filhos Ele vinga, e vingará e vingará, e recompensará os seus inimigos com vingança, e recompensará os que o odeiam. E o Senhor purificará a terra do seu povo’. E por estas palavras Ele declara que nós, as nações, nos alegramos com Seu povo - a saber, Abraão, Isaque, Jacó e os profetas, e, em suma, todos aqueles que são agradáveis a Deus, para o que já foi acordado entre nós. Mas não o receberemos de toda a vossa nação, já que sabemos de Isaías [66:24] que os membros daqueles que transgrediram serão consumidos pelo verme e o fogo inextinguível, permanecendo imortal, para que se tornem um espetáculo para toda a carne”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 130.

 

“E a qualquer pessoa pensativa qualquer coisa pareceria mais incrível do que, se não estivéssemos no corpo, se alguém dissesse que era possível que a partir de uma pequena gota de sêmen humano os ossos e tendões e a carne fossem formados em um aspecto tal como o vemos? Pois, diga-se agora isto hipoteticamente: se vocês mesmos não eram como vocês agora são, e nascerem de tais pais [e causas], e alguém lhes mostrasse uma semente humana e um retrato de um homem, vocês diriam com confiança que dessa substância tal ser humano poderia ser produzido? Acreditaria antes que viu a produção real? Ninguém se atreverá a negar [que tal afirmação superaria a crença]. Da mesma forma, então, agora você está incrédulo porque nunca viu um homem morto se levantar de novo. Mas, como de início você não teria acreditado que essas pessoas pudessem ser produzidas a partir da pequena gota, e mesmo assim agora você os ver formados, também [é aceitável] julgar que não é impossível que os corpos dos homens, depois de terem sido dissolvidos, e como as sementes inseridas na terra, no tempo designado de Deus [vão] ressuscitar e vestir a incorrupção. Pois qual poder digno de Deus dizem aqueles que cada coisa retorna àquela de que foi produzida? E que, além disso, [em relação a isso] nem mesmo Deus pode fazer nada? Somos incapazes de conceber [as respostas]. Mas vemos claramente que eles não teriam acreditado que eles poderiam ter se tornado tais e produzidos a partir de desses materiais, como eles agora vêem a si mesmos e ao mundo inteiro como sendo o que são. E nós aprendemos que é melhor acreditar até no que é impossível à nossa própria natureza e aos homens, do que ser incrédulo como o resto do mundo, pois sabemos que o nosso Mestre Jesus Cristo disse que ‘o que é impossível aos homens é possível com Deus’, e disse mais: ‘Não temais aqueles que vos matam e depois disso nada mais podem fazer; temei antes aquele que, depois da morte, pode lançar a alma e o corpo no inferno’. Deve-se saber que o inferno [Geena] é o lugar onde serão castigados os que tiverem vivido iniquamente e não acreditaram que acontecerão essas coisas ensinadas por Deus, através de Cristo”. – A Primeira Apologia, Justino de Roma, cap. 19, colchetes acrescentados.

 

8) Taciano, o Assírio (110-172 d.C.)

 

“Se, de fato, [a alma] não conhece a verdade ela morre e se dissolve com o corpo, mas ressurge finalmente no fim do mundo com o corpo, recebendo a morte por castigo na imortalidade”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 13, colchetes acrescentados.

 

9) Atenágoras de Atenas (?-180 d.C.)

 

“Estamos convencidos de que quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida melhor do que a presente,... ou se cairmos com os demais, uma vida pior e no fogo... Por estes motivos, não é provável que desejemos fazer o mal, ou entregar-nos ao grande juiz para sermos punidos”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 31.

 

10) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

“Portanto, não seja cético, mas acredite, pois eu mesmo também costumava não acreditar que isso acontecesse, mas agora, tendo levado essas coisas em consideração, eu creio. Ao mesmo tempo, encontrei-me com as Sagradas Escrituras dos santos profetas, que também pelo Espírito de Deus anunciaram as coisas que já aconteceram, justamente da maneira que se passaram, e as coisas de agora conforme estão acontecendo atualmente, e as coisas futuras na ordem em que devem ser cumpridas. Admitindo, portanto, a prova de que os acontecimentos acontecem como previsto, não descreio, mas creio, sendo obediente a Deus, a quem, se você quiser, também se submeterá a crer Nele, se agora continuar a ser descrente, se convencerá depois, quando você for atormentado com punições eternas, cujos castigos, quando haviam sido preditos pelos profetas, os poetas e os filósofos nascidos mais tarde roubaram das Sagradas Escrituras, a fim de tornarem suas doutrinas dignas de crédito. Contudo, estes também têm falado de antemão dos castigos que devem ser lançados sobre os profanos e incrédulos, a fim de que ninguém fique sem testemunha, ou seja capaz de dizer: ‘Nós não ouvimos, nem conhecemos’. Mas você também, por favor, preste atenção reverencial às Escrituras proféticas, e elas farão o seu caminho mais claramente, para [você] escapar dos castigos eternos e obter os prêmios eternos de Deus. Pois aquele que forneceu a boca para falar, e formou o ouvido para ouvir, e fez o olho para ver, examinará todas as coisas, e julgará o juízo justo, dando recompensas merecidas a cada um. Aos que por perseverança no bem-fazer procuram a imortalidade [Romanos 2: 7], Ele dará a vida eterna, alegria, paz, descanso e abundância de coisas boas, que nem o olho viu nem o ouvido ouviu ou entrou no coração do homem para conceber. [1 Coríntios 2: 9]. Mas aos incrédulos e desprezadores, que não obedecem à verdade, mas são obedientes à injustiça, quando se encherem de adultério e de prostituição, da imundície, da cobiça e das idolatrias ilícitas, haverá ira e cólera, tribulação e angústia [Romanos 2: 8-9] e por último o fogo eterno possuirá tais homens. Visto que você disse: ‘Mostre-me seu Deus’, este é o meu Deus, e eu aconselho você a temê-Lo e confiar Nele”. – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro I, cap. 14, colchetes acrescentados.

 

11) Dionísio de Corinto (c. 170 d.C.)

 

“Pois eu escrevi cartas quando os irmãos me pediram para escrever. E estas cartas os apóstolos do diabo encheram de joio, tirando algumas coisas e acrescentando outras, para os quais uma angústia está guardada. Não é de admirar, então, se alguns tentaram adulterar os escritos do Senhor, quando eles conceberam projetos contra aqueles que não são tais”. – Dionísio de Corinto, Fragmento 4.

 

e) Relatos, conselhos e advertências contra as heresias ou falsas crenças

 

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1) Didaqué (c. 98 d.C.)

 

“Filho meu, foge de todo o mal, e de tudo semelhante. Não seja propenso à ira, porque a ira conduz ao assassinato. Nem ciumento, nem briguento, nem de forte temperamento, pois de todos esses surgem os assassinos. Filho meu, não seja devasso, porque a devassidão conduz à fornicação, nem um tagarela obsceno, nem altaneiro, porque de todos esses surgem os adultérios. Filho meu, não seja um observador de presságios, já que eles conduzem ao caminho da idolatria. Nem um mago, nem um astrólogo, nem um curandeiro, nem se torne apto para estas coisas, pois de todas elas surgem as idolatrias. Filho meu, não seja mentiroso, pois uma mentira é o caminho para o roubo, nem amante do dinheiro, nem vanglorioso, pois de todos esses surgem os roubos. Filho meu, não seja um murmurador, pois isto leva ao caminho da blasfêmia, nem seja obstinado ou mau, porque de tudo isso surgem as blasfêmias. Mas seja manso, porque os mansos herdarão a terra. Seja longânime e piedoso e sem mácula, suave e bom e sempre trema das palavras que você ouviu. Você não deve exaltar a si mesmo, nem dar excesso de confiança à sua alma. A sua alma não se unirá aos arrogantes, pois sua relação será com os justos e humildes. Os trabalhos que você faz os receba como bons, sabendo que sem Deus nada acontece”. – Didaqué, cap. 3.

 

2) Inácio de Antioquia (30-107 d.C.)

 

Contra os gnósticos e docetistas (que negavam que Jesus tivesse tido um corpo real, mas que, ao invés disso, ele teria criado uma ilusão para fazer as pessoas acreditarem que ele tinha realmente um corpo físico):

 

“Alguns o negam ignorantemente, ou melhor, foram negados por Ele, sendo os defensores da morte e não da verdade. Essas pessoas nem os profetas têm persuadido, nem a lei de Moisés, nem o Evangelho até hoje, nem os sofrimentos que temos suportado individualmente. Pois eles pensam também a mesma coisa em relação a nós. Pois, de que me aproveita alguém se ele me elogia, mas blasfemar contra o meu Senhor, não confessando que Ele estava [verdadeiramente] possuído de um corpo? Mas aquele que não reconhece isso, de fato o negou completamente, sendo envolvido na morte. Contudo, não achei bom escrever os nomes de tais pessoas, na medida em que são incrédulos. Sim, longe de mim fazer qualquer menção deles, até que eles se arrependam e voltem para [uma crença verdadeira] na paixão de Cristo, que é a nossa ressurreição”. – Carta aos Esmirnianos, Inácio de Antioquia, cap. 5.

 

O apóstolo João já havia advertido sobre essa heresia, que surgiu no final do primeiro século:

 

“Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus”. – 1 João 4:2.

 

“De fato, muitos enganadores têm saído pelo mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em corpo. Tal é o enganador e o anticristo”. – 2 João 7.

 

Veja mais detalhes no item “7” (Policarpo de Esmirna).

 

3) Aristides de Atenas (? - c. 140 d.C.)

 

“Como os egípcios, então, eram mais estúpidos do que o resto das nações, estes e tais deuses semelhantes não bastavam para eles. Não, mas até aplicam o nome de deuses a animais nos quais não há alma”. – Apologia de Aristides, cap. 12, c. 125 d.C. (veja o comentário sobre essa obra).

 

4) Barnabé (c. 130 d.C.)

 

“Porque o profeta diz: ‘Quem entenderá a parábola do Senhor, senão aquele que é sábio e prudente, e que ama o seu Senhor?’ Portanto, tendo nos renovado pela remissão de nossos pecados, Ele nos fez segundo outro padrão, [é Seu propósito] que possamos possuir a alma dos filhos, na medida em que Ele nos criou novamente pelo Seu Espírito”. – Epístola de Barnabé, cap. 6.

 

“Não te exaltarás, mas serás humilde. Tu não terás glória para si mesmo. Não tomarás mau conselho contra o teu próximo. Não permitirás que a ousadia entre na tua alma. Não cometerás fornicação; não adulterarás; não serás corruptor da juventude”. – Epístola de Barnabé, cap. 19.

 

“Mas o caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldição. Por isso é o caminho da morte eterna com punição, no qual estão as coisas que destroem a alma, a saber, a idolatria, a confiança excessiva, a arrogância do poder, a hipocrisia, o engano, o adultério, o assassinato, a usurpação, a altivez, a transgressão, o engano, a malícia, a presunção, o envenenamento, a magia, a avareza e a ausência do temor de Deus”. – Epístola de Barnabé, cap. 20.

 

5) Matetes (c. 130 d.C.)

 

“Pois quem de todos os homens compreendeu antes de Sua vinda [de Jesus] o que é Deus? Você aceita as vãs e estúpidas doutrinas daqueles que são considerados filósofos confiáveis? Dos quais alguns disseram que o fogo era Deus, chamando esse Deus ao qual eles mesmos foram e vieram. E alguns [dizem que Ele é] água. E outros, algum dos demais elementos formados por Deus. Mas se alguma dessas teorias for digna de aprovação, cada uma das outras coisas criadas também pode ser declarada Deus. Mas tais declarações são simplesmente afirmações surpreendentes e errôneas dos enganadores. E nenhum homem o viu, ou o fez conhecido, mas ele revelou-se a Si mesmo. E Ele se manifestou por meio da fé, a quem somente é dado contemplar a Deus. Para Deus, o Senhor e Formador de todas as coisas, que fez todas as coisas, e lhes atribuiu suas várias posições, provou ser não apenas um amigo da humanidade, mas também sofredor [em Seu tratamento com eles]. Sim, Ele sempre foi de tal caráter, e ainda é, e será sempre bondoso e benigno, e livre da ira, e verdadeiro, e o único que é [absolutamente] bom. E Ele formou em Sua mente uma concepção grande e indizível, que Ele comunicou somente a Seu Filho. Por tanto tempo, então, como Ele manteve e preservou Seu próprio conselho sábio em ocultação, Ele pareceu negligenciar-nos e não ter nenhum cuidado de nós. Mas depois que Ele revelou e abriu, por meio de Seu amado Filho, as coisas que tinham sido preparadas desde o princípio, Ele conferiu todas as bênçãos de uma só vez sobre nós, para que ambos participassem de Seus benefícios, e vissem e estivessem ativos [no Seu serviço]. Quem de nós teria esperado essas coisas? Ele estava consciente, então, de todas as coisas em Sua própria mente, juntamente com Seu Filho, de acordo com a relação existente entre eles”. – Carta de Matetes a Diogneto, cap. 20, colchetes acrescentados.

 

6) Pápias de Hierápolis (70-155 d.C.)

 

“E o presbítero disse isso. Marcos, tornando-se o intérprete de Pedro, escreveu com precisão tudo o que lembrava. Não foi, no entanto, na ordem exata que ele relacionou os ditos ou ações de Cristo. Pois não ouviu o Senhor nem o acompanhou. Mas depois, como eu disse, ele acompanhou Pedro, que acomodou suas instruções às necessidades [de seus ouvintes], mas sem intenção de dar uma narrativa regular das palavras do Senhor. Portanto, Marcos não se enganou ao escrever algumas coisas ao lembrar delas. Por uma coisa ele tomou especial cuidado, para não omitir qualquer coisa que ele tinha ouvido, e não colocar nada fictício nas declarações. Mateus reuniu os oráculos [do Senhor] na língua hebraica, e cada um interpretou-os o melhor que pôde”. – Pápias de Hierápolis, Fragmento 6.

 

7) Policarpo de Esmirna (65-155 d.C.)

 

“‘Pois quem não confessa que Jesus Cristo veio em carne, é anticristo’, e quem não confessa o testemunho da cruz, é do diabo. E qualquer que perverte as pronunciações do Senhor às suas próprias concupiscências, e diz que não há nem uma ressurreição nem um julgamento, ele é o primogênito de Satanás. Portanto, abandonando a vaidade de muitos e suas falsas doutrinas, voltemos à palavra que nos foi transmitida desde o princípio; ‘Vigiando em oração’, e perseverando em jejum, implorando em nossas súplicas ao Deus que tudo vê, ‘para não nos conduzir à tentação’, como o Senhor disse: ‘O espírito verdadeiramente deseja, mas a carne é fraca’.”. – Carta aos Filipenses, Policarpo de Esmirna, cap. 7.

 

O início do trecho acima é um alerta contra os gnósticos e docetistas. Na corrente gnóstica, que muito lembra o pensamento grego, qualquer um adquire a vida eterna depois da morte, pois o corpo é para sempre desprezado. O que implica dizer que não há nenhum julgamento futuro, nem para os bons, nem para os maus. Tudo se define imediatamente depois da morte do corpo físico. Veja mais detalhes no item “2” (Inácio de Antioquia).

 

8) Hermas (c. 160 d.C.)

 

“‘Escuta agora as obras que seguem a essas: assistir às viúvas, visitar os órfãos e necessitados, resgatar da escravidão os servos de Deus, ser hospitaleiro (pois a hospitalidade encontra-se por vezes a ocasião de fazer o bem), não criar obstáculos para ninguém, ser calmo, tornar-se inferior a todos, honrar os anciãos, praticar a justiça, conservar a fraternidade, suportar a violência, ser paciente, não nutrir rancor, consolar os aflitos na alma, não afastar da fé os escandalizados, mas converte-los e dar-lhes coragem, corrigir os pecadores, não oprimir os devedores e necessitados, e outras ações semelhantes. Não te parece que essas sejam boas ações?’ Eu respondi: ‘Que coisa é melhor do que isso, Senhor?’ Ele continuou: ‘Anda, portanto, nesse caminho, não te abstenhas dessas coisas, e viverás em Deus. Observa este mandamento: se praticares o bem e não te abstiveres dele, viverás em Deus, e todos os que agirem assim, também viverão em Deus. E ainda, se não praticares o mal e te abstiveres dele, viverás em Deus; e todos aqueles que guardarem esses mandamento e andarem em seus caminhos, também viverão em Deus’.” – O pastor de Hermas, cap. 38 da versão em português indicada na introdução, ou Livro II, Mandamento 6, cap. 2 da versão em inglês.

 

9) Justino de Roma, o Mártir (100-165 d.C.)

 

“Mas a prova da possibilidade da ressurreição da carne tenho demonstrado suficientemente, em resposta aos homens do mundo. E se a ressurreição da carne não for impossível nos princípios dos incrédulos, quanto mais será encontrado de acordo com a mente dos crentes! Mas, seguindo nossa ordem, devemos agora falar com respeito aos que pensam mal da carne, e dizer que não é digno da ressurreição nem da economia celestial, porque, primeiro, sua substância é terra, e também porque está cheia de toda a maldade, de modo que ela força a alma a pecar junto com ela. Mas essas pessoas parecem ser ignorantes de toda a obra de Deus, tanto da gênesis e formação do homem em primeiro lugar, e por que as coisas no mundo foram feitas. Porque não diz a palavra: ‘Façamos o homem à nossa imagem e à nossa semelhança’? Que tipo de homem? Manifestamente Ele significa homem carnal, pois a palavra diz: ‘E tomou Deus o pó da terra, e fez o homem’. É evidente, portanto, que o homem feito à imagem de Deus era de carne. Não é, portanto, absurdo dizer que a carne feita por Deus à Sua própria imagem é desprezível e não vale nada? Mas que quando a carne está com Deus uma possessão preciosa é manifestada, primeiramente por ter sido formada por Ele, se é que a imagem é valiosa para este último e para o artista. E, além disso, seu valor pode ser obtido a partir da criação do resto do mundo. E por conta disso é que o resto que é feito é o mais precioso de tudo para o construtor”. – Sobre a Ressurreição, Justino de Roma, cap. 7.

 

“Mas, na verdade, ele mesmo chamou a carne para a ressurreição, e promete a ela a vida eterna, pois onde Ele promete salvar o homem, ali Ele dá a promessa à carne. Pois o que é o homem, senão o animal razoável composto de corpo e alma? A alma é por si só homem? Não, mas a alma do homem. O corpo seria chamado homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, portanto, nenhum deles é por si só homem, mas o que é constituído pelos dois juntos é chamado homem, e Deus chamou o homem à vida e ressurreição, Ele não chamou uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo. Como não seria inquestionavelmente absurdo, se, enquanto estes dois estão no mesmo ser e de acordo com a mesma lei, um fosse salvo e o outro não? E se não for impossível, como já foi provado, que a carne seja regenerada, qual é a distinção na base da qual a alma é salva e o corpo não? Será que eles fazem Deus um Deus rancoroso? Mas Ele é bom, e terá tudo para ser salvo. E por Deus e Sua proclamação, não só sua alma ouviu e acreditou em Jesus Cristo, e com ela a carne, mas ambos foram lavados, e ambos fizeram justiça. Eles fazem Deus, então ingrato e injusto, se, enquanto ambos acreditam Nele, Ele deseja salvar um e não o outro. Bem, eles dizem, mas a alma é incorruptível, sendo parte de Deus e inspirada por Ele, e portanto Ele deseja salvar o que é peculiarmente Seu e afim de Si mesmo. Mas a carne é corruptível, e não dele, como a alma é. Então, que agradecimentos são devidos a Ele, e que manifestação de Seu poder e bondade é essa, se Ele se propôs salvar o que é por natureza salvo e existe como parte de Si mesmo? Pois ela tinha sua salvação de si mesma. De modo que em salvar a alma, Deus não faz grande coisa, pois ser salva é seu destino natural, porque é uma parte de si mesmo, sendo sua inspiração. Mas não se agradece a quem salva o que é seu, pois isso é para salvar a Si mesmo. Porque aquele que salva uma parte, salva-se por seus próprios meios, para que não se torne defeituoso nessa parte. E este não é o ato de um homem bom. Pois nem mesmo quando um homem faz o bem a seus filhos e descendência, alguém o chama de bom homem, visto que mesmo o mais selvagem dos animais selvagens faz o mesmo, e de fato suporta a morte, se necessário, por causa de seus filhotes. Mas se um homem fizesse os mesmos atos em favor de seus escravos, esse homem seria chamado de bom justamente. Portanto, o Salvador também nos ensinou a amar nossos inimigos, pois, diz ele, que agradecimento tem você? De modo que Ele nos mostrou que é uma boa obra não só amar aqueles que são gerados por Ele, mas também aqueles que estão fora. E o que Ele nos ordena, Ele mesmo faz tudo primeiro”. – Sobre a Ressurreição, Justino de Roma, cap. 8.

 

Justino faz acima uma referência à filosofia de Platão, segundo a qual a alma do homem é parte da alma de Deus, por isso não pode ser destruída e já está destinada à eternidade. Há, portanto, um rígido dualismo que implica no desprezo total do corpo pela alma. Essa linha de pensamento não corresponde ao ensino cristão, no qual está incluída a ressurreição do corpo, que para sempre ficará junto da alma. Veja mais detalhes nas próximas citações, inclusive o diálogo que Justino manteve com um judeu chamado Trifão.

 

“Se Ele não precisava da carne, por que Ele a curou? E o que é o mais forte de todos: Ele ressuscitou os mortos. Por quê? Não era para mostrar o que a ressurreição deveria existir? Como, então, ressuscitou os mortos? Suas almas ou seus corpos? Manifestamente ambos. Se a ressurreição fosse apenas espiritual, era necessário que Ele, ao ressuscitar os mortos, mostrasse o corpo separado por si mesmo, e a alma vivendo separadamente. Mas agora Ele não fez isso, mas levantou o corpo, confirmando nele a promessa de vida. Por que Ele ressuscitou na carne em que Ele sofreu, a não ser para mostrar a ressurreição da carne? E, desejando confirmar isso, quando seus discípulos não sabiam se criam que Ele havia realmente ressuscitado no corpo e olhavam para Ele e duvidavam, Ele lhes disse: ‘Vocês ainda não têm fé, vejam que sou eu’, e Ele os deixou tocá-lo, e mostrou-lhes as marcas dos pregos em Suas mãos. E quando eles estavam com toda sorte de provas persuadidos de que era Ele mesmo e no corpo, pediram-Lhe que comesse com eles, para que assim pudessem verificar com mais precisão que Ele havia ressuscitado corporalmente. E Ele comeu favo de mel e peixe. E quando Ele lhes mostrou que há uma verdadeira ressurreição da carne, desejando mostrar-lhes também isto, que não é impossível que a carne suba ao céu (como Ele havia dito que nossa morada está no céu) ‘Ele foi levado ao céu enquanto eles contemplavam’, quando Ele estava na carne. Se, portanto, depois de tudo o que foi dito, alguém exigir demonstração da ressurreição, ele não é diferente dos saduceus, uma vez que a ressurreição da carne é o poder de Deus, e, acima de todo raciocínio, é estabelecido pela fé, e visto nas obras”. – Sobre a Ressurreição, Justino de Roma, cap. 9.

 

“A ressurreição é a ressurreição da carne que morreu. Pois o espírito não morre. A alma está no corpo, e sem alma não pode viver. O corpo, quando a alma o abandona, [já] não é [um ser vivo]. Porque o corpo é a casa da alma, e a alma, a casa do espírito. Estes três, em todos aqueles que apreciam uma esperança sincera e uma fé inquestionável em Deus, serão salvos. Considerando, portanto, até mesmo os argumentos que são adequados a este mundo, e descobrindo que, mesmo de acordo com eles, não é impossível que a carne seja regenerada, e vendo que, além de todas essas provas, o Salvador em todo o Evangelho mostra que há salvação para a carne, por que ainda toleramos esses argumentos incrédulos e perigosos, e não vemos que estamos retroagindo quando ouvimos um argumento tal como este: que a alma é imortal, mas o corpo mortal, e incapaz de ser revivido? Para isso, costumávamos ouvir Pitágoras e Platão, mesmo antes de termos aprendido a verdade. Se, então, o Salvador disse isso e proclamou a salvação somente à alma, que coisa nova, além do que ouvimos de Pitágoras, Platão e toda o seu pessoal, Ele nos trouxe? Mas agora Ele vem proclamando o evangelho de uma nova e estranha esperança para os homens. De fato, foi uma coisa estranha e nova para Deus prometer que Ele não manteria a incorrupção na incorrupção, mas faria a corrupção incorruptível. Mas como o príncipe da iniqüidade não podia de outra maneira corromper a verdade, enviou seus apóstolos (homens maus que introduziram doutrinas pestilentas), escolhendo-os dentre os que crucificaram nosso Salvador. E estes homens carregaram o nome do Salvador, mas fizeram as obras daquele que os enviou, por meio dos quais o próprio nome foi falado contra. Mas se a carne não se levanta, por que ela é também guardada? Porque ao invés de fazê-la sofrer não saciamos os seus desejos? Por que não imitamos os médicos, que, segundo se diz, quando recebem um paciente desesperado e incurável, permitem-no satisfazer seus desejos? Pois eles sabem que ele está morrendo. E é verdade que aqueles que odeiam a carne certamente o fazem, tirando-os da sua herança, tanto quanto podem, porque, por isso, também a desprezam, porque logo se tornarão um cadáver. Mas se nosso médico Cristo, Deus, tendo nos resgatado de nossos desejos, regula nossa carne com Seu próprio governo sábio e temperado, é evidente que Ele a protege dos pecados porque ela possui uma esperança de salvação, assim como os médicos não fazem sofrer os homens a quem esperam salvar ao [invés de] saciar os prazeres de que se agradam”. – Sobre a ressurreição dos Mortos, Justino de Roma, cap. 10, colchetes acrescentados.

 

As advertências acima de Justino, além de contradizerem a doutrina grega da imortalidade inerente da alma e o consequente desprezo do corpo, ainda tocam em aspectos gnósticos, uma vez que os representantes do gnosticismo também sobrevalorizavam a existência espiritual em detrimento da vida no corpo físico, ao passo que a Bíblia atribui alto valor às duas formas de existência, estando ambas presentes na esperança da ressurreição.

 

Diálogo 1 (de Justino com o judeu Trifão):

 

“Enquanto eu ia numa manhã nos passeios do Xisto, certo homem [Trifão], com outros em sua companhia, me abordou.

 

Trifão: Salve, filósofo!


E imediatamente depois de dizer isso, ele se virou e caminhou comigo. Seus amigos também o seguiram.

 

Justino: O que há de importante?

 

Trifão: Eu fui instruído por Corinto, o socrático, em Argos, que eu não devia desprezar ou tratar com indiferença aqueles que se arranjam nesta vestimenta, mas mostrar-lhes toda a bondade e associar-me com eles, visto que talvez alguma vantagem surgisse desse relacionamento com algum homem ou comigo. É bom, além disso, para ambos, se um ou o outro seja beneficiado. Por isso, sempre que vejo alguém com tal traje, aproximo-me dele com alegria, e agora, pela mesma razão, tenho-me de bom grado me aproximado de você. E estes me acompanham, na expectativa de ouvir por si mesmos algo proveitoso de você.

 

Justino (em brincadeira): Mas quem é você, homem excelente?

 

Então ele me disse francamente seu nome e sua família.

 

Trifão: Eu sou chamado Trifão. E sou um hebreu de circuncisão, e tendo escapado da guerra ultimamente levada para lá, estou passando meus dias na Grécia, e principalmente em Corinto.

 

Justino: E em que você seria beneficiado pela filosofia, assim como por seu próprio legislador e os profetas?

 

Trifão: Por que não? Os filósofos não voltam cada discurso para Deus? E não lhes surgem perguntas continuamente sobre Sua unidade e providência? Não é verdadeiramente o dever da filosofia, investigar a Deidade?

 

Justino: Certamente nós também acreditamos. Porém a maioria não tem pensado nisso, sobre se há um ou mais deuses, e se eles têm um respeito por cada um de nós ou não, como se este conhecimento não contribuísse em nada para a nossa felicidade. Eles tentam, além disso, convencer-nos de que Deus cuida do universo com seus gêneros e espécies, mas não de mim e de você, e a cada um individualmente, já que de outra forma não precisaríamos orar a Ele noite e dia. Mas não é difícil entender o resultado disso. Por destemor e licença em falar resultam que eles mantêm tais opiniões, fazendo e dizendo o que quer que escolham, nem temendo a punição nem esperando qualquer benefício de Deus. Pois como poderiam? Afirmam que as mesmas coisas sempre acontecerão. E, além disso, que eu e vocês voltaremos a viver da mesma maneira, não sendo nem melhores nem piores. Mas há outros que, tendo suposto que a alma é imortal e imaterial, acreditam que, embora tenham cometido o mal, não sofrerão castigo (pois o que é imaterial é insensível), e que a alma, em conseqüência de sua imortalidade, não precisa de nada de Deus.

 

Trifão (sorrindo suavemente): Diga-nos a sua opinião sobre estas questões, e que ideia você entrete a respeito de Deus, e qual é a sua filosofia”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 1.

 

Justino, mais adiante, diz que se frustrou com a filosofia e deu uma última chance a ela por estudar mais seriamente o platonismo:

 

“... Consequentemente [depois de não obter sucesso nas escolas filosóficas mencionadas], fiquei um pouco impaciente, como era de esperar quando eu falhei em minha esperança, tanto mais porque eu achava que o homem tinha algum conhecimento. Mas refletindo novamente sobre o espaço de tempo durante o qual eu teria de demorar-me nesses ramos do aprendizado, eu não era capaz de suportar mais procrastinação. Na minha condição desamparada, ocorreu-me ter um encontro com os platônicos, pois sua fama era grande. Passei o maior tempo possível com alguém que se instalara recentemente em nossa cidade, um homem sagaz, que ocupava uma posição elevada entre os platônicos, e eu progredia e fazia as maiores melhorias diariamente. E a percepção das coisas imateriais me dominou bastante, e a contemplação das ideias forneceu asas à minha mente, de modo que em pouco tempo eu supus que eu tinha me tornado sábio, tal era a minha estupidez. Eu esperava imediatamente olhar para Deus, pois este é o fim da filosofia de Platão”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 2, abreviado, colchetes acrescentados.

 

Porém, como deixou claro no restante do seu diálogo, no final das contas Platão também não o satisfez, e foi somente quando se tornou cristão que Justino passou a se sentir verdadeiramente sábio, e a partir daí começou a combater conceitos platônicos, ainda que ocasionalmente destacasse alguma qualidade de Platão ou de outros filósofos.

 

Diálogo 2 (com Trifão):

 

Trifão: Disse-lhe, senhor, que está muito ansioso por estar seguro em todos os aspectos, uma vez que se apega às Escrituras. Mas, diga-me, você realmente admite que este lugar, Jerusalém, será reconstruído. E espera que o vosso povo se ajunte e se alegre com Cristo, com os patriarcas e com os profetas, homens da nossa nação, e outros prosélitos que se uniram a eles antes de vosso Cristo? Ou você deu forma, e admitiu isso para ter a aparência de nos piorar em controvérsias?

 

Justino: Eu não sou tão miserável, Trifão, para dizer uma coisa e pensar outra. Admiti a você anteriormente que eu e muitos outros somos da mesma opinião, e cremos que tal acontecerá, como vocês certamente sabem. Mas, por outro lado, demonstrei a vocês que muitos que pertencem à fé pura e piedosa, e são verdadeiros cristãos, pensam o contrário. Além disso, eu indiquei também que alguns que são chamados cristãos, mas são ímpios, ímpios hereges, ensinam doutrinas que são de todo modo blasfemas, ateias e tolas. Mas para que saibam que não digo isto apenas diante de vocês, elaborarei uma declaração, na medida do possível, de todos os argumentos que se passaram entre nós, na qual eu vou registrar-me como admitindo as mesmas coisas que eu admito para vocês, pois eu escolhi não seguir a homens nem a doutrinas de homens, mas Deus e as doutrinas [entregues] por Ele. Pois, se você caiu na conversa de alguns que são chamados cristãos, mas que não admitem isto, e arriscam-se a blasfemar contra o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e que dizem que não há ressurreição dos mortos, e que suas almas, quando eles morrem, são levadas para o céu, não imaginem que eles são cristãos, caso se considere isso corretamente, [isso inclui] até mesmo alguém que não admitiria que os saduceus, ou seitas semelhantes às Genistae, Meristae, Galileanos, Helenistas, fariseus, batistas, são judeus apenas porque são chamados de judeus e filhos de Abraão, visto que adoram a Deus com os lábios, como o próprio Deus declarou, porém com o coração estão muito longe dele (não me ouça impacientemente quando eu digo a vocês o que eu penso). Mas eu e outros, que temos a mente cristã correta sobre esses pontos, temos a certeza de que haverá uma ressurreição de mortos e mil anos em Jerusalém, que então será construída, adornada e ampliada, como os profetas Ezequiel, Isaías e outros declaram”. – Diálogo com Trifão, Justino de Roma, cap. 80, colchetes acrescentados.

 

Justino sabia que, de uma maneira geral, as almas não vão para o céu, mas descem para o Hades, o mundo subterrâneo. No entanto, quando disse que não são cristãos os que ensinam que as almas vão para o céu depois da morte, Justino não estava negando tal possibilidade. E nem poderia, pois ele próprio disse, em sua primeira apologia que “as almas dos ímpios, dotadas de sensação, mesmo após a morte, são punidas, e que aqueles do bem que estão sendo libertos da punição passam para uma existência abençoada”. O que está de acordo com a afirmação que ele fez no capítulo 105 do seu diálogo com Trifão, ao dizer que na morte deveríamos orar para que nossas almas fossem encomendadas a Deus e não caíssem nas mãos de poderes malignos. Além disso, outros apologistas cristãos que lhe eram contemporâneos, a exemplo do seu discípulo Taciano, e a própria Bíblia dizem que Deus pode levar almas para o céu. Logo, o que Justino estava dizendo sobre almas não irem para o céu tinha como foco as pessoas que não creem na ressurreição do corpo, segundo as quais a morte encerraria todo o propósito de Deus para o homem (conforme pensavam os gnósticos). Os que defendiam esta ideia não deviam ser chamados de cristãos, pois, ao contrário do que os gregos também achavam, o corpo faz parte do plano de Deus para o homem no que diz respeito à eternidade. Portanto, não é um pensamento cristão menosprezar o corpo e sobrevalorizar a existência da alma depois da morte, pois ambos usufruirão a vida eterna. – Apocalipse 6:9, 10; 20:4.

 

10) Taciano, o Assírio (110-172 d.C.)

 

Que coisa nobre você produziu por sua busca da filosofia? Quem dos vossos homens mais eminentes está livre de vanglória? Diógenes, que fez tal desfile de sua independência com sua banheira, foi tomado por uma queixa intestinal ao comer um fruto do mar cru, e assim perdeu a vida pela gula. Aristipo, andando com uma túnica roxa, manteve uma vida libertina, de acordo com suas opiniões professadas. Platão, um filósofo, foi vendido por Dionísio por suas propensões de glutão. E Aristóteles, que absurdamente colocava um limite na Providência e fazia a felicidade consistir nas coisas que dão prazer, contrariamente ao seu dever de preceptor, lisonjeava Alexandre, esquecendo-se de que ele não era mais que um jovem. E ele, mostrando quão bem tinha aprendido as lições de seu mestre, só porque seu amigo não quis adorá-lo o trancou e o carregou como se fosse um urso ou um leopardo. De fato, ele obedeceu estritamente aos preceitos de seu mestre, mostrando a virilidade e a coragem ao banquetear-se, e traspassar com sua lança o seu amado e íntimo amigo. Então, sob uma aparência de tristeza, chorando e passando fome, é que ele não poderia ser odiado por seus amigos. Eu poderia rir daqueles que ainda hoje aderem aos seus princípios - pessoas que dizem que as coisas sublunares não estão sob o cuidado da Providência. E assim, estando mais perto da terra do que a lua, e debaixo de sua órbita, eles mesmos cuidam do que é assim deixado sem cuidados. E quanto aos que não têm nem beleza, nem riqueza, nem força corporal, nem elevado nascimento, não têm felicidade, segundo Aristóteles. Que tais homens filosofem para mim!” – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 2.

 

Reconhecemos duas variedades de espírito, uma das quais é chamada de alma, mas a outra é maior que a alma, uma imagem e semelhança de Deus: ambas existiam nos primeiros homens, que em certo sentido poderiam ser materiais, e em outro superior à matéria. O caso está assim: podemos ver que toda a estrutura do mundo, e toda a criação, foi produzida a partir da matéria, e a matéria em si, trazida à existência por Deus. De modo que, por um lado, pode ser considerada rude e sem forma antes de ser separada em partes e, por outro lado, organizada em beleza e ordem depois que a separação foi feita. Portanto, naquela separação os céus eram feitos de matéria, e as estrelas que neles há, e a terra e tudo o que está sobre ela tem uma constituição semelhante: de modo que há uma origem comum de todas as coisas. Mas, enquanto tal é o caso, ainda há certas diferenças nas coisas feitas de matéria, de modo que uma é mais bonita, e outra é bela, mas superada por algo melhor. Pois, como a constituição do corpo está sob uma gestão, e está empenhada em fazer aquilo que é a causa de ter sido feita, embora este seja o caso, há certas diferenças de dignidade nele, e o olho é uma coisa e outra a orelha, e outra o arranjo dos cabelos e a distribuição dos intestinos, e a compactação conjunta da medula e dos ossos e dos tendões. E embora uma parte difira da outra, há ainda toda a harmonia de um concerto de música em seu arranjo - do mesmo modo é o mundo, de acordo com o poder de seu Criador, contendo algumas coisas de esplendor superior, mas algumas ao contrário destas, recebidas pela vontade do Criador um espírito material. E estas coisas, em conjunto, é possível para ele perceber quem não preguiçosamente rejeita aquelas explicações mais divinas que, com o passar do tempo, foram consignadas à escrita, e tornam aqueles que as estudam grandes amantes de Deus. Portanto, os demônios, como vocês os chamam, tendo recebido sua estrutura da matéria e obtido o espírito que nela está, tornaram-se intemperantes e gananciosos. Alguns poucos, na verdade, voltando-se para o que era mais puro, mas outros escolhendo o que era inferior na matéria, e conformando seu modo de vida para ela. Esses seres, produzidos a partir da matéria, mas muito distantes da conduta correta, vocês, ó gregos, adoram. Pois, voltados pela sua própria insensatez à vaidade, e se livrando das rédeas, eles se tornaram ladrões da Deidade. E o Senhor de todos os fez sofrer para expor a si próprios, até que o mundo, chegando ao fim, seja dissolvido, e o Juiz apareça, e todos aqueles homens que, enquanto atacados pelos demônios, por se esforçarem em seguir o conhecimento do Deus perfeito obtém como resultado de seus conflitos um testemunho mais perfeito no dia do julgamento. Há, então, um espírito nas estrelas, um espírito nos anjos, um espírito nas plantas e nas águas, um espírito nos homens, um espírito nos animais. Mas, embora sendo o mesmo, tem diferenças em si mesmo. E enquanto dizemos essas coisas não por simples rumores, nem por prováveis conjecturas e raciocínios sofísticos, mas usando palavras de um certo discurso divino, você fica disposto a apressar-se em aprender. E você que não rejeita com desprezo o cita Anacarsis, não despreze ser ensinado por aqueles que seguem um código de leis bárbaro. Dê, pelo menos, uma recepção tão favorável aos nossos princípios como faria com os prognósticos dos babilônios. Ouça-nos quando falamos, apenas como você faria com um carvalho oracular. E, no entanto, as coisas que acabamos de nos referir são as astúcias de demônios frenéticos, enquanto as doutrinas que inculcamos estão muito além da apreensão do mundo”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 12.

 

“Que grandes e maravilhosas coisas têm seus filósofos efetuado? Deixam um de seus ombros descoberto. Deixam crescer o cabelo. Eles cultivam suas barbas. Suas unhas são como as garras de feras selvagens. Embora eles digam que não querem nada, a exemplo de Proteus, mesmo assim eles precisam de um curtidor para seu alforje, de um tecelão para seu manto, de um cortador de madeira para o seu pessoal, e os ricos, um cozinheiro também para a sua gula. Ó homem que compete com o cão, você não conhece a Deus, e assim se voltaram para a imitação de um animal irracional. Você clama em público com uma suposição de autoridade, e assume a vingança sobre si mesmo. E se você não receber nada, você indulge em abuso, e a filosofia é com você a arte de obter dinheiro. Você segue as doutrinas de Platão, e um discípulo de Epicuro ergue sua voz para se opor a você. Novamente, você deseja ser um discípulo de Aristóteles, e um seguidor de Demócrito passa por cima de você. Pitágoras diz que ele era Euforbo, e ele é o herdeiro da doutrina de Ferécides. Mas Aristóteles impugna a imortalidade da alma. Vocês que recebem de suas predecessoras doutrinas que se chocam umas com as outros, vocês, os desarmoniosos, estão lutando contra os harmoniosos. Um de vocês afirma que Deus é corpo, mas afirmo que Ele é sem corpo. Que o mundo é indestrutível, mas digo que deve ser destruído. Que uma conflagração ocorrerá em várias ocasiões, mas digo que ela acontecerá de uma vez por todas. Que Minos e Radamanto são juizes, mas eu digo que o próprio Deus é Juiz. Que só a alma é dotada de imortalidade, mas digo que a carne também é dotada dela. Que lesão infligimos a vocês, ó gregos? Por que vocês odeiam aqueles que seguem a Palavra de Deus, como se fossem os mais vis dos homens? Não somos nós que comemos carne humana – eles, que dentre vocês afirmam tal coisa, é que foram subornados como falsas testemunhas. É entre vocês que Pélope serviu de ceia para os deuses, embora fosse amado por Poseidon, e Cronos devorou seus filhos, e Zeus engoliu Métis [sua esposa]”. – Discurso aos gregos, Taciano, cap. 25, colchetes acrescentados.

 

11) Atenágoras de Atenas (?-180 d.C.)

 

“Uma vez que, portanto, a unidade da Deidade é confessada por quase todos, mesmo contra a sua vontade, quando tratam dos primeiros princípios do universo, e nós, por sua vez, afirmamos também que Ele que organizou este universo é Deus – por que é que eles podem dizer e escrever impunemente o que lhes agrada sobre a Deidade, ao passo que contra nós uma lei está em vigor, embora possamos demonstrar o que apreendemos e justamente acreditamos, isto é, que existe um Deus, com provas e razão compatíveis com a verdade? Para os poetas e filósofos, como para outros sujeitos assim também a isto aplicaram-se na maneira de conjectura, mudaram, por causa de sua afinidade com a inspiração de Deus, cada um por sua própria alma, para tentar se poderiam descobrir e apreender a verdade. Mas não foram achados competentes para apreendê-la completamente, porque julgaram oportuno aprender, não de Deus concernente a Deus, mas cada um de si mesmo. Daí vieram cada um à sua própria conclusão a respeito de Deus, e da matéria, e das formas, e do mundo. Mas temos testemunhas das coisas que apreendemos e cremos, profetas, homens que se pronunciaram a respeito de Deus e das coisas de Deus, guiados pelo Espírito de Deus. E você também admitirá, superando todos os outros como você faz em inteligência e em piedade em relação ao Deus verdadeiro, que seria irracional para nós deixarmos de acreditar no Espírito de Deus, que moveu as bocas dos Profetas como instrumentos musicais, e dar atenção às meras opiniões humanas”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 7.

 

“Deveríamos nós, então, a menos que acreditássemos que um deus preside sobre a raça humana, assim purgamo-nos do mal? Com certeza não. Mas, porque estamos persuadidos de que daremos conta de tudo na vida presente a Deus, que nos criou a nós e ao mundo, adotamos um método de vida temperado e benevolente e geralmente desprezado, acreditando que não sofreremos tal grande mal aqui, mesmo que nossas vidas sejam tiradas de nós, em comparação com o que lá receberemos para nossa vida mansa e benevolente e moderada do grande Juiz. Platão realmente disse que Minos e Radamantos julgarão e punirão os ímpios. Mas nós dizemos que, mesmo que um homem seja Minos ou Radamanto ele mesmo, ou seu pai, mesmo ele, não escaparão do julgamento de Deus. São, então, aqueles que consideram a vida como sendo compreendida nisto: ‘Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’ [lema dos epicureus], e que consideram a morte como um sono profundo e esquecimento (‘sono e morte, irmãos gêmeos’), para serem considerados piedosos. Enquanto os homens que consideram a vida presente de valor muito pequeno, e que são conduzidos à vida futura por esta única coisa: que conhecem Deus e Seu Logos [a Palavra ou Verbo], que é a unicidade do Filho com o Pai, que é a comunhão do Pai com o Filho, que é o Espírito, que é a unidade destes três, o Espírito, o Filho, o Pai, e sua distinção em unidade. E que saibam que a vida para a qual olhamos é muito melhor do que pode ser descrita em palavras, desde que cheguemos a ela puros de toda a maldade. Que, além disso, carregam nossa benevolência a tal ponto, que não só amamos nossos amigos (‘porque se amardes’, diz Ele, ‘somente os que vos amam e emprestardes aos que vos emprestam, que recompensa tereis?’), porventura, digo eu, quando tal é o nosso caráter que vivemos uma vida como esta, [será que] escaparemos finalmente da condenação, não sendo considerados piedosos? Estes, no entanto, são apenas pequenas coisas tiradas das grandes, e algumas coisas de muitas, para que não possamos mais ultrapassar a sua paciência, porque aqueles que experimentam o mel e o soro de leite, julgam por uma pequena quantidade se o completo é bom”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 12, colchetes acrescentados.

 

Quando formos removidos da vida atual viveremos outra vida melhor do que a presente... ou uma vida pior e no fogo, porque Deus não nos fez como ovelhas ou animais de carga, uma mera força de trabalho, e para que sejamos perecíveis e aniquilados. Por estes motivos, não é provável que desejemos fazer o mal, ou entregar-nos ao grande juiz para sermos punidos”. – Um apelo em favor dos cristãos, Atenágoras de Atenas, cap. 31, trecho incompleto (leia o restante acessando o link).

 

Pois ou a morte é a total extinção da vida, a alma sendo dissolvida e corrompida junto com o corpo, ou a alma permanece por si mesma, incapaz de dissolução, de dispersão, de corrupção, enquanto o corpo é corrompido e dissolvido, não mais retendo a lembrança de ações passadas, nem o sentido do que experimentou em conexão com a alma. Se a vida dos homens deve ser completamente extinguida, é manifesto que não haverá cuidado para os homens que não vivem, nenhum julgamento sobre aqueles que viveram na virtude ou no vício, mas voltará a correr sobre nós tudo o que pertence a uma vida sem lei, e o enxame de absurdos que dela derivam, e o que é o cume desta iniquidade: o ateísmo. Mas se o corpo fosse corrompido e cada uma das partículas dissolvidas passasse para o seu elemento parente, contudo a alma permanecesse por si mesma como imortal, nem nessa suposição haveria julgamento sobre a alma, pois haveria um ausência de equidade, pois é ilegal suspeitar que qualquer julgamento pode proceder de Deus com falta de equidade da parte de Deus. Mas a equidade está faltando ao julgamento, se o ser que praticava a justiça ou a iniquidade não é preservado na existência, pois o que praticava cada uma das coisas na vida em que o julgamento é passado era o homem, não a alma por si só. Para resumir tudo em uma palavra, esta visão [de julgar separadamente alma e corpo] não irá, em caso algum, consistir em equidade”. – Sobre a ressurreição dos mortos, Atenágoras de Atenas, cap. 20, colchetes acrescentados.

 

Desde o início os cristãos já se davam conta de que um eventual conceito de inexistência completa depois da morte está relacionado a crenças ateístas, não só por questões metafísicas, mas também por aspectos morais e de justiça divina. E o mais importante: porque a Bíblia realmente nunca ensinou o materialismo em relação à existência humana, como se a vida fosse resultado apenas de mecanismos biológicos e não houvesse espaço para as noções de alma e espírito. Se estes não existissem literal e verdadeiramente, seríamos meros “androides” autoconscientes feitos de carne e osso. E apenas um back up das informações do nosso cérebro permitiria a “continuidade” da existência depois da morte, em outro momento do tempo. É mais ou menos nisso que os aniquilacionistas acreditam e nem se dão conta, ao inovarem com o seu materialismo “cristão”.

 

12) Teófilo de Antioquia (115-181 d.C.)

 

“E por que eu deveria contar mais a vasta gama de tais nomes e genealogias? De modo que todos os autores e poetas, e aqueles chamados filósofos, estão totalmente enganados. E assim, também, são os que dão ouvidos a eles. Pois eles compuseram fábulas e estórias sobre seus deuses, e não os exibiram como deuses, mas como homens, alguns dos quais ficavam embriagados, e outros eram fornicadores e assassinos. Mas também quanto à origem do mundo, eles emitiram opiniões contraditórias e absurdas. Primeiro, alguns deles, como explicamos anteriormente, sustentavam que o mundo é incriado [a exemplo dos platônicos]. E aqueles que disseram que era incriado e autoproduzido contradisseram aqueles que propunham que ele foi criado. Pois, por conjectura e concepção humana, falavam e não conheciam a verdade. E outros, mais uma vez, disseram que havia uma providência, e destruíram as posições dos escritores anteriores . . . Por isso Eurípides diz: ‘Trabalhamos muito e gastamos nossas forças em vão, porque a esperança está vazia, a não previsão é o nosso guia.’ E sem querer fazê-lo, eles reconhecem que não conhecem a verdade. Mas sendo inspirados por demônios e inchados por eles, eles falaram em suas instâncias o que quer que dissessem. Pois, de fato, os poetas Homero, Sagitário e Hesíodo, como se diz, inspirados pelas Musas, falavam de uma fantasia enganosa, e não de um espírito puro, mas errático. E isto, de fato, claramente surge do fato de que, até hoje, quando os possuídos são às vezes exorcizados em nome do Deus vivo e verdadeiro, esses espíritos de erro confessam que são demônios que também inspiraram esses escritores. Às vezes, porém, alguns deles despertavam em alma e, para serem testemunhas, tanto para si como para todos os homens, falavam coisas em harmonia com os profetas a respeito da monarquia de Deus e do julgamento e coisas semelhantes”. – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro II, cap. 8, trecho abreviado (para ver o restante acesse o link), colchetes acrescentados.

 

“Quem, então, daqueles chamados sábios, poetas e historiadores, poderia nos dizer verdadeiramente essas coisas, nascendo muito mais tarde, e introduzindo uma multidão de deuses, que nasceram tantos anos depois das cidades e são mais modernos que reis, e nações, e guerras? Pois deveriam ter feito menção de todos os acontecimentos, mesmo os que ocorreram antes do dilúvio, tanto da criação do mundo como da formação do homem, e toda a sucessão dos acontecimentos. Os profetas egípcios ou caldeus, e os outros escritores, deveriam ter sido capazes de dizer com precisão se pelo menos eles falaram por um espírito divino e puro, e falaram a verdade em tudo o que foi proferido por eles. E eles deveriam ter anunciado não só as coisas passadas ou presentes, mas também as que viriam sobre o mundo. E, portanto, está provado que todos os outros estavam em erro, e que só nós cristãos temos possuído a verdade, na medida em que somos ensinados pelo Espírito Santo, que falou nos santos profetas, e previu todas as coisas”. – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro II, cap. 33, colchetes acrescentados.

 

“Pois, depois de terem dito que estes são deuses, tornaram a não fazer conta deles. Alguns diziam que eram compostos de átomos. E outros, mais uma vez, que resultam em átomos, e dizem que os deuses não têm mais poder do que os homens. Platão também, embora diga que estes são deuses, os teria considerado compostos de matéria. E Pitágoras, depois de ter feito tal engodo e confusão sobre os deuses, e tendo percorrido [a informação] para cima e para baixo, finalmente determina que todas as coisas são produzidas natural e espontaneamente, e que os deuses não se preocupam com nada dos homens. E quantas opiniões ateístas Clitómaque, o acadêmico, apresentou, (Não preciso recontar.) E Critias e Protágoras de Abdera não disseram: ‘Se os deuses existem, eu não sou capaz de afirmar nada a respeito deles, nem explicar a natureza que eles são, pois há muitas coisas que me impedem’? E falar das opiniões dos mais ateístas, Euhemerus, é supérfluo. Por ter feito muitas ousadas afirmações a respeito dos deuses, ele finalmente negaria sua existência, e teria todas as coisas a serem governadas por ação autoregulada. E Platão, que falou tanto da unidade de Deus quanto da alma do homem, afirmando que a alma é imortal, não é ele mesmo, mais tarde, encontrado inconsistentemente consigo mesmo, ao afirmar que algumas almas passam para outros homens e que outras partem para os animais irracionais? Como então sua doutrina não pode parecer terrível e monstruosa – ao menos para os que têm algum discernimento - que aquele que foi um homem será depois um lobo, ou um cão, ou um burro, ou algum outro animal irracional? Pitágoras, também, é encontrado ventilando disparates semelhantes, além de sua demolidora providência. Em qual deles, então, devemos crer? Fílemon, o poeta cômico, que diz: ‘Boa esperança têm aqueles que louvam e servem os deuses’; Ou aqueles a quem mencionamos - Euhemerus, Epicuro, Pitágoras e os outros que negam que os deuses devem ser adorados e querem abolir a providência?” – Para Autólico, Teófilo de Antioquia, Livro III, cap. 7, trecho incompleto (para ler o restante entre no link indicado), colchetes acrescentados.

 

13) Um antimontanista (c. 193 d.C.)

 

“O inimigo da Igreja de Deus, que é enfaticamente um odiador do bem e um amante do mal, e não deixa de tentar todo tipo de astúcia contra os homens, tornou-se ativo em fazer surgir estranhas heresias contra a Igreja. Para algumas pessoas, como répteis venenosos, rastejaram sobre a Ásia e a Frígia, vangloriando-se de que Montano era o Paráclito, e que as mulheres que o seguiram, Priscila e Maximila, eram profetisas de Montano”. – Contra Montano, autor anônimo, c. 193 d.C., citado por Eusébio de Cesareia, Livro II, cap. 14.


“Diz-se que há uma certa aldeia chamada Ardabã na parte da Mísia, que faz limite com a Frígia. Primeiramente, dizem eles, quando Grato era procônsul da Ásia, um convertido recente chamado Montano, por seu insaciável desejo de liderança, deu a oportunidade adversária contra si próprio. E ficou fora de si, e de repente, em uma espécie de frenesi e êxtase, ele começou a delirar, e começou a balbuciar e falar coisas estranhas, profetizando de uma maneira contrária ao constante costume da Igreja transmitida pela tradição desde o início... Assim, por meio do artifício, ou melhor, por tal sistema de artes malignas, o diabo, inventando a destruição para os desobedientes e sendo indignamente honrado por eles, secretamente excitou e inflamou seus entendimentos que já se haviam afastado da verdadeira fé. E, além disso, levantaram-se duas mulheres, e também ficaram cheias de espírito falso, para que falassem descontroladamente, sem razão e estranhamente, como a pessoa já mencionada. E o espírito declarou os presentes abençoados quando se alegraram e glorificaram nele, e os incharam pela magnitude de suas promessas. Mas às vezes ele os repreendia abertamente de uma maneira sábia e fiel, para que ele pudesse parecer um reprovador. Mas os dos frígios que foram enganados eram poucos em número. E o espírito arrogante ensinou-os a injuriar toda a Igreja universal debaixo do céu, porque o espírito da falsa profecia não recebeu honra nem entrada nela. Pois os fiéis na Ásia reuniram-se frequentemente em muitos lugares da Ásia para considerar este assunto, examinaram as novas declarações e as declararam profanas, e rejeitaram a heresia, e assim essas pessoas foram expulsas da Igreja e excluídas da comunhão... Quando os chamados ao martírio da Igreja pela verdade da fé se encontravam com qualquer um dos chamados mártires da heresia frígia, eles se separavam deles e morreram sem qualquer comunhão com eles, porque não quiseram dar o seu consentimento ao espírito de Montano e das mulheres, e isso é verdade e aconteceu em nosso tempo em Apamea, no Meandro, entre aqueles que sofreram o martírio com Caius e Alexandre de Eumenia”. – Contra Montano, autor anônimo, c. 193 d.C., citado por Eusébio de Cesareia, Livro II, cap. 16; trecho incompleto (ler o restante no link).

 

13) Polícrates de Éfeso (130-196 d.C.)

 

“Quanto a nós, então, observamos escrupulosamente o dia exato [da celebração da morte do Senhor], não acrescentando nem tirando. Pois na Ásia, grandes luminares foram repousar, os que se levantarão novamente no dia da vinda do Senhor, quando Ele vier com glória do céu e ressuscitar todos os santos. Falo de Filipe, um dos doze apóstolos, que está deitado em Hierápolis, e suas duas filhas, que chegaram à idade avançada solteiras, sua outra filha também, que passou sua vida sob a influência do Espírito Santo, e repousa em Éfeso. João, além disso, que se reclinou no seio do Senhor, e que se tornou um sacerdote vestindo a mitra, e uma testemunha e um professor, ele repousa em Éfeso. Então, há Policarpo, tanto bispo como mártir em Esmirna. E Traseas de Eumenia, ambos bispos e mártires, que repousam em Esmirna. Por que devo falar de Sagaris, bispo e mártir, que descansa em Laodiceia? Além do abençoado Papirius? E de Melitão, o eunuco, que executou todas as suas ações sob a influência do Espírito Santo, e encontra-se em Sardes, aguardando a visitação do céu, quando ressuscitar dos mortos? Todos eles mantiveram a páscoa no dia 14 do mês, de acordo com o Evangelho, sem nunca desviá-lo, mas mantendo a regra da fé.

 

“Além disso, eu também, Polícrates, que sou o menor de todos vocês, de acordo com a tradição de meus parentes, alguns dos quais eu obtive sucesso - sete de meus parentes eram bispos, e eu sou o oitavo, e meus parentes sempre observaram o dia quando o povo afasta o fermento - eu mesmo, irmãos, digo, que tenho sessenta e cinco anos de idade no Senhor, e tenho caído com os irmãos em todas as partes do mundo, e tenho lido toda a Sagrada Escritura. Não assustado com as coisas que são ditas para nos aterrorizar. Para aqueles que são maiores do que eu, disse: ‘Devemos obedecer a Deus e não aos homens’...

 

“Eu poderia também mencionar os bispos associados a mim, que era o desejo de vocês tê-los convocado junto de mim, e eu os reuni: aqueles nomes, se eu os escrevesse, seria um grande número. Estes bispos, ao virem me ver, indignos como eu mesmo sou, manifestaram a sua unida aprovação da carta, sabendo que eu não usava esses cabelos brancos em vão, mas sempre regularam minha conduta em obediência ao Senhor Jesus”. – Polícrates de Éfeso, Fragmento sobre a Páscoa cristã.

 

O trecho acima faz parte de uma carta que foi enviada por Polícrates ao bispo de Roma (hoje chamado de “Papa”). Refere-se a um debate interno que surgiu logo cedo na história do Cristianismo, sobre se a Páscoa cristã, que está relacionada com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, tinha que ser celebrada sempre em um domingo após a sexta-feira santa ou deveria seguir o calendário judaico, sendo observada apenas no dia 14 de nisã (ou abibe). Os cristãos da Ásia menor, onde fica hoje a Turquia, diziam que o correto era seguir o cálculo dos judeus, o que faria o dia da morte de Jesus cair em qualquer dia da semana e, consequentemente, o terceiro dia, o da ressurreição, em um dia que não seria necessariamente o domingo. Para mais informações sobre esse assunto consulte o artigo “Sobre a Páscoa e a periodicidade da celebração da morte de Cristo”.

 

14) Irineu de Lyon (120-202 d.C.)

 

“Estas opiniões, Florino, para que eu possa falar em termos suaves, não são de sã doutrina. Estas opiniões não são consoantes à Igreja, e envolvem seus devotos na maior impiedade. Estas opiniões mesmo os hereges além do âmbito da igreja nunca se aventuraram a abordar. Essas opiniões, aqueles presbíteros que nos precederam e que estavam familiarizados com os apóstolos, não deram a você. Pois, quando ainda era menino, eu vi você na Ásia Menor com Policarpo, distinguindo-se na corte real e procurando obter a sua aprovação. Pois eu tenho uma lembrança mais vívida do que ocorreu naquela época do que dos acontecimentos recentes (na medida em que as experiências da infância, acompanhando o crescimento da alma, se incorporam a ela). De modo que eu posso até mesmo descrever o lugar onde o bendito Policarpo se sentava e discursava - sua saída também, e sua vinda em seu modo geral de vida e aparência pessoal, juntamente com os discursos que ele entregou ao povo; Também como ele falava de sua familiar relação com João, e com o resto dos que tinham visto o Senhor. E como ele chamava suas palavras à lembrança. Tudo o que ele tinha ouvido deles respeitando o Senhor, tanto em relação a Seus milagres e Seu ensino, Policarpo tendo assim recebido [a informação] das testemunhas oculares da Palavra de vida, iria contá-las todos em harmonia com as Escrituras. Essas coisas, por meio da misericórdia de Deus que estava sobre mim, eu então as escutei atentamente, e as valorizei não no papel, mas no meu coração. E continuamente, pela graça de Deus, revolvi estas coisas com precisão em minha mente. E eu posso dar testemunho diante de Deus, que se aquele abençoado e presbítero tivesse ouvido tal coisa, ele teria gritado, e teria parado seus ouvidos, exclamando como ele estava acostumado a fazer: ‘Ó bom Deus, eu que suportaria essas coisas? E ele teria fugido do mesmo lugar onde, sentado ou de pé, ele tivesse ouvido tais palavras. Este fato também pode ser deixado claro, a partir de suas Epístolas que ele despachou, tanto às Igrejas vizinhas para confirmá-las quanto a alguns dos irmãos, admoestando e exortando-os”. – Irineu de Lyon, Fragmento 2.

 

“Aqueles que se familiarizaram com as constituições secundárias dos apóstolos (ou seja, sob Cristo), estão conscientes de que o Senhor instituiu uma nova oferenda na nova aliança, de acordo com [a declaração de] Malaquias, o profeta. Pois ‘desde o nascente do sol até o lugar, o meu nome foi glorificado entre os gentios, e em todo lugar é oferecido incenso ao meu nome e puro sacrifício’. [Malaquias 1:11] Como João também declara no Apocalipse: ‘O incenso é a oração dos santos’. Então, novamente, Paulo nos exorta a ‘apresentar nossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é o seu serviço racional’. [Romanos 12:1] E outra vez: ‘Ofereçamos o sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios’. [Hebreus 13:15] Ora, as ofertas não são segundo a lei, cuja letra o Senhor tirou do meio, cancelando-a; [Colossenses 2:14] mas elas são segundo o Espírito, porque devemos adorar a Deus ‘em espírito e em verdade’. [João 4:24] E, portanto, a oferenda da Eucaristia não é carnal, mas espiritual, e neste aspecto é pura. Porque nós fazemos uma oferenda a Deus do pão e o copo da bênção, dando-Lhe graças visto que Ele ordenou à terra que produzisse estes frutos para nosso alimento. E então, quando tivermos aperfeiçoado a oferenda, invocaremos o Espírito Santo, para que Ele possa exibir este sacrifício, tanto o pão, o corpo de Cristo, como o copo, o sangue de Cristo, para que os recebedores desses modelos antitipos possam obter remissão dos pecados e receber a vida eterna. Essas pessoas, então, que realizam essas oferendas em memória do Senhor, não se encaixam com as opiniões judaicas, mas, realizando o serviço de uma maneira espiritual, eles serão chamados filhos da sabedoria”. – Irineu de Lyon, Fragmento 37.

 

“Cristo, que foi chamado Filho de Deus antes dos séculos, manifestou-se na plenitude dos tempos, a fim de nos purificar através do Seu sangue, que estava sob o poder do pecado, apresentando-nos como filhos puros ao Pai, se nos submetemos obedientemente ao castigo do Espírito. E no fim dos tempos Ele virá para acabar com todo o mal, e reconciliar todas as coisas, a fim de que possa haver o fim de todas as impurezas”. – Irineu de Lyon, Fragmento 39.

 

“Não é uma coisa fácil para uma alma, sob a influência do erro, ser persuadida da opinião contrária”. – Irineu de Lyon, Fragmento 44.

 

Bibliografia recomendada

 

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a) História da Igreja, de Eusébio de Cesareia

 

Em português: História Eclesiástica, Editora Novo Século, 1999, Eduardo de Proença (editor geral)

 

Em inglês: Ecclesiastical History, Stanford & Swords, 1850, tradução de Christian Frederick Crusé

 

b) Ante-Nicene Fathers, de Philip Schaff, editor (sobre os escritos patrísticos anteriores ao Concílio de Niceia)

 

– Volume 1 (on line) (pdf)

 

– Volume 2 (on line) (pdf)

 

– Volume 3 (on line) (pdf)

 

– Volume 4 (on line)

 

– Volume 5 (on line)

 

– Volume 6 (on line)

 

– Volume 7 (on line)

 

– Volume 8 (on line)

 

– Volume 9 (on line)

 

– Volume 10 Index (on line)

 

c) History of the Christian Church, de Philip Schaff (sobre as três fases iniciais do Cristianismo)

 

– Volume 1: Apostolic Christianity. A.D. 1-100 (on line) (pdf)

 

– Volume 2: Ante-Nicene Christianity. A.D. 100-325 (on line) (pdf)

 

– Volume 3: Nicene and Post-Nicene Christianity. A.D. 311-600 (on line) (pdf)

 

d) Demais obras editadas por Philip Schaff referentes ao período pós-Niceia

 

Para baixar em PDF (individuais ou todas compactadas em um arquivo)

 

Para ler no navegador (inclusive as obras mencionadas no item "b")

 

e) The oldest church manual called The teaching of the twelve apostles [Didache], de Philip Schaff

 

f) The Apostolic Fathers, Catholic Encyclopedia (é recomendável ler outros verbetes relacionados)

 

g) Documenta Catholica Omnia (Textos antigos em latim e grego)

 

h) Biblioteca da Arquidiocese Ortodoxa de Buenos Aires – Pais da Igreja (documentos antigos em português ou espanhol)


i) The Fathers of the Church (obras patrísticas e algumas gnósticas)

 

j) Early Christian Writings (obras patrísticas, judaicas, gnósticas e apócrifas)

 

k) Greek Documents (obras em grego do Novo Testamento, Septuaginta, apócrifos e escritos patrísticos).

 

 

 

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